O caso Lulinha e a disputa sobre quem deve julgar: primeira ou última instância?

O dinheiro estrangeiro está a votar antes do eleitor

A tempestade que chega ao Planalto pela porta aberta por Lulinha

Casas Bahia: a recuperação judicial que expõe a crise do varejo brasileiro

A eleição começou, e a polarização já escolheu seu campo de batalha

O medo que chega às urnas e pode até decidir a eleição presidencial

Medo de ser assaltado alcança dois a cada três eleitores

Pedro do Coutto

A campanha presidencial de 2026 começa sob uma constatação que nenhum candidato poderá tratar como questão secundária: o brasileiro está com medo. Medo de ser assaltado, de perder o celular, de sofrer uma agressão e, cada vez mais, de que a violência atravesse a porta de casa. A insegurança deixou de ser apenas um problema de política pública para se transformar em uma experiência cotidiana — e, por isso, em uma poderosa variável eleitoral.

A pesquisa Quaest divulgada na última sexta-feira confirma a dimensão política desse sentimento: 33% dos eleitores apontam a violência como o principal problema do país, mais que o dobro dos que citam a economia, com 15%. Saúde e corrupção aparecem com 14% cada. O levantamento ouviu 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais.

TEMORES  – O dado ganha ainda mais força quando colocado ao lado do estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha. A pesquisa mostra que 96,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais têm medo de pelo menos uma situação de violência. Entre os principais temores estão golpes, roubo à mão armada, morte durante um assalto, roubo de celular, bala perdida e invasão da residência.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o medo do crime, mas a percepção de que o Estado perdeu capacidade de proteger o cidadão. Quando alguém muda o caminho para evitar determinada rua, deixa de usar o celular em público ou evita sair à noite, a violência já não é apenas uma ocorrência policial: ela passa a organizar a vida social.

É nesse ponto que a segurança pública se transforma em terreno eleitoral especialmente fértil para a direita. O risco, porém, é transformar uma angústia legítima em combustível para soluções simplistas. Mais armas, penas maiores e discursos de endurecimento podem produzir impacto eleitoral, mas não resolvem sozinhos um crime organizado que se tornou sofisticado, movimenta dinheiro, controla territórios, utiliza tecnologia e estabelece conexões dentro e fora do sistema prisional.

MEDO É REAL – O erro do campo progressista seria igualmente grave se tratasse a segurança como uma pauta artificialmente criada pela direita. Os números mostram o contrário. O medo é real, disseminado e atravessa diferentes segmentos sociais. Ignorá-lo significa entregar aos adversários o monopólio do diagnóstico e, principalmente, da proposta de solução.

A esquerda precisa disputar esse tema sem abrir mão de direitos, mas também sem transformar direitos em argumento para a inação. Segurança pública exige polícia preparada, inteligência, investigação financeira, combate ao tráfico de armas, integração entre forças de segurança, controle das fronteiras, recuperação de territórios dominados por organizações criminosas e um sistema prisional que não funcione como centro de comando do crime.

O eleitor, entretanto, não está interessado apenas em conceitos. Ele quer saber se poderá voltar para casa sem medo. E é justamente aí que a campanha deverá ser cobrada. Não basta perguntar quem será mais duro contra o crime. Será preciso perguntar quem tem um plano capaz de reduzir a violência de maneira concreta e sustentável.

DEBATE SIMPLIFICADO – O medo também tem uma consequência política perigosa: simplifica o debate. Diante da insegurança, explicações complexas perdem espaço para frases de efeito. É nesse ambiente que prosperam propostas que prometem força imediata, mesmo quando não demonstram capacidade real de produzir segurança.

A eleição de 2026 poderá ser decidida, em parte, pela capacidade dos candidatos de compreender essa diferença. Explorar o medo pode render votos. Reduzi-lo exige governo. A segurança pública, portanto, não será apenas mais um tema da campanha. Ela poderá atravessar economia, desigualdade, juventude, drogas, urbanização, sistema prisional e até a relação entre União, Estados e municípios. O que estará em disputa será algo mais profundo: a confiança de que o Estado ainda consegue proteger o cidadão comum.

No fim, a pergunta decisiva não será quem grita mais alto contra a criminalidade. Será quem consegue apresentar um caminho plausível para que o brasileiro volte a caminhar pela rua, usar o próprio celular e abrir a porta de casa sem sentir que sua segurança depende da sorte. É nesse espaço entre o medo e a promessa de proteção que a eleição de 2026 começa a ser desenhada.

Entre um ponto e outro, esta é uma eleição presidencial que pode mudar o Brasil

Ao adotar reciprocidade com os EUA, Lula transforma o tarifaço em disputa política

O petróleo financia o presente, mas a conta amarga a ser paga fica para 2027

Michelle e Flávio: a trégua que expõe a disputa pelo futuro do bolsonarismo

Michelle ganha espaço, e campanha quer usá-la como trunfo

Pedro do Coutto

O primeiro encontro público entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro depois do recente atrito entre os dois não deve ser interpretado apenas como uma reconciliação familiar. Em plena preparação para a eleição presidencial, a imagem dos dois juntos tem uma função política evidente: reconstruir a unidade de um grupo que depende fortemente da força simbólica da família Bolsonaro.

A crise havia adquirido dimensão suficiente para ameaçar a campanha. Agora, Michelle e Flávio voltam a aparecer juntos e procuram transmitir a mensagem de que as divergências foram superadas. A estratégia faz sentido eleitoralmente. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 59% dos eleitores consideraram positiva a reaproximação, percentual que chegou a 90% entre os bolsonaristas.

ATIVO POLÍTICO – Mas a fotografia da reconciliação também revela uma questão mais profunda: Michelle se tornou um ativo político que Flávio não pode ignorar. Sua influência ultrapassa o papel de ex-primeira-dama e alcança segmentos importantes do eleitorado conservador, especialmente entre mulheres e evangélicos. Por isso, sua presença na campanha deixou de ser acessória. Ela passou a integrar a própria equação de poder do bolsonarismo.

Flávio, por sua vez, precisa ampliar sua candidatura para além do núcleo mais fiel ao pai. A pesquisa Genial/Quaest divulgada em agosto mostra Lula com 39% e Flávio com 30% no primeiro turno; no segundo, o presidente aparece com 44%, contra 39% do senador. Já a CNT/MDA, divulgada nesta terça-feira, apontou Lula com 42,4% contra 28,7% de Flávio no primeiro turno e 48% contra 39,1% no segundo.

Os números mostram que Flávio está competitivo, mas ainda enfrenta um obstáculo central: transformar a herança política de Jair Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores além da base bolsonarista.

UNIDADE FAMILIAR – É nesse ponto que Michelle pode ajudar. Sua imagem pode suavizar a candidatura, ampliar sua capacidade de comunicação e reforçar a sensação de unidade familiar. Mas existe também um risco: se Flávio depender excessivamente da ex-primeira-dama, poderá reforçar justamente a percepção de que ainda não construiu uma identidade política própria.

A reconciliação, portanto, resolve uma emergência, mas não encerra a disputa de fundo. O bolsonarismo entrou numa fase de sucessão. Jair Bolsonaro continua sendo sua principal referência, mas a eleição de 2026 definirá muito mais do que o adversário de Lula: definirá quem terá condições de comandar esse campo político nos próximos anos.

Nesse cenário, Michelle não é apenas uma apoiadora de Flávio. Ela também preserva capital próprio e capacidade de influência. E isso explica por que o reencontro interessa aos dois lados.

TOMA LÁ, DÁ CÁ – Flávio precisa de Michelle para fortalecer sua candidatura. Michelle precisa manter espaço dentro do grupo que continua orbitando o sobrenome Bolsonaro. O PL precisa dos dois para evitar que uma disputa familiar se transforme em fratura eleitoral. A paz, portanto, é conveniente para todos. Mas conveniência não significa consenso.

O vídeo dos dois juntos pode representar o fim de uma crise. Politicamente, porém, também funciona como o primeiro capítulo de uma disputa muito maior: quem herdará, de fato, o poder construído por Jair Bolsonaro.

A dívida pública que está estreitando o futuro do Brasil é desprezada

A saída de Sidônio e o problema que o marketing não consegue esconder

Lula mantém Sidônio na Secom e o afasta da campanha

Pedro do Coutto

O afastamento de Sidônio Palmeira do núcleo central da campanha de Lula da Silva à reeleição é mais do que uma mudança de nomes na comunicação petista. É um sinal político de que a campanha entrou numa fase de ajustes, disputas internas e crescente preocupação com uma eleição que, embora ainda tenha Lula na liderança, deixou de oferecer ao governo a margem de segurança que seus estrategistas desejariam.

Segundo reportagem de Sérgio Roxo, O Globo, o presidente decidiu retirar Sidônio do comando da estratégia eleitoral. O ministro continuará à frente da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, mas deixará de participar diretamente da coordenação cotidiana da campanha. A decisão ocorre depois de meses de tensão entre diferentes grupos responsáveis pela comunicação do governo e da candidatura.

RELAÇÃO DE CONFIANÇA – A escolha é particularmente significativa porque Sidônio não era um profissional qualquer dentro do universo lulista. Publicitário responsável pelo marketing da campanha vitoriosa de Lula em 2022, ele construiu uma relação de confiança com o presidente e chegou ao comando da Secom justamente pela combinação entre experiência eleitoral e capacidade de leitura política.

No início de 2025, Lula havia confiado a ele a tarefa de reorganizar a comunicação do governo. Por isso, sua saída da campanha não pode ser interpretada simplesmente como uma troca técnica. Ela representa uma revisão de estratégia. O problema, porém, é que campanhas eleitorais não são agências de publicidade.

Um marqueteiro pode organizar uma mensagem, escolher uma linguagem, definir uma identidade visual, orientar discursos e explorar determinados temas. Não pode, entretanto, produzir por publicidade aquilo que a realidade política não entrega. É justamente aí que está a questão central para Lula.

DIANTEIRA – A pesquisa Datafolha divulgada em julho mostra o presidente com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 32% de Flávio Bolsonaro. Num eventual segundo turno, Lula aparece com 48%, ante 43% do senador. Ou seja: o presidente continua à frente, mas a vantagem não é suficientemente confortável para permitir que sua campanha trate a eleição como uma formalidade.

Outro levantamento recente, da Quaest, também apontou Lula na liderança, mas registrou aproximação de Flávio Bolsonaro. A fotografia eleitoral, portanto, é clara: Lula continua sendo o candidato a ser batido, mas o adversário já encontrou espaço suficiente para transformar a eleição numa disputa competitiva. Nesse cenário, a crise de comunicação ganha uma dimensão maior.

Desde o início do ano, a campanha lulista vem sendo marcada pela tentativa de distribuir responsabilidades entre diferentes núcleos. Em janeiro, a própria Folha informou que Lula havia decidido manter Sidônio no governo e procurar outro profissional para o marketing eleitoral. O nome de Raul Rabelo, ex-sócio de Sidônio, passou a ser considerado para a função. A intenção era preservar a influência política de Sidônio sem necessariamente colocá-lo na linha de frente da campanha.

COMPLEXIDADE – A experiência dos últimos meses, entretanto, mostrou que separar governo, partido, comunicação institucional e campanha eleitoral é muito mais complicado na prática do que no organograma. O PT precisa comunicar as realizações do governo. O Planalto precisa defender sua agenda. A campanha precisa conquistar votos. E Lula, como candidato à reeleição, precisa apresentar ao eleitor uma razão convincente para permanecer no poder. São objetivos relacionados, mas não idênticos.

Quando essas estruturas começam a disputar espaço, a comunicação deixa de ser instrumento de uma estratégia política e passa a ser também território de disputa política. É nesse ponto que o afastamento de Sidônio se torna revelador.

PROBLEMAS ESTRUTURAIS -A troca não significa necessariamente que o publicitário tenha fracassado. Tampouco seria correto atribuir a ele, individualmente, eventuais dificuldades eleitorais de Lula. A política brasileira oferece inúmeros exemplos de campanhas altamente profissionais que não conseguiram superar problemas estruturais dos candidatos ou dos governos que representavam.

O marqueteiro pode ajudar o candidato a explicar uma realidade. Não pode substituir a realidade. Essa regra vale para Lula e também para seu principal adversário.

A equipe de Flávio Bolsonaro enfrenta problema semelhante quando tenta administrar a associação entre o senador e Daniel Vorcaro, personagem central da crise envolvendo o Banco Master. A comunicação pode tentar estabelecer distância, modificar a agenda e oferecer novas narrativas, mas não consegue simplesmente apagar fatos que já ingressaram no debate público.

INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE – É justamente por isso que a eleição de 2026 tende a ser menos uma disputa entre campanhas publicitárias e mais uma disputa pela interpretação da realidade. Lula tem ativos importantes. Continua conhecido por praticamente todo o eleitorado, possui uma história política singular, mantém forte identificação com parcelas relevantes da população e dispõe da estrutura de um governo federal. As pesquisas ainda mostram sua vantagem nos principais cenários de segundo turno. Mas esses ativos não eliminam suas vulnerabilidades.

O governo precisa transformar indicadores econômicos, políticas sociais e resultados administrativos em percepção concreta para o eleitor. Precisa responder à insatisfação de setores que não se sentem representados pela atual administração. Precisa enfrentar o desgaste político acumulado e, sobretudo, encontrar uma linguagem capaz de dialogar para além do eleitorado já convencido. Esse talvez seja o maior desafio da comunicação lulista.

Durante boa parte de sua trajetória política, Lula demonstrou extraordinária capacidade de transformar acontecimentos políticos em narrativas simples, compreensíveis e emocionalmente fortes. O Lula candidato de 2002 e o de 2022 souberam construir mensagens que ultrapassaram a fronteira do PT e alcançaram eleitores que não necessariamente tinham identificação ideológica com o partido.

ESTRATÉGIA – O Lula de 2026 precisa fazer novamente esse movimento. E não há marqueteiro capaz de realizá-lo sozinho. A mudança na equipe pode até produzir uma campanha mais agressiva, mais organizada ou mais eficiente nas redes sociais. Pode melhorar a resposta aos adversários e corrigir erros de comunicação. Mas, se a estratégia depender exclusivamente de publicidade, estará condenada a administrar sintomas em vez de enfrentar as causas.

A eleição também exige uma resposta política. Lula precisa decidir que campanha quer fazer. Uma campanha de defesa do legado? Uma campanha de confronto com o bolsonarismo? Uma campanha centrada na economia e na melhoria das condições de vida? Uma campanha de continuidade ou de renovação? É possível combinar esses elementos, mas não é possível substituir uma estratégia por slogans.

A definição do conceito “O Brasil pronto pra mais”, divulgado nos últimos dias, aponta justamente para a tentativa de apresentar a continuidade como promessa de futuro, e não apenas como defesa do governo atual.

MENSAGEM AO ELEITOR – A dificuldade estará em fazer essa ideia chegar ao eleitor como experiência concreta, e não como peça publicitária. É por isso que a saída de Sidônio deve ser observada com atenção. Ela revela que o problema da campanha de Lula não está apenas em quem segura o volante da comunicação. Está na necessidade de encontrar uma narrativa política suficientemente forte para atravessar um ambiente eleitoral mais competitivo, uma oposição mais organizada e um eleitorado menos disposto a votar apenas por memória.

A eleição de 2026 ainda está aberta. Lula parte de uma posição favorável, mas não confortável. Flávio Bolsonaro já demonstrou capacidade de reduzir distâncias, enquanto nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema tentam preservar espaço próprio. Nesse contexto, trocar o marqueteiro pode ser necessário. Mas não será suficiente.

O verdadeiro teste de Lula será descobrir se ainda consegue transformar governo em esperança, realizações em voto e experiência em futuro. Se não conseguir, nenhuma agência, nenhum slogan e nenhuma operação de redes sociais será capaz de produzir o milagre que a política, sozinha, deixou de entregar. O marketing pode melhorar a embalagem. A eleição, porém, continuará sendo decidida pelo conteúdo.

A bomba de Lulinha e o risco de Lula entrar na defensiva nesta eleição

Caiado defende anistia a Jair Bolsonaro para enfraquecer Flávio e atingir Lula

O fogo amigo cria um novo problema para Flávio Bolsonaro

Eduardo mostra a falta de coordenação bolsonarista

Pedro do Coutto

Campanhas presidenciais costumam enfrentar ataques dos adversários. O problema torna-se mais delicado quando as dificuldades passam a surgir dentro da própria família política. É o que começa a acontecer com a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Depois dos obstáculos para construir alianças e ampliar o arco de apoio da candidatura, um novo foco de desgaste ganhou força: as declarações de Eduardo Bolsonaro. O deputado, um dos principais expoentes da ala ideológica do bolsonarismo, tem feito críticas que acabam atingindo diretamente a estratégia eleitoral conduzida pela coordenação da campanha.

ATAQUES – Durante manifestação de apoio ao ex-assessor presidencial Filipe Martins, Eduardo voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal e reforçou o discurso de confronto institucional que marca sua atuação política. Ao mesmo tempo, integrantes da campanha passaram a ser alvo do chamado “fogo amigo”. Entre eles está o coordenador Roberto Marinho, criticado por setores bolsonaristas que consideram excessivamente moderada a condução da candidatura.

O episódio expõe um conflito antigo dentro do bolsonarismo. De um lado, está o grupo que defende ampliar alianças e dialogar com o eleitorado de centro para reduzir a rejeição de Flávio. De outro, permanece a ala ideológica, representada por Eduardo, que vê qualquer movimento de moderação como uma concessão incompatível com os princípios do movimento.

Essa divergência produz um efeito político imediato. Enquanto Flávio tenta apresentar uma imagem de estabilidade e capacidade de governo, Eduardo recoloca no centro do debate o confronto com o STF e a mobilização da base mais radical. A estratégia fortalece o eleitorado já fidelizado, mas dificulta a conquista dos eleitores moderados, tradicionalmente decisivos em eleições presidenciais.

DESCOORDENAÇÃO – O momento torna a situação ainda mais sensível. A campanha já enfrenta dificuldades para ampliar sua coalizão política e aumentar sua competitividade nacional. Nesse contexto, divergências públicas transmitem a impressão de descoordenação e enfraquecem a autoridade do candidato.

Não se trata de uma ruptura entre os irmãos, mas de um choque de estratégias. Flávio busca ampliar sua base eleitoral; Eduardo prioriza preservar a identidade ideológica do bolsonarismo. As duas agendas nem sempre caminham na mesma direção.

O desafio de Flávio deixa de ser apenas enfrentar seus adversários na disputa presidencial. Também passa por demonstrar que consegue manter unidade dentro do próprio campo político. Em campanhas competitivas, controlar o fogo amigo costuma ser tão importante quanto enfrentar a oposição.

Lula segue favorito, mas o cenário eleitoral já revela uma disputa mais competitiva

Polarização continua a marcar a corrida presidencial

Pedro do Coutto

As novas sondagens eleitorais do instituto Quaest confirmam uma tendência que vem se consolidando ao longo dos últimos meses: Lula da Silva permanece como o principal nome da disputa presidencial de outubro, mas a vantagem que parecia confortável começa a dar sinais de redução. O presidente continua liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno, porém a recuperação de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto indica que a oposição voltou a encontrar algum espaço político, ainda que insuficiente para alterar, neste momento, a condição de favoritismo do Palácio do Planalto.

Os números merecem uma leitura mais cuidadosa do que aquela sugerida pelas manchetes. A redução da diferença entre os dois candidatos não significa, necessariamente, uma mudança estrutural do eleitorado. Pesquisas de opinião captam o humor de um determinado momento e, em campanhas longas, oscilações dentro da margem de erro costumam ser frequentes. Ainda assim, quando um movimento se repete em levantamentos consecutivos, passa a merecer atenção dos estrategistas de ambos os lados.

OPOSIÇÃO FRAGMENTADA – Lula preserva uma vantagem construída sobre fatores relativamente sólidos. O peso da máquina pública, programas sociais amplamente conhecidos, uma economia que, apesar dos desafios fiscais, mantém indicadores de emprego relativamente favoráveis e uma imagem consolidada entre o eleitorado de menor renda continuam funcionando como importantes pilares de sustentação eleitoral. O presidente também segue sendo beneficiado pela fragmentação do campo oposicionista, que ainda não conseguiu ampliar significativamente sua capacidade de conquistar o eleitor moderado.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, demonstra capacidade de recuperar parte do terreno perdido. Depois de registrar queda na sondagem anterior, voltou a crescer e reduziu a distância para Lula tanto no primeiro quanto no segundo turno. O movimento sugere que parte do eleitorado conservador voltou a se mobilizar, especialmente após a intensificação do discurso crítico ao governo em temas sensíveis para a opinião pública.

FRAUDES DO INSS – Entre esses temas, o escândalo envolvendo fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) permanece como um dos principais instrumentos da oposição. Embora as investigações apontem irregularidades iniciadas antes do atual governo e envolvendo entidades de diferentes períodos administrativos, o episódio oferece à campanha adversária uma narrativa poderosa: a de que o governo falhou em proteger justamente um dos segmentos mais vulneráveis da população. Em política, a percepção pública frequentemente pesa tanto quanto a responsabilidade jurídica.

Outro foco de desgaste está nas controvérsias envolvendo gastos na área da saúde. As críticas dirigidas a compras públicas e decisões administrativas produziram repercussão suficiente para provocar mudanças internas na equipe política ligada ao presidente. O afastamento de integrantes da coordenação da campanha demonstra que o Palácio do Planalto procura reduzir danos antes que o tema adquira maior dimensão eleitoral. Em campanhas presidenciais, mudanças na coordenação raramente são apenas administrativas; costumam representar tentativas de reorganizar a comunicação diante de crises.

DESGASTE POLÍTICO – Há ainda um componente particularmente delicado para Lula: as investigações que envolvem seu filho, Luís Cláudio Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Independentemente do desfecho judicial, episódios que alcançam familiares de presidentes tendem a produzir desgaste político porque alimentam narrativas exploradas pelos adversários. A experiência internacional demonstra que denúncias dessa natureza dificilmente alteram, sozinhas, o resultado de uma eleição, mas podem influenciar a percepção sobre integridade e confiança, especialmente entre eleitores independentes.

Apesar disso, o governo ainda não enfrenta uma crise eleitoral comparável àquelas que, historicamente, alteraram o rumo de disputas presidenciais no Brasil. Lula continua apresentando níveis de intenção de voto que o colocam em posição privilegiada para chegar ao segundo turno como líder da corrida. Mais importante do que a oscilação recente é observar se ela representa o início de uma tendência consistente ou apenas uma acomodação estatística após meses de estabilidade.

Para Flávio Bolsonaro, o desafio permanece muito maior do que reduzir alguns pontos percentuais. Será necessário ultrapassar o núcleo tradicional do eleitorado bolsonarista e convencer parcelas do centro político, dos eleitores moderados e daqueles que votam prioritariamente com base em questões econômicas. Historicamente, candidatos identificados com polos ideológicos muito definidos encontram dificuldades justamente nessa etapa da campanha.

BRANCO, NULO OU INDECISO – Também merece atenção o comportamento do eleitor que ainda declara voto branco, nulo ou indeciso. Em eleições polarizadas, esse grupo costuma diminuir à medida que a campanha avança. Dependendo de como se distribua, pode ampliar ou reduzir diferenças aparentemente pequenas observadas nas pesquisas atuais. É justamente nesse segmento que campanhas investem recursos de comunicação nas últimas semanas antes da votação.

Outro aspecto relevante é que a campanha ainda será fortemente influenciada por acontecimentos externos. A evolução da economia, eventuais decisões judiciais envolvendo figuras políticas, crises internacionais capazes de afetar preços e inflação e até fatos inesperados podem modificar significativamente o ambiente eleitoral. Pesquisas retratam o presente, não antecipam necessariamente o futuro.

POLARIZAÇÃO – Por isso, embora a pesquisa Quaest confirme Lula na liderança, seria precipitado concluir que a eleição esteja definida. Da mesma forma, seria exagerado interpretar a recuperação de Flávio Bolsonaro como o início inevitável de uma virada. O cenário mais provável continua sendo o de uma disputa polarizada, em que o presidente larga em posição de vantagem, mas precisará administrar crises e preservar sua imagem para impedir que a redução da diferença observada nesta rodada se transforme em tendência.

A corrida presidencial entra, assim, numa nova fase. Lula continua sendo o favorito, sustentado por uma base eleitoral resiliente e pela força institucional do governo. Flávio Bolsonaro demonstra capacidade de reação, mas ainda precisa transformar recuperação estatística em expansão efetiva de seu eleitorado. As próximas semanas serão decisivas para mostrar se a vantagem do presidente representa uma liderança consolidada ou apenas um retrato momentâneo de uma eleição que ainda promete mudanças até o voto final.

Quando a diplomacia cede lugar ao confronto, muita coisa está errada

Trump age contra os próprios interesses estratégicos dos EUA

Pedro do Coutto

A decisão do governo de Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos representa um dos episódios mais graves da história recente das relações entre Brasília e Washington. Medidas dessa natureza são raríssimas entre países que mantêm relações diplomáticas estáveis e costumam ser reservadas a situações de ruptura institucional, crises de segurança ou conflitos de elevada intensidade política.

Ao atingir diretamente a principal representante do Estado brasileiro em território norte-americano, a Casa Branca envia uma mensagem que extrapola o campo consular: trata-se de um gesto de inequívoco conteúdo político. A reação dos dois governos evidencia que a crise está longe de ser um mero desacordo protocolar.

RECIPROCIDADE – Washington sustenta que a medida decorre do princípio da reciprocidade diplomática, argumento frequentemente utilizado quando um país entende que seus representantes sofreram tratamento considerado inadequado. Já o Palácio do Planalto interpreta a iniciativa como um ato de hostilidade e uma tentativa de exercer pressão sobre o cenário político brasileiro às vésperas de um ciclo eleitoral que promete intensa polarização.

A história demonstra que divergências entre Brasil e Estados Unidos nunca deixaram de existir. Houve atritos durante a Guerra Fria, diferenças profundas na Guerra do Iraque, embates comerciais em diversos governos e divergências ambientais nos últimos anos.

Ainda assim, ambos os países preservaram, em maior ou menor medida, os canais diplomáticos. A diplomacia existe justamente para impedir que disputas políticas se transformem em crises permanentes entre Estados. É por isso que a revogação do visto da embaixadora brasileira chama tanta atenção: rompe uma tradição de contenção que marcou décadas da relação bilateral.

APROXIMAÇÃO – A decisão também não pode ser analisada isoladamente do contexto político que aproxima Donald Trump da família Bolsonaro. Desde o primeiro mandato de Trump, os dois grupos cultivaram uma relação marcada por afinidade ideológica, defesa de pautas conservadoras e críticas comuns às instituições multilaterais. Essa convergência nunca foi escondida. Ao contrário, foi frequentemente explorada como símbolo de uma aliança política internacional entre movimentos identificados com a direita nacionalista.

Essa proximidade cria inevitavelmente uma dificuldade de percepção. Ainda que o governo norte-americano insista em enquadrar sua decisão como uma resposta institucional, torna-se difícil dissociá-la do vínculo político construído ao longo dos últimos anos entre Trump e Bolsonaro. Quando relações pessoais e ideológicas passam a coexistir com decisões oficiais de política externa, cresce o risco de que atos de Estado sejam interpretados como instrumentos de disputa política.

LIMITES – É justamente nesse ponto que reside uma das maiores preocupações. Relações internacionais entre democracias consolidadas costumam ser orientadas pelo princípio de que governos são transitórios, mas os Estados permanecem. Em outras palavras, divergências com um presidente não deveriam significar confrontos com todo um país. Quando uma potência adota medidas que parecem dialogar mais com atores políticos internos do que com o governo legitimamente constituído de outra nação, inevitavelmente surgem questionamentos sobre os limites entre política externa e interferência.

Não se trata de afirmar que exista uma intervenção direta no processo eleitoral brasileiro. Essa conclusão exigiria provas que, até o momento, não vieram a público. Entretanto, também seria ingênuo ignorar o efeito político produzido por decisões dessa magnitude. Em um ambiente altamente polarizado, qualquer movimento vindo de Washington tende a ser imediatamente incorporado ao debate interno brasileiro, fortalecendo narrativas de ambos os lados e ampliando a tensão institucional.

IMPACTO – Também merece reflexão o impacto sobre os próprios interesses estratégicos dos Estados Unidos. O Brasil é a maior economia da América Latina, integrante do G20, parceiro comercial relevante e ator indispensável em temas como segurança alimentar, energia, clima e minerais estratégicos. Relações bilaterais dessa dimensão dificilmente se beneficiam da personalização dos conflitos. Quando disputas políticas passam a orientar decisões diplomáticas, o prejuízo costuma ultrapassar governos e atingir interesses permanentes de ambos os países.

Do lado brasileiro, a resposta também exigirá equilíbrio. A tentação de elevar o tom pode produzir dividendos políticos internos, mas frequentemente dificulta a reconstrução dos canais diplomáticos. Ao mesmo tempo, a ausência de reação poderia ser interpretada como sinal de fragilidade. O desafio do Itamaraty será defender a soberania nacional sem transformar uma crise política em uma ruptura diplomática de consequências imprevisíveis.

PRUDÊNCIA – A política externa sempre foi um dos instrumentos mais sofisticados da ação do Estado. Ela exige prudência, previsibilidade e capacidade de separar divergências conjunturais dos interesses permanentes das nações. Quando gestos simbólicos passam a substituir o diálogo, todos perdem espaço para a negociação e aumenta o risco de que decisões motivadas pelo presente produzam danos duradouros no futuro.

A crise aberta entre Washington e Brasília talvez não represente um ponto sem retorno. A história das relações internacionais mostra que governos mudam, crises passam e pontes podem ser reconstruídas. Contudo, o episódio deixa uma advertência importante: quando afinidades políticas entre líderes começam a influenciar a condução da política externa, a diplomacia deixa de ser um instrumento de aproximação entre Estados para se tornar uma extensão da disputa ideológica. E esse é um caminho que raramente fortalece as democracias ou contribui para a estabilidade das relações internacionais.

Entre a ética e a exceção, a proposta de Fachin expõe um vazio no Supremo

Lula busca encontrar realizações para ampliar seu legado além do Bolsa Família

Inteligência Artificial nas eleições: quando o algoritmo entra na disputa pelo poder

Charge do Adão (Canal Um Brasil)

Pedro do Coutto

A inteligência artificial chegou definitivamente às campanhas eleitorais brasileiras. Mas o episódio envolvendo a exibição de um vídeo gerado por IA com a imagem de Jair Bolsonaro durante a convenção do PL demonstrou que o verdadeiro desafio não é tecnológico. É institucional.

A controvérsia, que passou a dividir ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela que a Justiça Eleitoral entrou em um território onde as fronteiras entre inovação, liberdade política, manipulação da opinião pública e integridade democrática ainda estão longe de ser plenamente definidas.

INTERESSE POLÍTICO – caso expõe uma pergunta muito maior do que a legalidade de um vídeo específico: até onde uma inteligência artificial é apenas uma ferramenta tecnológica e em que momento ela passa a se transformar em um instrumento de engenharia política?

Essa distinção é muito mais complexa do que parece. A inteligência artificial não possui vontade própria, ideologia ou objetivos políticos. Ela responde aos comandos, aos dados e aos interesses de quem a desenvolve ou a utiliza. Em outras palavras, o algoritmo não faz política por iniciativa própria; ele potencializa a estratégia política de seus operadores. A tecnologia pode produzir discursos, criar imagens, simular vozes e reconstruir pessoas com um grau de realismo que desafia a percepção humana. Mas sempre existe alguém escolhendo o que será dito, quando será dito e com qual finalidade.

É justamente aí que reside o dilema enfrentado pelo TSE. As regras eleitorais brasileiras já proibiam manipulações capazes de induzir o eleitor ao erro, mas a velocidade de evolução da inteligência artificial tornou insuficientes conceitos jurídicos elaborados para um ambiente digital muito menos sofisticado. Hoje, não basta apenas perguntar se um conteúdo é falso. É necessário avaliar se ele produz uma percepção artificial da realidade capaz de alterar a formação da vontade do eleitor.

FRAUDE – No episódio da convenção do PL, os defensores do vídeo sustentam que não houve tentativa de enganar o público, uma vez que a própria gravação informava tratar-se de conteúdo produzido por inteligência artificial. Sob essa ótica, haveria transparência suficiente para afastar qualquer fraude.

Já os críticos argumentam que a mera identificação da tecnologia não elimina seu enorme poder persuasivo. Um avatar hiper-realista reproduzindo gestos, voz e expressões de uma liderança política continua exercendo forte influência emocional sobre o eleitor, ainda que todos saibam tratar-se de uma simulação.

Esse debate revela uma mudança importante na natureza da propaganda política. Durante décadas, a preocupação da Justiça Eleitoral concentrou-se na veracidade da informação. Agora, a discussão desloca-se para a autenticidade da própria presença política.

PARTICIPAÇÃO EM CAMPANHAS –  Um candidato poderá aparecer em centenas de eventos simultaneamente sem jamais sair de casa. Líderes impedidos judicialmente de participar da campanha poderão ser reproduzidos digitalmente. Discursos poderão ser personalizados para públicos específicos em escala praticamente ilimitada. A tecnologia altera não apenas a comunicação, mas o próprio conceito de participação política.

Por isso, limitar a discussão ao termo “deepfake” talvez seja insuficiente. Nem todo conteúdo sintético busca necessariamente enganar. Ao mesmo tempo, nem toda utilização transparente da inteligência artificial está isenta de produzir efeitos potencialmente desequilibradores sobre a disputa eleitoral. A questão central deixa de ser apenas a existência da tecnologia e passa a ser o contexto em que ela é utilizada, os interesses que representa e os impactos concretos sobre a igualdade de oportunidades entre os candidatos.

É justamente essa complexidade que explica as divergências dentro do próprio TSE. Uma interpretação excessivamente permissiva pode abrir espaço para campanhas altamente sofisticadas de manipulação emocional, difíceis de serem fiscalizadas. Por outro lado, uma regulamentação demasiadamente rígida corre o risco de restringir formas legítimas de inovação na comunicação política e de gerar insegurança jurídica para partidos e candidatos.

CRITÉRIOS – O desafio brasileiro, portanto, não consiste em proibir a inteligência artificial. Essa seria uma batalha perdida antes mesmo de começar. A tecnologia continuará evoluindo em velocidade muito superior à produção legislativa. O verdadeiro objetivo deve ser construir critérios objetivos capazes de distinguir inovação de manipulação, criatividade de fraude e liberdade de expressão de abuso do poder informacional.

Mais do que fiscalizar algoritmos, será necessário fiscalizar intenções, transparência e responsabilidade. Afinal, a inteligência artificial não vota, não disputa eleições e não possui interesses próprios. Quem disputa o poder continuam sendo pessoas. Os algoritmos apenas ampliam sua capacidade de convencer, influenciar e mobilizar.

NOVO PARADIGMA – As eleições de outubro provavelmente inaugurarão um novo paradigma para a democracia brasileira. O debate já não será apenas sobre fake news ou desinformação, mas sobre como preservar a autenticidade da vontade popular em um ambiente onde a tecnologia consegue reproduzir, com impressionante fidelidade, rostos, vozes, emoções e lideranças políticas.

A inteligência artificial não substitui a política. Mas pode transformar profundamente a forma como ela é praticada. Caberá à Justiça Eleitoral encontrar um ponto de equilíbrio que preserve simultaneamente a liberdade de inovação e a integridade do processo democrático. Esse talvez seja um dos maiores desafios institucionais desde a chegada das redes sociais à arena eleitoral.