
No cenário polarizado, existe ainda um eleitorado indeciso
Pedro do Coutto
A eleição presidencial de 2026 entrou numa fase em que qualquer tentativa de enxergar um vencedor antecipado corre o risco de ser desmentida pelos próprios números. A nova pesquisa Datafolha mostra Lula à frente no primeiro turno, com 39% das intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro.
A diferença, embora ainda favoreça o presidente, tornou-se estreita o suficiente para impedir qualquer leitura de conforto. No segundo turno, a distância é ainda menor: Lula aparece com 46% e Flávio com 44%, resultado considerado empate técnico pela margem de erro de dois pontos. A Quaest chegou a um empate numérico de 41% a 41% na mesma simulação. O que as pesquisas revelam, portanto, não é uma eleição resolvida, mas uma disputa progressivamente concentrada em dois nomes e em dois campos políticos.
DEMAIS CANDIDATOS – O dado mais importante talvez não esteja sequer na diferença entre os dois primeiros colocados, mas no espaço cada vez menor reservado aos demais candidatos. Augusto Cury aparece com 6%, Ronaldo Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 2% no primeiro turno do Datafolha. Isso não significa que os demais estejam matematicamente fora da disputa, mas indica a dificuldade crescente de romper uma estrutura eleitoral que vem se organizando em torno da polarização entre lulismo e bolsonarismo.
É justamente aí que está a característica mais peculiar desta eleição. A polarização brasileira não desapareceu com a passagem do tempo, nem foi dissolvida pela tentativa de surgimento de alternativas. Ao contrário: ela parece ter adquirido uma capacidade própria de reorganizar o eleitorado. Sempre que aparece um candidato capaz de ocupar o centro da disputa, precisa enfrentar uma pergunta que ultrapassa seu próprio programa: de que lado ele estará quando chegar o momento de escolher entre Lula e o campo político construído por Jair Bolsonaro?
CAPITAL POLÍTICO – Flávio Bolsonaro tornou-se, nesse cenário, o principal beneficiário da transferência do capital político do pai. Sua candidatura não é apenas uma candidatura familiar ou uma tentativa de continuidade eleitoral do bolsonarismo. Ela representa a possibilidade concreta de transformar a rejeição a Lula em uma candidatura competitiva capaz de chegar ao segundo turno. O problema, para Flávio, é que a mesma associação que lhe proporciona força eleitoral também transfere para sua campanha o peso das controvérsias que envolvem o núcleo político e empresarial ligado à família Bolsonaro.
A investigação em torno do filme Dark Horse é um exemplo dessa vulnerabilidade. A Polícia Federal apura suspeitas relacionadas ao financiamento da produção e ao uso de recursos que teriam sido destinados ao projeto. Flávio Bolsonaro está sendo investigado no âmbito do caso, que envolve também movimentações financeiras relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades. Portanto, seria precipitado transformar uma investigação em condenação política ou jurídica. Mas, eleitoralmente, a questão é outra: numa disputa tão apertada, uma investigação pode ter impacto antes mesmo de qualquer conclusão definitiva da Justiça.
A própria dimensão financeira do caso ajuda a explicar sua capacidade de produzir desgaste. A investigação alcançou operações relacionadas à produção de Dark Horse, incluindo suspeitas sobre o uso indevido de emendas parlamentares e movimentações consideradas atípicas pela Polícia Federal. Em uma eleição marcada pela disputa moral em torno da corrupção, do uso de dinheiro público e da responsabilidade dos políticos, a simples existência de dúvidas sobre a origem e o destino dos recursos pode se transformar em munição eleitoral.
REFLEXOS DA CRISE – Do outro lado, Lula também não está protegido das consequências da crise institucional que envolve o Supremo Tribunal Federal e o Banco Master. A investigação sobre as relações entre Daniel Vorcaro e diferentes autoridades colocou o STF no centro da disputa política. A oposição já explora a proximidade política entre Lula e setores da Corte, especialmente em razão da atuação de Alexandre de Moraes em processos que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados. Isso não significa que exista responsabilidade criminal de Lula pelo caso Master — não há base, nos elementos públicos conhecidos, para fazer essa afirmação. O efeito eleitoral é mais indireto: a crise pode alimentar a narrativa de que o governo está politicamente associado a uma Corte cuja imagem também enfrenta desgaste.
É nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma disputa entre ministros e passa a produzir consequências eleitorais. O confronto envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça expõe uma crise institucional que o eleitorado acompanha por meio de versões políticas, manchetes e redes sociais. O presidente do STF, Edson Fachin, procurou conter a escalada ao determinar esclarecimentos e suspender decisões conflitantes, além de convocar o Plenário para discutir os desdobramentos do caso. Em 15 de setembro, a Corte deverá apreciar a Petição 16.662, em um episódio que já ultrapassou os limites de uma divergência processual comum.
ESPELHO ELEITORAL – O aspecto mais delicado é que a crise do Supremo não beneficia necessariamente apenas um lado. Flávio pode utilizá-la para reforçar a narrativa de que Lula e o STF representam um mesmo campo político. Lula, por sua vez, pode explorar as investigações envolvendo integrantes do universo bolsonarista para apresentar seu adversário como herdeiro de um sistema político cercado por suspeitas. O resultado é uma espécie de espelho eleitoral: cada campo procura transformar o desgaste do outro em argumento para justificar a própria candidatura.
Nesse ambiente, a renda continuará sendo uma variável decisiva. O Datafolha mostra Lula com vantagem muito expressiva entre os eleitores de menor renda: 47% contra 27% de Flávio entre aqueles com renda familiar de até dois salários mínimos. À medida que a renda sobe, porém, o quadro se modifica e o senador passa a apresentar desempenho superior em segmentos de maior poder aquisitivo.
Esse dado é particularmente importante porque ajuda a explicar por que uma eleição tão polarizada ainda permanece aberta. Lula conserva uma base social robusta entre os eleitores mais pobres, enquanto Flávio encontra maior receptividade em parcelas de classe média, eleitores de maior renda, evangélicos e setores mais identificados com o bolsonarismo. A eleição, assim, não se resume a uma competição de nomes. Ela reproduz uma divisão social e política que atravessa o país.
SEGUNDO TURNO – É também por isso que o segundo turno poderá ser muito diferente do primeiro. No primeiro, cada candidato disputa seu espaço dentro de um universo fragmentado. No segundo, desaparecem as alternativas e o eleitor é obrigado a fazer uma escolha binária. É nesse momento que os votos de Cury, Caiado, Renan Santos, Zema e dos demais candidatos poderão adquirir um valor estratégico muito maior do que sugerem seus percentuais atuais.
A eleição não será necessariamente decidida por quem conquistar mais eleitores no início da campanha, mas por quem conseguir ampliar sua rejeição negativa em menor velocidade e atrair o eleitor que ainda não considera nenhum dos dois candidatos uma escolha definitiva. O Datafolha registra, ao mesmo tempo, uma rejeição elevada aos dois principais concorrentes: 47% dizem que não votariam de jeito nenhum em Flávio, enquanto 45% rejeitam Lula. É uma fotografia de uma eleição na qual ninguém possui uma maioria social consolidada.
Por isso, afirmar desde já que Lula está destinado à reeleição seria tão precipitado quanto anunciar Flávio como favorito. O presidente tem a vantagem da máquina governamental, da liderança no primeiro turno e de uma base sólida entre os eleitores de menor renda. Flávio possui o ativo político do bolsonarismo, uma direita mobilizada e a possibilidade de transformar o segundo turno num plebiscito sobre Lula. Nenhuma dessas vantagens, isoladamente, garante a vitória.
EFEITO ACUMULADO – Há ainda uma variável que nenhuma pesquisa consegue antecipar completamente: o efeito acumulado dos acontecimentos que ocorrerão entre o levantamento e o dia da votação. A nova rodada do Datafolha foi realizada entre 8 e 10 de setembro e, portanto, não capturou integralmente os acontecimentos posteriores relacionados à investigação de Dark Horse. Isso é essencial para interpretar corretamente os números. Pesquisa eleitoral é retrato de um momento, não profecia.
A eleição brasileira chega, assim, a uma fase em que a margem pode ser mais importante do que a vantagem. Lula lidera numericamente, mas não abriu distância suficiente para afastar o risco de uma virada. Flávio está atrás, mas suficientemente próximo para manter viva a possibilidade de uma disputa até o último voto. E os demais candidatos, embora ainda tenham espaço para crescer, enfrentam uma barreira política cada vez mais evidente: precisam convencer o eleitor de que é possível escapar da lógica binária que domina a eleição.
No fundo, a disputa de 2026 não está sendo travada apenas entre Lula e Flávio Bolsonaro. Está sendo travada entre duas interpretações sobre o Brasil. De um lado, a continuidade de um governo que tenta transformar a recuperação econômica e sua conexão com os setores populares em argumento para permanecer no poder. De outro, a tentativa de reconstrução eleitoral do bolsonarismo por meio de um candidato que precisa provar que pode representar a força política do pai sem carregar integralmente o peso de suas controvérsias.
DISPUTA APERTADA – Entre esses dois polos existe um eleitorado que ainda pode decidir a eleição. É nele que estarão os votos capazes de transformar dois pontos percentuais em uma vitória ou em uma derrota. E, numa disputa tão apertada, não será necessariamente o candidato que entusiasmar mais seus eleitores já convencidos que vencerá. Poderá vencer aquele que conseguir perder menos entre os que ainda não escolheram definitivamente um lado.
A democracia, no fim, não confirma teorias de analistas. Ela as submete à prova. As pesquisas indicam tendências, revelam movimentos e ajudam a compreender o momento, mas não substituem a urna. Em 2026, talvez essa diferença seja especialmente importante. Porque, se o quadro atual persistir, o próximo presidente do Brasil poderá ser definido não por uma onda eleitoral avassaladora, mas por uma pequena maioria construída voto a voto, em uma das disputas mais apertadas da história recente do país.
WEG, libertará e dará vida ao moribundo berçário?
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À exemplo de La Rance, em Bretanha-França!
Poucos votos?
Sim!
Sem software, somados ao “Efeito Elon Musk”, Lula e os mesmos 17%, gráças a esse mundão de corruptos e golpistas!
Adendos, em:
“12 de setembro – Jornalistas mercenários ridicularizam investigação sobre a Covid.”
https://www.henrymakow.com/
Ou seja:
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Adendos, em:
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Como esperar salvação de tal “$i$tema”?
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BRICS – A NOVA ORDEM MUNDIAL – BRASIL – RÚSSIA – INDIA – CHINA – ÁFRICA
Evair Roberto
Julio Benchimol Pinto
A MILÍCIA BATEU À PORTA ERRADA
Daniel Vorcaro não tinha apenas banqueiros, políticos e autoridades na agenda. Segundo a investigação, havia também uma “Turma”: policiais, milicianos e operadores do jogo do bicho suspeitos de intimidar jornalistas, monitorar autoridades e tentar constranger quem atravessasse o caminho do Banco Master.
E Galípolo atravessou.
Mensagens apreendidas revelam que aliados de Vorcaro discutiam até uma “cartada” para chegar ao presidente do Banco Central por meio de sua companheira.
Não funcionou.
Galípolo, indicado por Lula, fez justamente o contrário do que interessava ao Master: avançou sobre as irregularidades e chegou a comunicar à própria PF suspeitas de corrupção dentro do Banco Central.
Haddad também respaldou a investigação e diz ter encaminhado às autoridades os alertas que recebeu sobre o banco.
É uma ironia deliciosa.
Passaram anos dizendo que Lula colocaria seus indicados nas instituições para protegê-lo.
Quando o escândalo Master explodiu, o indicado de Lula ajudou a apertar o cerco.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro acabou formalmente investigado pelas relações entre Vorcaro e o financiamento de Dark Horse.
A turma tentou dobrar o Banco Central. O Banco Central não dobrou. Quem está entortando agora é a República inteira para descobrir até onde iam os tentáculos de Daniel Vorcaro – e quem estava agarrado neles.
– Julio Benchimol Pinto .