Charge do Cícero (Correio Braziliense)
Pedro do Coutto
A economia brasileira começa a desenhar um cenário preocupante para 2027. As revisões das projeções de bancos e instituições financeiras apontam para uma combinação particularmente desfavorável: inflação resistente, juros elevados e crescimento econômico cada vez menor. Mais do que uma divergência de expectativas entre analistas, os números revelam o estreitamento da margem de manobra da política econômica e antecipam um desafio importante para o próximo período presidencial.
Reportagem de *O Globo*, publicada neste sábado, mostra que instituições financeiras estão revendo para baixo suas estimativas de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), ao mesmo tempo que elevam as previsões para a inflação. O Bradesco, por exemplo, passou a estimar crescimento de apenas 0,4% em 2027 e inflação de 5,3%.
CONTRASTE – A XP trabalha com expansão de 0,3% e inflação de 5,5%. O Itaú e o BTG Pactual também reduziram suas estimativas de crescimento, para 0,5% e 0,6%, respectivamente. São números que contrastam com a projeção de 2,46% utilizada pelo governo na elaboração do orçamento do próximo ano. A dimensão dessa diferença merece atenção: caso as estimativas dos bancos se confirmem, o país poderá atravessar um período de atividade praticamente estagnado.
O alerta não se limita às instituições financeiras brasileiras. O Fundo Monetário Internacional já havia reduzido, em outubro, sua previsão de crescimento do PIB nacional em 2027, de 2,2% para 1,9%, apontando os juros restritivos, a retirada de estímulos fiscais e as incertezas internacionais como fatores de desaceleração. Embora a estimativa do FMI permaneça acima das projeções mais recentes dos bancos, a direção é semelhante: a economia deverá enfrentar dificuldades para sustentar o ritmo de expansão.
A questão dos juros está no centro desse quadro. Com a taxa Selic mantida em 13,75% ao ano, o Banco Central procura conter as pressões inflacionárias e evitar que a alta dos preços se prolongue. O mecanismo, entretanto, tem um custo conhecido. Crédito mais caro reduz a capacidade de consumo das famílias, dificulta o financiamento das empresas e desestimula investimentos. Quando esse aperto se prolonga, a política monetária deixa de representar apenas um instrumento de estabilização dos preços e passa a exercer uma pressão adicional sobre a atividade produtiva.
PREOCUPAÇÃO – É justamente essa combinação que preocupa os economistas. A inflação projetada pelo Bradesco em 5,3% para 2027 indica que, na avaliação da instituição, as pressões sobre os preços continuarão relevantes. A desvalorização cambial, os custos de financiamento e as incertezas sobre a condução das contas públicas podem contribuir para manter as expectativas inflacionárias elevadas. O mercado, no entanto, não é homogéneo: o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central em 3 de novembro apontava inflação de 4,76% e crescimento de 1,2% para 2027. A diferença entre essas estimativas mostra que ainda existe incerteza considerável sobre a dimensão do problema.
O impacto ultrapassa os indicadores financeiros. Uma economia que cresce pouco tende a gerar menos oportunidades de emprego, limita a expansão da renda e reduz a capacidade de consumo. Também compromete a arrecadação tributária, justamente quando o Estado precisa conciliar despesas obrigatórias, compromissos sociais e responsabilidade fiscal. Segundo levantamento divulgado pela Reuters, o Tesouro Nacional calcula que cada ponto percentual de crescimento abaixo do previsto pode representar uma perda de R$ 16,6 bilhões na receita federal. Trata-se de uma variável que torna ainda mais difícil equilibrar as contas públicas num ambiente de expansão reduzida.
É nesse ponto que a discussão econômica ganha dimensão política. O próximo governo terá de administrar expectativas de mercado, preservar a capacidade de investimento do Estado e responder às demandas sociais sem alimentar desequilíbrios que possam pressionar ainda mais os preços e os juros. Não se trata de aceitar automaticamente todas as avaliações do mercado financeiro, cujas projeções também estão sujeitas a revisões e interesses, mas de reconhecer que a deterioração das expectativas produz consequências concretas sobre o custo do crédito, o câmbio e as decisões de investimento.
DESAFIO – A política fiscal terá, portanto, importância decisiva. A previsibilidade das contas públicas, a qualidade dos gastos e a capacidade de apresentar um programa econômico consistente serão elementos fundamentais para reduzir incertezas. Isso não significa que o ajuste deva recair exclusivamente sobre despesas sociais ou investimentos públicos. Pelo contrário, uma estratégia que comprometa a proteção social e a capacidade produtiva poderá aprofundar as dificuldades que pretende resolver. O desafio está em compatibilizar sustentabilidade fiscal, crescimento e distribuição de renda.
Também seria precipitado atribuir todo o quadro à orientação do governo ou exclusivamente às decisões do Banco Central. A economia brasileira está exposta a fatores externos, oscilações cambiais, preços internacionais de energia e alimentos e limitações estruturais de produtividade. A condução doméstica, porém, pode ampliar ou atenuar esses efeitos, sobretudo pela forma como articula política monetária, política fiscal e investimento.
JUROS ELEVADOS – O que está em jogo em 2027 não é apenas a possibilidade de o PIB crescer menos do que o esperado. É a capacidade de o país evitar que juros persistentemente elevados, inflação resistente e baixo dinamismo se reforcem mutuamente. Se esse movimento se consolidar, o custo será sentido muito além do mercado financeiro, chegando ao emprego, à renda, ao consumo e às condições de vida da população.
O Brasil precisará demonstrar que consegue controlar a inflação sem condenar a economia à estagnação e manter compromissos sociais sem comprometer a estabilidade das contas públicas. Essa será uma das principais provas de condução econômica do próximo período presidencial.
É o risco da estagflação (baixo crescimento econômico combinado com inflação alta).
A administração pública no Brasil não é incompetente, ela não apenas existe com tal
O Brasil registra um período prolongado de baixo crescimento econômico há cerca de quatro décadas, tendo início após o encerramento do chamado “milagre econômico” da ditadura militar na década de 1970.
A administração pública no Brasil não é incompetente, ela apenas não existe como tal.
Bukele, em:
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