Raul Rabelo diz que disputa pela opinião pública continua
Jeniffer Gularte
Marco Grillo
O Globo
À frente da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o publicitário Raul Rabelo defende que a experiência vitoriosa leve o governo a uma comunicação mais próxima da população no quarto mandato. Com a oposição em mobilização constante, avalia o marqueteiro, Lula e seus aliados não podem “recomeçar” o processo a cada quatro anos.
A campanha de Lula foi criticada por aliados no primeiro turno por tratar mais do legado e menos do futuro. Houve erro na condução?
Não vejo como um erro. A campanha à reeleição tem que prestar contas do mandato. O legado é parte fundamental para se apontar ao futuro. O primeiro turno foi capturado pela crise do Banco Master. Isso gerou uma desmobilização, e muita gente que ia votar no Lula achou que não precisava ir. Então acendeu a luz vermelha (no primeiro turno, com Flávio Bolsonaro à frente).
Como essa “luz vermelha” foi trabalhada para a guinada na comunicação ?
Tudo fica mais claro no segundo turno. É uma partida de mata-mata. As pessoas começam a olhar para os dois lados e a entender o que cada um representa. A comunicação consegue se tornar mais efetiva na hora de comparar projetos, biografias… O que estava em jogo eram os riscos a partir de uma possível volta do bolsonarismo e o que Lula representa.
Outra crítica feita pelo entorno de Lula é que no primeiro turno houve falhas na coordenação política, o que afetou a comunicação. Faltou comando?
Meu comandante sempre foi o presidente Lula. Tudo era submetido a ele. E Edinho (Silva, presidente do PT) era coordenador. No segundo turno, chegaram novas forças, como Camilo Santana (senador), Rafael Fonteles (governador do Piauí) e Rui Costa (senador eleito). O que precisou ser revisto e repensado foi rapidamente ajustado.
O que teve que mudar?
O susto (com Flávio à frente de Lula) trouxe uma mobilização com mais força. Foi natural que a gente reagisse com energia. No primeiro programa de TV do segundo turno, trouxemos aquela molecada que estourou de voto, como a Camila Jara (PT-MS), Ana Elisa (PT-MG), Guilherme Cortez (PSOL-SP). Essa juventude começou a levar a campanha à frente. Houve também o movimento dos estudantes. Tudo isso acendeu a fagulha.
Foi uma vitória do “sim” ao Lula ou do “não” ao Flávio?
Foi um “sim” ao Lula. Mas é claro que do outro lado há uma rejeição. É um modelo oposto a tudo que o Lula representa.
Essa rejeição impulsionou a “estratégia do medo” no 2º turno. Houve demora para colocar esse plano em prática?
Havia mais interesse do eleitor na campanha na reta final. O que mudou do primeiro para o segundo turno foi mais o ambiente do que a linha que estávamos seguindo. Mas foi natural pesar mais a mão na parte propositiva e nos comparativos entre um governo e outro (de Jair Bolsonaro). O contraste não é feito só de ataques ao adversário, mas com confronto de ideias e projetos.
Subestimaram a capacidade eleitoral de Flávio Bolsonaro?
O adversário não foi só Flávio Bolsonaro. Era a tentativa de criar um antiLula. Não foi tentativa de subestimar, mas de enfrentar quem estava no jogo. Claro que, com o legado deixado pelo pai, o processo de comparação fica mais fácil. Se fosse um outro candidato, talvez fosse outra conversa.
O ministro Sidônio Palmeira já participava da campanha, mas se licenciou do governo só no segundo turno para se dedicar integralmente. Essa demora foi um erro?
Não. Sidônio tinha uma missão para além do processo eleitoral. O governo tinha muito serviço para mostrar.
Quem também chegou no segundo turno foi o marqueteiro Otávio Antunes, que teve atritos com Sidônio. Quais eram as divergências?
Os questionamentos que podem ter existido sempre foram resolvidos pela coordenação, que tinha um alinhamento muito claro conosco. A política está sempre acima da comunicação. Toda ajuda foi bem-vinda.
A ex-senadora Kátia Abreu afirmou que a campanha deveria ter “menos Janja e mais Alckmin”. A primeira-dama passou a aparecer menos no segundo turno. Foi um pedido da campanha?
Não teve orientação. Toda campanha tem diferentes momentos. O presidente é casado, Janja é uma mulher que tem participação política, então você apresenta o candidato e a sua companheira. Mas Lula é o protagonista do processo. Janja ajudou muito o Rafael Fonteles a convencer o presidente a fazer os vídeos em formato de selfie no segundo turno.
A campanha foi atrás do deputado André Janones ou ele se ofereceu para participar?
Ele deu uma grande contribuição. Temos contato com todo mundo. Na hora em que ele começou a montar o “Exército do Lula” no WhatsApp, conversamos e fizemos a conexão com a equipe do digital para dominar o canal junto com ele. Estávamos todos alinhados no discurso e produzimos a live (da véspera do segundo turno). O canal foi muito importante para manter o pessoal mobilizado até a última hora. A extrema direita sempre faz isso nas eleições, mantendo o nível de mobilização. A gente aprendeu e manteve a ebulição até o último momento.
Vocês controlavam as mensagens que o Janones mandava no WhatsApp?
Ele tinha autonomia. Criou o “Exército” e colocou à disposição do presidente. Combinamos com ele muitas vezes: “Vamos falar das perdas que o povo brasileiro pode ter” (em caso de vitória de Flávio). Havia linhas estratégicas.
O TSE chegou a tirar do ar links difundidos por ele no canal por conterem informações falsas. Esse tipo de conteúdo tinha o aval da campanha?
Nunca trabalhamos com desinformação. Sempre tinha alguma comprovação por trás, como reportagens. O compromisso com a verdade é decisivo para o processo eleitoral. Se teve, em algum momento, alguma coisa que saiu, não foi por intenção de fazer fake news. Pode ter sido um erro.
Como o “Exército do Lula” será usado daqui para frente?
Toda campanha deixa um aprendizado. A extrema direita fica em campanha constante. E o governo precisa estar sempre presente, ser percebido pela população e estar cada vez mais perto. Quanto mais a comunicação chega às disputas, mais o povo tem um interesse sobre as pautas. Fortalece a democracia. O governo tem como botar para frente uma comunicação ainda mais próxima do povo.
O tom do segundo turno é o que deve ser adotado pelo governo?
Essa temperatura alta é muito desgastante. Não dá para aguentar essa pressão toda. Mas o governo precisa disputar as pautas. A desinformação é o que mais atrapalha. Regular as redes sociais é um processo importante para qualquer democracia. Muitas vezes, o governo faz uma coisa positiva, mas chega na ponta como se fosse negativa. As pessoas precisam ser informadas sobre as intenções e as políticas públicas. Agora, o engajamento é diferente do eleitoral, então o desafio é complexo.
Que mudanças devem ocorrer?
É sempre salutar ampliar a comunicação com a população. Não dá para chegar de quatro em quatro anos e recomeçar todo o processo. A experiência da campanha serve para que o campo progressista possa ter uma comunicação mais perene e constante. O povo deve participar mais.
Lula anunciou medidas como aumento do Bolsa Família e restrição às bets, e o Congresso aprovou o fim da escala 6×1. Qual teve mais impacto?
Não tem bala de prata. É um conjunto. No final das contas, tudo deu uma ideia de um projeto de país que a maioria da população entendeu como melhor que o outro.
Sidônio vai ficar na Secom?
Não tenho a menor ideia. A meu ver, ele completou um ciclo importante.
E o senhor vai para o governo?
Não tenho perfil. Não passa pela minha cabeça.
Porque mataram Gadaffi?
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O então Presidente da Líbia Muammar Kaddafi , foi assassinado pelos EUA , OTAN por ousar propor e ser aceito a substituição do uso do dólar norte-americano , por uma moeda própria lastreada no ouro , pelos países do norte da África , em suas transações comerciais e mercantis , sendo que a Líbia era o país mais desenvolvido socialmente , que todos os países da África e parte dos países do Oriente Médio , e agora a Líbia esta totalmente em frangalhos e destruída EUA , OTAN , com o agravante de que suas riquezas minerais estão sendo saqueadas pelos EUA e OTAN .
O mesmo grupo “Máfia Khazariana”, age com seu agente, contra o Brasil e a América do Sul!
A defesa da democracia exige governos capazes de resolver problemas reais, e incompetência também a ameaça
A inépcia administrativa corrói a confiança nas instituições e dá força aos que prometem governar sem limites
A impaciência dos eleitores com quem governa tem atravessado fronteiras e rótulos ideológicos. Os conservadores britânicos e os democratas americanos perderam o poder em 2024, a esquerda chilena foi derrotada em 2025 e, este ano, Viktor Orbán foi derrotado na Hungria após 16 anos de governo.
Lula só se reelegeu porque disputou com um Bolsonaro, ainda mais rejeitado do que ele. As causas variam, mas há uma cobrança que os defensores da democracia precisam levar a sério: a legitimidade conquistada nas urnas não dispensa a obrigação de governar bem.
Punir governantes nas urnas pode demonstrar a vitalidade do regime. O risco surge quando a frustração passa a atingir a própria crença na democracia.
No Brasil, o Pew Research Center registrou 59% de insatisfação com o funcionamento do regime em pesquisa divulgada em setembro.
O Datafolha, em outubro, encontrou 73% de preferência pela democracia. São perguntas distintas: pode-se defender o regime e reprovar seus resultados. Seria temerário supor que essa lealdade seja inesgotável.
Em artigo publicado no Journal of Democracy em abril do ano passado, os cientistas políticos Francis Fukuyama, Chris Dann e Beatriz Magaloni examinaram pesquisas com cerca de 650 mil entrevistados e encontraram associação entre crescimento econômico e satisfação com a democracia.
Os autores defendem combinar resultados e controle do poder. Sua advertência merece atenção, sem ser convertida em explicação universal. A correlação não demonstra que o mau desempenho produza necessariamente autoritarismo. Líderes e elites também escolhem subverter as regras.
A Índia e a Polônia sofreram erosão democrática em períodos de bom desempenho econômico. Tampouco a prosperidade de algumas autocracias constitui prova de superioridade do arbítrio. O mérito da democracia inclui a possibilidade de corrigir erros, substituir governantes e contestar decisões.
Essa vantagem perde vigor quando a alternância apenas renova as desculpas para os mesmos fracassos.
No Brasil, o problema não se esgota na escassez de recursos.
Projetos mal elaborados, loteamento de cargos, descontinuidade administrativa e fiscalização concentrada em formalidades ajudam a converter dinheiro público em promessas vencidas.
A multiplicação de instâncias de aprovação pode diluir responsabilidades sem impedir corrupção ou desperdício.
A ineficiência também alimenta o clientelismo: quanto mais incerto é o acesso a um direito, maior o valor do padrinho que promete garanti-lo. O fracasso administrativo produz dependência política.
Profissionalizar a gestão, selecionar dirigentes capazes, avaliar políticas e preservar projetos úteis entre mandatos são tarefas de defesa democrática. Também é preciso distinguir controle efetivo de ritual burocrático.
Licenciamento, fiscalização e participação devem proteger direitos, com critérios públicos, prazos e decisões fundamentadas. Suprimir garantias para acelerar obras seria um retrocesso. Acumular exigências sem demonstrar que elas previnem danos tampouco constitui virtude republicana.
Cabe ao Estado decidir, executar e responder pelo que faz.
A cobrança alcança especialmente os governantes que se apresentam como baluartes da democracia. A credencial não lhes confere indulgência administrativa nem transforma a crítica à gestão em cumplicidade com o golpismo.
Quem reivindica ter salvado o regime poderia prestar-lhe o serviço adicional de governar bem. Isso exige enfrentar interesses da própria coalizão, rever despesas ineficazes e aceitar avaliações que contrariem a propaganda.
Governar para obter aplausos a cada anúncio é uma maneira dispendiosa de adiar o futuro.
Demagogos prosperam quando conseguem atribuir às liberdades e aos controles a culpa por fracassos que resultam de escolhas, omissões e incompetência.
Cabe aos democratas demonstrar, na experiência cotidiana, que a fiscalização melhora o governo e que os direitos ampliam as possibilidades de viver melhor.
Um governante pode ser afastado pelo voto. Mais difícil é reparar a convicção de que nenhum governo será capaz de funcionar. Em outras palavras, a democracia não pode exigir do cidadão uma fé que seus governantes se recusam a justificar.
O Estado de S. Paulo, Opinião, 08/11/2026 | 03h02 Por Editorial
Mas, bah!