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Lula percebe que o episódio oferece uma oportunidade eleitoral
Pedro do Coutto
A decisão do governo Lula de iniciar o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos representa mais do que uma resposta comercial ao tarifaço de Donald Trump. É também um movimento diplomático, uma demonstração de soberania e uma escolha política num momento em que a relação entre Washington e Brasília passou a interferir diretamente no debate eleitoral brasileiro.
É importante, porém, fazer uma distinção. Lula não determinou a cobrança imediata de uma tarifa equivalente sobre produtos americanos. O governo acionou formalmente o mecanismo previsto na legislação, que abre uma etapa de consultas e avaliação antes de eventuais contramedidas. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) deverá analisar os impactos das medidas americanas, enquanto o Itamaraty comunicou aos Estados Unidos a abertura do processo e a intenção de buscar uma solução negociada.
ESPAÇO PARA NEGOCIAÇÃO – A diferença não é meramente técnica. Revela que Brasília tenta preservar espaço para a negociação sem abrir mão da possibilidade de retaliação. A lei, sancionada em 2025, permite ao Brasil adotar respostas que não se limitam a tarifas, incluindo restrições comerciais e outras formas de suspensão de concessões. O governo tem insistido que qualquer reação deverá ser proporcional aos prejuízos e conduzida com cautela.
Há, portanto, uma estratégia de contenção por trás de uma decisão que poderia parecer apenas uma escalada. Lula precisa responder à ofensiva de Trump sem transformar a disputa comercial em uma guerra econômica capaz de produzir efeitos sobre empresas, empregos, preços e consumidores brasileiros. As tarifas americanas já representam um problema concreto para setores dependentes do mercado dos Estados Unidos.
DIMENSÃO POLÍTICA – Mas há uma segunda dimensão, talvez ainda mais importante: a política. A crise comercial deixou de ser apenas uma questão de comércio exterior quando Donald Trump passou a se aproximar de setores da direita brasileira e aliados de Flávio Bolsonaro passaram a utilizar o conflito para atacar Lula. O senador e pré-candidato do PL chegou a responsabilizar o presidente pelo tarifaço, numa tentativa de transferir para Brasília o custo político de uma decisão tomada em Washington.
É nesse ponto que a reciprocidade ganha outra função. Lula não precisa apenas proteger exportadores. Precisa disputar a interpretação dos fatos. Se a narrativa da oposição for a de que o presidente provocou os Estados Unidos e, por isso, trouxe prejuízos ao Brasil, o governo corre o risco de perder politicamente mesmo sem ser responsável pela imposição das tarifas. Se conseguir apresentar a medida como reação proporcional a uma agressão comercial externa, poderá transformá-la em demonstração de autonomia nacional.
LIMITES – Essa disputa narrativa, contudo, tem limites. Não basta dizer que o Brasil está defendendo sua soberania. O governo terá de demonstrar que suas decisões produzem resultados concretos. Uma retaliação mal calibrada pode atingir empresas brasileiras dependentes de insumos americanos e aumentar custos internos. Uma resposta excessivamente dura também pode dificultar a negociação que Brasília afirma querer preservar. O ministro Márcio Elias Rosa defendeu prudência no processo de retaliação e a manutenção do diálogo com Washington.
Ao mesmo tempo, seria um erro político de Lula deixar o tema exclusivamente nas mãos da oposição. Trump transformou tarifas em instrumento de pressão econômica e política. O Brasil precisa mostrar que não está disposto a aceitar uma relação em que decisões de Washington sejam recebidas passivamente por Brasília.
A reciprocidade, nesse sentido, funciona como instrumento de poder. Mesmo que a retaliação efetiva não venha a ocorrer, a possibilidade de adotá-la altera a posição brasileira na mesa de negociação. O objetivo mais inteligente não é necessariamente punir os Estados Unidos, mas elevar o custo de uma política unilateral e criar incentivos para que os americanos revejam suas medidas.
OPORTUNIDADE ELEITORAL – Lula também percebe que o episódio oferece uma oportunidade eleitoral. Em 2026, política externa deixou de ser assunto distante da vida cotidiana. Tarifas podem significar preços, empregos, investimentos e pressão sobre setores produtivos. A disputa sobre quem é responsável pelos efeitos do tarifaço já está incorporada à campanha.
Por isso, o gesto de Lula precisa ser lido em duas camadas. Na primeira, é uma reação institucional a uma política comercial americana considerada injustificada. Na segunda, uma tentativa de impedir que Flávio Bolsonaro e seus aliados transformem a pressão de Trump contra o Brasil em vantagem eleitoral para a oposição.
O risco, contudo, é confundir firmeza com espetáculo. Lula tem a oportunidade de mostrar que o Brasil pode reagir sem reproduzir a lógica de confronto permanente que caracteriza Trump. A melhor resposta será aquela capaz de combinar negociação, proteção da economia brasileira e defesa da autonomia nacional.
ESTRATÉGIA ECONÔMICA – A eleição estará inevitavelmente no horizonte. Mas o desafio do presidente é não permitir que o cálculo eleitoral comprometa a estratégia econômica. Se conseguir separar essas duas dimensões, a reciprocidade poderá ser uma ferramenta de negociação. Se não, o que hoje parece demonstração de força poderá se transformar em mais um capítulo da polarização brasileira.
No fundo, a disputa não é apenas sobre tarifas. É sobre quem conseguirá definir o significado político do conflito. Trump quer impor custos ao Brasil e testar os limites de sua reação. Lula quer mostrar que o país não aceita ser tratado como subordinado. E a oposição tentará convencer o eleitor de que a resistência do governo é, na verdade, a origem do problema. É essa batalha de narrativas — e não apenas a guerra tarifária — que começa a ganhar peso na eleição de 2026.
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2026/noticia/2026/08/15/romario-deixa-o-pl-e-anuncia-apoio-a-candidatura-de-paes-no-rj.ghtml
Quando se tenta conciliar diferenças, é preciso vasilinar os argumentos para tornar a tarefa mais fácil.
Portanto, essa reação de sobretaxar os Estados Unidos pode dificultar ainda mais o comércio entre nossos dois países. É mister lembrar que o líder do lado de lá não pensa como uma pessoa racional.
E, o do lado de cá nunca foi racional. Sempre bêbado e completamente irracional.
A embriaguez eleitoreira precisa criar um mundo da fantasia:
“Há espaço, mesmo com essa farra do boi dos togados, para estancar a sangria tributária e baixar os juros fatais”
“O endividamento crescente que você está sentindo no bolso pode ser disfarçado”
“Tome mais dívida. Você é o único. Acredite no milagre”.
“Estamos na era do pleno emprego”
“Sem produtividade. Sem infraestrutura. Apenas consumo e endividamento”
Errar uma vez
É humano
Passar três décadas
Repetindo o mesmo erro
Enquanto país
É muito triste.