Governo evita confronto diplomáticom com Trump e Milei
Pedro do Coutto
A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, poucos dias depois da derrota nas urnas, abriu uma nova frente de desgaste para o senador e criou constrangimentos dentro do próprio campo político que o apoiou na disputa presidencial.
A tentativa de se apresentar como uma espécie de presidente eleito, apesar do resultado oficial das eleições, provocou reações negativas entre integrantes do PL e lideranças de outros partidos que estiveram ao seu lado durante a campanha. Mais do que uma declaração controversa, o episódio revelou a dificuldade de sustentar uma narrativa de contestação eleitoral sem comprometer a unidade da oposição e a credibilidade de seus próprios representantes.
“PRESIDENTE DO BRASIL” – A primeira versão de uma carta divulgada por Flávio Bolsonaro trazia a afirmação de que ele seria o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Cerca de meia hora depois, o texto foi alterado, substituindo a expressão por “líder do Brasil”.
A mudança, entretanto, não eliminou o constrangimento político. O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, e o próprio PL reconheceu o resultado das urnas. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, afirmou que ninguém havia aprovado a carta, enquanto o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, declarou que não havia elementos para sustentar uma acusação de fraude eleitoral. Outras lideranças da direita também defenderam o respeito ao resultado.
O problema para o PL não se limita à repercussão de uma declaração. A atitude de Flávio expõe uma contradição entre a necessidade de preservar a legitimidade institucional conquistada nas urnas e a pressão de setores que pretendem manter viva a contestação do resultado eleitoral. Para parlamentares que precisam construir alianças, negociar espaços e exercer oposição dentro das instituições, associar o partido a uma reivindicação de vitória sem fundamento reconhecido pela Justiça Eleitoral representa um custo político adicional. A oposição precisa definir se pretende atuar como força parlamentar organizada ou se continuará subordinando sua estratégia às iniciativas individuais da família Bolsonaro.
DIMENSÃO DIPLOMÁTICA – É nesse contexto que a saída do senador do país adquiriu uma dimensão diplomática. O Itamaraty convocou a encarregada de negócios da Argentina em Brasília, María Emilia Cortés, para prestar esclarecimentos sobre a possível participação do governo de Javier Milei na viagem. Flávio deixou o Brasil por via terrestre, atravessou a fronteira com a Argentina e embarcou em Puerto Iguazú num avião particular com destino aos Estados Unidos, com escala no Equador. Em carta pública, agradeceu a Milei e a Donald Trump pelo apoio recebido. Reportagens da imprensa argentina também apontaram o envolvimento de integrantes do governo de Buenos Aires e o acompanhamento de agentes da polícia aeroportuária argentina durante o embarque.
A iniciativa brasileira, contudo, não significa necessariamente a abertura de uma nova crise com a Argentina. A convocação de um representante diplomático é um procedimento institucional utilizado para registrar descontentamento e solicitar esclarecimentos. O chanceler argentino, Pablo Quirno, negou publicamente que o governo brasileiro tivesse feito qualquer pedido dessa natureza, enquanto fontes brasileiras confirmaram a reunião à Reuters. A divergência de versões demonstra que o episódio também se transformou numa disputa de narrativas entre os dois governos.
A orientação de Brasília é evitar que o caso se transforme num confronto aberto com Milei e, sobretudo, com Trump. O governo Lula tem razões políticas e econômicas para agir com cautela. Os Estados Unidos são um parceiro comercial estratégico, e uma escalada diplomática poderia comprometer negociações e interesses que ultrapassam as divergências entre os presidentes. Com a Argentina, apesar da deterioração das relações bilaterais, também existem interesses comerciais, institucionais e regionais que não podem ser reduzidos à relação pessoal entre Lula e Milei. Segundo informações publicadas pelo JOTA e pela Folha, a avaliação dentro do governo é que uma reação mais agressiva não traria vantagens ao Brasil. A preferência é tratar o episódio pelos canais diplomáticos, sem transformar Flávio Bolsonaro no centro da agenda externa brasileira.
ESCALADA POLÍTICA – Há, portanto, uma diferença importante entre cobrar explicações e alimentar uma escalada política. O Brasil tem o direito de questionar eventual participação de autoridades estrangeiras numa operação que envolva a saída de um senador submetido a determinações judiciais brasileiras. Isso não exige, entretanto, que o governo transforme a situação numa disputa pública com Washington ou Buenos Aires. A questão deve ser examinada à luz dos fatos, das responsabilidades eventualmente identificadas e dos mecanismos legais e diplomáticos disponíveis.
O episódio deixa uma questão política ainda mais ampla: a derrota eleitoral não encerrou as disputas internas da direita brasileira, mas tornou mais visíveis suas divergências. Enquanto parte das lideranças procura preservar espaço institucional e construir uma oposição capaz de dialogar com diferentes setores, a conduta de Flávio mantém a política nacional vinculada à contestação do resultado eleitoral e às articulações internacionais da família Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, a cautela de Lula indica que o governo não pretende permitir que uma iniciativa de um adversário político determine a condução das relações exteriores do país. O desafio de Brasília é defender a soberania nacional, exigir esclarecimentos quando necessário e preservar os interesses brasileiros sem transformar divergências políticas em conflitos diplomáticos de consequências imprevisíveis.
Fuga?
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Fuga?
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A noite de chuva em que os estudantes começaram a virar a eleição
Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo
Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes. Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que se seguiu ao primeiro turno.
Alarmados com a votação do candidato da extrema direita, alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em passeata rumo à Praia de Icaraí.
“Estávamos todos chocados com o resultado”, conta Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga. “Terminamos a apuração em estado de desespero, mas não podíamos deixar esse sentimento nos paralisar”, justifica.
A chuva engrossou, mas o cortejo ganhou a adesão de estudantes de outros cursos e de moradores que desciam dos prédios para se juntar aos jovens. “Uma das cenas mais bonitas que vi foi a de uma senhora de bengala. Ela disse, chorando, que a minha geração precisava defender a democracia”, lembra Valentina, que tem 19 anos e não é filiada a nenhum partido.
Como nem tudo são flores, bolsonaristas arremessaram ovos e papel higiênico molhado contra a garotada. Ninguém se machucou, e a marcha se estendeu até o fim da noite.
Os jovens ainda estavam na luta quando as imagens da passeata começaram a correr as redes sociais. “Quando abri o celular, o ato já tinha viralizado. Recebi uma enxurrada de mensagens e de vídeos filmados das ruas e das janelas.
Até meus amigos da Bahia estavam repostando, sem saber que eu estava lá”, diz a diretora do centro acadêmico, que nasceu em Porto Seguro e se matriculou na UFF pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
No dia seguinte, novas mobilizaçõ contra o bolsonarismo pipocaram em todo o país. Na quarta-feira, universitários e secundaristas se concentraram na Candelária, fecharam a Avenida Presidente Vargas e desceram a Rio Branco, cenário das grandes manifestações estudantis de 1968.
O ato não foi convocado pela campanha, mas atraiu ambulantes munidos de broches, bonés e camisetas com o nome de Lula. Era um sinal de que o Rio, antes dominado pelo bolsonarismo, ensaiava uma guinada à esquerda no segundo turno.
Nos últimos dias, o noticiário destacou a atuação do deputado André Janones, que se impôs à burocracia petista e comandou a reação nas redes. O esforço digital foi importante, mas não resolveria a parada sem a garra dos jovens que tomaram as ruas e estimularam eleitores de todas as idades a votarem contra a volta do bolsonarismo.
No ato que deu início ao movimento, os estudantes de Niterói desfraldaram uma bandeira laranja e preta com a inscrição “Direito UFF — Antifascista”. O estandarte ficou famoso em 2018, quando chegou a ser recolhido por ordem de uma juíza eleitoral. Embora não citasse nomes, foi considerado “propaganda negativa” contra o candidato que defendia a ditadura.
A ministra Cármen Lúcia derrubou a censura, em decisão referendada por unanimidade no Supremo. “Impedir ou dificultar a manifestação plural de pensamento é trancar a universidade, silenciar estudantes e amordaçar professores”, sentenciou.
O Globo, Política, Opinião, 01/11/2026 00h00 Por Bernardo Mello Franco
Barbaridade, quanta imaginação para tentar encobrir mais uma “ocorrência criminosa”, diria Nhô Vitor.
E a fuga do ronaldinho dos negócios
O circo mundial ê regido por quem alça e locupleta a totalidade de multilaterais servos e o incompreendido resto é conversa mole entre incautos.
Lí e copiei:
“Lulinha, não achou seguro ficar no Brasil com o pai na presidência e imaginem os filhos do Bolsonaro, com o pai preso!”
Cumpre lembrar, para não esquecer:
-O presidente do TSE (Nunes Marques) e o vice-presidente (André Mendonça), que comandaram as eleições de 2026, foram indicados ao STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.