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Partido vê risco de uso político de trechos da colaboração
Jussara Soares
CNN
O PT teme que uma eventual rejeição da proposta de delação do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, leve a vazamentos seletivos de trechos da colaboração. A avaliação na sigla é que o ex-banqueiro não apresentará provas suficientes para sustentar as acusações e terá o acordo recusado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O receio é que, caso a proposta seja rejeitada, trechos da delação passem a ser usados politicamente por meio de vazamentos à imprensa. O alerta tem sido feito por advogados à cúpula do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em meio às incertezas sobre o avanço de um possível acordo de Vorcaro.
PROPOSTA DE DELAÇÃO – A defesa de Vorcaro entregou na última semana a proposta de delação à PGR (Procuradoria-Geral da República) e à PF (Polícia Federal) no âmbito da investigação que apura as fraudes financeiras do Banco Master. Como mostrou a CNN, o dono do Master narra datas, horários e cidades sobre encontros, reuniões, festas e viagens com políticos. Segundo interlocutores com acesso às informações, há citações a políticos de direita, de esquerda, mas principalmente de centro na proposta de delação.
A preocupação no PT é com o quanto a delação de Vorcaro citará integrantes da sigla na Bahia. O dono do Banco Master era sócio do empresário Augusto Lima, que tem histórico com governos petistas no estado. O receio é que eventuais detalhes da relação de Lima com petistas, na versão de Vorcaro, sejam divulgados sem provas, dando origem a uma exploração política em pleno ano eleitoral.
A cúpula do PT tem defendido que a pré-campanha de Lula não fique acuada diante do Caso Master e enfrente o tema da corrupção, considerado sensível para a sigla diante de desgastes históricos como o Mensalão e a Lava Jato. Na visão de integrantes do partido, a melhor estratégia é sustentar que as investigações envolvendo o Banco Master e o INSS avançaram no governo Lula.
Os negócios da política e o caso Master
O avanço das apurações do caso Master produzirá reações políticas cada vez mais intensas. Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. É um dos líderes mais influentes do Centrão
Com todos os seus ingredientes, o caso Master dispensa a ficção de um romance policial noir. Banqueiros, executivos, políticos, magistrados, o cadáver de um suicida numa cela da PF. Uma história na qual a corrupção, mais do que naturalizada, é institucionalizada.
A nova ação da Polícia Federal, o que há de mais competente e íntegro no sistema de segurança, foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Seu foco são as relações entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o banqueiro Daniel Vorcaro, o dono do banco Master, cujas revelações elevaram as investigações a um novo patamar.
Ao alcançar Nogueira, um dos principais articuladores do Centrão e figura estratégica da oposição ao governo Lula, a Polícia Federal ingressa numa zona sensível, na qual qualquer passo em falso pode comprometer não apenas o destino do inquérito, mas também a credibilidade das instituições encarregadas de conduzi-lo.
A proximidade entre Ciro Nogueira e o banqueiro Daniel Vorcaro já era conhecida nos bastidores de Brasília. Há outros políticos e magistrados no vasto círculo de amizade e, digamos, relações institucionais do banqueiro.
Pagamentos mensais, aquisição de participação societária com deságio expressivo, custeio de viagens internacionais e suposta elaboração de emenda constitucional pelo próprio banco são indícios de atividades criminosas, mas quem acompanha os bastidores da política sabe que esse modus operandi da “política como negócios” predomina no Congresso e contaminou o Judiciário.
Quem quiser que atire a primeira pedra. O que espanta mais é a escala. O avanço das apurações produzirá reações políticas cada vez mais intensas.
Ciro Nogueira não é um parlamentar periférico. Trata-se de um dos líderes mais influentes do Centrão, ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, presidente nacional do PP e peça-chave na articulação do conservadorismo brasileiro.
Qualquer movimento contra ele terá repercussões no Congresso, nas alianças eleitorais de 2026 e nas relações entre a PF e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Circunscrever o caso ao escândalo financeiro é a receita pronta para o inquérito virar uma pizza napolitana. Restará a literatura policial para um dia recontar essa história ao estilo noir.
Fonte: Correio Braziliense, Nas Entrelinhas, 10/05/2026 – 08:41 Por Luiz Carlos Azedo