Charge do Clayton (Instagram)
Ana Luiza Albuquerque
Folha
O recente fortalecimento do Congresso Nacional ocorreu apoiado em regras informais que concentraram o poder nas presidências de cada Casa, esvaziando o trabalho de outras instâncias, como as comissões, e reduzindo a previsibilidade e a transparência. É esse o diagnóstico de documento divulgado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso neste mês.
Esse é o segundo “policy paper” de uma série produzida pela instituição a respeito dos desafios institucionais e da formulação de propostas para o aprimoramento da democracia brasileira. O primeiro, publicado em outubro do ano passado, teve como foco o STF (Supremo Tribunal Federal). Esse tipo de documento consiste em um texto técnico que analisa um problema e propõe soluções.
MAIOR PROTAGONISMO – Nesta análise, a pesquisadora Beatriz Rey, da Universidade de Lisboa, e Sergio Fausto, diretor da fundação FHC, partem do princípio de que, nas últimas duas décadas, o Congresso passou a exercer “maior protagonismo na definição da agenda pública e das políticas governamentais”. Isso é observado, segundo os autores, tanto no aumento da produção legislativa como na diversificação dos temas que passaram a ser objeto das leis.
Eles ressaltam, porém, que o fortalecimento do Congresso por si só não deve ser visto com desconfiança —o problema foi a maneira pela qual isso ocorreu. “Este documento sugere que parcela importante desse fortalecimento ocorreu precisamente por vias informais, o que produziu distorções que afetam desde o funcionamento das comissões permanentes até o uso das emendas orçamentárias e a organização da agenda legislativa”, diz o texto.
Um exemplo é o sistema de votação híbrido, que permitiu a participação remota em meio à pandemia da Covid-19, mas que acabou mantido em algumas sessões mesmo com o fim da emergência sanitária. Em 2021, escrevem os autores, a PEC dos Precatórios foi votada com a participação remota de parlamentares que estavam em Glasgow, na Escócia, para a COP26.
DELIBERAÇÃO REMOTA – “Essa discricionariedade da Presidência da Câmara é muito preocupante, pois permite que a deliberação remota continue sendo utilizada, em muitos momentos, de maneira informal”, diz Rey à Folha. Com a dispensa da biometria, afirma, o presidente da Casa pode facilitar a obtenção do quórum em votações nas quais está interessado.
Outro exemplo é o colégio de líderes, instância formada pela liderança dos partidos e que ajuda a organizar a agenda que será levada ao plenário. No documento, os pesquisadores indicam que, nas últimas legislaturas, o grupo passou a existir “em uma zona intermediária entre a formalidade e a informalidade”, se reunindo, inclusive, em instalações fora da Câmara.
SEM REGRAS – Rey afirma que na gestão do ex-presidente Arthur Lira (PP-AL) não se sabia sequer se a reunião do colégio de líderes estava acontecendo. Um dos líderes contou a ela que, ao chegar para o encontro, foi perguntado por Lira sobre o que estava fazendo ali. “Não à toa, Hugo Motta [atual presidente da Câmara] deixou as reuniões públicas porque era uma insatisfação dos próprios parlamentares. Se você fica sem as regras respeitadas, a personalidade do presidente da Câmara vai influenciar como os trabalhos serão conduzidos.”
Para produzir o diagnóstico e propor recomendações, Rey e Fausto contaram com um grupo de discussões que envolveu figuras como o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia e o ex-deputado Marcus Pestana.
Entre as recomendações, estão a retomada da deliberação presencial como regra geral, o fortalecimento das comissões, a definição de critérios mais rígidos para o apensamento de proposições, o restabelecimento das comissões mistas para análise de medidas provisórias e a formalização do Colégio de Líderes.
EMENDAS – A questão das emendas orçamentárias, pauta mais sensível entre as que envolvem o Congresso neste momento, aparece no documento na seção sobre os temas para uma futura agenda de reforma. “A gente pensou que é um tema tão importante que merece um documento à parte”, diz Rey.
Os autores recomendam que as emendas passem a ser formuladas pelas respectivas comissões e que o limite financeiro “deixe de estar vinculado à receita corrente líquida ou ao orçamento do exercício anterior corrigido pela inflação”. Na conclusão, Rey e Fausto afirmam que as mudanças dependem da capacidade do Congresso de construir “um movimento de autorregulação institucional à altura dos desafios que enfrenta”.
EXPECTATIVA – A pesquisadora diz que a esperança é que os parlamentares leiam o documento e que ele sirva como fonte de inspiração para a apresentação de projetos que mudem o atual regimento. “Estou esperançosa porque sei que tem insatisfação dentro do Congresso em relação a isso. Acho que é um problema menos sensível do que o das emendas orçamentárias, por exemplo. Quanto a isso, estou bastante pessimista. Quando se ganha mais poder, é difícil ceder”, afirma.
Rey conta que estava na Câmara na ocasião da eleição do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) e que ouviu de parlamentares, da direita à esquerda, que “estava difícil trabalhar porque o processo estava ficando imprevisível”. “É difícil para os parlamentares, para a imprensa, para nós, do meio acadêmico, para o cidadão. Essas são decisões sobre políticas públicas. Uma política que é decidida quando se diminui o espaço de deliberação vai ser empobrecida.”
Com Trump e bandeira americana, Flávio ameaça o Brasil com um outro tipo de golpe
Os EUA e Trump estão no centro da campanha eleitoral do Brasil e isso não vai parar, só piorar, com Lula usando a “soberania nacional” como sua principal bandeira e Flávio Rachadinha trocando o slogan “Pátria e Família” por imensas bandeiras americanas nos seus palanques.
Esse contraste pode ser mais um erro de Flávio, um novo tiro no pé, num momento em que Trump e seu franco atirador Marco Rubio aumentam a pressão e acrescentam mais ameaças ao Brasil, além dos tarifaços que causam prejuízos à economia, aos negócios, a empregadores e empregados do Brasil.
Não há como descartar, porém, um outro golpe contra o Brasil: o da entrega do País, de bandeja, para os EUA.
Lula não vai desperdiçar a chance de explorar que Flávio ofereceu uma “equipe de transição” para os EUA, se for eleito, o que foi lido como um contrato: Trump interfere na eleição e Flávio paga dando o que ele quiser depois.
O Brasil é um País enorme e de riquezas extraordinárias, que incluem petróleo, que Trump adora, e terras raras, onde está o futuro.
E Trump pode exigir, por exemplo, que os EUA exportem etanol de milho para o Brasil – que tem o etanol de cana, melhor sob vários ângulos – e que os bancos, cartões e plataformas americanos não sofram qualquer fiscalização ou restrição no País.
Também não está fora do radar a possibilidade, ou melhor, o enorme temor, de o governo Trump usar suas próprias regras e leis para aventuras militares nas nossas fronteiras, no nosso território ou águas internacionais, sob o pretexto de combater o PCC e o CV.
Não se esqueçam que Flávio já manifestou “inveja” quando Trump passou a bombardear embarcações da Venezuela, como ensaio, ou teste, para invadir o País, sequestrar Nicolas Maduro e dedicar uma das maiores reservas petrolíferas do mundo para… empresas americanas.
Tudo isso, inclusive a tentação de “agir” contra PCC e CV, já vem sendo sinalizado abertamente, ora por Trump, ora por Rubio e, vez ou outra, por assessores de primeiro, segundo ou até terceiro escalão.
E é esse Trump, que já acusou e volta a acusar o Brasil de censura e de não ser democrático, o mesmo que acaba de puxar o tapete da democrática Coréia do Sul para se pendurar em Kim Jong-Un, o ditador alucinado da Coréia do Norte.
Trump não está nem aí para democracia, só pensa em poder, dominação e dinheiro e se alia aos que possam lhe garantir isso. À custa do quê? Da soberania dos seus países.
Os bolsonaristas engolem qualquer versão. Além de correr o risco de ficar refém de Trump, se vencer, Flávio está brincando com fogo na eleição.
Fonte: O Estadão, Política, Opinião, 17/08/2026 | 21h13 Por Eliane Cantanhêde