Pressão de Trump fortalece narrativa de Lula, mas efeitos têm prazo de validade

Com ações recorrentes, Trump pode ser um tiro pela culatra

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

“O Brasil não é para principiantes.” Atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

CONFRONTO – Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os objetivos nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

REORGANIZAÇÃO DA DIREITA – A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia brasileira. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

RESILIÊNCIA – Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nessa quarta-feira, mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

IMPACTO ECONÔMICO – A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de determinados produtos de exportação. Isso repercute eleitoralmente nos setores e nos estados mais atingidos.

2 thoughts on “Pressão de Trump fortalece narrativa de Lula, mas efeitos têm prazo de validade

  1. Blá, blá, blá, blá, blá, sabe, soberania, blá,blá,blá,blá

    Blá, blá, blá, blá, blá, sabe, soberania, blá,blá,blá,blá, me dá um gole de pinga, Blá, blá, blá, blá, blá, sabe, soberania, blá,blá,blá,blá, Blá, blá, blá, blá, blá, sabe, soberania, blá,blá,blá,blá, soberania….

    A desgraça maldita aberração de nove dedos disse que vai para o 6o mandato porque tem uma dívida com os idosos deste Páis…..

    È ou não é um filho de um vagabundo…..

  2. Para Trump, o pragmatismo econômico supera a ideologia política

    Ao negociar petróleo com o chavismo na Venezuela, ele virou as costas para figuras da oposição que antes apoiava, a exemplo de María Corina Machado.

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    E Barba pode tirar o “pão” da boca dos Bolsonaros

    O petista pode se antecipar aos Bolsonaro na entrega do Brasil aos interesses dos EUA

    Ao declarar que pretende conversar com Trump, Lula pode adotar uma estratégia semelhante à da chavista Delcy Rodríguez, ‘presidente’ da Venezuela, que cedeu o controle de riquezas nacionais a interesses norte-americanos.

    Além disso, ao buscar esse contato de forma antecipada, Lula disputará com a família Bolsonaro o mesmo espaço político de barganha com os Estados Unidos, reforçando o risco de submeter (antes dos Bolsonaro) o Brasil aos interesses de Trump.

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    Com ampla experiência em negociações, Lula já adotava essa prática desde as greves de São Bernardo do Campo: enquanto discursava aos trabalhadores, nos bastidores ele tratava de acordos diferentes com os patrões de multinacionais americanas e europeias (como Ford, Volkswagen, Mercedes-Benz e Scania.

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