Candidatos precisam convencer os indecisos
Pedro do Coutto
A poucos dias do segundo turno, a eleição presidencial brasileira chegou a um ponto em que qualquer erro pode custar caro, mas nem toda correção produz efeito. As pesquisas mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com diferenças que permanecem dentro ou muito próximas das margens de erro. Levantamentos recentes chegam a apontar vantagem numérica para um ou para outro, sem, contudo, desenhar uma tendência suficientemente consistente para permitir afirmar que a eleição esteja definida.
O dado mais importante talvez esteja menos nos números isolados do que no comportamento das campanhas. Os dois lados perceberam que parte das estratégias adotadas até aqui não produziu o resultado esperado entre eleitores que ainda podem mudar de posição.
AJUSTES – Depois do debate da Band, realizado no domingo, as próprias equipes reconheceram a necessidade de ajustes. No campo de Flávio, houve avaliação de que a agressividade e a dificuldade de apresentar respostas objetivas não ajudaram a ampliar o alcance para além da base já consolidada. No lado de Lula, também foram identificados erros de comunicação e problemas na condução do confronto.
Isso revela um problema mais profundo para os dois candidatos. Quando uma campanha chega à última semana ainda tentando corrigir a forma de transmitir sua mensagem, ela corre o risco de gastar o pouco tempo restante falando para os próprios convencidos. É uma armadilha frequente em eleições polarizadas: a comunicação torna-se cada vez mais eficiente para mobilizar quem já decidiu e cada vez menos capaz de persuadir quem permanece distante dos dois polos.
A questão é particularmente relevante porque a campanha brasileira chega à reta final depois de uma eleição marcada por forte mobilização das bases e por uma presença crescente da disputa nas redes sociais. Lula, que no primeiro turno havia privilegiado uma campanha mais tradicional, ampliou significativamente a aposta na propaganda digital no segundo turno. Flávio, por sua vez, manteve uma estratégia digital mais forte desde a primeira fase. O problema é que alcance não significa necessariamente persuasão. É possível falar mais alto, atingir mais pessoas e, ainda assim, não mudar uma decisão.
DESAFIO – É justamente aí que aparece o desafio decisivo destes últimos dias. A campanha não precisa apenas convencer o eleitor de que o adversário é pior. Precisa explicar por que seu próprio projeto é melhor e, sobretudo, por que merece a confiança de quem não se identifica integralmente com nenhum dos dois candidatos.
Até agora, essa segunda parte tem ficado em segundo plano. O debate da Band foi um exemplo eloquente. O confronto produziu ataques, acusações e momentos de tensão, mas deixou pouco espaço para uma comparação concreta entre projetos de governo. Avaliações posteriores apontaram justamente a dificuldade dos candidatos em apresentar propostas mais consistentes, especialmente em temas como economia, contas públicas, dívida e juros.
Essa deficiência é mais relevante do que parece. Em uma disputa tão equilibrada, a eleição não será necessariamente decidida por quem consegue produzir a acusação mais contundente contra o adversário, mas por quem conseguir transformar a escolha em uma decisão positiva para o eleitor. O medo pode mobilizar. A rejeição pode definir. Mas uma vitória eleitoral precisa, em algum momento, de uma razão para votar.
CERTEZA DO VOTO – Os números sugerem que existe espaço para isso. Uma pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta semana mostrou que 85,9% dos eleitores afirmam ter certeza de seu voto, percentual que chega a 95% entre os lulistas convictos e a 91,6% entre os bolsonaristas. Entre aqueles que rejeitam os dois candidatos, porém, essa disposição cai para 70,9%. É justamente nesse segmento menos identificado com os polos que a capacidade de persuasão pode fazer diferença.
Isso não significa que exista uma grande massa de indecisos esperando apenas a frase certa para mudar de lado. Esse é outro risco de interpretação. Parte do eleitorado que aparece como menos definido pode simplesmente estar menos engajado, mais propenso à abstenção ou ainda avaliando qual candidato rejeita menos. O primeiro turno deixou uma advertência importante: mais de 33 milhões de brasileiros não votaram, e a abstenção pode ter peso significativo na definição do resultado.
Por isso, a reta final não deveria ser tratada apenas como uma corrida para encontrar o ataque perfeito. É uma corrida para demonstrar capacidade de governo. Para Lula, isso significa responder à percepção de desgaste e apresentar uma razão concreta para que o eleitor escolha a continuidade. Para Flávio, significa transformar a vantagem numérica que algumas pesquisas registram em confiança suficiente para ampliar sua coalizão para além do eleitorado bolsonarista mais fiel. As pesquisas mais recentes, afinal, continuam mostrando uma disputa aberta, e não uma vitória antecipadamente assegurada.
CONTRADIÇÃO – A poucos dias da votação, portanto, há uma contradição nas duas campanhas. Ambas precisam mudar alguma coisa, mas qualquer mudança profunda pode também significar admitir que a estratégia anterior não funcionou. O desafio dos marqueteiros é fazer essa correção sem produzir artificialidade e sem afastar o eleitor que já está convencido.
Talvez seja esse o verdadeiro limite da eleição até aqui. Lula e Flávio conseguiram consolidar suas bases, mas ainda encontram dificuldades para transformar a polarização em uma mensagem capaz de ampliar suas fronteiras. E uma eleição decidida por margem estreita não se ganha apenas falando mais com quem já está do seu lado.
RESPOSTA CONVINCENTE – Nos poucos dias que restam, haverá tempo para mudar a percepção de uma parcela do eleitorado. Mas será preciso mais do que uma nova peça publicitária, uma frase de efeito ou outro ataque ao adversário. Será necessário oferecer ao eleitor uma resposta convincente para a pergunta mais simples — e talvez mais difícil — desta eleição: por que este candidato merece o meu voto?
Até agora, não está claro que nenhuma das duas campanhas tenha encontrado essa resposta de forma suficientemente forte para mudar o quadro. E, na reta final, essa pode ser a diferença entre apenas mobilizar os próprios eleitores e conquistar os votos que ainda faltam para vencer.
Sim, claro e porque não?
https://www.facebook.com/share/v/1CPzfp19Xu/
O ruído sobre a desistência do Lula do debate da Globo aumentou muito. Já inventou até uma desculpa para a fuga: só vai se o Flávio aceitar o seu “desafio” para abrir os sigilos.
Todo o Brasil sabe que o Narcolula não usa telefone, não usa computadores e já foi condenado por ocultação de bens.