Lula precisa cumprir promessas e ajustar as contas públicas
Míriam Leitão
Luciana Casemiro
O Globo
O país viveu uma eleição de emoções radicais e estamos todos à flor da pele. Havia muito em jogo. Temos agora a chance de em quatro anos construir uma barreira contra o risco antidemocrático. O Brasil não pode ficar pendurado no abismo a cada eleição. Há muitas variáveis nessa equação, uma delas é a economia com suas emergências, volatilidades e tarefas inescapáveis.
O mercado mudou suas previsões. Agora a maioria dos bancos acredita que os juros serão mantidos. Na política o assunto é discutido de forma incandescente. Na prática, todos os ativos pioraram muito e talvez a decisão do BC seja de fato manter a Selic.
SEM RISCO DE ERRAR – É hora de o governo jogar água na fervura do debate econômico interno. A escolha do caminho tem que ser racional. Não há tempo para experimentações, não se pode correr o risco de errar. O extremismo de direita está sonhando com uma crise econômica para desestabilizar o governo.
Os atos de Flávio Bolsonaro após a derrota, não reconhecer o resultado e escrever as versões insanas da carta golpista, provam que a direita bolsonarista permanece sendo o que sempre foi: antidemocrática. Ele sabe que perdeu, mas afirmar que houve fraude é, de novo, usar a mentira como método.
Como o pai, Flávio tenta minar a confiança no processo eleitoral. Desta vez, ele ficou falando sozinho, felizmente. De Miami, gravou um vídeo dizendo que pode haver eleição antes de 2030. Esta é a esperança dele: que haja uma crise.
PROMESSAS – O presidente Lula não pode descumprir promessas. Mas como ajustar as contas públicas se ele garantiu manter todos os programas sociais e ampliá-los? É que nunca houve esse conflito, pelo contrário. Inflação alta, como a História nos ensinou, não é compatível com inclusão social. Não por acaso foi depois do Real que as políticas de inclusão ganharam força e densidade. Existem porém escolhas a serem feitas. A redução forçada dos juros seria um tiro pela culatra.
O país precisa encontrar o caminho de diminuir essa escorchante taxa de juros. No momento, o Banco Central está escrevendo a sua terceira carta em 20 meses de descumprimento da meta de inflação. Mudar a meta para os juros caírem seria a falsa solução porque elevaria o índice.
Pode-se dizer que o candidato derrotado repetiu todas as promessas que o presidente Lula fez durante a campanha, portanto também não indicava ajuste. Mesmo assim, o mercado virou de ponta cabeça quando o presidente foi reeleito. Os bancos apostavam que o outro candidato faria um estelionato eleitoral e sabem que Lula não fará isso. Agora Lula precisa encontrar o caminho estreito entre cumprir as promessas e indicar como fará o equilíbrio fiscal.
JUROS ALTOS – A maior parte do crescimento da dívida é resultado dos juros altos. Inequívoco. O problema é que eles têm que cair não por decreto, por alguma fórmula mirabolante, por negacionismo fiscal, mas sim a partir da credibilidade da política econômica e fiscal. O presidente precisa escolher para a Fazenda alguém que conquiste confiança e que saiba que não há ilusionismo possível neste momento.
O que houve no segundo turno foi tão intenso que vamos demorar a entender inteiramente. Foi um movimento, não foi apenas uma campanha. Tudo precisou dar certo para que dez milhões de votos a mais fossem entregues ao presidente Lula. A vitória não teve uma causa, teve muitas. A esperança aflorou nos jovens, a lembrança foi ativada nos idosos, o medo da volta dos passados, recente e remoto, assombrou milhões, a corrida pela virada foi espontânea, alegre, cívica.
ALERTAS – Quando todos ainda comemoravam, os mercados despencaram e os economistas fizeram alertas. A economia é mesmo uma estraga prazeres. Na semana passada, o real foi a moeda que mais perdeu valor no mundo. Caiu 8,43%, a segunda maior desvalorização foi do peso colombiano, queda de1,49%, a terceira, o won da Coreia do Sul, perdendo 0,82%. O Brasil foi totalmente fora da curva.
Este é um momento delicado. O país precisa consolidar a vitória da democracia e não frustrar as expectativas dos eleitores é parte disso. Contudo, precisa também afastar os temores da economia, num ambiente internacional cheio de incertezas. Ontem foi um dia bom, de queda da cotação do petróleo. Mas dúvidas pairam sobre os preços das supervalorizadas ações das big techs. Se o ambiente internacional mudar, será uma variável a mais na complexa equação econômica do Brasil.
A exemplo de Dilma, Lula corre o risco de sofrer impeachment caso o país enfrente uma depressão econômica iminente, haja vista a forte oposição no Congresso, onde seu partido é minoria.
A propósito, o Paraguai acaba de sugerir um protocolo “fast track” (votação a jato) para processos de impeachment.