
Minas Gerais costuma ser decisivo em presidenciais
Victória Cócolo
G1
Pré-candidato à Presidência pelo PL, o senador Flávio Bolsonaro vai se reunir nesta semana com o comando do partido em Minas Gerais para definir quem será o candidato a governador do estado apoiado pelo PL na disputa de outubro. Minas é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e costuma ser decisivo em eleições presidenciais. Principal oponente de Flávio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não definiu candidato no estado.
O presidente do PL em Minas Gerais, deputado federal Domingos Sávio, disse ao G1 que a intenção é fechar a escolha antes da próxima agenda de Flávio Bolsonaro em Belo Horizonte, prevista para ocorrer entre os dias 1º e 2 de junho. A ideia é que o presidenciável aproveite a visita à capital mineira para reforçar o apoio ao candidato da legenda.
DUAS OPÇÕES – A menos de dois meses das convenções partidárias — eventos em que as siglas oficializam as candidaturas —, o PL ainda não definiu quem representará Flávio em Minas Gerais. O partido trabalha com duas possibilidades: apoiar o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, ou lançar candidatura própria.
Os nomes cotados para a candidatura solo são Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), e Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim.
Na reunião em que foi firmada a aliança entre PL e Republicanos, os partidos acertaram que, em caso de candidatura própria, a sigla de Flávio Bolsonaro permitirá que o Republicanos escolha o nome para ocupar a vaga de vice na chapa.
ALIANÇA – Até o início do mês, o PL também cogitava construir uma aliança com o atual governador, Mateus Simões (PSD), mas o cenário foi descartado. “Temos uma boa relação com o governador, mas o fato de ele estar no mesmo palanque de [Romeu] Zema [Novo] e integrar o mesmo partido de Ronaldo Caiado dificulta as coisas”, diz Sávio.
A possibilidade de aliança perdeu força em meio ao desgaste da imagem de Flávio após vir a público sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O episódio provocou críticas de Romeu Zema, pré-candidato à Presidência da República pelo Novo. Domingos Sávio, porém, nega que os fatos tenham relação.
“A reunião em que foi definida a aliança entre PL e Republicanos aconteceu antes da divulgação do áudio entre Flávio e Vorcaro. De qualquer forma, não defendemos um rompimento por causa de uma fala infeliz do Zema. A direita precisa estar unida com o propósito de tirar o PT do governo”, afirma.
ALTERNATIVA – Segundo apuração do colunista Lauro Jardim, do jornal “O Globo”, Zema intensificou as críticas ao senador com base em pesquisas internas. O governador tenta se consolidar como alternativa a Flávio. Antes de a relação entre o senador e Vorcaro se tornar pública, os dois trocavam elogios e chegaram a divulgar um vídeo em que cogitavam integrar a mesma chapa presidencial.
Pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira (22) — a primeira realizada integralmente após a eclosão do pedido de financiamento do filme “Dark Horse” na campanha de Flávio — mostrou que o presidente Lula (PT) ampliou de três para nove pontos a vantagem sobre o senador na simulação de primeiro turno. Lula aparece com 40% das intenções de voto, ante 31% de Flávio. No levantamento anterior, os dois estavam em empate técnico dentro da margem de erro: 38% a 35%.
Líder nas pesquisas para o governo mineiro, Cleitinho ainda não decidiu se disputará o cargo. Na quinta-feira (21), o presidente do Republicanos em Minas Gerais, o deputado federal Euclydes Pettersen, alega que o senador passou a ser cogitado internamente como possível candidato à Presidência da República.
ALIADO DE BOLSONARO – Embora se apresente como independente, o parlamentar é aliado de Jair Bolsonaro (PL) e costuma dizer que é grato ao ex-presidente pelo apoio recebido em 2022, quando foi eleito. Nos bastidores, o movimento é interpretado como uma tentativa de afastar Cleitinho de Flávio Bolsonaro, Euclydes nega. “O apoio do PL é sempre bem-vindo, independentemente. Essa é uma eleição de coligações”, diz o deputado.
Ao G1, Pettersen afirma que Cleitinho sempre esteve entre as opções do partido para disputar o Palácio do Planalto e negou que a eventual candidatura tenha relação com a revelação dos contatos entre Flávio e Vorcaro.
“Nós sempre tivemos duas opções para candidatura própria ao Planalto: Tarcísio de Freitas — que escolheu disputar a reeleição — e Cleitinho. Tarcísio escolheu disputar a reeleição. Agora vamos aguardar os resultados das pesquisas internas para decidir se Cleitinho disputará o Planalto”, diz.
Vem aí o estelionato eleitoral
Eis o resumo da coisa: as bondades eleitorais são dirigidas a beneficiários específicos; os custos recaem sobre todos
Não se trata apenas de roubalheira. O dinheiro público vem sendo utilizado em benefício de candidatos às próximas eleições. O movimento mais recente nessa direção teve senadores e deputados como protagonistas.
Foram aprovadas ‘leis’ que relaxam os controles aplicados no uso dos fundos eleitoral e partidário — formados, é bom que se registre, com dinheiro dos contribuintes.
Candidatos e dirigentes partidários também querem mais recursos para praticar bondades eleitorais. De que são eleitorais, não há dúvida. Bondades? Aí depende. Para cidadãos, setores ou empresas beneficiados, certamente.
Para o conjunto do país, poderiam ser chamadas de maldades.
Os gastos de hoje são contas a pagar amanhã. E quem paga são todos os contribuintes. Eis o resumo da coisa: as bondades são dirigidas a beneficiários específicos; os custos recaem sobre todos.
E não é que esteja sobrando dinheiro. O governo federal tem registrado déficits sucessivos — e a expectativa é que continue gastando mais do que arrecada. (…).
O déficit nas contas públicas chegará ao final deste ano (…) perto de R$ 65 bilhões. Em consequência, (…) a dívida do governo aumentará todos os anos.
Está implícito que o próximo governo terá de fazer um ajuste — ou conter as despesas, uma vez que a carga tributária já é muito alta.
Afinal, o que vemos tanto no Executivo quanto no Legislativo é uma forte disposição para gastar.
O governo Lula tem aumentado os gastos todos os anos. Neste em especial, já contratou despesas e créditos extraordinários de R$ 190 bilhões com bondades eleitorais variadas, desde subsídios para a gasolina até financiamento a juros abaixo do mercado a taxistas e motoristas de aplicativos.
As demandas do Congresso, que já controla parte substancial do Orçamento federal, são sistematicamente por mais gastos. Em resumo, não se vê nenhuma proposta de contenção de despesas.
Entretanto, está aí, no crescente buraco das contas públicas, o maior problema do país, causa de outros desarranjos.
Todo mundo concorda que os juros no Brasil são muito altos. E muita gente, inclusive Lula, põe a culpa no BC — o que está errado. Os juros são altos porque o déficit e a dívida são também constantemente elevados.
O governo, devedor, vai a mercado tomar dinheiro emprestado para fechar as contas. E paga juros de 14% ao ano. (…)
Neste ano eleitoral, seria de supor que esse problema estivesse na pauta dos candidatos. Mas só está na pauta dos economistas. Esses economistas acham que o próximo governo será obrigado a fazer o ajuste, para não ser simplesmente paralisado pelo excesso de gastos e pela conta de juros.
Portanto, está previsto aí um estelionato eleitoral. Será uma campanha cara, de muitas promessas caras.
Os eleitos toparão com contas públicas deterioradas. Ou se corrige isso, ou o país cairá num cenário de baixo crescimento, inflação e juros altos. Estelionato de qualquer modo.
Fonte: O Globo, Economia, Opinião, 25/05/2026 00h05 Por Carlos Alberto Sardenberg