
Valdemar diz que Ciro briga até com o próprio irmão
Luis Felipe Azevedo
O Globo
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, minimizou críticas feitas pelo pré-candidato ao governo do Ceará Ciro Gomes (PSDB) ao ex-presidente Jair Bolsonaro e defendeu o apoio do partido ao tucano. A declaração ocorreu após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro criticar, em vídeo publicado nesta semana nas redes sociais, a aliança do PL com Ciro, lembrando declarações contra a família Bolsonaro.
Valdemar defende o apoio a Ciro como meio de vencer a eleição contra o PT, que aposta na campanha à reeleição do governador Elmano de Freitas. O presidente do PL também cita o racha familiar que colocou Ciro e o senador Cid Gomes (PSB) em campos opostos desde 2022.
“É O JEITO DELE” – “O Ciro fala mal e briga até com o irmão, briga até… com a família toda. É o jeito dele. Agora o que que acontece? Não trata-se da nossa preferência. O Ciro é um homem sério, que tem muitos defeitos. Ele teve defeitos de atacar todo mundo. Mas é o único que tem chance de vencer o PT. Se nós não formos com ele, o governador do Ceará vai ser do PT. Se nós formos com ele, ele ganha a eleição”, disse Valdemar à Rádio Gaúcha na quinta-feira.
Michelle, por sua vez, defende que o senador Eduardo Girão (Novo) seja o candidato da direita ao governo do Ceará e afirmou que um eventual apoio do PL a Ciro deveria ocorrer apenas em um segundo turno.
PALANQUE COM FLÁVIO – Apesar do apoio do PL, Ciro vem buscando se esquivar da nacionalização da campanha e descarta dar palanque para Flávio — no Ceará o presidente Lula teve 69,7% no segundo turno de 2022. A campanha do tucano planeja explorar pautas como saúde e segurança pública para atacar gargalos da gestão de Elmano. Na quinta-feira, ele evitou falar sobre o vídeo de Michelle.
“Não vi o vídeo e nem vou ver. É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui. Eu sigo aqui tranquilo. O eixo do nosso entendimento aqui é um projeto de emancipação do Ceará que nós consideramos que está sendo muito mal tratado”, disse.
RACHA FAMILIAR – Ciro e Cid Gomes estão afastados há cerca de três anos, após discordarem sobre quem deveria ser o candidato do PDT, partido que integravam, no pleito estadual de 2022. O senador defendia a continuidade da então governadora Izolda Cela, que assumiu o cargo após a saída de Camilo para disputar as eleições. Já Ciro bancou a candidatura do ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio.
O objetivo de Ciro era ter um palanque no estado em sua campanha ao Planalto, quando disputou com Lula. O PT, que defendia a candidatura de Izolda, rompeu com o PDT e lançou Elmano. O petista teve 54,02% dos votos, e o aliado de Ciro, 14,14%. Atrás de Ciro nas pesquisas, o campo petista tenta fortalecer a chapa de Elmano pressionando Cid a disputar a reeleição para antagonizar com o irmão.
Com a presença de Cid na chapa, o PT deseja utilizar esse antagonismo familiar para fortalecer Elmano. Mas o senador resiste, mesmo com a pressão pública da irmã, a deputada estadual Lia Gomes (PSB). Ele afirma ter um compromisso firmado com o deputado Junior Mano para que ele seja o candidato do PSB ao Senado. A defesa da candidatura do aliado também é justificada por Cid pelo apoio angariado por Junior Mano entre prefeitos — mais de 40 já se comprometeram a atuar na campanha. A segunda vaga da chapa de Elmano ao Senado deve ser distribuída para outro partido da base do governo.
Salafrários montados em dinheirama pública.
Há algo de podre no reino dos Bolsonaros
Briga pública entre Michelle e Flávio pelo espólio do bolsonarismo expõe a natureza egocêntrica de um movimento que nunca teve raízes fincadas no que realmente importa para o Brasil
A família Bolsonaro ora protagoniza um dramalhão em que há de tudo ali: intrigas entre madrasta e enteados, o patriarca que não pode falar por si, conspiradores que instigam a cizânia e, sobretudo, a sede irrefreável de poder.
A exposição pública das vísceras da família Bolsonaro, por meio de um vídeo publicado por Micheque com duras críticas a Flávio Rachadinha, é uma pequena amostra da natureza degenerada do clã.
Essa novela só interessa aos brasileiros na medida em que abre uma fresta para testemunhar o projeto político de uma família que fez da via eleitoral um atalho para a dolce vita.
Desde que ex-mito deixou o Exército – onde foi punido por insubordinação e acusado de envolvimento num plano para explodir unidades militares –, migrou com sucesso para a política e construiu com os filhos (…) ‘uma empresa familiar’ voltada à conquista e à manutenção do poder no seio da própria família.
Mas não para implementar um projeto de desenvolvimento do Brasil, e sim para que todos, sobretudo o patriarca, pudessem viver à custa do Estado.
O bolsonarismo nunca foi uma visão de país, que dirá uma plataforma de governo. É uma habilíssima máquina de mobilização emocional de setores da sociedade construída sobre ressentimentos e a irresignação com as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988.
Nesse balaio de rancores e teorias da conspiração, entram o reacionarismo travestido de “conservadorismo de costumes”, a desconfiança nas instituições republicanas, o desdém pelo conhecimento, a hostilidade ao diálogo e o antipetismo, donde vem sua força eleitoral.
Sem o nome do ex-mito nas urnas, o que resta é essa briga interna por seu espólio político. Micheque dá sinais de querer trilhar uma carreira política autônoma, ainda que negue publicamente essa intenção.
Flávio é pré-candidato a presidente. Outros filhos do ex-mito têm suas próprias pretensões eleitorais. Cada um se ocupa de seus interesses particulares – e o Brasil, claro, não entra nessa equação.
Nenhum dos protagonistas do reality show da família Bolsonaro perde tempo ou tem competência para discutir a sério assuntos como a carestia, o descontrole das contas públicas, a baixa produtividade, o desalento entre os jovens, as deficiências da educação básica e a violência urbana. Seria pedir demais.
Afinal, a família Bolsonaro nunca se preocupou com nada disso. Sempre foi mais fácil apontar o inimigo – o PT, a imprensa profissional, o STF e o comunismo internacional, entre outros fantasmas – do que propor soluções para problemas reais conhecidos, que exigem competência técnica, habilidade política e, acima de tudo, interesse genuíno no bem comum.
O bolsonarismo só sobrevive porque o antipetismo é uma força real e legítima na sociedade brasileira, e o ex-mito soube como nenhum outro político se apresentar como o candidato anti-Lula. Mas, no que concerne aos interesses do Brasil, isso não basta.
Apresentar-se como a nêmesis do petista não é um plano de governo. É, quando muito, uma eficiente estratégia eleitoral.
Micheque resolveu fazer um favor ao Brasil ao gravar e divulgar seu depoimento a respeito de Flávio. Assim, deu aos eleitores conservadores a chance de ver, com os próprios olhos, de que material é feito o bolsonarismo original.
Quem sabe os estimule, finalmente, a procurar alternativas que estejam genuinamente interessadas em governar o Brasil com bom senso e dignidade – qualidades estranhas ao ex-mito e sua grei.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Opinião, 27/06/2026 | 03h02 Por Editorial
“Ele [Ciro] chamou o meu marido de ladrão de galinhas, de corrupto, de burro, de jumento. Disse que Bolsonaro roubava gasolina. Disse que as esposas de Bolsonaro seriam todas ladras. Disse que os filhos do meu marido —os meus enteados— eram corruptos, que eram ladrões. E deu a eles um apelido: ovos de serpentes nazistóides”, disse Michelle.
Em tempo.
Sendo esses fatos verdadeiros, sem dúvida alguma, é uma pouca vergonha desmerecerem as posições defendidas pela Michelle, especialmente daqueles que desejam integridade moral e ética da classe política, assim como dos cidadãos brasileiros.