Paulo Peres
Poemas & Canções
O dramaturgo, romancista e ensaísta brasileiro Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), nascido em Barra de São João (RJ), que depois da morte dele passou a ser denominada como Casimiro de Abreu, foi um intelectual brasileiro da segunda geração romântica. Sua poesia tornou-se muito popular durante décadas, devido à linguagem simples, delicada e cativante, conforme o poema “Meus Oito Anos”, que fala da saudade de sua infância. Morreu aos 21 anos, mas ficou tão famoso que se tornou patrono da cadeira nº 6 na criação da Academia Brasileira de Letras.
MEUS OITO ANOS
Casimiro de Abreu
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
– Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!
O poema “Meus oito anos”, de Casimiro de Abreu, é uma das poesias mais expressivas da literatura em língua portuguesa, cuja essência toca profundamente a emoção pela beleza e pelo sentimento nostálgico.
Vale notar, contudo, que descansar sob a sombra de bananeiras — uma planta herbácea gigante — ou de laranjais pode não parecer tão aprazível assim, já que existem outras árvores com sombras muito mais agradáveis.
É provável que o poeta tenha escolhido esses termos por exigências da métrica e da rima.
Em seu poema “Velho Tema I (ou Felicidade)”, Vicente de Carvalho fala magistralmente de uma “Árvore milagrosa que sonhamos” “Toda arreada de dourados pomos”:
Velho Tema I (ou Felicidade)
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
Perdoe-me, Senhor Paulo Peres, por ‘invadir’ esse solo sagrado.
Tendo em conta nossa realidade, estou mais para Chico do que para Casimiro.
O meu guri
==========
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando, não sei explicar
Fui assim levando e ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai é o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, cadernetaaíterço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai é o meu guri
Olha aí, é o meu guri
E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo pra ele chegar cá no alto
Essa onda de assalto está um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele naícolo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai é o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Meu guri
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que ‘tá rindo
Acho que ‘tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Ele disse que chegava lá
Olha aí
olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aaíOlha aí, é o meu guri
Olha ai
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Olha aí
Depois do Casimiro gosto do Castro Alves.
Descobriram que quem Castrô o Alves foi o machado de Assis.