Moraes poderia ter esperado um pouco, mas ele também não mede suas ações

Governo vê ato como 'ingerência' e avalia chamar embaixadora em protesto

Moraes e Trump não têm paciência e estão se atropelando

Merval Pereira
O Globo

Nós aqui quebrando a cabeça, tentando entender o que provocou a ira trumpista contra o Brasil, buscando um pouco de bom-senso nas decisões estapafúrdias tomadas, e tudo pode se resumir a uma questão pessoal.

O BRICS certamente irrita Trump, volta e meia ele bate nessa tecla, especialmente na questão da moeda que substituiria o dólar no comércio internacional. Mas Trump sabe também que o BRICS não é uma ameaça iminente, se é que será ameaça algum dia. Há as big techs, que não querem se responsabilizar pelo que transmitem. Essas são influentes no círculo trumpista e têm poder de fogo. Se equivocam, porém, se consideram que o Brasil não tem força política para regulamentá-las.

EM DÉFICIT – O comércio internacional não pode ser, pois ainda estamos em déficit com os Estados Unidos. Há quem ainda acredite que Bush filho só invadiu o Iraque para vingar o pai, que anos antes havia entrado em guerra com aquele país para defender o Kuwait de uma invasão. Pois Freud está novamente em campo, desta vez influenciando Trump a defender seu avatar brasileiro, como se defendesse a si próprio.

A confusão entre Bolsonaro, Trump e o Brasil piorou e está longe de terminar. É uma mistura de decisões políticas com pessoais, difíceis de negociar. Muitos fatores estão envolvidos, mas nada de concreto além da tentativa de criar um ambiente que propicie uma rendição do governo brasileiro.

Trump está cada vez mais apostando na liberação do ex-presidente Bolsonaro, e fez questão de demonstrar seu apreço ao mandar-lhe uma carta pessoal, enquanto não responde à carta institucional que o governo brasileiro enviou através do Itamaraty.

REAÇÃO DE MORAES – Está claro que as restrições do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes impostas a Bolsonaro vieram em resposta a esta tentativa de Trump de pressionar o STF, especialmente o próprio Moraes e demais ministros.

Acredito que Moraes poderia ter esperado um pouco, mas ele também não mede as reações. Tomar esta decisão em cima da carta de Trump para Bolsonaro deixa muito evidente que ele está participando desta disputa com o presidente americano. E se sentindo perseguido, dobra a aposta.

A tornozeleira era previsível, porque há muito tempo Bolsonaro deveria estar sendo acompanhado. Todas as razões alegadas para as medidas restritivas ao ex-presidente brasileiro existem há muito tempo.

PRISÃO PREVENTIVA – Poderia até mesmo ser decretada uma prisão preventiva. Que pode sair a qualquer momento, dependendo do que acharem no tal pendrive descoberto no banheiro da casa dos Bolsonaro. Ou do desenrolar do episódio, pois os bolsonaristas garantem que outras medidas virão, além da proibição de 8 ministros do STF de viajar para os Estados Unidos.

 Ainda teremos Paris, lembrou sarcasticamente um deles (Barroso?), repetindo a famosa frase de Humphrey Bogart no filme Casablanca.

Eduardo Bolsonaro e seus cupinchas estão em uma atuação internacional que prejudica o país. E não se pode deixar que Bolsonaro fuja de suas responsabilidades na tentativa de golpe, e se torne um exilado político vitimizado. Vejo o futuro imediato com muita preocupação.

BRIGAS PESSOAIS – O problema deixou de ser econômico; é muito mais pessoal, uma tentativa de interferência no sistema jurídico brasileiro que não tem o menor sentido. Seria importante começar a pensar em como dirigir nosso comércio para outros países, e fechar o acordo com a Europa. Freud pode explicar essa obsessão de Trump por Bolsonaro.

Por falha da Justiça americana, Trump escapou da cadeia por ter sido eleito presidente da República. Vê em Bolsonaro sua cópia prestes a ser preso pelo mesmo crime: tentativa de golpe para impedir que o vencedor das eleições assumisse a presidência da República.

Brasil ficou sozinho no mundo, nenhum país aceita apoiar Lula contra Trump

Jornal - #charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio. #lula #trump #eua #usa #mundo #tarifas #economia #brasil #chargejc #chargejornaldocommercio #chargethiagojc #chargethiagolucas #chargethiagolucasjc | Facebook

Charge de Thiago Lucas (|Jornal do Commercio)

Carlos Newton

É uma situação jamais vista. Embora já esteja com a data de validade vencida, como o mais idoso governante de país tido como democrático, que realiza eleições consideradas livres, o presidente Lula continua empenhado em se reeleger no próximo ano e quer aproveitar a disputa com Donald Trump para conseguir votos. Só pensa nisso, tudo o que faz é motivado por essa obsessão, que a própria mulher incentiva.

Nesta segunda-feira, em Santiago do Chile, Lula faz mais uma tentativa de buscar que algum país apoie o Brasil nessa iniciativa, mas nenhum governante lhe estende a mão.

RESPOSTA CONJUNTA – Lula sonha (?) em  usar essa pequena reunião no Chile para articular uma resposta conjunta de governos democráticos contra os avanços da extrema direita. O presidente chileno, Gabriel Boric, será o anfitrião na reunião, que ainda contará com o uruguaio Yamandú Orsi, o colombiano Gustavo Petro e o espanhol Pedro Sánchez, além de Lula.

Segundo o excelente repórter Jamil Chade, do UOL, a iniciativa não tocará no nome de Donald Trump.  Mas é claro que Lula dará um jeito de fazê-lo. Mas não haverá o resultado pretendido.

Nenhum país pretende apoiar o Brasil nesta trapalhada. Lula tenta convencê-los de que o motivo são as tarifas, mas todos sabem que a perseguição movida pelo Supremo à extrema direita brasileira acabou atingindo as big techs americanas, com ordens nada democráticas, multas e aplicação de censura prévia por ordens do STF. E Trump está apenas revidando.

MÍDIA APOIA LULA – Em busca das verbas publicitárias, a quase falida grande mídia apoia Lula incondicionalmente. Depois de publicar candentes editoriais apontando as falhas grotescas do Supremo, a grande imprensa mudou de lado, agora tudo é defesa da soberania, o nacionalismo não é mais o último refúgio do canalha, deixem em paz o grande pensador inglês Samuel Jonhson.

Lula posa de grande herói nacional, o único a enfrentar Trump, como se o presidente americano não tivesse o dever de lutar em defesa dos interesses dos Estados Unidos. Aliás, esse direito de Trump aumentar ou diminuir tarifas é reconhecido internacionalmente, nenhum país o contesta.

Entre os países da ONU que mantêm relações comerciais com os Estados Unidos e realmente têm alguma importância, apenas o Brasil não conseguiu renegociar as novas tarifas fixadas. China, Vietnã e Rússia se apressaram em negociar.

P.S. – Em tradução simultânea, Lula está completamente perdido. Depois de uma semana inteira de euforia, em que usou o nacionalismo piegas para ganhar apoio a um governo que inexiste, Lula enfim percebe que caiu numa armadilha. Quanto aos ministros do Supremo, passaram um fim de semana de tristeza. Deixaram Moraes descumprir leis importantíssimas, de âmbito internacional, e agora têm de aturar a humilhação. (C.N.)

“Supremacia cristã” — um livro devassa o antissemitismo e o racismo contra negros

Supremacia cristã - 19/07/2025 - Hélio Schwartsman - Folha

Ilustração de Annette Schwartsman – Folha

Hélio Schwartsman
Folha

“Christian Supremacy”, de Magda Teter, é uma obra de fôlego que mostra as origens comuns do antissemitismo e do racismo contra negros. O pecado original é a religião. Os primeiros cristãos queriam ao mesmo tempo uma religião que fosse nova, podendo expandir-se sem embaraços, e que gozasse da respeitabilidade de uma tradição mais longa.

A solução foi inscrever o cristianismo no judaísmo. O novo credo já estaria previsto nas profecias de uma fé bem mais antiga e teria vindo para substituir a antiga aliança por uma nova (supersessionismo).

TEOLOGIA PRODUZIDA – Rapidamente, pensadores cristãos, de Paulo, um judeu, a Lutero, passando por santo Agostinho e muitos outros, se puseram a produzir uma teologia de acordo com essa ideia. O irmão mais velho, o judaísmo, deveria submeter-se ao mais novo, o cristianismo, a exemplo de Ismael e Isaac e de Esaú e Jacó.

Essa discriminação religiosa logo se estendeu para o campo das leis e da cultura e depois “vazaria” para a questão racial.

Quando veio o comércio transatlântico e se tornou necessário justificar a escravização de negros, o caminho já estava pronto. As escrituras ofereceriam pretextos teológicos, como a maldição de Cam, que criavam uma hierarquia racial bíblica, a qual, por sua vez, autorizava diferenças no tratamento jurídico entre brancos e negros. Daí brotou a cultura de inferiorização dos negros, que perdura até hoje.

MUITOS EXEMPLOS – Teter mostra esses movimentos todos com razoável nível de detalhe. Relata também os percalços de judeus e negros para conquistar a igualdade formal de direitos. O texto traz muitas histórias, desde as mais conhecidas, como o caso Dreyfus ou dessegregação racial das escolas nos EUA, até outras menos, como o antissemitismo de resorts, pelo qual hotéis de luxo se recusavam a hospedar clientelas indesejáveis.

Uma das expressões-código então utilizadas na publicidade era “exclusivo”, que lembra muito os anúncios de emprego brasileiros que estampavam entre os requisitos “boa aparência”, a senha para que negros não se candidatassem.

Admiro os escritores que resistiram a escrever o livro que tinham dentro de si

As análises do ensaísta João Pereira Coutinho - Panorama Mercantil

João Pereira Coutinho descreve suas reflexões

João Pereira Coutinho
Folha

O verão corre na Europa e a imprensa se inunda de “Questionários Proust”, aquelas perguntas levemente pessoais, levemente filosóficas, que faziam sucesso nos salões parisienses do século 19. Até Marcel Proust, que batizou o gênero, se submeteu a eles, quebrando sua timidez habitual.

Já não temos Proust. Temos apenas um número infindo de “pessoas do bem” que aproveitam o momento para abrir as suas gabardines e exporem aos outros o tamanho da sua virtude.

Confrontado com a epidemia de questionários e usando o da revista Vanity Fair como modelo, vou escrevendo à mão sobre as respostas das celebridades e “influencers”, as minhas meditações instantâneas. Convido o leitor a fazer o mesmo e a partilhar o resultado. Como diria o médico lusitano Egas Moniz, o inventor da lobotomia: “Conhece-te a ti mesmo”.

PERGUNTAS DE SEMPRE – “Qual é a sua ideia de felicidade perfeita?” “Um dia de verão com meus inimigos e eles saltando da prancha para uma piscina vazia.”

“Qual é a sua viagem favorita?” “Aqueles dez metros entre o sofá e a geladeira.”

“O que você menos gosta na sua aparência?” “Minhas semelhanças físicas com o ator Pedro Pascal. Já cansa.”

“Qual ou quem é o grande amor da sua vida?” “Minha antiga professora Sylvia Kristel, com quem aprendi francês e biologia.”

“Qual é a sua posse mais preciosa?” “Um pelo pubiano da rainha Vitória —em homenagem ao cineasta João César Monteiro.”

PAGAR A CONTA – “Qual é a sua característica mais marcante?” “Conceder sempre aos outros o prazer de pagarem a conta para mim.”

“Com qual figura histórica você mais se identifica?” “Pepino, o Breve, Luís, o Gago, e Carlos, o Calvo —reis franceses que sobreviveram a suas alcunhas.”

“Se você morresse e voltasse como uma pessoa ou coisa, o que acha que seria?” “Um mosquito invisível pairando sobre as noites de Roger Waters.”

“Qual é o seu maior medo?” “Chegar ao inferno e encontrar todos os leitores que não entenderam as ironias. E explicar tudo de novo durante a eternidade.”

“O que você considera o fundo do poço da miséria?” “Colonoscopia sem sedação.”

ÁGUA EM VINHO – “Qual é o traço que você mais deplora em si mesmo?” “Não ter a capacidade de transformar a água em vinho.”

“Qual é o traço que mais deplora nos outros?” “As boas intenções.”

“Qual virtude você considera mais superestimada?” “A autenticidade. Prefiro aquela artificialidade que esconde os defeitos.”

“Em que ocasião você mente?” “Quando me enviam textos ou poemas e pedem muito uma opinião sincera a respeito.”

“O que você mais valoriza nos seus amigos?” “O fato de nem todos serem imaginários.”

DESPREZOS AMPLOS – “Qual pessoa viva você mais despreza?” “Nenhuma em particular. Meus desprezos são amplos e democraticamente distribuídos.”

“Quais palavras ou expressões você mais usa?” “‘A situação é catastrófica, mas não séria’ —em homenagem aos Habsburgos. Também abuso de ‘está quase pronto’, ‘não me esqueci de você’ e ‘juro pelos seus filhos’.”

“Qual é o seu maior arrependimento?” “Ter seguido muitas vezes os conselhos dos mais sábios.”

“Quando e onde você foi mais feliz?” “No útero, sem boletos.”

OUTRAS REFLEXÕES – “Qual é o seu estado de espírito atual?” “Aéreo como sempre. E sem paraquedas.”

“O que você mais detesta?” “Diarreia digital. Receber uma mensagem que vem às prestações.”

“O que você considera sua maior realização?” “Ter percebido muito jovem que Clark Kent e Super-Homem eram a mesma pessoa, separados apenas por uns óculos.”

“Se pudesse escolher como voltar, o que você gostaria de ser?” “Com as novas ameaças nucleares, talvez uma barata.”

RESISTIR À TENTAÇÃO – “Quem são seus escritores favoritos?” “Todos os que resistiram à tentação de escrever o livro que tinham dentro de si.”

“Como você gostaria de morrer?” “Minha intenção é ser imortal. Mas, se tivesse de escolher, que fosse assistindo a um filme genial de Oliver Stone —o que, de tão improvável, dá no mesmo.”

“Quais são os seus nomes preferidos?” “Nomes portugueses arcaicos e injustamente esquecidos: Hermengarda, Eurico, Ordonho, Teodomiro. Nomes brasileiros modernos como Aricléia, Elvisley ou Gêngis Khan.”

Trump age como Rússia e China ao atacar uma premissa fundamental do liberalismo

How Donald Trump's criminal charges are defining his White House race

Trump não quer nem saber das teorias do liberalismo

Carlos Gustavo Poggio
Estadão

“Mas eles não são capitalistas?” Essa teria sido a reação, em tom de estupefação, de oficiais soviéticos ao saber que o governo Reagan havia decidido proibir a exportação de componentes norte-americanos para um gasoduto que abasteceria a Europa com gás soviético, no início dos anos 1980.

Para os soviéticos, tratava-se de um projeto eminentemente econômico. Esperavam, portanto, que os americanos agissem como capitalistas: vendendo produtos, maximizando lucros, e deixando a ideologia para os políticos. A decisão de Reagan, no entanto, foi deliberadamente política. Seu objetivo era enfraquecer a União Soviética, bloqueando sua diplomacia energética e limitando seu acesso a divisas.

FISSURA IMPORTANTE – Esse episódio revelou uma fissura importante no pensamento liberal. Durante décadas, prevaleceu no Ocidente a ideia de que política e economia deveriam operar em esferas distintas. Os políticos que cuidassem da diplomacia e das guerras. Os empresários que cuidassem dos lucros.

O comércio, idealmente, seguiria suas próprias regras – técnicas, neutras, universais. A realidade, evidentemente, sempre foi mais ambígua, mas via de regra era essa a expectativa que se tinha dos Estados Unidos.

Países como China e Rússia, por exemplo, nunca aderiram de fato à lógica liberal de separar Estado e mercado. Para essas potências, comércio é ferramenta de poder. Pequim já deixou claro diversas vezes que decisões políticas têm consequências econômicas.

REAÇÕES DA CHINA -Em 2010, após o Comitê do Nobel da Noruega conceder o Prêmio da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, o governo chinês suspendeu negociações comerciais e bloqueou a importação de salmão norueguês.

Em 2021, quando a Lituânia estreitou laços diplomáticos com Taiwan, a resposta chinesa foi rápida: importações interrompidas, empresas pressionadas, e sanções aplicadas de forma informal. A mensagem era clara: quem desafia a China politicamente, paga economicamente.

A Rússia sempre seguiu lógica semelhante, especialmente no uso da energia como instrumento de coerção. Durante anos, manipulou os preços do gás natural e seus contratos de fornecimento para recompensar aliados e punir países que buscavam aproximação com a União Europeia ou a Otan. O comércio, nesses casos, nunca foi apenas comércio: era política por outros meios.

AGORA, TRUMP – A novidade é que os Estados Unidos passaram a agir de maneira parecida. Donald Trump transformou o uso de tarifas em um instrumento sistemático de pressão externa. Suas medidas deixaram de ter como foco exclusivo déficits comerciais ou práticas desleais e passaram a responder também a divergências políticas e ideológicas.

A ameaça recente de impor tarifas generalizadas ao Brasil, país com o qual os EUA mantêm um superavit comercial, reforça esse padrão. A mensagem é menos sobre regras comerciais e mais sobre alinhamento político. Não se trata mais de defender o mercado interno, mas de redefinir o papel do comércio na política externa norte-americana.

Essa mudança carrega implicações profundas. Ao usar tarifas como forma de coerção política, os EUA se afastam do modelo que ajudaram a criar no pós-guerra, baseado em regras estáveis, instituições multilaterais e confiança mútua.

CAMPO DE DISPUTA – O comércio, que deveria ser terreno de cooperação e previsibilidade, torna-se campo de disputa e intimidação. A lógica liberal, segundo a qual o mercado deve operar com relativa autonomia frente ao poder político, dá lugar a uma visão transacional, na qual tudo é moeda de troca.

A adoção dessa postura pelos Estados Unidos marca um ponto de inflexão. O país que por décadas promoveu a abertura econômica, agora se aproxima das práticas adotadas por potências autoritárias. Resta saber se essa convergência é uma adaptação necessária às novas condições do sistema internacional ou um sintoma de sua fragmentação acelerada.

Seja qual for a resposta, o fato é que estamos testemunhando a erosão de uma das premissas centrais do liberalismo: a de que comércio e política devem obedecer a lógicas diferentes.

No país da “Matemágica”, PEC dos precatórios abala o frágil ajuste fiscal

Clayton Rebouças | Haddad cita compromisso com ajuste fiscal ao FMI #charge #cartum #cartoon #humor #política #humorpolitico #desenho #art #caricatura... | Instagram

(Charge do Clayton) Haddad como ministro, é uma piada

Alexandre Schwartsman
Estadão

Foi aprovada em dois turnos na Câmara, e devidamente encaminhada ao Senado, nova Proposta de Emenda Constitucional referente ao pagamento de precatórios, inclusive os federais. Até 2026, por decisão do Onipotente Supremo Tribunal Federal (apenas “Supremo” não mais descreve o atual status do Excelso Pretório), cerca de metade destes pagamentos não serão considerados para fins de aferimento da meta fiscal.

De forma mais simples, ao verificar se o resultado do Tesouro Nacional se encontra de acordo com a meta definida, diga-se, pelo próprio governo, é possível excluir tais gastos.

GASTO FANTASMA – Não que tenham deixado de existir: apenas permite-se que o Tesouro se gabe de ter atingido um resultado melhor do que aquele registrado pela fria contabilidade pública, que, aliás, é o que interessa para determinar se a dívida pública aumenta ou diminui.

Já a partir de 2027, graças à PEC, os precatórios de responsabilidade da União ficarão fora do limite de gastos (o avacalhado Novo Arcabouço Fiscal) e apenas parcialmente contabilizados para fins de aferição da meta (10% no primeiro ano, 20% no segundo e assim por diante).

Na prática, portanto, o Tesouro poderá registrar resultados abaixo das metas fiscais.

VEJAM EM 2027 – Por exemplo, em 2027, quando a meta fiscal requer superávit de 0,5% do PIB (cerca de R$ 75 bilhões), será possível abater dela 90% do montante de precatórios a serem pagos.

Segundo as projeções da Lei de Diretrizes Orçamentárias, trata-se de valor na casa de R$ 124 bilhões, ou seja, serão abatidos da meta R$ 111 bilhões. Ou seja, mesmo um déficit de R$ 36 bilhões (75 – 111) poderá ser comemorado como se superávit fosse.

Há certa controvérsia, mas, segundo a opinião de alguns analistas, também a exclusão dos precatórios do limite de despesas permitirá espaço para algum gasto adicional, porque, afinal de contas, que mal faz, né?

ENDIVIDAMENTO – A ginástica contábil, contudo, não muda a trajetória do endividamento público. Com ou sem PEC, NAF, OSTF ou qualquer outra sigla, a dívida seguirá crescendo à frente do PIB e, com ela, também a percepção de risco.

Quando quiserem entender as razões para poupadores só emprestarem ao Tesouro a juros reais superiores a 7% ao ano, não olhem para o Banco Central.

O culpado também mora em Brasília, mas em outro endereço.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Deus meu! A que ponto essa gente chega na manipulação dos recursos públicos. Por muito menos, Dilma Rousseff sofreu impeachment. Os petistas vivem a aplicar esses golpes de maquiagem contábil, e não acontece nada. Ninguém é demitido, cassado ou punido com bloqueio de bens. Por isso, a esculhambação se eterniza. Ainda bem que existem economistas como Alexandre Schwartsman, mas quem se interessa? (C.N.)

Acossado por Trump, Lula busca repúdio internacional aos ‘extremismos’

Sem citar Trump, Lula diz que Brasil não aceita "interferência" | CNN Brasil

Lula tenta apoio para atacar Trump, mas está difícil

Jamil Chade
do UOL

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai usar uma cúpula de líderes no Chile, nesta segunda-feira, para articular uma resposta conjunta de governos democráticos contra os avanços da extrema direita.

A iniciativa não tocará no nome de Donald Trump e foi organizada antes mesmo da ofensiva do americano contra o Brasil. Mas, nos últimos dias, o evento ganhou uma nova dimensão, inclusive diante das investidas contra a Colômbia, as barreiras comerciais contra o cobre do Chile e os ataques ao STF no Brasil.

SEM REPRESENTATIVIDADE – O presidente chileno, Gabriel Boric, será o anfitrião na reunião, que ainda contará com o uruguaio Yamandú Orsi, o colombiano Gustavo Petro e o espanhol Pedro Sánchez, além de Lula.

Dentro do Palácio do Planalto, estima-se que a região esteja “órfã” de um âmbito latino-americano que possa se posicionar contra o avanço da política externa americana.

No Mercosul, a agenda está em parte freada por Argentina e Paraguai, países que se aliaram à Casa Branca. Na OEA, a presença dos EUA impede qualquer debate mais contundente. Mesmo a Celac, esperança do Brasil de uma retomada de arranjo regional, foi minada por aliados de Trump no continente.

SEM CITAR TRUMP – No caso dessa cúpula, uma declaração final está sendo costurada. Mas o UOL apurou que não haverá uma menção explícita ao presidente americano. A consideração dos chilenos é de que, com a eleição se aproximando no país, transformar a cúpula num ato contra Trump pode acabar prejudicando a ala progressista nos cálculos eleitorais. A instabilidade na Colômbia tampouco ajuda.

Lula, porém, usará o palco para fazer um discurso na tarde de segunda-feira. Assessores prepararam uma mensagem “contundente” de defesa da soberania, diante dos ataques contra ministros do STF e tarifas impostas contra o Brasil.

Membros do governo consideram que a disputa está “apenas começando” e que a crise não será resolvida da noite para o dia, ou com uma negociação de abertura de mercados.

FORMA DE CENSURA – Além disso, um dos temas centrais do interesse do governo americano estará no centro das atenções em Santiago: a regulamentação das tecnologias e redes sociais. O governo Trump considera que isso seria uma forma de censura.

O documento deverá pedir um avanço neste sentido. O assunto é considerado central para frear o avanço da desinformação manipulada pela extrema direita.

Em nota, o governo brasileiro indicou que as discussões estarão organizadas em torno de três eixos centrais: defesa da democracia e do multilateralismo; combate às desigualdades; e tecnologias digitais e o enfrentamento à desinformação.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Em tradução simultânea, Lula está completamente perdido. Depois de uma semana inteira de euforia, em que usou o nacionalismo brasileiro para ganhar apoio a um governo que inexiste, Lula enfim percebe que caiu numa armadilha. Entre os países da ONU que mantêm relações comerciais com os Estados Unidos e realmente têm alguma importância, apenas o Brasil não conseguiu renegociar as novas tarifas fixadas. (C.N.)

Ex-premier de Israel denuncia limpeza ética que sempre conduz ao genocídio

The two-state solution map that promised to solve Middle East crisis

Olmert exibe o plano de paz incluindo o Estado Palestino

Demétrio Magnoli
Folha

“Lamento, mas é um campo de concentração. Se os palestinos forem deportados para essa nova ‘cidade humanitária’, pode-se dizer que isso é parte de uma limpeza étnica.” A acusação não partiu da Autoridade Palestina, do Irã, de um governo árabe ou de algum ativista universitário nos EUA. São palavras de Ehud Olmert. Não vale descartá-lo como antissemita.

Olmert é um político conservador. Fez carreira no Likud, o partido de Netanyahu, até juntar-se ao então primeiro-ministro Ariel Sharon para fundar o Kadima, de centro-direita. Chefiou o gabinete de Israel entre 2006 e 2009 e, no apagar das luzes de seu governo, ofereceu à Autoridade Palestina o mais generoso plano de paz da história da Terra Santa.

OUTRA REALIDADE – Abbas hesitou e, no fim, recusou sob a alegação de que Olmert logo renunciaria a seu cargo. Foi sucedido por Netanyahu, que fez do Hamas um parceiro tácito na sabotagem permanente das negociações de paz. Os bárbaros atentados do Hamas e a guerra criminosa de Israel contra a população civil de Gaza foram cozidos no fogo desses 15 anos.

O antissemita do passado desenhava judeus com nariz adunco. O antissemita contemporâneo pinta Israel como Estado genocida desde a sua fundação. Escolhendo as palavras certas, com profundo pesar, Olmert acusa o governo de Netanyahu por crimes de guerra e aponta o plano de limpeza étnica, mas ressalva que isso “ainda não aconteceu”.

Ele certamente sabe, como todos os judeus, que limpeza étnica é o detonador clássico dos genocídios.

INIMIGO INTERNO – “Esses caras são o inimigo interno”, explica Olmert, referindo-se aos ministros supremacistas do governo israelense, que pregam a expulsão da população de Gaza e patrocinam a violência de colonos extremistas na Cisjordânia. São, adiciona, uma ameaça maior à segurança de Israel do que qualquer inimigo externo, pois colocam em risco a legitimidade histórica do Estado judeu.

Fazem, em suma, eficientemente, o serviço que o Irã, o Hamas e ativistas antissemitas de direita ou esquerda no Ocidente nunca conseguiram realizar.

A oferta do mapa da paz por Olmert, durante o derradeiro ciclo de negociações, não foi o gesto de um pacifista. Tal como, antes dele, Shimon Peres e Ehud Barak, seu objetivo era proteger os interesses vitais de Israel.

DOIS ESTADOS – Na Conferência de Annapolis (2007), ele iluminou o cenário: “Se chegar o dia no qual a solução de dois Estados entrar em colapso e nós enfrentarmos um conflito no estilo sul-africano pela igualdade de direitos de voto, o Estado de Israel terá chegado ao fim”. Claro: é precisamente um conflito desse tipo a meta dos defensores da solução de um Estado único “do rio até o mar”, que seria, cedo ou tarde, um Estado árabe-muçulmano.

Uma experiência trágica de dois séculos mostrou aos judeus que é mortalmente perigoso ser uma minoria nacional. O Estado judeu surgiu justamente para que os judeus nunca mais sejam uma minoria. Em meados do século 20, cerca de um quinto dos palestinos da Terra Santa eram cristãos; hoje, somam 1%. O destino dos judeus seria o mesmo no tal Estado único “do rio até o mar”.

A longo prazo, os supremacistas de Netanyahu que enterram a solução de dois Estados só podem conseguir a expulsão dos judeus de Israel. Eis o motivo pelo qual a diáspora judaica –nos EUA, na Argentina, no Brasil– precisa erguer sua voz contra a limpeza étnica.

No Dia do Amigo, as mensagens de Milton Nascimento, Fernando Brant e Paulo Peres

Amigo é aquele diante de quem podemos... Ralph Waldo Emerson - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de “Canção da América”, lembra o desejo de frátria, devido aos laços histórico/afetivos que unem os países americanos, em especial, os latino-americanos. Pelo potencial confraternizador que carrega, a canção tornou-se o hino de celebração das amizades, mormente, para retratar os encontros e as despedidas existentes em nossa vida.

Esta música foi gravada por Milton Nascimento, em 1980, no LP Sentinela, pela Ariola. E deve ser cantada sempre, como se fosse um hino do Dia do Amigo, que se comemora hoje, 20 de julho.

CANÇÃO DA AMÉRICA
Milton Nascimento e Fernando Brant

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

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DIA DO AMIGO
Paulo Peres

Não existe palavra
Que possa definir
O real significado,
A bênção Divina
E a felicidade infinda
De tê-lo como amigo.

Com Bolsonaro na tornozeleira, o Centrão terá de rever os planos eleitorais

A imagem mostra a silhueta de uma pessoa em um ambiente interno, com iluminação baixa. A figura está de perfil, destacando o contorno do rosto e do cabelo. Ao fundo, há uma parede clara e um sinal de direção à esquerda, indicando uma saída. A pessoa está vestindo um casaco escuro.

Bolsonaro agora está em prisão domiciliar preventiva

Dora Kramer
Folha

A truculência custou a reeleição a Jair Bolsonaro (PL) e agora o leva ao caminho do infortúnio pessoal e da inevitável perda de relevância no cenário nacional. A trilha foi aberta pelo filho Eduardo (PL) no afã de posar como fonte de inspiração de Donald Trump na ofensiva por imposição de prejuízos ao Brasil.

Começou exigindo anistia ao pai e acabou colocando nele uma tornozeleira de vigilância cautelar, a fim de que não repita a façanha de Carla Zambelli (PL) que fugiu do país nas barbas da justiça. É o mesmo 03 da bazófia sobre fechar o Supremo Tribunal Federal com “um cabo e um soldado”.

BANANINHA – Faz jus ao apelido dado em 2020 pelo então vice-presidente, Hamilton Mourão, ao sugerir que se trocasse o sobrenome dele de Bolsonaro para Bananinha.

Pois de novo atrapalhou-se ao se colocar como porta-voz de Trump, levando com ele a arrancada do projeto da direita para 2026. Os planos desse campo de ascender ao Palácio do Planalto terão de ser revistos. Ou o centrão dá meia-volta nessa aliança ou se afunda junto.

Flávio Bolsonaro (PL), senador e tido como o moderado da família, aludiu aos ataques atômicos ao Japão na Segunda Guerra para alertar sobre o risco de um confronto com os Estados Unidos. O irmão ecoou o exemplo dizendo, em tom de vanglória, que Trump ainda pode jogar “uma bomba nuclear” no Brasil.

JOGO POLÍTICO – A violência aí se expõe como método na resolução de conflitos. Uma via oposta à da política, arena em que os extremistas não sabem jogar com competência exigida para a obtenção de ganhos a longo prazo.

Conseguiram nos últimos sete anos (nada, em termos históricos) reunir batalhões de adeptos, mas perderam para a institucionalidade as batalhas impulsionadas por um DNA de selvageria incompatível com as ferramentas de urbanidade, astúcia, interpretação correta dos fatos e visão estratégica necessárias à consumação exitosa de projetos de poder.

Ao menos assim é no regime democrático que pretenderam destruir., mas foram impedidos de fazê-lo.

É preciso entender a gravidade da retaliação de Trump contra o STF

Arquivo do Google

Pedro do Coutto

A decisão do governo Donald Trump de revogar os vistos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes, é um dos gestos diplomáticos mais agressivos e infundados dos últimos tempos — e revela mais sobre a política externa do presidente norte-americano do que sobre o Brasil.

Trata-se de uma retaliação puramente política, que expõe o esforço deliberado de Trump em se alinhar a Jair Bolsonaro e pressionar o Judiciário brasileiro, que, por dever constitucional, declarou o ex-presidente inelegível. Não há qualquer justificativa jurídica ou diplomática concreta para impedir a entrada de magistrados em solo norte-americano — apenas uma tentativa de intimidar e constranger quem cumpre a lei.

SANÇÕES – O recado é claro e perigoso: para Trump, decisões judiciais que desagradam seus aliados merecem sanções internacionais. Ao suspender os vistos dos ministros e ameaçar ampliar o veto, o presidente dos Estados Unidos adota uma postura digna de um imperador autocrático, não de um chefe de Estado que respeita o princípio da separação de Poderes — tanto no seu país quanto no exterior.

Ao misturar preferências políticas pessoais com a diplomacia internacional, ele compromete a seriedade das relações entre as nações e abre um precedente inaceitável de interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil. O Judiciário brasileiro, alvo direto da medida, não responde ao Executivo, tampouco deve satisfações a interesses estrangeiros. Atua, como manda a Constituição, com base nas leis e nas provas.

A reação brasileira foi imediata e firme. O procurador-geral da República classificou a medida como “arbitrária e ofensiva à soberania nacional”. O Itamaraty, embora cauteloso, manifestou preocupação com os rumos da política externa norte-americana. Ministros do Supremo também se pronunciaram, reafirmando que não se curvarão a pressões externas.

DIÁLOGO – A percepção geral é de que a medida enfraquece o diálogo institucional entre os dois países e atinge diretamente o coração de um dos pilares democráticos: a independência judicial. A imprensa internacional também reagiu com perplexidade. Jornais como The New York Times, El País e Le Monde destacaram o caráter inédito da decisão e alertaram para os perigos que ela representa à democracia.

Negar vistos a magistrados de uma nação soberana, sem apresentar provas de má conduta, é um gesto extremo e antidemocrático. É como se Trump quisesse exportar sua política de intimidação institucional — a mesma que o levou a confrontar seu próprio sistema judiciário nos EUA — para além das fronteiras americanas, utilizando o peso geopolítico de seu país como ferramenta de pressão ideológica.

Mais do que um gesto contra os ministros do Supremo, a revogação dos vistos é uma tentativa de deslegitimar o sistema de Justiça brasileiro e enfraquecer a autonomia de suas instituições. Se for aceita sem contestação, abre-se um precedente perigoso para que outros países passem a interferir em processos internos do Brasil, com base em afinidades políticas ou conveniências geoestratégicas.

PRESSÃO EXTERNA – O que está em jogo, portanto, não é apenas o direito de magistrados brasileiros de viajarem aos EUA, mas a própria ideia de que a Justiça deve ser livre de pressões externas, soberana e intransigente na defesa da legalidade. Ao se utilizar do aparato diplomático para proteger Bolsonaro e atacar ministros que apenas cumprem sua função, Trump mais uma vez demonstra que vê a política internacional como uma extensão de suas disputas pessoais e eleitorais.

Mas o Brasil não pode aceitar esse jogo. A resposta precisa ser institucional, firme e à altura do ataque. Afinal, um país soberano se reconhece também pela sua capacidade de proteger seus juízes quando estes são atacados por fazerem justiça. E justiça, neste caso, é não ceder ao autoritarismo travestido de diplomacia.

Para Trump e as big techs, o Brasil não é mais parte do mundo livre

Lula e Xi Jinping

Lula colocou o Brasil a reboque da China e da Rússia

Luís Francisco Carvalho Filho
Folha

O objetivo do Supremo é impedir a fuga de Jair Bolsonaro. É um alento para a democracia brasileira. A restrição imposta à sua liberdade individual (a prisão, para garantia da ordem pública, seria mais eficaz) é também um sinal profilático contra conspirações futuras.

As Forças Armadas só não aderiram ao movimento de Bolsonaro contra a eleição de Lula pela oposição estratégica dos Estados Unidos –na época, o país era governado por Joe Biden. A conjuntura mudou. Para Donald Trump e para as big techs, o Brasil não é mais parte do mundo livre.

A decisão de Alexandre de Moraes aumenta a temperatura da crise tarifária. O desfecho é imprevisível.

POSSIBILIDADES – Na hipótese de revisão das tarifas impostas por Trump, ainda que parcial, ou de adiamento, Lula se fortalece. No Brasil e fora do Brasil. Se a taxação entra em vigor em agosto, um sinal amarelo acende na economia e na política.

Desde que anunciada a medida, até quinta-feira (17), informa a Folha, investidores estrangeiros sacaram J´QR$ 4,5 bi da Bolsa de Valores de São Paulo, amostra das consequências do tarifaço.

Há aspectos inegociáveis, como o julgamento do golpista Jair Bolsonaro, suposto amigo de Donald Trump. Mas há, aparentemente, espaço técnico para negociações. A medida atinge também interesses de setores industriais norte-americanos. É via de mão dupla. Não há razão econômica para o ataque desferido contra as exportações brasileiras.

INVESTIGAÇÕES – Paradoxalmente, com a abertura de ampla “investigação” de práticas comerciais “injustas” do Brasil (Pix, 25 de Março, desmatamento, corrupção etc), a perspectiva de negociação é mais palpável: podem ser adotadas providências que não afetem a soberania brasileira e que, de certa forma, se harmonizariam com “preocupações” do governo norte-americano, como a instalação de uma CPI para tratar do tema pirataria.

A motivação real de Trump, contudo, são interesses econômicos das big techs, atingidos pelo Pix (meio de pagamento criado pelo Banco Central na gestão Bolsonaro), e pela decisão do STF que impôs responsabilidades nas redes sociais.

Bolsonaro entra na cena trumpista como força política (piada de mau gosto) comprometida com liberdade de expressão e democracia.

CHANCE PARA LULA – O tarifaço criou para Lula uma janela de oportunidade política capaz de isolar o bolsonarismo e a extrema direita, e de ampliar para o centro a sua popularidade.

Faz sentido radicalizar o discurso contra “traidores da pátria” que se alinharam a interesses dos EUA em troca da impunidade de criminosos.

No cenário internacional das reciprocidades Lula se arrisca. O presidente do Brasil desferiu uma canelada ao dizer na CNN que Trump não foi eleito para “ser o imperador do mundo”. A Casa Branca reagiu dizendo que o presidente dos EUA é “líder do mundo livre”.

MUITAS DÚVIDAS – Estimulada pelas pesquisas de opinião, a escalada retórica contra Trump e sua insanidade (independentemente da escalada judicial contra a famiglia Bolsonaro) pode inibir movimentos pragmáticos de uma negociação diplomática ainda viável com os EUA? Ou a negociação não é mais viável?

A taxação das big techs é mesmo para valer? Com o desenlace da questão tarifária, o país saberá se Lula pratica diplomacia de centro acadêmico ou se age como verdadeiro estadista.

Há algo errado! Brasil é o único país que não consegue negociar com EUA

Quaest: 55% dizem que Lula provocou Trump ao criticá-lo no Brics | LIVE CNNLourival Sant’Anna
da CNN

A falta de progressos nas negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos chama a atenção. Outros países, incluindo membros do Brics, como China, Índia, Indonésia e Vietnã, têm avançado de forma significativa nas tratativas com o governo Trump.

Em entrevista à CNN Internacional, o presidente Lula disse que houve “mais de dez” reuniões do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, e do chanceler Mauro Vieira, com integrantes do governo americano. E que o Brasil mandou uma carta no dia 16 de maio com uma proposta, sem obter resposta.

OUTROS PAÍSES – Não é o caso de outros países. A Indonésia firmou acordo na terça-feira (15) com os Estados Unidos, reduzindo as tarifas americanas de 32% para 19% sobre produtos indonésios. É alta, mas é a mais baixa conseguida em acordos de outros países do Sudeste Asiático com os Estados Unidos: o Vietnã, também novo membro do Brics, aceitou 20 %; Filipinas, 21 %; Malásia, 25 %; Tailândia e Camboja, no mínimo 36 %.

Em troca, a Indonésia se comprometeu a comprar US$ 15 bilhões em energia dos EUA, US$ 4,5 bilhões em produtos agrícolas e 50 aviões da Boeing. Foram eliminadas ainda tarifas sobre exportações americanas à Indonésia e estabelecidas penalidades para mercadorias chinesas reexportadas através do país.

A Índia, como a Indonésia, é integrante do Brics, e está em estágio avançado de negociação para um acordo provisório, que prevê a redução de tarifas recíprocas com os Estados Unidos.

ÍNDIA E CHINA – Uma equipe indiana esteve em Washington para a quinta rodada de discussões, e ambos os lados demonstram otimismo de que um acordo possa ser fechado nas próximas semanas. O próprio presidente Donald Trump fez referência a isso.

A China, líder do Brics e principal adversária dos Estados Unidos, obteve no dia 12 de maio acordo preliminar com o governo americano. Os EUA reduziram sua sobretaxa de 145 % para 30 % e a China, de 125 % para 10 %.

Diante da alíquota imposta por Trump em abril, o governo em Pequim suspendeu o fornecimento de minérios estratégicos para os Estados Unidos, que reagiram restringindo ainda mais a exportação de chips sofisticados para a China. Isso foi superado em maio. Ou seja, são questões bem mais estratégicas do que as que os Estados Unidos têm com o Brasil.

JAPÃO NEGOCIA – Com o Japão, o contencioso gira em torno de barreiras japonesas à importação de automóveis e cereais americanos. São dois setores muito sensíveis para a economia e até para a cultura japonesa. No caso dos automóveis, cujas exportações representam 3% do PIB, o Japão impõe regras de segurança consideradas excessivas para os padrões americanos. E o Japão preserva sua segurança alimentar e sua agricultura quase como tabus.

Mesmo assim, as negociações não foram concluídas principalmente porque o Japão realiza eleições para a Câmara Alta (equivalente ao Senado) no domingo. O Partido Liberal-Democrata, no governo, sente-se vulnerável a discursos nacionalistas na oposição.

Mas tem havido telefonemas entre os ministros do Comércio dos dois países e o primeiro-ministro Shigeru Ishiba pretende se reunir com o influente secretário americano do Tesouro, Scott Bessent, antes do prazo fatal de 1º de agosto.

COREIA, TAMBÉM – A Coreia do Sul iniciou negociações com os Estados Unidos imediatamente depois das tarifas anunciadas por Trump no dia 2 de abril, mesmo em meio ao processo de impeachment de seu presidente, Yoon Suk Yeol.

Estão em discussão a abertura do mercado agrícola e cooperação industrial, incluindo a revitalização de estaleiros nos Estados Unidos, além de medidas de contenção da China. Acordo “de princípio” pode ser firmado até 1º de agosto.

Negociações estão em curso com o objetivo de evitar tarifas de até 30% sobre produtos mexicanos, não contemplados pelo acordo comercial USMCA, com prazo para 1º de agosto. Também está sendo discutida a tarifa de 25% imposta por Trump sobre aço de todos os países. E a Argentina, que ficou com a tarifa de 10%, imposta por Trump aos países com superávit americano na balança comercial, como é o caso do Brasil, negocia um acordo de tarifa zero para 70% a 80% dos produtos.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– O Brasil tinha as menores taxas, de 10%. Por causa das patriotadas de Moraes, já subiu para 50% e pode chegar a 100%. Ainda há quem ache que Lula está certo em sua política interna e externa, mas minha ironia não chega a tanto. (C.N.)

A chantagem de Trump já conseguiu matar o bolsonarismo moderado?

Trump ameaça impor tarifas de 100% sobre a Rússia se não houver cessar-fogo com a Ucrânia – CartaCapital

Trump é um jogador de cartas e sabe o que está fazendo

Joel Pinheiro da Fonseca
Folha

Um nome de direita pode chegar ao segundo turno das eleições de 2026 sem o apoio de Bolsonaro? Por mais que isso me entristeça, sou obrigado a admitir: “provavelmente não”. A não ser que uma revolução do sentimento popular ocorra, o candidato que disputará o segundo turno com Lula será aquele ungido por Bolsonaro.

É claro que o melhor para o Brasil é ter uma direita democrática e que rejeite o bolsonarismo. A criação dessa direita, contudo, é um trabalho de mais longo prazo. No horizonte previsível, o ex-capitão segue incontornável em 2026.

PELA DEMOCRACIA – Para o Brasil —e sem expressar aqui preferência por qualquer lado que seja—, seria muito importante que o candidato de direita em 2026 não reproduza as condutas antidemocráticas de Bolsonaro em 2022, o mais grave ataque à nossa democracia na Nova República.

Desses parágrafos iniciais, uma conclusão se segue: seria muito importante para o Brasil que o candidato apoiado por Bolsonaro seja alguém que não reproduza as condutas antidemocráticas de Bolsonaro. Estou falando, é claro, do “bolsonarismo moderado”.

Esse campo é ocupado pelos governadores de direita aliados de Bolsonaro, como Tarcísio, Ratinho Jr., Romeu Zema ou mesmo Ronaldo Caiado. Desde que Bolsonaro está inelegível, muito se discute se ele apoiará alguém com esse perfil ou se optará por um nome do bolsonarismo mais radical, como algum familiar.

CHANTAGEM DE TRUMP – A chantagem tarifária de Trump —em parte fruto da influência de Eduardo Bolsonaro junto a políticos americanos— pode ter ferido de morte as chances dos bolsonaristas moderados.

O caminho do meio, de ser aliado político de Bolsonaro ao mesmo tempo em que se respeita a democracia e as instituições brasileiras, está impossibilitado. Ou adere-se ao clamor pela supressão do nosso Judiciário em subserviência aos EUA ou rompe-se com Bolsonaro. O ticket para o segundo turno acaba de ficar muito mais caro.

Trump exige que, para não impor tarifa de 50% sobre nossas exportações, o Brasil mantenha Bolsonaro livre e elegível. Vale lembrar: a inelegibilidade não vem do processo sobre a tentativa de golpe; ela decorre da condenação eleitoral, em 2023, por abuso de poder econômico e político.

DUPLA ANISTIA – Para que o julgamento de Bolsonaro seja encerrado e ele possa concorrer será necessário revogar não só o STF (Supremo Tribunal Federal), como também o TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

O discurso de Tarcísio — e de boa parte da direita brasileira — de culpar Lula pelas tarifas não funciona para o bolsonarismo radical. Para essa ala extremista, o culpado pelas tarifas tem que ser o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Se o discurso de Tarcísio colasse e Lula perdesse popularidade, isso seria péssimo para eles, pois seu objetivo não é derrotar a esquerda em 2026, e sim salvar Bolsonaro da Justiça. O ataque frontal ao Judiciário e a subserviência a Trump viraram condições inegociáveis para se estar junto de Jair.

SEM POSSIBILIDADE – A estratégia de Eduardo Bolsonaro é racional? Não. Um nome mais moderado apoiado por Bolsonaro teria chances em 2026 e poderia, aí sim, articular uma anistia com o Congresso.

Eduardo feriu de morte essa possibilidade. Agora, ele não só não conseguirá reabilitar o pai como mina a popularidade de seu próprio lado, fortalece Lula para 2026 e ainda cola em seu próprio movimento o selo de traidores da pátria.

A racionalidade pode muito pouco, contudo, quando a família está em jogo.

Se depender de Trump e Moraes, logo será declarada a Terceira Guerra Mundial

Empresa de Trump entra com ação contra Alexandre de Moraes nos EUA |  Metrópoles

Trump usa até suas empresas para investir contra Moraes

Vicente Limongi Netto

Perfeita a manchete do Correio Braziliense (19/07): “Bolsonaro usa tornozeleira, EUA tiram visto de Moraes”. O arranca rabo entre Brasil e Estados Unidos parece não ter fim. Agora inclui o procurador-geral da República e mais sete ministros do Supremo e seus familiares.

Ficou claro que Trump pode recuar, se a justiça brasileira pegar leve com Bolsonaro e Moraes parar de exportar censura prévia e descumprir a Primeira Emenda americana. Porém, Moraes não cederá, porque ministro do Supremo não erra. E assim foi  declarada a Terceira Guerra Mundial.

SOBERANIA INTOCÁVEL – A alta temperatura prossegue. A nação aguarda as próximas reações duras de Trump. Por sua vez, seguramente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes tem consciência, com base nos autos contra Bolsonaro e o filho fujão que, antes de tudo, é preciso salientar para fariseus, que a soberania brasileira é intocável e precisa ser respeitada.

Nada indica que magistrados da Suprema Corte cederão aos caprichos de Trump. Há poucos dias, nessa linha, a diretora de redação do Correio Braziliense, Ana Dubeux, foi taxativa: “O Brasil não tem vocação para ser quintal”.

No meio do fogo cruzado, o povo trabalhador, o cidadão ordeiro e empresários criadores de empregos pegam as sobras da insensatez de Donald Trump. Fantasiado de dono do mundo montado em cavalo pangaré e armadura de lata.

PELOS COTOVELOS – A grandiosa Flávia Oliveira, notável comentarista da GloboNews, ocupou, neste sábado, bom espaço da grade do canal. Falou de tudo e de todos, sempre pelos cotovelos.

Até que chegou a hora dela mesmo cair em si: “Estou falando muito”.

Mas o pior é que o esforço foi sem dizer nada.

AMIGO VALE OURO – O dia 20 de julho tem um significado especial para todos que gostam de exaltar a arte de viver. É o Dia do Amigo. Ele preenche o vazio da alma. O amigo não nos deixa faltar nada.

É uma dádiva do céu. Presente em momentos difíceis. Espanta a melancolia. O amigo estimula a convivência. Respeita a individualidade. Pondera com sabedoria.

Amo meus amigos. Não vivo sem eles. No meu blog, destaco Victor Hugo: “Um amigo pela metade é traidor pela metade”.

Governo dos EUA avisam que sanções devem aumentar na próxima semana

Secretário de Trump admite “grande possibilidade” de sanção contra Moraes | CNN Brasil

E agora, Moraes? O Central Park, a Disneylândia, o Pateta?

Deu na Folha

Membros da Secretaria de Estado dos EUA informaram a aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro que a revogação de vistos de entrada para o ministro Alexandre de Moraes (STF) e outros integrantes da corte é apenas o começo.

Segundo relato de um integrante do governo americano a bolsonaristas, “o Brasil terá uma longa semana a partir do dia 21”.

OPÇÕES NA MESA – O presidente Donald Trump teria dito que “todas as opções estão na mesa” e que a decisão de Moraes de autorizar uma ação contra Bolsonaro nesta sexta-feira (18) foi equivalente a uma declaração de guerra contra ele e os EUA.

Entre as novas sanções cogitadas estão aumentar as tarifas de 50% para 100%, adotar punições em conjunto com a Otan e até bloqueio do uso de satélites e GPS.

Moraes e outros membros da corte também estariam sujeitos à chamada Lei Magnitsky, que impede uma série de operações financeiras, entre outras punições.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Os ministros do Supremo estão desesperados. Jamais imaginaram (?) que Trump chegaria a esse ponto. (C.N.)

EUA revogam visto de sete ministros do STF, do PGR e dos seus familiares

Bom comportamento: Fux, Mendonça, Nunes Marques mantêm seus vistos

Mendonça, Marques e Fux ainda podem ir à Disneylândia

Carolina Brígido e Zeca Ferreira
Estadão

O secretário de Estado do governo de Donald Trump, Marco Rubio, anunciou nesta sexta-feira, 18, a revogação imediata do visto do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, de seus aliados na Corte e familiares diretos. Procurado, o STF não se manifestou.

O Estadão apurou que estão na lista, além de Moraes, mais sete ministros do STF: Luís Barroso, Flávio Dino, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Edson Fachin e ainda o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Só ficaram de fora da lista de sanções impostas pelo governo americano André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques.

PRIMEIRA SANÇÃO – O anúncio foi feito nas redes sociais, após a decisão de Moraes que impôs uma série de medidas restritivas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Essa é a primeira sanção adotada pelo governo dos Estados Unidos diretamente contra o ministro. O secretário Rubio, no entanto, não especificou quem seriam os aliados próximos de Moraes no Supremo.

“(O presidente Trump) deixou claro que seu governo responsabilizará cidadãos estrangeiros que forem responsáveis por censurar a liberdade de expressão protegida nos Estados Unidos”, disse, acrescentando:

“A caça às bruxas política conduzida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil Alexandre de Moraes contra Jair Bolsonaro criou um complexo de perseguição e censura tão abrangente que não apenas viola direitos fundamentais dos brasileiros, mas também ultrapassa as fronteiras do Brasil para atingir cidadãos americanos. Por isso, ordenei a revogação imediata dos vistos de Moraes, de seus aliados na Corte e de seus familiares diretos”, escreveu Rubio no X (antigo Twitter)”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– A grande surpresa foi o governo Trump ter poupado Luiz Fux, que publicamente já ameaçou divergir de Moraes, mas acaba sempre aprovando as barbaridades jurídicas dele. (C.N.)

Bolsonaro fora do caminho é ótimo para Tarcísio de Freitas, se for hábil

Tarcísio ultrapassa limites ao tentar negociar tarifas com EUA, dizem  especialistas - ISTOÉ Independente

Tarcisio sabe que terá de substituir Bolsonaro na eleição

Fabiano Lana
Estadão

Já pipocam nas redes de esquerda comemorações pelas medidas de restrição contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que por determinação do ministro Alexandre de Moraes passará a usar humilhante tornozeleira eletrônica, entre outras deliberações não muito edificantes.

Mas quem ganha com essa história, se tiver habilidade para isso, é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Pela simples razão de que a família Bolsonaro, por suas atitudes erráticas, pela fome de se manter com poder, é hoje o principal obstáculo para os movimentos políticos de Tarcísio, em empate técnico com Lula nas pesquisas.

PAGAR PEDÁGIO – Mas para isso, em primeiro lugar, o governador terá de pagar um pedágio, que pode até fazer parte de suas convicções. Precisará se mostrar solidário com o drama de seu mentor político. E acertar a dose.

Se for muito tímido no desagravo, irá levar pedradas do bolsonarismo radical, hoje comandado dos Estados Unidos pelo deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, vulgo 03. Se for muito incisivo no posicionamento, leva bala do mercado financeiro, do setor produtivo e até mesmo de gente do Centrão, essenciais aos seus supostos planos.

Os representantes do Centrão, aliás, também perceberam que Bolsonaro é hoje um problema sob a ótica da manutenção do poder. Na prática, o ex-capitão é, neste momento, o maior cabo eleitoral do presidente Lula.

INIMIGOS DA PÁTRIA – Percebam que no pronunciamento em rede na noite de ontem, na verdade, um comício consentido na TV, Lula escolheu seu adversário presidencial: o bolsonarismo. Por se aliarem a Trump e suas tarifas, foram taxados de inimigos da pátria. O presidente age respaldado por pesquisas de opinião.

Sem Bolsonaro no caminho, provavelmente na cadeia pela tentativa de golpe de Estado, restará ao lulismo tentar fundir a imagem de Tarcísio com a do radicalismo arrivista representado pelo padrinho.

O governador tem cartas na manga para se livrar disso. Foi, por exemplo, chefe do poderoso Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) no governo Dilma Rousseff. Consta que se dava bem com a chefe. Tem também a saída discursiva de ser essencialmente um “gestor”.

TERCEIRA VIA – Mais difícil será convencer ao bolsonarismo raiz de que Tarcísio de Freiras, por variados motivo, é a melhor opção ao movimento da direita e do centro.

Que, se o objetivo for tirar Bolsonaro da cadeia, por meio de algum acordo (sim, o STF é hoje uma casa política), é melhor deixar de lado a intransigência e aceitar um candidato mais alinhado ao famigerado sistema. Um postulante que ainda possa trazer os votos de centro, decisivos para a vitória.

A outra opção é ver Lula se reeleger e o sinal se fechar de vez. Mas, lembremos, racionalidade e sangue-frio não são o forte dessa turma.

Com Bolsonaro em prisão domiciliar, Brasil e EUA praticamente em guerra 

Trump acusa Moraes de descumprir leis americanas e promover censura |  Metrópoles

Ninguém até onde vai a briga de Moraes com Trump

Mario Sabino
Metrópoles

Uso de tornozeleira eletrônica, proibição de usar redes sociais, recolhimento domiciliar noturno, proibição de sair de casa nos finais de semana, proibição de se ausentar de Brasília, proibição de comunicação com embaixadas, proibição de contato com o filho Eduardo e demais investigados: Jair Bolsonaro foi praticamente preso nesta manhã.

As justificativas policiais para a decisão devem ser deixadas em segundo plano, inclusive as eventuais provas contra o ex-presidente que forem obtidas na busca e apreensão realizada pela PF na casa dele.

REAÇÃO À CHANTAGEM – Está claro que o objetivo principal de Alexandre de Moraes foi responder à chantagem tarifária de Donald Trump, antecipando-se também a retaliações que o presidente americano poderá vir a tomar contra o próprio ministro e outros colegas seus.

Em decisão, Moraes cita possibilidade de Bolsonaro fugir do país

Integrantes ou não das torcidas organizadas da política nacional internacionalizada, os brasileiros estão todos na mesma nau dos insensatos.

Já começa a deixar o terreno do improvável para adentrar o campo do impossível que, com Jair Bolsonaro submetido a medidas restritivas de liberdade e Lula apostando em patriotadas para ganhar a simpatia da patuleia, Donald Trump aceite negociar um acordo para baixar a tarifa de 50% sobre produtos importados do Brasil. Talvez até aumente a taxa ignominiosa.

DIZ O ZERO UM – O risco é tamanho que mesmo Flávio Bolsonaro já tenta frear os ímpetos do presidente americano. Depois da operação da PF contra o seu pai, ele escreveu nas redes sociais:

“O justo seria Donald Trump suspender a taxa de 50% sobre importações brasileiras e meter sanção individual em quem persegue cidadãos e empresas americanas, viola liberdades, usa o cargo público para violar direitos humanos e implodir a democracia de um país para satisfazer seu próprio ego.”

Flávio Bolsonaro apagou o post, mas é rezar para que o presidente americano se segure, porque, caso contrário, no plano econômico, sangraremos na forma de crescimento menor e mais inflação, para não falar da danação das empresas que negociam com os americanos.

NADA A FAZER  – Já no plano institucional, não há o que fazer, ainda que haja sanções individuais da parte de Washington.

Podemos esquecer de vez qualquer autocontenção da parte do STF, em especial do ministro cheio de testosterona que se tornou o Grande Inquisidor nacional, com todas as implicações deletérias disso para o Estado de Direito.

Neste momento, estamos em guerra com os Estados Unidos da América, senhores, e não temos nada a ver com isso.

A esperança do homem está sempre no dia seguinte, lamenta Raul de Leôni

Raul de Leoni, um poeta que morreu jovem, mas deixou uma obra marcante - Flávio ChavesPaulo Peres
P0emas & Canções

O advogado e poeta Raul de Leôni (1895-1926), nascido em Petrópolis (RJ), expressa no soneto “Legenda dos Dias” o cotidiano do homem atrás do ideal da vida, uma trajetória na qual a eterna esperança possa estar no dia seguinte.

LEGENDA DOS DIAS
Raul de Leôni

O Homem desperta e sai cada alvorada
Para o acaso das cousas… e, à saída,
Leva uma crença vaga, indefinida,
De achar o Ideal nalguma encruzilhada…

As horas morrem sobre as horas… Nada!
E ao poente, o Homem, com a sombra recolhida,
Volta, pensando: “Se o Ideal da Vida
Não veio hoje, virá na outra jornada…

Ontem, hoje, amanhã, depois, e, assim,
Mais ele avança, mais distante é o fim,
Mais se afasta o horizonte pela esfera;

E a Vida passa… efêmera e vazia:
Um adiamento eterno que se espera,
Numa eterna esperança que se adia…