Por uma questão de coerência, Lula tem de renunciar à candidatura nesta eleição

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Charge do Clayton (O Povo/CE)

Miguel de Almeida
O Globo

Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair Bolsonaro.

Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo, mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os 20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença perto de 1%.

PARA TODOS – E prometeu em sua primeira manifestação: “A partir de 1° de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não para só aqueles que votaram em mim — afirmou.

No passo seguinte, esqueceu suas palavras, mandando às favas a frente democrática que o levara à vitória. O povo não esquece. Ao longo do mandato Lula 3, ele jamais gozou de aprovação muito otimista; na pesquisa Quaest da semana passada, 52% dos brasileiros torciam o nariz para sua gestão.

Mesmo criando uma bolsa a cada crise de popularidade, o truque não funcionou. Não à toa, Flávio Bolsonaro está numericamente à frente dele no segundo turno.

LÍDER DESGASTADO – O problema é o desgaste do modelo de gestão. O retrato de sua incompreensão ao novo Brasil ficou demonstrado dias atrás na manifestação de motoboys e motoristas por aplicativos, contrários às propostas de regulamentação da categoria. Alguns milhares de trabalhadores pararam ruas paulistanas em protesto ao modo como o governo pretende editar legislação específica.

E não é de agora. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ameaça a categoria desde o início do governo com uma legislação considerada obsoleta — chegou a falar em sindicalização dos trabalhadores.

Marinho opera na mentalidade getulista (estrutura herdada de Mussolini) de aparelhamento de setores da sociedade. Na gênese do PT, está o movimento sindical da década de 1970.

DESAPROVAÇÃO – Os constantes e minguados índices de aprovação ao governo — hoje em 43% — significam fastio da população com Lula e seu jeito de governar, que embute um recado a quem deixou o segundo mandato com cerca de 80% de ótimo/bom: o apoio se limitava à eleição de 2022 diante da ameaça de golpe representada por Bolsonaro.

Os números podem ser lidos ainda como lembrança à promessa de um governo de frente ampla, que ficou na saudade, e à falta de êxitos na administração. Em dois exemplos: as fraudes milionárias no INSS sobre os aposentados e pensionistas e a fila no mesmo INSS (em março eram 2,8 milhões de brasileiros à espera de atendimento).

Caso renuncie, Lula já tem lugar na História brasileira. Foi o único a vencer três eleições nas urnas. Conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff, embora carregue com ela uma das piores recessões econômicas do Brasil democrático (a da pandemia, sob Bolsonaro, foi excepcional).

BOLSAS SOCIAIS – Teve ousadia em aprofundar a ideia tucana de bolsas sociais, mesmo que construídas sob iluminação populista e não estrutural, como desenharam anteriormente Vilmar Faria e Dona Ruth Cardoso nos anos de FH.

Seus dois primeiros mandatos se beneficiaram de ventos favoráveis trazidos pelas commodities. E, no atual governo, exibe números positivos na queda do desemprego e na inflação (obrigado, Galípolo), apesar do escandaloso aumento da carga tributária — até o momento em que escrevo, de 32,4%. Renunciando agora, Lula deixa o Brasil com o maior volume de impostos da América Latina. PT!

Com sua afamada biografia — sempre saudada pelo próprio —, Lula deveria retribuir ao país os ganhos obtidos em sua trajetória. Não pode ser ingrato com o povo que o elegeu por três mandatos.

DIREITA RADICAL – Erros seus e de seu partido, em mais de 14 anos no poder, resultaram na vitória de Bolsonaro em 2018 e no surgimento de uma direita radical e raivosa. Seu compromisso deveria ser não entregar o Brasil novamente à conflituosa família Bolsonaro.

Em seu partido existem nomes capazes de lhe suceder. São pessoas jovens e mais modernas, não tão afeitas ao ideário petista de desenvolvimento, obsoleto como o fio do telefone.

Mantendo-se aferrado à disputa, ele deveria ter em mente o que ocorreu com o grande Winston Churchill. Depois de comandar o Reino Unido na vitória contra os nazistas, viu-se mandado para casa na primeira eleição depois do final da Segunda Guerra. Os britânicos reconheciam seu valor, mas queriam renovação após tantos anos.

8 thoughts on “Por uma questão de coerência, Lula tem de renunciar à candidatura nesta eleição”

  1. Coisa que não perco tempo é com a biografia desse cara e muitos outros. O tempo é tão precioso que perder tempo vendo a vida desses caras é jogar um tempo de sua vida no lixo.

  2. Tautologias:

    Lula-Dilma Geraram Bolsonaros?

    Bolsonaro Ressuscitou Lula?

    Lula, tanto fez, desfez, refez, não fez, desfaçatez que Trouxe de Volta os Bolsonaros, desde as catacumbas, das profundezas do inferno, do Centro da Terra, retornados de Quíron, dos confins da Galáxia, dos Buracos Negros mais temidos do Universo, dos demais Universos (dos quais Ciro tanto falou) como resquícios loucos e travestidos?

  3. Com a pesquisa numericamente inferior ao Flavio, numericamente inferior também foram as votações do Messias dele e do veto.
    Somando e conjugando todos os fatores numericamente entre pesquisas e votos ‘nosso’ Winston Churchill merece se descandidatar assim como foi descondenado jogar a gazua fora, fazer meia volta para a retaguarda, muntar no porco ou picar a mula e cair no capinado.
    Deve fazer igual aquele baiano citado pelos Mamonas Assassinas que veio pra Sunpaulo muntado num jumento correndo que nem o vento e dando peido fedorento que até na bunda fez um calo.

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