
Ferreira Gullar faz reflexões sobre a vida
Paulo Peres
Poemas & Canções
O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta maranhense José Ribamar Ferreira (1930-2016), mais conhecido como Ferreira Gullar, da Academia Brasileira de Letras, faz reflexões poéticas sobre a vida e que todos buscam, mas só alguns acham, dentro e fora das cidade.
A VIDA BATE
Ferreira Gullar
Não se trata do poema e sim do homem
e sua vida
– a mentida, a ferida, a consentida
vida já ganha e já perdida e ganha
outra vez.
Não se trata do poema e sim da fome
de vida,
o sôfrego pulsar entre constelações
e embrulhos, entre engulhos.
Alguns viajam, vão
a Nova York, a Santiago
do Chile. Outros ficam
mesmo na Rua da Alfândega, detrás
de balcões e de guichês.
Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária, se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana?
Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida
que em teu olhar se apaga mal se acende?
E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
Em Caracas, no Harlem, em Nova Delhi,
sob as penas da lei,
em teu pulso,
a vida bate.
E é essa clandestina esperança
misturada ao sal do mar
que me sustenta
esta tarde
debruçado à janela de meu quarto em Ipanema
na América Latina.
Fantástico esse poema trazido por você Paulo Peres, da lavra do eterno Ferreira Gullar.
Gullar percebeu as contradições do homem na cidade. A vida batendo, alguns achando o amor, outros o achando, acabam perdendo. O poeta debruçado na janela de seu apartamento em Ipanema, se enche de esperança na vida, que ela possa melhorar para todos, aqui no Rio e em todos os lugares, principalmente em Gaza, na Cisjordânia, na Ucrânia, em Cuba, nas comunidades cariocas, enfim, aonde alguém possa ser feliz, apesar de tudo.
Coitadinho de mim! Isso sim.
Morei na pequena Olinda, perto de Nilópolis
No fim do mundo, numa meia-água de fundo
Por lá havia um rio, que por desmazelo
Ficava sujo e mal cheiroso o ano inteiro
Ah, Olinda, como posso te esquecer?
Um dia, sem dúvida, voltarei a te ver
E farei tudo sem sentir de mim pena
Pois como bacana vou morar em Ipanema!