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Fávaro deve deixar o cargo para se candidatar ao Senado
Jeniffer Gularte
O Globo
Com resistências em parte do agronegócio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma disputa dentro do governo pela sucessão de Carlos Fávaro no Ministério da Agricultura. O titular da pasta deve deixar o cargo em abril, para se candidatar a uma vaga no Senado por Mato Grosso, e sua substituição tem sido alvo de cobiça por integrantes do PSD e do PT.
A troca é vista como complexa, pois a pasta define as políticas agrícolas do governo, a distribuição de emendas parlamentares para a área e é responsável por bater o martelo no Plano Safra — principal fonte de crédito aos agricultores. É, na prática, a ligação direta de Lula com o setor que historicamente é arredio ao petista e foi um dos pilares da eleição de Jair Bolsonaro.
COTADOS – Entre os cotados para assumirem o posto estão nomes que atualmente fazem parte do ministério, como Carlos Ernesto Augustin, filiado ao PT, assessor especial de Fávaro na pasta e presidente do conselho de administração da Embrapa, e Cleber Soares, secretário adjunto da Secretaria Executiva, considerado de perfil mais técnico.
O PSD, partido ao qual Fávaro é filiado, reivindica manter a influência na pasta. Atualmente, o ministério integra a cota da legenda do Senado, mas a bancada da Câmara reivindica o espaço junto ao Palácio do Planalto depois de ter sido preterida na sucessão do Ministério do Turismo, com a troca de Celso Sabino e a entrada de Gustavo Feliciano, em um movimento que beneficiou um aliado de Hugo Motta (Republicanos-PB).
Embora tenha três potenciais presidenciáveis opositores a Lula — Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior —, a legenda de Gilberto Kassab mantém três ministérios no governo Lula (Agricultura, Pesca e Minas e Energia), e o Planalto busca manter proximidade com uma ala do partido para tentar apoio em palanques estaduais ou mesmo costurar neutralidade na campanha presidencial.
OPÇÃO – O ministro da Pesca, André de Paula, é visto como a opção que mais agradaria ao PSD, tanto na Câmara quanto no Senado. De Paula, porém, também tem planos de deixar o cargo para disputar uma vaga de deputado federal por Pernambuco, com apoio da governadora Raquel Lyra (PSD). Aliados do ministro afirmam que o cargo seria dele, se assim desejasse, mas ponderam que não podem constrangê-lo a assumir a pasta por oito meses e renunciar à possibilidade de ser eleito deputado pela sétima vez.
O ministro, que hoje ocupa uma pasta que tem um dos menores orçamentos da Esplanada, foi chamado para uma reunião com Lula na Granja do Torto. Procurado, De Paula não se manifestou.
No início do ano, Lula pediu aos ministros que escolhessem pessoas das suas pastas e evitassem malabarismos para a substituição do comando dos ministérios. A estratégia foi definida para evitar que haja uma quebra no ritmo de entregas de obras e projetos, o que poderia gerar uma paralisia do governo em um ano em que o presidente precisa elevar a sua popularidade para disputar a reeleição. A tendência é que quase metade da Esplanada passe por mudanças por causa das eleições.
NA DISPUTA – No Ministério da Agricultura, além de Fávaro, outros secretários que poderiam assumir o comando da pasta também sairão para concorrer. É o caso do secretário-executivo, Irajá Lacerda, que será candidato a deputado federal por Mato Grosso, e o titular da Secretaria de Política Agrícola, Guilherme Campos, que vai disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo.
A disputa pela sucessão de Fávaro ocorre em um momento em que o governo busca preservar pontes com o agronegócio — setor central para a balança comercial e para a política externa brasileira — e não dar munição para desgastes que possam ser explorados pela oposição. Nos bastidores, auxiliares de Lula reconhecem que a escolha precisa, além de combinar critérios técnicos, evitar a abertura de uma fissura com o PSD e representar sinalizações políticas ao setor produtivo.
Integrantes do PT, por sua vez, argumentam que a escolha de Augustin para o posto daria continuidade à gestão de Fávaro. Os três presidenciáveis do PSD são usados por petistas como argumento de que Lula deve dar preferência ao partido petista e não à legenda de Kassab na sucessão na pasta.
DIFERENTES APOIOS – Além de apoio da cúpula petista, Augustin tem apoio de entidades do setor, como Aprosoja e da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). É um dos nomes de confiança de Fávaro, mas não conta com aval do PSD. Aliados de Augustin avaliam que a manutenção de um perfil com diálogo no agro será decisiva para evitar ruídos em pleno ano eleitoral e manter as digitais do trabalho feito por Fávaro na pasta.
— Qualquer pessoa que venha de fora nesse momento, até se inteirar do que está acontecendo, do que está em andamento, já será o momento de ir embora. Uma pessoa de dentro do ministério tem mais capacidade de dar continuidade aos projetos em andamento. É difícil alguém de fora se inteirar de tudo em tão pouco tempo — diz Augustin.
Na campanha de 2022, Augustin foi, ao lado de Fávaro, um dos poucos nomes que defenderam Lula no agronegócio. Juntos, ambos ajudaram a reunir dados e informações para preparar o presidente em debates sobre o tema e buscaram quebrar resistências do setor.
PESO DA ESCOLHA – O cenário que levou Fávaro ao ministério também ajuda a explicar o peso da escolha na reta final do governo Lula. Na época, sua indicação foi vista, ainda na transição de governo, como gesto de aproximação de Lula com produtores rurais e lideranças do Centro-Oeste, num esforço para reduzir resistências do setor ao novo governo.
Fávaro, no entanto, embora seja um auxiliar elogiado por Lula pela abertura de mercados internacionais, teve dificuldade em quebrar resistências com o segmento. Ainda assim, o entorno de Lula no Planalto e o PSD avaliam que a opinião do ministro terá peso importante na escolha final de Lula de seu substituto. Procurado, Fávaro não quis comentar.
NOVO PERFIL – O governo Lula deve ganhar uma nova cara a partir de abril com a saída de ministros que vão disputar a eleição. Além da sucessão na Agricultura, a tendência é que cerca de metade da Esplanada passe por mudanças. O plano do Planalto é que a maioria dos substitutos sejam os atuais secretários executivos das pastas, que, em geral, possuem um perfil mais técnico do que político.
Lula definiu a estratégia para evitar que haja uma quebra no ritmo de entregas de obras e projetos, o que poderia gerar uma paralisia do governo em um ano eleitoral. No mês passado, Ricardo Lewandowski — não por motivo eleitoral — puxou a fila ao deixar a pasta de Justiça e Segurança Pública. No seu lugar, assumiu Wellington César.
Entre os ministérios do Palácio do Planalto, estão previstas mudanças na Casa Civil e na Secretaria de Relações Institucionais (SRI). Rui Costa, titular da primeira pasta, deve concorrer ao Senado pela Bahia. A expectativa é que o cargo fique com a secretária Miriam Belchior, ministra do Planejamento no governo Dilma Rousseff. Já a chefe da SRI, Gleisi Hoffmann, deve concorrer pelo Paraná e já anunciou que Olavo Noleto, atual secretário-executivo do “Conselhão” da Presidência, assumirá o seu lugar.
PRESSÃO – O ministro Fernando Haddad (Fazenda) é pressionado a disputar o governo de São Paulo e há a possibilidade ainda de Sidônio Palmeira trocar a Secom pelo comando do marketing da campanha de Lula à reeleição.
Fora do Planalto, são consideradas certas as saídas dos ministros Marina Silva (Meio Ambiente), Simone Tebet (Planejamento), Jader Filho (Cidades), Waldez Goés (Integração Nacional), Renan Filho (Transportes), Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos), Wolney Queiroz (Previdência), Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário), André Fufuca (Esporte), André de Paula (Pesca), Macaé Evaristo (Direitos Humanos), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Anielle Franco (Igualdade Racial).