
Flávio poderá ser trocado por alguém mais capacitado
Marcos Augusto Gonçalves
Folha
Veio como um terremoto a revelação de um áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro pede milhões de reais ao banqueiro Daniel Vorcaro para salvar o financiamento da cinebiografia de seu pai. O furo do site Intercept atingiu não apenas a candidatura do senador, mas a própria perspectiva da direita na eleição presidencial.
O abalo sofrido por Flávio retira Lula do aperto causado pela rejeição de Jorge Messias, seu candidato ao STF. O petista respira aliviado. Se a recente rodada da pesquisa Quaest já havia sinalizado uma leve recuperação frente ao adversário que vinha crescendo, agora o céu desanuviou.
INCOMPETENTE – O outro lado da moeda é que o campo da esquerda considera Flávio o concorrente ideal, por tratar-se de notório incompetente, sem nenhuma experiência de gestão pública, com farto histórico de atividades suspeitas e de relacionamento com bandidos. Agora, poderá, em tese, ser trocado por alguém mais capacitado. Mas quem?
Tarcisio de Freitas, o candidato dos sonhos do establishment e o mais temido pelo PT, já perdeu o prazo oficial para se afastar e concorrer, assim como Ratinho Jr. Romeu Zema e Ronaldo Caiado dificilmente serão protagonistas, mas farão o possível para aumentar o desgaste de Flávio em busca de mais projeção na disputa.
A tarefa de substituir o senador, se é que isso poderá realmente ocorrer, terá também pela frente a realidade de que o escândalo do Banco Master envolve sobretudo personagens da direita, sejam eles do centrão ou do bolsonarismo. A operação, na semana passada, contra Ciro Nogueira, que foi chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, serviu como um lembrete.
DELAÇÃO – Qualquer mudança mais drástica terá, ainda, que partir ou contar com a bênção do capitão recluso. Por ora, o mais provável é deixar como está para ver como fica. Não é descartável, também, que nomes ligados ao PT e ao presidente venham a aparecer nas investigações da PF ou numa possível delação de Vorcaro. Mas é impossível, de qualquer forma, imaginar Lula pedindo favores ao banqueiro e o tratando por “irmão”.
Sabe-se que Vorcaro pagou, com certeza, cerca de R$ 61 milhões para a produção de “Dark Horse”, filme ardilosamente concebido para levar Bolsonaro, o pai, ora preso, a participar indiretamente da campanha eleitoral. As notícias, contudo, são de que a negociação entre a família e o banqueiro ia muito além dessa quantia. Envolvia os fundos suspeitos de sempre ligados ao Master —e não é certo de que se tratava apenas de bancar um filme.
DISPUTA APERTADA – Num país como o Brasil, poucos meses até a campanha começar e esquentar podem ser um longo tempo. A disputa com certeza será apertada. O território está minado, e novas explosões devem acontecer.
Por fim, vale lembrar que os indicadores da cotação do dólar e da Bolsa no chamado “Flávio day” mostraram —como se já não fosse evidente— em que lado está o mercado financeiro, sempre inclinado a pegar caronas irresponsáveis para derrotar Lula.
O tremor deixou claro que a grande armação para tentar transformar Flávio Bolsonaro num candidato bacana, moderado e amigo do ajuste fiscal, se já era improvável, tornou-se praticamente impossível. Resta saber para onde a Faria Lima irá caminhar. Se desembarca do filhote ou segue em frente na canoa furada.
Rachadinha “queimou o filme” literalmente.
Irmãos Bolsonaro inviabilizaram a direita e pavimentam o caminho para Lula
Sempre foi algo óbvio que o único interesse da família Bolsonaro é manter seus espaços de poder.
Não se trata de derrotar a esquerda, de consolidar valores do conservadorismo no Brasil, de defender a família, a pátria, o que seja. É um projeto doméstico, particular, não de nação.
Exigem obediência cega e não aceitam questionamentos. Não querem sucessores fora do clã, não querem renunciar ao domínio político hipnótico que exercem em grande parte da população.
O lançamento de um candidato com um telhado de vidro tão grande como Flávio é apenas mais uma evidência desse modus operandi baseado na cobiça e no interesse pessoal.
Desde o final do ano passado, é sabido que ter mantido relações com Vorcaro se tornou fatal para a reputação e pode inviabilizar planos políticos.
Mesmo assim, com a consciência do risco de que receberam recursos de Vorcaro, seguiram em frente, guiados pela soberba da impunidade moral.
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Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 14/05/2026 | 09h15 Por Fabiano Lana
“O único interesse da famíglia é manter seus espaços de poder”, para surpresa de ninguém.
Flávio: “Irmão (Vorcaro), estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente
Sabe-se agora que, um dia antes da sua primeira prisão, Vorcaro recebeu a cobrança de uma dinheirama do Flávio para (supostamente) financiar a ‘aventura cinematográfica’ do ex-mito.
Vorcaro disse que os pagamentos ao filme dos Bolsonaro eram importantes e que não poderiam falhar mais (…).
É patético que Flávio, candidato a presidente com reais chances de ser eleito (pelo menos, até ontem) diga, em sua defesa, que:
– “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro”.
Você era uma aposta em um futuro provável, Flávio, e você sabe disso, assim como todos os demais implicados no financiamento da hagiografia cinematográfica do ex-mito.
Tanto que, ao responder a uma mensagem de visualização única de Vorcaro, um dia antes da primeira prisão do sujeito, você disse:
– “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Vorcaro entendeu que, em Brasília, não há princípios ou ideologias. Existem interesses financeiros. Existe o patrimonialismo. Existe a cobiça (e existe a luxúria dela decorrente). Todo mundo é “merrmão”, desde que todo mundo esteja com os bolsos forrados de dinheiro.
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Fonte: Metrópoles, Política, Opinião, 14/05/2026 06:15 Por Mario Sabino