Relator bolsonarista põe em xeque julgamento de Eduardo Bolsonaro

Trump, Netanyahu e o veto à Palestina: a geopolítica da exclusão

Proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão

Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)

A recente proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encerrar o conflito entre Israel e o Hamas em Gaza volta a expor os impasses históricos em torno da questão palestina e a revelar os verdadeiros interesses que moldam a política internacional.

Trump afirmou que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, concordou com a ideia de criar em Gaza um “comitê palestino de transição, tecnocrático e apolítico”, formado por especialistas internacionais e representantes locais qualificados, responsável por administrar temporariamente a região. Ao mesmo tempo, criticou a posição da maioria dos países que apoiam a criação de um Estado da Palestina, reafirmando a tradicional recusa norte-americana e israelense em aceitar essa solução.

REIVINDICAÇÃO HISTÓRICO – O que se apresenta como proposta de paz soa, na prática, como um adiamento indefinido de uma reivindicação histórica. Ao substituir a soberania por um arranjo tutelado, os Estados Unidos e Israel mantêm o essencial: o controle político e estratégico sobre os territórios, impedindo que os árabes da região se constituam como Estado pleno, com fronteiras reconhecidas, governo eleito, capacidade de autodefesa e representação internacional.

A ideia de um comitê “apolítico” é, na verdade, profundamente política, porque retira da população local a possibilidade de escolher quem a governa e delega a gestão de suas vidas cotidianas a tecnocratas sem legitimidade popular.

O argumento central para negar o Estado continua a ser o da segurança. Israel insiste que não pode permitir a emergência de um vizinho soberano que, em sua visão, poderia servir de plataforma para novos ataques. Mas, ao colocar toda a ênfase na segurança, ignora-se que a ocupação prolongada, a ausência de soberania e a negação de direitos são, por si mesmas, fatores permanentes de instabilidade e radicalização.

RAZÕES TERRITORIAIS – A recusa também se apoia em razões territoriais e ideológicas: muitos setores do Estado israelense não admitem abrir mão de partes estratégicas da Cisjordânia, nem aceitar um rival com pretensões equivalentes de legitimidade histórica.

Para os Estados Unidos, as razões são múltiplas. No plano geopolítico, Washington mantém a pretensão de ser árbitro da região, mas raramente se posiciona de forma a contrariar os interesses de Israel. Internamente, a política em relação ao conflito é atravessada por pressões eleitorais, pelo peso do lobby pró-Israel e pelo discurso religioso de parcelas do eleitorado.

Externamente, a Casa Branca procura equilibrar-se entre o apoio incondicional a Israel e a necessidade de não perder aliados no mundo árabe, onde a causa da autodeterminação continua a ressoar fortemente. Não reconhecer a soberania reivindicada, portanto, é também uma forma de manter influência, controlar o ritmo das negociações e evitar compromissos que possam ser politicamente custosos.

SEM SOBERANIA – O problema é que a proposta de Trump não oferece dignidade, apenas gestão. Sem governo eleito, sem soberania real e sem voz própria, Gaza correria o risco de transformar-se em um protetorado indefinido, onde milhões de pessoas viveriam sob a tutela de organismos externos.

A história mostra que arranjos desse tipo tendem a prolongar os conflitos em vez de resolvê-los, porque não lidam com a raiz do problema: a falta de reconhecimento do direito de autodeterminação. Além disso, uma solução imposta de cima para baixo, que desconsidera a vontade popular, está condenada a ser vista como ilegítima, alimentando ainda mais ressentimento e violência.

Enquanto se discute em mesas diplomáticas, a realidade em Gaza continua a ser de destruição, deslocamento e sofrimento humano. Para aquele povo, a ideia de Estado não é um capricho, mas a condição mínima para reconstruir escolas, hospitais, energia, infraestrutura e, sobretudo, para recuperar a dignidade de viver com autonomia. Negar essa aspiração é condená-los a uma existência de dependência e humilhação, em que até os direitos mais básicos ficam sujeitos à boa vontade de outros.

SEM JUSTIFICATIVA – Os interesses estratégicos de Israel e dos Estados Unidos explicam a recusa, mas não a justificam. Uma paz verdadeira só poderá nascer de uma solução que reconheça plenamente a soberania reivindicada, que respeite o direito internacional e que permita aos dois povos coexistirem em condições de igualdade. O plano de Trump, ao contrário, parece apenas adiar indefinidamente essa possibilidade, criando uma gestão temporária que pode transformar-se em permanente e perpetuar a lógica da exclusão.

No fundo, o que está em jogo é a escolha entre oferecer dignidade ou impor tutela. Negar um Estado àquele povo é manter a região refém do medo, da insegurança e da desigualdade. Reconhecê-lo seria um passo arriscado para alguns, mas indispensável para qualquer paz que mereça esse nome.

Sem justiça e sem soberania, a paz será sempre uma miragem, e propostas como a que agora se apresenta não passam de sombras de solução, incapazes de oferecer futuro a uma nação que há décadas espera por ele.

Antes de morrer com apenas 20 anos, o último pedido de Álvares de Azevedo

Feliz daquele que no livro d'alma não... Álvares de Azevedo - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções

O dramaturgo, ensaísta, contista e poeta paulista Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), no poema “Tristeza”, antes de morrer aos 20 anos, fez um último pedido para que escrevessem uma frase em sua sepultura.

TRISTEZA
Álvares de Azevedo

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto o poento caminheiro;
Como as horas de um longo pesadelo,
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como um desterro de minha alma errante,
Onde fogo insensato a consumia…
Só levo um saudade – é um desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas…
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz – e escrevam nela:
Foi poeta, sonhou e amou a vida

Moraes autoriza Daniel Silveira a cumprir pena em regime aberto com tornozeleira

Decisão reconhece cumprimento de requisitos legais

or Rayssa Motta
Estadão

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou o ex-deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) a cumprir o restante da pena do regime aberto. Ele terá que usar tornozeleira eletrônica, comparecer semanalmente no fórum, ficar fora das redes sociais e comprovar “atividade laborativa lícita”.

A defesa do ex-deputado pediu a progressão de regime e a Procuradoria-Geral da República (PGR) foi a favor. O ex-deputado preencheu os requisitos previstos na Lei de Execuções Penais para a progressão do regime de prisão, como o cumprimento de parte da condenação no sistema fechado e o bom comportamento.

REGIME PROGRESSIVO – Em sua decisão, Moraes justificou que a pena “deverá ser cumprida em regime progressivo, permitindo ao sentenciado, desde que presentes em sua integralidade os requisitos legais objetivos e subjetivos, o acesso aos regimes menos rigorosos”.

“Na presente hipótese, estão presentes todos os requisitos legais exigidos para a progressão do sentenciado ao regime aberto de cumprimento de sua pena privativa de liberdade”, escreveu o ministro.

O ex-deputado conseguiu a remissão de 389 dias da pena, abatidos a partir da comprovação de atividades de estudo e trabalho na cadeia, e também pagou a multa corrigida de R$ 271 mil por violar a tornozeleira eletrônica quando estava em prisão domiciliar.

ATAQUES – Daniel Silveira foi condenado pelo STF a oito anos e nove meses de prisão por defender pautas antidemocráticas, como a destituição de ministros do tribunal e a ditadura militar. Em um vídeo publicado nas redes sociais, em fevereiro de 2021, ele atacou e ofendeu ministros, falou em dar uma “surra” nos magistrados, defendeu o golpe militar de 1964 e o AI-5 (ato mais duro da ditadura).

O julgamento foi concluído em abril de 2022, mas Daniel Silveira não começou a cumprir a pena imediatamente porque o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) editou um decreto para perdoar a condenação. O indulto terminou anulado pelo STF. Até o dia 16 de setembro, data da emissão do atestado de pena mais recente, consta que o ex-deputado cumpriu quatro anos, um mês e 26 dias da pena.

Bolsonaro tranquiliza Tarcísio e diz que Eduardo não disputará Presidência

Tarcísio visita Bolsonaro, prega anistia e sinaliza união em 2026

Bolsonaro diz a Tarcísio que Eduardo tentará o Senado 

Luísa Marzullo
O Globo

No primeiro encontro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. desde que foi condenado a 27 anos de prisão, Jair Bolsonaro afirmou que deseja manter a candidatura de Eduardo Bolsonaro ao Senado por São Paulo em 2026, descartando a possibilidade de que o filho seja lançado ao Planalto.

A reunião, um almoço, ocorreu no condomínio em que o ex-presidente cumpre prisão domiciliar, em Brasília, e contou também com a presença do senador Flávio Bolsonaro e do vereador Jair Renan.

FOI TAXATIVO – Segundo relatos de interlocutores, Bolsonaro foi taxativo ao defender Eduardo como nome da família na disputa paulista.

A leitura é que, embora a vaga não inviabilize outros aliados — como Guilherme Derrite, ex-secretário da Segurança de Tarcísio e hoje deputado pelo PP —, a ênfase no filho simboliza a tentativa do ex-presidente de preservar influência direta sobre o maior colégio eleitoral do país.

Eduardo, porém, está fora do Brasil desde fevereiro e enfrenta investigações que podem levá-lo à inelegibilidade, o que faz com que aliados já discutam alternativas para a chapa.

EDUARDO INSISTE – A posição de Bolsonaro contrasta com a do próprio Eduardo, que na semana passada declarou em entrevista ao Metrópoles que seria candidato à Presidência mesmo sem o apoio do pai.

— Eu sou, na impossibilidade de Jair Bolsonaro, candidato a presidente da República; por isso que o sistema corre e se apressa para tentar me condenar em algum colegiado, que seja na Primeira Turma do STF, para tentar me deixar inelegível — afirmou.

Entre aliados, cresce a avaliação de que, caso Eduardo permaneça fora do Brasil ou tenha sua situação jurídica agravada, não há como registrar a sua candidatura em 2026. A aposta de Bolsonaro no Senado funciona, nesse contexto, também como tentativa de blindagem, oferecendo ao filho uma plataforma eleitoral considerada por aliados como mais segura do que a retórica presidencial.

SEM VIABILIDADE – Já em relação ao Planalto, Bolsonaro teria dito a Tarcísio que não enxerga viabilidade em um projeto nacional de Eduardo. Ao contrário do que aliados próximos ventilam, trata a hipótese como recurso retórico, útil para manter o protagonismo da família no debate público e preservar a narrativa de perseguição que sustenta sua base.

O governador paulista, por sua vez, aproveitou o encontro para reafirmar que será candidato à reeleição, resistindo às pressões de setores do bolsonarismo que gostariam de vê-lo no Planalto.

A insistência na reeleição é lida por aliados como uma forma de dar uma “acalmada” nas especulações e ganhar tempo, até porque, em meio à indefinição sobre o futuro de Bolsonaro e à tramitação da anistia no Congresso, qualquer gesto antecipado poderia gerar ruído.

PRIMEIRO, ANISTIA – Na saída, Flávio Bolsonaro fez questão de elogiar o governador, mas condicionou o debate da sucessão à aprovação da anistia.

— Tarcísio é um dos principais ativos que a centro-direita tem. Tem feito um grande trabalho — disse o senador. E acrescentou: — Somente após esse processo legislativo da anistia e esse desenrolar final, não tem porque antecipar nome de nada.

No PL, dirigentes avaliam que a candidatura de Eduardo ao Senado era o caminho natural, mas que o cenário tende a se complicar. Valdemar Costa Neto, presidente da legenda, busca calibrar o discurso entre a lealdade à família Bolsonaro e a pressão do centrão por nomes com maior viabilidade. Um aliado direto de Valdemar afirmou que Eduardo já é tido como carta fora do baralho.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Como se vê, nada de novo no front ocidental. Eduardo Bolsonaro não tem apoio do pai e o PL não lhe dará legenda. Essa bagunça que está fazendo nos EUA é tiro no pé, porque prejudica a união da direita com o Centrão e fortalece o petista Lula, que até teria virado favorito, segundo essas ridículas pesquisas tentam espalhar. (C.N.)

Quando a educação pesa no bolso: mensalidades muito além da inflação

Bolsonaro rejeita ‘anistia light’ e acordo do Congresso com Supremo

Ex-presidente rejeita endossar projeto de Paulinho da Força

Malu Gaspar
O Globo

Em conversa reservada com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, Jair Bolsonaro deixou claro que não vai apoiar as articulações no Congresso para aprovar uma “anistia light” que diminua as penas dos investigados na intentona golpista que culminou com os ataques às sede dos três poderes em 8 de janeiro de 2023.

Para o ex-presidente, não dá para endossar publicamente um projeto cujo relator, na visão dele, foi “escolhido pelo STF” e atua “em dobradinha” com o Supremo – referindo-se ao deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), que é próximo dos ministros da Corte. Caberia, portanto, a Paulinho e ao STF assumirem o ônus por capitanear qualquer iniciativa nesse sentido.

RECUO – Segundo relatos obtidos pela equipe da coluna, a avaliação do ex-presidente é a de que, se o PL for a favor do projeto, isso não apenas seria interpretado como um recuo, mas também irritaria o núcleo duro da base bolsonarista, que insiste em uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, como defende o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Valdemar se encontrou com o ex-presidente na tarde da última quinta-feira (25) no condomínio Solar de Brasília, onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar desde 4 de agosto por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Conforme informou a colunista Bela Megale, Eduardo avisou ao líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), que qualquer alternativa à anistia só vai levar ao recrudescimento de sua atuação nos Estados Unidos por sanções contra autoridades brasileiras.

RECADO – A leitura de Bolsonaro é a de que uma eventual adesão do PL à iniciativa poderia passar para a militância bolsonarista o recado de que a sigla topou fazer parte do acordo – que ainda envolve o ex-presidente Michel Temer e o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG). Além deles, também participaram os ministros do STF Moraes e Gilmar Mendes, que são próximos de Paulinho e deram aval às negociações.

A versão mais aceita do projeto em discussão nos bastidores poderia levar à redução em até 11 anos das penas dos condenados do 8 de Janeiro, conforme informou o blog. “Que tal ler a Constituição, Hugo Motta e Paulinho da Força? Dosimetria é uma ferramenta do Judiciário; anistia, do Legislativo; graça e indulto, da Presidência da República. Não inventem!”, escreveu na última quinta-feira (25) o senador e ex-secretário da Pesca de Bolsonaro Jorge Seif (PL-SC), integrante da tropa de choque bolsonarista na Casa

ANÁLISE – A depender do desfecho das negociações em torno do PL da Dosimetria, a pena imposta pelo Supremo a Bolsonaro por articular um golpe de Estado pode cair de 27 para 16 anos.

No entorno de Valdemar, há quem faça uma análise mais pragmática sobre a situação do ex-presidente, que tem 70 anos de idade e enfrenta uma série de problemas de saúde, com crises frequentes de soluços e vômitos após o atentado que sofreu nas eleições de 2018.

“27 anos de pena é quase uma sentença de morte, com a probabilidade alta de Bolsonaro morrer em regime fechado. Já com 16 anos, há a esperança de que ele possa progredir de regime num prazo bem menor. Isso dá uma expectativa de uma vida livre”, afirma um integrante do PL. “O PL da Dosimetria está longe de ter consenso, mas Bolsonaro não está em condições de endossar nada.”

PROPOSTA –  Entre as principais propostas em discussão nos bastidores da Câmara estão a de reduzir as penas dos crimes de golpe de Estado e a abolição violenta do Estado democrático de direito e definir que eles se absorvem, o que impediria que um mesmo réu fosse condenado por ambos.

Atualmente, a legislação brasileira, sancionada pelo próprio Bolsonaro em setembro de 2021, prevê pena de quatro a 12 anos de prisão para o crime de golpe de Estado – e de quatro a oito anos para quem tentar “com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais”.

Com a redução, a pena para abolição do Estado democrático de direito poderia passar para entre dois e seis anos, e a de golpe de Estado entre dois e oito anos, mas a proposta final ainda não foi fechada.

Eduardo quer ser candidato em 2026, mesmo que destrua o pai Bolsonaro

PF: Eduardo quis continuar ação nos EUA e diz que Bolsonaro é "empecilho" | CNN Brasil

Líder de si mesmo, Eduardo diz que o pai é  um “empecilho”

Carlos Andreazza
Estadão

Eduardo Bolsonaro desenvolve o seu pós-Bolsonaro – pós-Jair, para não haver dúvida. Pós-pai. A superação político-eleitoral do pai. A constituição desse movimento está explícita. Eduardo propõe uma dissidência bolsonarista, que se organiza em função do monopólio (desafiado?) do acesso à Casa Branca e da imposição do que se tornaria a pauta única da direita brasileira: a anistia, tão difícil de alcançar quanto eficaz em interditar a ascensão de liderança que não da família.

Não tem negócio. Jair Bolsonaro inelegível, incontornavelmente inelegível, todo mundo se organizando em função dessa inelegibilidade – e o bolsonarismo eduardista sustentando a agenda, a da anistia “ampla, geral e irrestrita”, que engessa a direita e lhe garante poder e centralidade sobre o espólio de Jair. Tem método.

ALGUM BOLSONARO – “Em 2026 será Bolsonaro” – escreveu Paulo Figueiredo, a inteligência influente que formula e pauta Eduardo. Em 2026 será Bolsonaro. Não necessariamente Jair – interpreta o cronista.

O bolsonarismo eduardista considera Jair Bolsonaro um “refém”, donde impossibilitado de avaliar o cenário. Um frágil; manipulado, chantageado mesmo, para chancelar o “pacto republicano” em função de Tarcísio, encarnação da “direita permitida”.

O ex-presidente seria um incapaz – é o que se comunica. Daí a proposta eduardista de superação a Jair em defesa de Jair – em proteção a Jair. O filho que, pelo pai, não obedecerá (mais) o pai. Está dito.

A REBOQUE – Todo mundo quer encostar Jair – um ex-presidente passivo, a reboque, seja do bolsonarismo eduardista, seja do bolsonarismo de oportunidades de Ciro Nogueira.

Jair Bolsonaro seria refém sobretudo do bolsonarismo de oportunidades – assim denuncia o bolsonarismo eduardista. Refém de Valdemar e turma. O ex-presidente – este é o pressuposto – estaria sequestrado, homem doente, inepto para decidir. Inepto para liderar. Inepto para orientar.

Qualquer pesquisa nas redes bolsonaristas ligadas a Eduardo empilhará qualificações dessa natureza para o velho Jair, o verdadeiro coagido, em cuja goela querem – os aliados traidores – enfiar o acordão.

FIM DA DIREITA – A opção Tarcísio por futuro de um Jair livre representaria jogada para “exterminar a direita” – direita aqui entendida sob o modo totalitário bolsonarista. Eduardo pretende ser candidato a presidente com ou sem o apoio do pai; e reagiu dessa maneira, em entrevista ao Metrópoles, à possibilidade de também ele não poder concorrer. Apoiaria Tarcísio?

“Se eu estiver inelegível porque fui condenado pela minha atividade nos EUA, eu acho provável que os EUA não reconheçam a eleição do Brasil”.

Eduardo nos informa diariamente que o bolsonarismo eduardista, mais do que não reconhecer Tarcísio, não reconhecerá a legitimidade da eleição, a Magnitsky estacionada sobre o Brasil. Eduardo estará inelegível. Mais do que projetar candidatura, projeta a inevitabilidade da dissidência, projetada também a impossibilidade de controlá-la.

Bolsonaro é aconselhado a acionar Flávio para conter investida de Eduardo nos EUA

No balanço da gestão, Barroso saiu-se bem enfrentando a crise no Supremo

Roberto Barroso fará retiro espiritual

Barroso foi aplaudido ao deixar a presidência do Supremo

Vicente Limongi Netto

Merecidas duas páginas, com quatro fotos e chamada de capa do Correio Braziliense (29/09) para o elegante ministro Luís Roberto Barroso, em final de mandato, da presidência do Supremo Tribunal Federal (STF).

Espirituoso, cultuador esmerado do vernáculo, cantor nas horas vagas, Barroso aprecia artistas populares e gosta de citar frases e versos.

TOLICE – A meu ver, Barroso foi infeliz no episódio de Nova Iorque. Xingado por brasileiros, não conseguiu se conter e respondeu, “Perdeu, Mané”. Vai carregar a tolice por muito tempo.

Curiosidade do ministro que vai pautar os mais atilados:  respondendo a uma pergunta sobre a sonhada e difícil pacificação, Barroso deixou escapar o que seu faro político sugere para 2026:

“Nas eleições, por exemplo, o presidente Lula e o governador Tarcísio poderão disputar, cada um com suas propostas. Mas o debate deve ser civilizado, qualificado e sem ódio”.

PELA DEMOCRACIA – Barroso está convencido que suas atitudes e decisões, na jornada como presidente da Suprema Corte, contribuíram para fortalecer a democracia, a Constituição e a soberania.

Sem citar a jornalista e publicitária Cíntia Costa, autora da frase, Barroso frisou que ela explica bem a sua gestão:” Viver não é esperar a tempestade passar, é aprender a dançar na chuva”.

Nessa linha, Barroso poderia ter salientado versos da sublime Adélia Prado, que cabem bem no coração dele: “Não tenho tempo para mais nada. Ser feliz me consome”.

Eduardo rompe com centrão e se lança como herdeiro do bolsonarismo

Tarcísio encurralado: Fracassos e divisões minam projeto presidencial

Trump anuncia plano com Netanyahu para encerrar guerra em Gaza

Silenciado pelo medo: Juiz que condenou Beira-Mar denuncia omissão do Estado

Como dizia Ariano Suassuna, “sou contra a Morte e nunca hei de morrer”

Eu digo sempre que das três virtudes... Ariano Suassuna - PensadorPaulo Peres
Poemas & Canções 

O dramaturgo, romancista e poeta paraibano Ariano Vilar Suassuna, no poema “Abertura Sob Pela de Ovelha”, mostra a luta eterna do homem contra o envelhecimento e a morte.

ABERTURA SOB PELE DE OVELHA
Ariano Suassuna

Falso Profeta, Insone, Extraviado,
Vivo, Cego, a sondar o Indecifrável:
e, Jaguar da Sibila – inevitável,
meu Sangue traça a rota desse Fado.

Eu, forçado a ascender, eu, Mutilado,
busco a Estrela que chama, inapelável.
E a pulsação do Ser, fera indomável,
arde ao Sol do meu Pasto – incendiado.

Por sobre a Dor, Sarça do Espinheiro
que acende o estranho Sol, sangue do ser,
transforma o sangue em Candelabro e Veiro.

Por isso, não vou nunca envelhecer:
com meu Cantar, supero o Desespero,
sou contra a Morte e nunca hei de morrer

Anistia irrestrita ou nada! E o bolsonarismo explode em crise interna

Ministro do Republicanos rejeita anistia e vê apoio a Lula em 2026 como improvável

A difícil busca da oposição por um nome contra Lula em 2026

A tendência, até agora, é que o tabuleiro se incline a favor de Lula

Pedro do Coutto

A cena política brasileira caminha para um quadro peculiar à medida que se aproximam as eleições de 2026. Sem Tarcísio de Freitas, que já confirmou que disputará a reeleição em São Paulo e desistiu de qualquer ambição presidencial, a oposição se vê diante de um vazio. Até aqui, nenhum outro governador ou liderança consegue reunir carisma, estrutura partidária e musculatura política suficiente para se contrapor a Luiz Inácio Lula da Silva.

Nomes como Ratinho Júnior, no Paraná, Ronaldo Caiado, em Goiás, ou Romeu Zema, em Minas Gerais, aparecem nos cenários, mas enfrentam dificuldades concretas: falta de projeção nacional, limitações de alianças e, sobretudo, a exigência legal de desincompatibilização seis meses antes da eleição, o que significaria deixar o governo em abril de 2026. Na prática, isso enfraqueceria suas bases e os exporia a riscos desnecessários.

SEM EFEITO – Pensar em lançar Eduardo Bolsonaro como candidato não vai surtir efeito. A sua aproximação com o governo de Washington enfraquece sua posição, pois ressoa negativamente aos ouvidos do eleitorado a campanha que ele procura fazer. Além disso, Eduardo permanece limitado ao campo mais radicalizado da direita, incapaz de dialogar com setores mais amplos da sociedade que seriam indispensáveis para qualquer candidatura presidencial vitoriosa.

Enquanto isso, Lula tem à disposição a força da máquina administrativa, que, como a história brasileira demonstra, sempre atua com peso nos processos eleitorais. Pesquisas recentes apontam que ele mantém liderança em todos os cenários testados, apesar de lidar com níveis elevados de rejeição. Essa combinação mostra um paradoxo: há espaço para contestação, mas falta quem ocupe esse espaço de maneira convincente.

Ratinho Júnior desponta como nome viável, mas ainda limitado ao seu reduto paranaense. Caiado mantém prestígio regional, mas pouco apelo fora de Goiás. Zema, que em 2022 era visto como promessa, não conseguiu traduzir seu estilo de gestão mineira em um projeto nacional consistente.

FRAGILIZAÇÃO – Sem Jair Bolsonaro, inelegível e em desgaste com parte da própria base, sem Tarcísio, que preferiu apostar na segurança de São Paulo, e sem Eduardo, que não empolga além do nicho radical, o campo oposicionista chega fragilizado a um momento em que precisaria mostrar coesão e capacidade de mobilização.

A tendência, até agora, é que o tabuleiro se incline a favor de Lula, que deve capitalizar a ausência de rivais fortes e a dispersão das forças adversárias. A menos que surja um nome surpresa capaz de empolgar o eleitorado e unificar correntes políticas diversas, a disputa caminha para se transformar em um duelo de resistência da oposição contra a força de um incumbente ainda amplamente competitivo.

Fachin chega à presidência do STF e deixa Lava Jato para trás

Vaidade, mentira e egoísmo são hoje valores morais; ter filhos, não

A ilustração de Ricardo Cammarota foi executada em técnica pastel oleoso sobre papel, em tons monocromáticos esverdeados. Mostra duas figuras humanas estilizadas, uma de frente para a outra, cada qual segurando um celular com os braços estendidos. As cabeças são ovais, ocas, com grandes aberturas retangulares no lugar dos rostos, lembrando telas vazias. Ambas parecem mirar seus aparelhos, que se tocam no centro da composição. O fundo é preenchido com textura densa de traços verticais claros sobre superfície escura.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

Como podemos saber quais seriam os valores no século 21? A pergunta é rica em possíveis caminhos reflexivos e, por isso mesmo, muito interessante. Mas suspeito que qualquer reflexão mais consistente sobre esta questão não satisfaria as expectativas mais afeitas ao senso comum no que tange a temas que transitam por ética ou moral.

O sapiens parece tirar bastante prazer da ideia de que ele defina os valores em que acredita. Temo que não funcione assim, apesar de que eu estaria cometendo um pecado capital ao dizer isso.

DIZIA KANT – O grande filósofo Kant, no século 18, alimentava uma ideia semelhante, crendo que, uma vez provado que seria racional agir de forma x, agiríamos de forma x. Essa ideia ficou conhecida como imperativo categórico: “aja de forma tal em que sua ação seja erguida em norma universal de comportamento”.

Por exemplo, quando for fazer x, se pergunte se todo mundo poderia fazer x. Se não, não faça x. Busque outro curso de ação em relação ao problema em questão. Apesar da elegância da fórmula, e de reconhecer que seria uma ideia boa para o convívio em grupo, e que de fato ajuda quando viável, não creio que o sapiens seja capaz de agir assim só porque seria racional pensar no todo antes de fazer algo. E digamos de passagem que Kant não estava pensando exatamente em “valores” como hoje se costuma falar em qualquer propaganda de banco.

TABELA DE VALORES – O senso comum entende que respondemos à pergunta que fiz na abertura dessa coluna acima a partir de uma abordagem pedagógica, isto é, ensinando as pessoas, nossas empresas, nossa família, o que quer que esteja em jogo, os valores certos que devemos ter.

Muitos chegam mesmo a propor uma tabela de valores a serem seguidos ou tomados como “nosso DNA ético”. A fórmula chega mesmo ao cúmulo do ridículo, mas o século 21 é o mais ridículo desde o paleolítico superior.

Nesse movimento, normalmente, seguimos na direção de uma pedagogia moral —ou política, o que seria ainda mais canalha estruturalmente— que pregaria valores como integridade, humanidade, honestidade, transparência, generosidade, e por aí vai. A lista é tão bela que faria almas mais sensíveis derramar lágrimas de amor à humanidade e a quem afirma ter tantos valores perfeitos idealmente.

APENAS EM TEORIA – Arrisco dizer que para quem de fato gostaria de pensar acerca dos “valores no século 21”, a melhor abordagem seria um olhar sociológico sobre o que de fato valoramos, ou não atribuímos valor algum, em nosso cotidiano individual, social e político, porque, como sabemos, não existem valores —ou virtudes— teóricos, mas apenas práticos.

A ética é, sempre foi, e sempre será, como dizia o grande Aristóteles (384-322 a.C), uma ciência da prática.

Alguém já viu alguém ser corajoso em teoria? Generoso em teoria? Honesto em teoria? Evidentemente que não, a não ser que a pessoa em questão seja um político de carreira.

REINA A HIPOCRISIA – Um problema a priori que impacta toda reflexão sobre valores é que a hipocrisia é a substância da moral pública. Hoje, talvez, mais do que nunca, porque quase 100% da humanidade sinaliza virtude no Instagram. Valores hoje são objeto do marketing e do branding, ciências sociais aplicadas da mentira como método.

Aliás, o que podemos depreender dessas práticas listadas no parágrafo imediatamente acima? Podemos depreender que a vaidade moral —sinalizar virtude no Instagram— é algo que valoramos muito neste século 21, já que todo mundo reconhece na vaidade moral uma prática que agrega valor a sua marca pessoal ou da sua empresa.

Por outro lado, se as ciências máximas da mentira no século 21, a saber, o marketing e o branding, são aplicadas hoje em todos os níveis da atividade humana, tais como saúde mental, instituições escolares, religião, revoluções políticas, causas sociais e ética, podemos deduzir que um valor no século 21 é a mentira como ferramenta profissional.

COMO PROCEDER? – Entendeu como proceder para identificar um valor ou desvalor na prática social? Veja o que as pessoas acreditam que agrega valor a elas e, portanto, praticam de fato, e não o que elas dizem que valoram ou negam valor. Em resumo: não importa o que falam, mas o que fazem, aliás, uma ideia que até crianças conhecem, menos os “adultos” do século 21.

Outro exemplo: filhos são um não valor no século 21, porque caso fossem um valor, as pessoas os teriam, mas como não os têm, evidentemente veem a prática de pôr crianças no mundo como um não valor, logo, o valor que decorre dessa prática é não assumir responsabilidade por ninguém.

Enfim, resumindo: vaidade moral, mentir e egoísmo são valores no século 21. Ter filhos, não.