
Lula e Flávio apostam em protagonismo de vices
Danilo Moliterno
CNNOs vices do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Alfredo Gaspar (PL) e Geraldo Alckmin (PSB), ganharam protagonismo e agendas próprias de suas respectivas campanhas para a reta final do segundo turno das eleições.
Alagoano, Alfredo Gaspar é uma das apostas de Flávio para reduzir a vantagem de Lula no Nordeste. O deputado federal realiza um périplo e deve visitar todos os estados da região neste segundo turno. Até aqui, o parlamentar já passou por seu estado natal, por Sergipe e Pernambuco.
MENOR DIFERENÇA – Alagoas foi o estado em que Lula teve a menor diferença ante Flávio no Nordeste: 54,73% a 40,45%. Além disso, a direita repetiu a última eleição e só venceu em uma capital da região: Maceió, justamente a terra de Alfredo Gaspar.
O parlamentar, que comandou a pasta de Segurança Pública de seu estado no passado, também é visto como um ativo para a discussão sobre o tema. Aliados de Flávio Bolsonaro ventilam até nomeá-lo para o Ministério da Justiça caso o senador vença a corrida pelo Palácio do Planalto.
MAIS ESPAÇO – Alckmin também ganhou mais espaço na campanha para o segundo turno. A avaliação de fontes próximas ao petista é de que o potencial do vice-presidente de atrair votos moderados não foi explorado o suficiente no primeiro turno.
Alckmin é uma aposta para reduzir a resistência do interior do estado, que tem mais de 30 milhões de habitantes, ao presidente Lula. A campanha do presidente Lula ainda cogita sinalizar que Alckmin seria o ministro da Fazenda caso o petista alcance a reeleição. A avaliação é de que o nome seria um aceno a eleitores independentes e ainda indecisos, mas também para empresários e investidores.
Flávio Rachadinha se empolgou achando que os votos de Cury, Renan Santos, Caiado e Zema no 1º turno seriam seus no 2º turno.
A realidade, contudo, frustrou suas expectativas vazias (não previu a Escala 5×2).
Diante do fantasma iminente de uma ultrapassagem de Lula — que agora avança pelo retrovisor —, o pânico de Rachadinha foi tamanho que ele anunciou uma medida desesperada: comparecer a um debate na TV.
Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro
Nascido no dia do atentado que tentou parar a redemocratização, candidato do PL tem longo histórico de defesa do golpe e da ditadura militar
Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.
Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.
Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.
No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.
O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado.
Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema.
Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro.
O Globo, Opinião, 18/10/2026 00h00 Por Bernardo Mello Franco