Piada do Ano! Supremo prepara uma lei inútil contra a Magnitsky

O ministro do STF Alexandre de Moraes

Moraes ainda sonha (?) em neutralizar a Lei Magnotsky

Carlos Newton

A Lei Magnitsky é uma norma moderna e muito bem estruturada, cujo objetivo é atingir dentro e fora dos Estados Unidos os envolvidos em atividades terroristas, violações de direitos humanos e outras medidas autoritárias de governos ditatoriais.

Este ano, a legislação passou a ser aplicada pelo governo Trump também em autoridades brasileiras devido aos inquestionáveis exageros adotados pelo Supremo Tribunal Federal na perseguição a militantes bolsonaristas, assim como na investigação e condenação de envolvidos no golpe que fracassou antes de ser tentado.

REAÇÃO BRASILEIRA – A grande novidade, segundo a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, é que está circulando entre o Supremo e a Advocacia-Geral da União (AGU) a minuta de um projeto de lei para proibir que empresas e instituições financeiras cumpram no Brasil embargos determinados por países estrangeiros que violem a soberania nacional. Ou seja, uma lei contra a Magnotsky.

O texto da dupla Alexandre de Moraes e José Messias, do tipo sonhar ainda não é proibido, significa uma resposta às sanções dos Estados Unidos sobre ministros do STF e outras autoridades federais.

É o tipo do projeto inútil, uma verdadeira aberração. Não há como proibir que empresas e instituições financeiras cumpram no Brasil embargos determinados por países estrangeiros (leia-se EUA) que violem a soberania nacional.

SANÇÕES E EFEITOS – Esses geniais legisladores brasileiros não percebem que as sanções da Lei Magnotsky funcionam apenas nos Estados Unidos. As sanções previstas são totalmente cumpridas nos EUA, apenas alguns efeitos é que podem ocorrer no exterior, como a perda do cartão de crédito ou investimento em banco norte-americano.

Nesse particular dos cartões de crédito de instituição americana, nada impede que os sancionados usem cartões de bandeira brasileira ou traveller’s checks (cheques de viagem, emitidos em dólar ou euro). 

De acordo com fontes de Brasília, Lula da Silva e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também já foram consultados e deram aval à iniciativa. Como são dois grandes conhecedores do Direito Internacional, fica combinado assim…

ORDEM DE DINO – Esse escalafobético projeto segue a estranha vereda aberta pelo ministro Flávio Dino, que em meados de agosto baixou uma “ordem” para ser descumprida a Lei Magnotsky.

Com sua criativa caneta, Dino proibiu “imposições, restrições de direitos ou instrumentos de coerção executados por pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país, bem como aquelas que tenham filial ou qualquer atividade profissional, comercial ou de intermediação no mercado brasileiro, decorrentes de determinações constantes em atos unilaterais estrangeiros.”

Parecia genial, mas a inútil ordem de Dino caiu imediatamente em desuso, porque nenhuma instituição teve como obedecer a esses ditames irracionais.

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P.S.
– Ao que tudo indica, o
projeto de lei antiMagnotsky terá o mesmo destino da ordem de Flávio Dino. Vai pra a cesta do lixo. (C.N.)

Jovens querem virar a página da polarização política no Brasil

Eduardo Bolsonaro amplia confronto com STF e aposta em novas sanções dos EUA

Eduardo passou a tratar com os americanos sobre Gilmar Mendes

Bela Megale
O Globo

Denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por atuar nos Estados Unidos em busca de sanções contra autoridades para coagir o Supremo Tribunal Federal (STF) e conseguir uma anistia ampla que contemple seu pai, Eduardo Bolsonaro mostrou que dobrará a aposta nas investidas junto ao governo Donald Trump.

O gesto do presidente dos EUA de abrir um canal com o presidente Lula e mostrar que Eduardo não teria o monopólio da comunicação com os americanos também não fez o parlamentar arrefecer sua atuação para pressionar e ameaçar autoridades brasileiras com novas punições.

GILMAR NA MIRA – Desde a semana passada, Eduardo passou a tratar com os americanos sobre o decano do STF, Gilmar Mendes. As falas públicas e nas redes sociais do ministro em defesa de Alexandre de Moraes, assim como os elogios à manifestação popular contra a PEC da Blindagem e da anistia, colocaram o ministro como alvo do filho de Jair Bolsonaro.

“As manifestações de hoje contra a anistia dos atos golpistas são a prova viva da força do povo brasileiro na defesa da democracia. Em diferentes momentos, registraram-se demonstrações de apoio ao Supremo Tribunal Federal, que esteve, mais uma vez, à altura da sua história, cumprindo com coragem e firmeza a missão de proteger as instituições e responsabilizar exemplarmente os que atentaram contra o Estado Democrático de Direito”, escreveu o ministro.

Mensagens reveladas pela Polícia Federal, trocadas entre Bolsonaro e seu filho, mostraram o ex-presidente pedindo que Eduardo deixasse de lado qualquer crítica a Gilmar. Hoje, porém, pai e filho estão proibidos de se comunicar por serem investigados na mesma ação penal.

NOVA AMEAÇA – No fim de julho, o deputado e o ex-apresentador da Jovem Pan Paulo Figueiredo afirmaram que estavam trabalhando para excluir o decano e o então presidente do STF, Luís Roberto Barroso, de punições via Lei Magnitsky. O movimento foi mal recebido no STF. Na avaliação da maioria dos magistrados, ao afirmar que realizou esse trabalho para “dar mais tempo” para Gilmar e Barroso repensarem suas posições, Eduardo fez uma nova ameaça contra o tribunal.

Agora, o grupo de Eduardo Bolsonaro traça um roteiro tendo o decano do STF como alvo, similar ao de Alexandre de Moraes. Dois meses depois de sancionar o magistrado, os EUA incluíram sua esposa, Viviane, na Lei Magnitsky. O parlamentar e seus aliados têm conversado com as autoridades americanas também sobre familiares de Gilmar Mendes, como sua esposa Guiomar, que é advogada e sócia de um escritório de advocacia.

AMPLIAÇÃO – No sábado (27), Paulo Figueiredo falou, nas redes sociais, sobre a chance de as punições, no caso de Moraes, serem ampliadas para os filhos do ministro, além de sócios do escritório e do instituto de seus familiares. Essa tem sido outra frente de pressão e debate nas reuniões de Eduardo com os americanos.

No STF, as ações de Eduardo, agora mirando Gilmar Mendes, são vistas como mais uma ameaça para tentar coagir a corte a livrar o ex-presidente da prisão. Bolsonaro foi condenado no mês passado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Os ministros têm reiterado que não cederão às ameaças do deputado e afirmam que seguirão firmes na defesa institucional do tribunal.

PRÁTICA CRIMINOSA – Nesta segunda-feira, Moraes afirmou, em decisão, que o parlamentar está nos EUA para “reiterar a prática criminosa e evadir-se de possível responsabilização judicial”. O ministro determinou que Eduardo seja notificado por edital da denúncia apresentada pela PGR, devido à sua atuação para pressionar o governo americano a impor sanções e tarifas ao Brasil.

“O denunciado, de maneira transitória, encontra-se fora do território nacional, exatamente, conforme consta na denúncia, para reiterar a prática criminosa e evadir-se de possível responsabilização judicial, evitando, dessa maneira, a aplicação da lei penal. Tal fato é confessado expressamente pelas postagens realizadas pelo denunciado nas redes sociais”, escreveu Moraes.

Planalto e STF preparam lei contra sanções dos EUA

Congresso deve receber proposta para blindar Moraes 

Malu Gaspar
O Globo

Circula entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Advocacia-Geral da União (AGU) a minuta de um projeto de lei que proíbe que empresas e instituições financeiras cumpram no Brasil embargos determinados por países estrangeiros que violem a soberania nacional. O texto, que está em revisão na AGU, é uma resposta às sanções dos Estados Unidos sobre o ministro Alexandre de Moraes e sua família no âmbito da Lei Magnitsky.

De acordo com fontes a par das discussões, Lula e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), também já foram consultados e deram aval à iniciativa. Ainda não se sabe se o projeto será de iniciativa do Executivo ou se vai ser apresentado por algum parlamentar.

MOMENTO FAVORÁVEL – O governo também avalia a melhor data para que ele chegue ao Congresso. Pelo plano inicial o texto já deveria estar tramitando, mas a crise provocada pela PEC da Blindagem e da anistia fizeram com que seus articuladores recolhessem os flaps para esperar um momento mais favorável.

O ministro do STF Gilmar Mendes confirmou à equipe da coluna ter tido acesso ao texto, que tem como base os termos de uma decisão do colega Flávio Dino com esse mesmo teor “bloqueando o bloqueio” de ativos no Brasil por ordens unilaterais vindas do exterior. O projeto também tem como base leis semelhantes aprovadas nos países europeus.

A ordem de Dino, tomada em meados de agosto, proíbe “imposições, restrições de direitos ou instrumentos de coerção executados por pessoas jurídicas constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no país, bem como aquelas que tenham filial ou qualquer atividade profissional, comercial ou de intermediação no mercado brasileiro, decorrentes de determinações constantes em atos unilaterais estrangeiros.”

AÇÃO – O despacho ocorreu no âmbito de uma ação movida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) contra ações judiciais movidas por municípios brasileiros na Inglaterra, que tem como pano de fundo as tragédias ambientais de Mariana (MG) e Brumadinho (MG) – e não mencionava diretamente o caso de Moraes ou da Magnitsky.

Assim, houve muita dúvida no sistema financeiro sobre o que fazer diante das sanções impostas pelo governo americano – se obedecer simplesmente ou usar a decisão de Dino como escudo. A incerteza levou a uma queda de R$ 42 bilhões no valor das ações dos bancos em uma única tarde, já que as retaliações previstas para quem não segue as restrições da Magnitsky são graves.

EXCEÇÃO – Com a aprovação de uma lei, o governo Lula e o Supremo avaliam que seria possível aos bancos conseguir uma exceção à Magnitsky ou à própria AGU apresentar um recurso à Justiça americana para liberar Moraes e sua família dos bloqueios de ativos.

Os envolvidos nas discussões sobre o projeto de lei avaliam que, embora ela vá resolver o problema do ministro e relator do processo da trama golpista, ele é necessário para prevenir novas tentativas de intervenção sobre o sistema financeiro do Brasil.

A questão é que nem todas as correntes do Congresso vão entender dessa forma. Parte dos deputados e senadores, em especial os bolsonaristas, tendem a considerar que se trata de uma lei feita sob medida para liberar os ativos e cartões de crédito de Moraes dos bloqueios impostos pelo governo Donald Trump, o que pode travar a tramitação da lei ou até mesmo acabar matando a iniciativa no nascedouro.

ENCONTRO –  Essa é uma das razões pelas quais ainda não há uma definição de data para que o projeto de lei seja apresentado rapidamente ao Congresso. A outra é a possibilidade de que os presidentes Lula e Trump se reúnam em breve para discutir as sanções comerciais dos Estados Unidos ao Brasil, tomadas como represália do republicano ao processo contra Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

O encontro, porém, ainda não foi marcado. Além disso, a estratégia para essa reunião é dirigir o foco das discussões para assuntos econômicos. Por isso, qualquer iniciativa que possa ser compreendida pelos americanos como uma provocação do Brasil está suspensa. A Lei da Reciprocidade, que permite a adoção de tarifas iguais às impostas ao Brasil como barreira ao comércio, é um exemplo disso.

Caso Tagliaferro: ex-braço direito de Moraes preso na Itália após denúncia da PGR

Tagliaferro foi denunciado pelo vazamento de mensagens

Leandro Magalhães
CNN

O ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), Eduardo Tagliaferro, foi detido na Itália nesta quarta-feira (1).

Segundo a defesa de Eduardo Tagliaferro, ele foi detido pela polícia italiana e foi conduzido para uma delegacia.

CAUTELAR – “Em um primeiro momento, a polícia italiana o conduziu para uma delegacia para, aparentemente, aplicar uma cautelar de restrição de circulação. Mas sem maiores detalhes. Vamos tomar ciência da restrição. Mas será reconduzido para a casa dele”, afirmou Eduardo Kuntz.

Ex-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Tagliaferro foi denunciado pela PGR (Procuradoria-Geral da República) pelo vazamento de mensagens trocadas entre servidores do gabinete do ministro Alexandre de Moraes.

Eduardo Tagliaferro está na Itália há alguns meses. Em agosto, Moraes pediu a extradição do ex-assessor acusado de vazar dados sigilosos. O Ministério da Justiça informou que enviou solicitação ao Itamaraty em 20 de agosto, para formalização junto ao governo da Itália.

DENÚNCIA – Tagliaferro apresentou denúncia em audiência por videoconferência na Comissão de Segurança Pública do Senado no começo de setembro, afirmando que Moraes teria adulterado documentos para justificar operações da PF (Polícia Federal).

Segundo relato do perito Tagliaferro, que atuava no TSE quando Moraes comandava o tribunal, ele teve que produzir um documento posterior a uma ação policial, mas houve adulteração na data para indicar que o material técnico teria sido produzido antes.

Tagliaferro sustenta que a data foi alterada porque Moraes não queria que parecesse que a PF fez busca e apreensão em alvos apenas por conta de uma notícia veiculada na época.

NOTA – Moraes rebateu as acusações feitas por seu ex-assessor Eduardo Tagliaferro. Em nota divulgada por sua assessoria no início de setembro, o ministro disse que todos os procedimentos de investigação foram realizados de forma regular.

O perito sustenta, ainda, que a assessoria do TSE foi acionada para recolher dados e que estes foram repassados às autoridades competentes.

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Uma palhoça irresistível, que fica à beira de um riachão…

ARQUIVO MARCELO BONAVIDES - Estrelas que nunca se Apagam - : RELEMBRANDO O  COMPOSITOR J. CASCATA

J. Cascata, um grande compositor carioca

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Álvaro Nunes (1912-1961), conhecido por J. Cascata, expressa na letra de “Minha Palhoça” um bonito, bucólico e romântico convite para a pessoa amada. Este samba de breque foi gravado pela primeira vez por Sylvio Caldas, em 1935, pela Odeon.

MINHA PALHOÇA
J. CASCATA

Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão

Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um cavalo
Que eu comprei em Pernambuco
E não estranha a pista
Tem jornal, lá tem revista
Uma kodak para tirar nossa fotografia
Vai ter retrato todo dia
Um papagaio que eu mandei vir do Pará
Um aparelho de rádio-batata
E um violão que desacata

Meu Deus do céu que bom seria…
Se você quisesse
Morar na minha palhoça
Lá tem troça, se faz bossa
Fica lá na roça à beira do riachão
E à noite tem um violão

Uma roseira
Cobre a banda da varanda
E ao romper da madrugada
Vem a passarada
Abençoar nossa união

Tem um pomar
Que é pequenino,
É uma teteia
É mesmo uma gracinha
Criação, lá tem galinha
Um rouxinol
Que nos acorda ao amanhecer
Isso é verdade pode crer
A patativa
Quando canta faz chorar
Há uma fonte na encosta do monte
A cantar chuá-chuá…

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Jornalistas brasileiros perderam os sentidos e abandonaram o mundo real

Saiba como explorar imagens e charges na prova de redação do vestibular | Guia do Estudante

Charge do Laerte (Folha)

Luís Ernesto Lacombe Heilborn
Gazeta do Povo

Eles criaram sentidos tortos. Todos os cinco – visão, audição, olfato, paladar e tato – foram sendo retorcidos, empenados… Os sentidos deixaram de fazer sentido, passaram a ser seletivos e treinados para inverter, corromper e perverter todos os impulsos.

Aquele grupo precisava criar um lugar à parte, parar de interagir com o mundo existente. Então, a turminha inventou olhos que não veem, mas podem criar imagens de delírios, absolutamente fictícias. Concebeu ouvidos que desprezam a verdade, os sons reais, as palavras, as frases. Perdeu deliberadamente o olfato e o paladar. Mergulhou na anosmia e na ageusia…

FORA DO AR – Nenhum deles podia ficar exposto aos alertas do cheiro e do gosto, quase sempre indisfarçáveis. Eles deixaram de tatear a realidade, nada concreto se atreviam a tocar, o factual desapareceu.

O cérebro, já embotado, sem as informações corretas dos cinco sentidos, não tinha impulsos nervosos para interpretar. Assim, aquela gente passou a viver no faz de conta, sem a boa intenção das crianças, dos escritores mágicos, dos artistas corretos, das “fadas”.

E o mundo que foi criado parece surgido das profundezas, do fogo. Sofrimento, caos, destruição… Mesmo assim, todos acham que está tudo normal. Pior: todos acreditam que são como super-heróis, ou ajudantes de super-heróis.

INFLUENCIADORES – Pior: essa gangue arrasta uma enorme quantidade de pessoas, que vão também perdendo os cinco sentidos, comprometendo o funcionamento cerebral, do coração… E o país se enterra profundamente.

Se o político discursa em defesa de bandidos, de facções criminosas, se defende terroristas e, mesmo assim, jura que é um defensor da legalidade, está tudo bem.

Se o político protesta contra o autoritarismo, o culto à violência devastadora, a exaltação da ignorância, sendo ele próprio um autoritário, um violento sem causa nobre, um ignorante proposital, ninguém vê nada de errado. Se defende a liberdade a sufocando, ele está certo. Se jura advogar pela liberdade, pela proteção às instituições democráticas, enquanto as destrói diariamente e sumariamente, ele é quase um ser humano perfeito, uma alma essencialmente honesta.

FALSOS JUÍZES – Há também os juízes que não são juízes. Podem rasgar, interpretar e criar leis ao bel prazer. As provas de seus abusos, arbítrios e suas ilegalidades se acumulam às toneladas, mas, num mundo em que os sentidos foram adulterados, eles merecem a proteção, os elogios e os agradecimentos daqueles sobre os quais falei no início…

E quem são esses? Ora, os que já foram chamados de jornalistas. Os que despedaçaram os sentidos e os princípios fundamentais de sua profissão. Não querem mais saber das histórias reais e em movimento, das mais relevantes, da curiosidade, da desconfiança, das perguntas.

São pautados pela fraude incomensurável. E todos – jornalistas que não são jornalistas, políticos que não são políticos, juízes que não são juízes – pagarão, um dia, por tudo o que têm feito nessa marcha cruel, covarde e sem sentido.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGExcelente artigo, enviado por Mário Assis Causanilhas. Realmente, os jornalistas brasileiros parecem ter perdido os sentidos. Da mesma forma, os juízes e políticos também desatinaram e estão no mundo da Lua. (C.N.)

Gigantismo estatal causa a crise que destrói a própria democracia

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Charge da Érica Aves (Arquivo Goggle)

João Pereira Coutinho
Folha

Hora da confissão: sempre que escuto a palavra “polarização” sinto vontade de puxar o revólver. E, quando escuto as explicações para essa polarização, a vontade é sacar a bazuca.

Sim, mil vezes sim: a desigualdade econômica, imigração, redes sociais e seus capangas digitais… tudo isso agravou o tom e o estilo da discussão pública. Mas democracias livres são, por definição, polarizadoras. E é bom que sejam. A nostalgia da unidade é o sonho molhado dos tiranos.

ÓDIO EXISTENCIAL – O ódio que hoje corre solto tem razões mais fundas: é um ódio existencial, como se cada eleição pusesse em risco a própria sobrevivência de metade do país. Haverá explicação para esse surto psicótico? Talvez — e mais racional do que se imagina.

O diplomata britânico David Frost, escrevendo no Daily Telegraph, oferece a hipótese mais convincente que conheço para o pensamento binário que domina a espécie: globalistas contra nacionalistas; “fascistas” contra “comunistas”; e, no contexto britânico, partidários da União Europeia contra defensores do brexit.

É o Estado, estúpido! Houve um tempo em que o governo se ocupava das funções soberanas (justiça, ordem interna, defesa), tentando ainda fornecer serviços básicos à população. O Estado não estava em todo lugar, mas tentava estar onde deveria. Isso deixava algum oxigênio para os indivíduos, que podiam tocar suas vidas sem a sombra permanente do Leviatã.

ESTADO TENTACULAR – Não mais. Vivemos em “Estados totalizantes” (não confundir com totalitários), que se expandem muito além de suas funções específicas. Não é só justiça ou segurança. Não é apenas saúde ou aposentadoria.

É economia, cultura, educação, costumes, vida privada, pensamentos íntimos —nada escapa ao Leviatã e seu desejo de controle social. O oxigênio se foi e ficou a sensação permanente de asfixia.

Moral da história? Quando tudo depende do Estado, tudo depende do acesso ao poder. Isso significa que tudo é político — até onde a política estatal tradicionalmente não entrava. Como conclui David Frost, o que está em jogo é importante demais para você não ser tragado pelo vórtice.

TESE FORTE – É uma tese forte, admito, que os números e a história reforçam. Nos últimos 150 anos, os gastos públicos no Ocidente só caminharam numa direção —para cima. Parte se explica por conjunturas (guerras, pandemias) ou por causas nobres (não pertenço à seita dos neoliberais, para quem o Estado de bem-estar é um dos cavaleiros do apocalipse).

Mas o gigantismo estatal não nasceu apenas de boas intenções. Depois da Primeira Guerra Mundial, entraram em cena os “Estados-projeto”, para usar o conceito do grande historiador Charles Maier: Estados ativistas que não se limitavam a administrar, mas se lançavam na tarefa de refazer a economia, a sociedade e a própria natureza humana de acordo com um plano ideológico.

No século 19, tivemos projetos de Estado —o Brasil pós-Independência ou a unificação alemã com Bismarck são exemplos clássicos dessa construção institucional.

DOMÍNIO TOTAL – O “Estado-projeto” é outra coisa: pressupõe a existência desses elementos (população, território, soberania, governo), mas vai muito além. Sua ambição é remodelar o cidadão com os instrumentos do Estado.

E, para desespero dos críticos, Maier lembrava: não é só coisa de ditadura. Democracias liberais também podem ser “Estados-projeto”, descontada a violência. O que define é a intenção: a decisão política de mobilizar o Estado para moldar o futuro.

De vez em quando escuto amigos reclamando da onipresença da política em suas vidas. Entendo o cansaço, a náusea mesmo, com a gritaria sem fim.

Mas essa gritaria não é tão irracional: a política, de fato, infiltra-se em tudo —até na intimidade. Quem zomba de progressistas (ou conservadores) que juram nunca namorar alguém do “outro lado” ignora que isso é apenas a consequência lógica do nosso tempo.

E AS ELEIÇÕES? – Uma eleição tampouco é apenas uma eleição —um mecanismo pacífico de trocar governantes sem derramamento de sangue, como dizia o filósofo. É a hora em que recursos colossais e instrumentos tentaculares do Estado mudam de mãos. E, se isso não é uma ameaça existencial, o que é?

A polarização poderia ser saudável —se o Estado também fosse. Mas, para tanto, seria preciso devolver o Leviatã às suas funções próprias e limitadas, longe dos delírios dos “Estados-projeto”.

Caso contrário, marcharemos de eleição em eleição no ódio existencial — até chegarmos à última.

Malafaia convoca ato em Brasília para reagir à derrota da anistia

Novo ato quer evitar que “esquerda tenha última palavra”

Bela Megale
O Globo

Organizador das manifestações em torno de Jair Bolsonaro, Silas Malafaia foi um dos principais defensores da necessidade de realizar um ato para responder aos protestos que tomaram as capitais do Brasil no domingo (21), contra a anistia e a PEC da Blindagem.

Segundo o pastor, a caminhada convocada em Brasília para a próxima semana busca “não deixar a esquerda dar a última palavra”. Malafaia disse que, “no lugar de artistas, o ato terá familiares dos presos do 8 de janeiro”.

NA CORDA BAMBA – A necessidade de fazer um ato para responder às manifestações começou a ser debatida por aliados de Bolsonaro no dia seguinte às manifestações que enterraram a PEC da Blindagem e colocaram a anistia na corda bamba. Como informou a coluna, o tamanho dos protestos assustou os bolsonaristas.

A ideia de convocar uma caminhada em Brasília foi consolidada depois que Malafaia debateu com lideranças políticas da direita opções de datas. A avaliação foi que não haveria tempo para convocar o ato para 5 de outubro e que o dia 12 seria inviável por ser uma data religiosa em que se celebra Nossa Senhora de Aparecida.

Parte dos aliados do ex-presidente apresentou outro argumento para a realização de uma caminhada em defesa da anistia. Eles apontam que também existia o receio, por parte de um grupo, de que um novo ato com a bandeira da anistia em locais como a Avenida Paulista ou a Praia de Copacabana pudessem ser um tiro no pé, caso reunissem menos pessoas do que as manifestações do dia 21 de setembro.

Disputa por herança política de Bolsonaro acirra racha entre aliados

Ciro Nogueira e Valdemar são vistos como ‘aproveitadores’

Carlos Petrocilo
Danielle Brant
Folha

Aliados de Jair Bolsonaro (PL) têm manifestado internamente descontentamento com a postura de pessoas próximas em relação a supostas sinalizações dadas pelo ex-presidente, e afirmam ver tentativa de aproveitar a inacessibilidade dele para tentar alcançar interesses próprios.

Braço direito de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, o influenciador Paulo Figueiredo colocou lenha na fogueira ao escrever em suas redes sociais que, hoje, o ex-presidente é um refém.

CIRO E VALDEMAR – Sob reserva, os aliados criticam especificamente o senador Ciro Nogueira (PP) e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que veem como tentando orquestrar narrativas para tirar de vez o protagonismo do ex-presidente, a um ano das eleições.

Um ex-integrante do governo Bolsonaro avalia que Ciro está “hipnotizado” com a possibilidade de ser candidato a vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos) caso ele decida disputar a Presidência em 2026, enquanto Valdemar tem como interesse os fundos partidário e eleitoral.

Outro aliado diz que caciques partidários aproveitaram o distanciamento entre Bolsonaro e Eduardo, conforme decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, para deflagrar uma guerra de egos.

CONFUSÃO – Na avaliação dos bolsonaristas, as narrativas atribuídas ao ex-presidente servem para confundir a cabeça da militância. Eles lembram que, como ele está distante das redes sociais e suas visitas têm que passar pelo aval do Supremo, há muitas pessoas usando uma espécie de “liberdade poética” sobre conversas que teriam tido com Bolsonaro.

Com isso, acabam aparecendo em reportagens versões de conversas moldadas conforme o interesse do interlocutor, dizem. E Bolsonaro não tem como contraditar, o que cria uma crise de liderança, complementam.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGEm tradução simultânea, a família Bolsonaro – especialmente Eduardo – está tumultuando a oposição a Lula. E o  governador Tarcísio de Freitas, o mais forte oposicionista, só aceita a candidatura se for consenso nas direitas. E assim Lula pode se mumificar no poder, igual a Lenin, falando em gravações as mesmas bobagens de sempre, até o final dos tempos. (C.N.)

Bolsonaro corta especulação: Michelle será candidata ao Senado

Após polêmica, Michelle descarta Planalto

Malu Gaspar
O Globo

Deu problema em casa a entrevista de Michelle Bolsonaro ao jornal inglês The Telegraph em que ela afirmou que, se fosse necessário, se candidataria a presidente em 2026. Nas conversas que teve depois da publicação, Jair Bolsonaro não a citou, mas fez questão de mencionar que Michelle será sim candidata em 2026 – a senadora.

A reação fez com que interlocutores do ex-presidente entendessem que as declarações de Michelle são um não-assunto para ele. Desde antes da prisão, aliados de Bolsonaro relatam que ele já dizia que a mulher não deveria se candidatar à Presidência e sim ao Senado Federal pelo Distrito Federal, mesmo aparecendo bem colocada nas pesquisas de intenção de voto.

“VALORES CONSERVADORES” – Ao jornal, Michelle prometeu “se levantar como uma leoa para defender nossos valores conservadores”. O diário ressaltou que a ex-primeira-dama se posicionou “como potencial sucessora de seu marido” e “deu a entender” que estaria disposta a disputar a eleição presidencial do ano que vem.

No último sábado, (27), três dias depois da entrevista, Michelle disse a apoiadores em um evento do PL Mulher em Ji-Paraná (RO) que não quer ser presidente e sim primeira-dama. E explicou sua fala:

“Nós somos mulheres que acolhem, que alimentam, que ajudam, que cuidam e defendem os seus como leoa. Nós vamos defender a nossa família. O meu marido está dentro de casa, mas, se ele quiser, eu serei a voz dele nos quatro cantos dessa nação.”

MANIFESTAÇÃO – À equipe da coluna, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse que entende o comportamento de Michelle como manifestação de indignação e acha que ela não se colocou como candidata. “Que mulher não ficaria revoltada com o marido colocado em cativeiro, como meu pai?”.

Para Flávio, “não é hora” de discutir um eventual substituto para seu pai na chapa presidencial em 2026. “Nossa prioridade é restabelecer tudo o que Alexandre de Moraes tirou do Bolsonaro”, diz o filho 01.

Tarcísio desiste da Presidência e será candidato à reeleição em São Paulo

A charge mostra o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, abraçando a Morte com as mãos ensanguentadas e dizendo: "Me desculpa por ter me afastado..." e a Morte respondendo: "Agora está tudo bem, filho!".

Charge do Cláudio Mor (Folha)

Vicente Limongi Netto

Analistas políticos pegos de calças e saias justas com a revelação de Tarcísio de Freitas de que disputará a reeleição. Sábios da GloboNews, com a arrogância habitual, tiveram que aceitar o tranco. Com argumentos rasos e tentativas patéticas de explicações razoáveis. Apelando para rumores e disse me disse.

A decisão de Tarcísio causou espanto a todos. Menos para este veterano e calejado repórter.  Nessa linha, recordo o que escrevi na Tribuna da Internet, dia 10 de setembro:

“O plano B de Tarcísio de Freitas é ser reeleito governador ou ser eleito senador. Fica melhor para o figurino dele. Tarcísio é novo e capaz. Não precisa, politicamente, do clã Bolsonaro para rigorosamente nada. Tarcísio, vá devagar ao pote. Para não ficar sem o mel e a cabaça. O apressado come mal e cru. Cabeça é para ser usada. Não apenas para colocar bonés de Trump”.

IRRESPONSABILIDADES – O Jornal de Brasília contribui com bom e vigilante jornalismo, revelando irresponsabilidades dos motoristas no tumultuado trânsito da capital. Nessa linha, na edição do dia 29, o jornal revela que “a falta do uso de seta cresce 88% no DF”.

Muitos acham que a seta é enfeite. Serve como brinco. De maneira geral, os números medonhos mostram que a esmagadora maioria dos cidadãos deixa os neurônios em casa, quando entra no carro e pega o volante. 

As cenas patéticas de trapalhadas são perigosas, diárias e constantes. Ultrapassam pela direita. O pior, alguns em alta velocidade.

MUITAS INFRAÇÕES – É um festival demaus motoristas. Alguns estacionam o carro trancando os outros, e deixam freado ou até engrenado, somem no mundo.

Desrespeitam as faixas de pedestres; colam o carro na traseira do outro, com farol alto; dirigem lanchando, falando no celular e tablet; é quase absoluta a falta de educação com vagas para idosos e deficientes; malucos e surdos com som fora dos padrões.

Outro tipo de fofos irresponsáveis dirige com cãozinho no colo. Exibicionistas colocam o braço para fora do carro. Querem mostrar o relógio novo, mesmo que possam perder o braço. E há aqueles que não usam o cinto de segurança. Seguramente, o pior exemplo de péssimo motorista. 

BOA NOTÍCIA – O SESC-DF anunciou que será inaugurado em setembro de 2028 o maior Centro Cultural já construído pela importante entidade do Sistema S.

Localizado na Asa Norte de Brasília, o investimento será de 150 milhões de reais. O povo de Brasília merece mais cultura e menos politicagem.

Eduardo Bolsonaro usa carta de Trump para atacar STF e defender anistia ampla

Deputado diz que acusações motivam atenção dos EUA

Bruna Rocha
Estadão

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) utilizou as redes sociais nesta segunda-feira, 29, para comentar a carta do presidente americano Donald Trump, aproveitando a ocasião para criticar o projeto de lei da anistia. Segundo ele, a proposta de anistia, que acabou se transformando em uma dosimetria para reduzir as penas dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, não seria suficiente para encerrar o que classificou como uma “perseguição”.

No X (antigo Twitter), Eduardo Bolsonaro, que está morando nos Estados Unidos desde fevereiro deste ano, usou a carta enviada por Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para criticar a Justiça brasileira.

CONTESTAÇÃO – Ele contestou a condenação do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, sentenciado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma organização criminosa e tentar abolir o Estado Democrático de Direito após o resultado das eleições de 2022.

No documento datado de 9 de julho de 2025, Trump elogiou Jair Bolsonaro, chamando-o de líder “altamente respeitado” e criticou as acusações contra o ex-presidente, classificando o julgamento no STF como uma “caça às bruxas”. Trump também pediu a suspensão imediata do processo judicial e considerou o caso uma “vergonha internacional”

Usando esse argumento, Eduardo afirmou: “Este é o principal motivo que atrai a atenção dos EUA para o Brasil — daí decorrem também diversos outros fatores. A dosimetria, destaque-se, não conserta essa perseguição; a anistia, sim”, escreveu o deputado.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Eduardo Bolsonaro mais uma vez recorre ao discurso de vitimização para tentar blindar o pai e o bolsonarismo das consequências jurídicas de seus atos. Ao usar uma carta de Donald Trump para atacar a Justiça brasileira e pressionar pela anistia, o deputado reforça a narrativa de “perseguição” que ignora as provas e condenações já confirmadas no Supremo. Em vez de se posicionar como parlamentar comprometido com o Estado Democrático de Direito,  atua como porta-voz de uma estratégia de deslegitimação das instituições, apostando na polarização e no desgaste da democracia para obter dividendos políticos. (M.C.)

Relator bolsonarista põe em xeque julgamento de Eduardo Bolsonaro

Trump, Netanyahu e o veto à Palestina: a geopolítica da exclusão

Proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A recente proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar o conflito entre Israel e o Hamas em Gaza volta a expor os impasses históricos em torno da questão palestina e a revelar os verdadeiros interesses que moldam a política internacional.

Trump afirmou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, concordou com a ideia de criar em Gaza um “comitê palestino de transição, tecnocrático e apolítico”, formado por especialistas internacionais e representantes locais qualificados, responsável por administrar temporariamente a região. Ao mesmo tempo, criticou a posição da maioria dos países que apoiam a criação de um Estado da Palestina, reafirmando a tradicional recusa norte-americana e israelense em aceitar essa solução.

REIVINDICAÇÃO HISTÓRICO – O que se apresenta como proposta de paz soa, na prática, como um adiamento indefinido de uma reivindicação histórica. Ao substituir a soberania por um arranjo tutelado, os Estados Unidos e Israel mantêm o essencial: o controle político e estratégico sobre os territórios, impedindo que os árabes da região se constituam como Estado pleno, com fronteiras reconhecidas, governo eleito, capacidade de autodefesa e representação internacional.

A ideia de um comitê “apolítico” é, na verdade, profundamente política, porque retira da população local a possibilidade de escolher quem a governa e delega a gestão de suas vidas cotidianas a tecnocratas sem legitimidade popular.

O argumento central para negar o Estado continua a ser o da segurança. Israel insiste que não pode permitir a emergência de um vizinho soberano que, em sua visão, poderia servir de plataforma para novos ataques. Mas, ao colocar toda a ênfase na segurança, ignora-se que a ocupação prolongada, a ausência de soberania e a negação de direitos são, por si mesmas, fatores permanentes de instabilidade e radicalização.

RAZÕES TERRITORIAIS – A recusa também se apoia em razões territoriais e ideológicas: muitos setores do Estado israelense não admitem abrir mão de partes estratégicas da Cisjordânia, nem aceitar um rival com pretensões equivalentes de legitimidade histórica.

Para os Estados Unidos, as razões são múltiplas. No plano geopolítico, Washington mantém a pretensão de ser árbitro da região, mas raramente se posiciona de forma a contrariar os interesses de Israel. Internamente, a política em relação ao conflito é atravessada por pressões eleitorais, pelo peso do lobby pró-Israel e pelo discurso religioso de parcelas do eleitorado.

Externamente, a Casa Branca procura equilibrar-se entre o apoio incondicional a Israel e a necessidade de não perder aliados no mundo árabe, onde a causa da autodeterminação continua a ressoar fortemente. Não reconhecer a soberania reivindicada, portanto, é também uma forma de manter influência, controlar o ritmo das negociações e evitar compromissos que possam ser politicamente custosos.

SEM SOBERANIA – O problema é que a proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão. Sem governo eleito, sem soberania real e sem voz própria, Gaza correria o risco de transformar-se em um protetorado indefinido, onde milhões de pessoas viveriam sob a tutela de organismos externos.

A história mostra que arranjos desse tipo tendem a prolongar os conflitos em vez de resolvê-los, porque não lidam com a raiz do problema: a falta de reconhecimento do direito de autodeterminação. Além disso, uma solução imposta de cima para baixo, que desconsidera a vontade popular, está condenada a ser vista como ilegítima, alimentando ainda mais ressentimento e violência.

Enquanto se discute em mesas diplomáticas, a realidade em Gaza continua a ser de destruição, deslocamento e sofrimento humano. Para aquele povo, a ideia de Estado não é um capricho, mas a condição mínima para reconstruir escolas, hospitais, energia, infraestrutura e, sobretudo, para recuperar a dignidade de viver com autonomia. Negar essa aspiração é condená-los a uma existência de dependência e humilhação, em que até os direitos mais básicos ficam sujeitos à boa vontade de outros.

SEM JUSTIFICATIVA – Os interesses estratégicos de Israel e dos Estados Unidos explicam a recusa, mas não a justificam. Uma paz verdadeira só poderá nascer de uma solução que reconheça plenamente a soberania reivindicada, que respeite o direito internacional e que permita aos dois povos coexistirem em condições de igualdade. O plano de Trump, ao contrário, parece apenas adiar indefinidamente essa possibilidade, criando uma gestão temporária que pode transformar-se em permanente e perpetuar a lógica da exclusão.

No fundo, o que está em jogo é a escolha entre oferecer dignidade ou impor tutela. Negar um Estado àquele povo é manter a região refém do medo, da insegurança e da desigualdade. Reconhecê-lo seria um passo arriscado para alguns, mas indispensável para qualquer paz que mereça esse nome.

Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele.