Datafolha: PT lidera preferência partidária e PL atinge recorde impulsionado por Bolsonaro

PT é partido preferido de 24% dos eleitores e PL de 12%

Ana Gabriela Oliveira Lima
Folha

O PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua na dianteira como a sigla preferida dos brasileiros, agora acompanhado pelo PL, legenda alavancada na memória nacional pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, mostra nova pesquisa Datafolha.

O partido de esquerda segue como o mais lembrado, feito que mantém desde o final da década de 1990. Atualmente ele é citado por 24% dos brasileiros, contra 12% do PL, a segunda sigla preferida dos brasileiros.

ESTABILIDADE – O cenário é de estabilidade para o PT no terceiro governo Lula, cujos índices variaram de 23% a 27%. Já a legenda de Bolsonaro alcançou índice recorde na série histórica, iniciada em 1989 Os dados vêm de pergunta que aceitou respostas espontâneas e únicas no Datafolha, feito com 2.002 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 2 e 4 de dezembro, em 113 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

Considerando dados desde dezembro de 2021, quando o PL passou a ser citado de maneira consistente nas pesquisas, o ponto máximo do PT ocorreu em setembro de 2022, quando a sigla foi lembrada por 31% dos brasileiros. Na época, Jair Bolsonaro governava o país, fazendo oposição direta ao PT. Atualmente inelegível e preso, Bolsonaro já declarou querer reeditar a disputa com Lula pessoalmente ou por meio de um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Considerando toda a série histórica do Datafolha, com dados para esta pergunta desde 1989 (ano das primeiras eleições diretas para presidente após a ditadura militar), o PT só perdeu como a sigla mais lembrada para o PMDB. A legenda, que antes de 1980 tinha o nome MDB, recuperado em 2017, chegou a ter 19% das menções em 1992 e 1993. Hoje, registra 2%.

DIANTEIRA – A posição mudou no final da década de 1990, quando o PT entrou e nunca mais saiu da dianteira. Desde o início da série histórica, porém, o maior índice entre os brasileiros é daqueles que dizem não ter preferência de partido. A opção nunca teve índice menor que 40%.

O PSDB, que já foi considerado um dos principais opositores do PT, começou a série histórica em 1989 com 1% e teve pico de 9% em junho de 2015, época de protestos contra o governo Dilma Rousseff (PT) que levaram ao impeachment da então presidente.

Esse período, de fevereiro de 2015 a dezembro de 2016, também é um dos piores para o PT desde que ele ascendeu no final da década de 1990. Em março de 2015 e dezembro de 2016, a sigla, acostumada a dois dígitos, fez 9%.

SEGUNDO LUGAR – PSDB e PMDB/MDB disputaram o segundo lugar da preferência partidária na maior parte das duas primeiras décadas dos anos 2000, até que o PSL começou a ultrapassar as legendas em outubro de 2018.

A época é antecedida pela facada levada, em 6 de setembro daquele ano, por Jair Bolsonaro durante campanha presidencial. O político era do PSL, que teve pico de menção de 7% em outubro de 2018 e depois caiu.

Já o PL passou a ser lembrado com consistência a partir de dezembro de 2021, sendo citado por ao menos 1% dos brasileiros. Bolsonaro foi para a legenda em 30 de novembro daquele ano. Desde então, o partido foi subindo nas pesquisas, chegando a uma porcentagem com duas casas em outubro de 2022, quando Bolsonaro foi para o segundo turno com Lula, para quem perdeu.

REJEIÇÃO – Embora chame a atenção para a legenda na qual se encontra, Bolsonaro tem também rejeição para seu nome e de familiares, como mostra o Datafolha. Na análise por segmento, o último levantamento sobre preferência partidária mostra que o PT tem taxas de menções mais altas entre aqueles com ensino fundamental (31%), entre os moradores do Nordeste (31%), católicos (30%), os que avaliam o STF como ótimo ou bom (48%) e os que votaram em Lula em 2022 (50%).

Por sua vez, o PL se destaca entre os que têm renda familiar mensal de 5 a 10 salários mínimos (19%), com ensino médio e superior (14% cada), que avaliam o STF como ruim ou péssimo (30%) e votaram em Bolsonaro em 2022 (29%).

A estratégia para reverter a liquidação do Master e o cerco ao Banco Central no STF

Acareação de Toffoli ajuda plano da defesa do Master

Malu Gaspar
O Globo

Depois de conseguir o envio da investigação sobre o Master para o Supremo Tribunal Federal e a decretação de sigilo absoluto no caso, a próxima etapa da estratégia de defesa do banco já está em andamento. O objetivo é minar a credibilidade do Banco Central e desmontar o trabalho que levou à liquidação do Master para revertê-la e, no limite, quem sabe até receber algum tipo de ressarcimento.

O plano já foi desenhado pelos advogados do Master nas manifestações feitas tanto ao próprio Supremo como ao Tribunal de Contas da União, no processo em que o ministro Jhonatan de Jesus pediu esclarecimentos ao BC sobre a “decisão extrema” de liquidar o banco de Vorcaro.

CRIAÇÃO DE FATOS – Para que o estratagema dê certo, porém, é preciso criar fatos para justificar uma decisão de Toffoli contra os diretores e técnicos do BC. O histórico do ministro autoriza supor que ele tem chance de prosperar. Desde que embarcou no jatinho de um amigo empresário junto com o advogado de um dos investigados no caso para ir a Lima assistir a final da Libertadores, Toffoli vem seguindo à risca o script da defesa.

Nos últimos dias, ele já negou tanto o pedido da Procuradoria-Geral da República como o do próprio BC para suspender a acareação entre o dono do Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.

Disse, ainda, que Aquino não é investigado. Mas colocou os três em pé de igualdade em um procedimento que em tese deveria servir para confrontar versões, mas que se configura esdrúxulo, uma vez que não existe ainda versão alguma, já que ninguém prestou depoimento ainda. Supondo que Toffoli esteja de fato interessado em saber como o Banco Central atuou nesse caso, seria conveniente tentar entender pelo menos como se chegou à decisão de liquidar o Master.

DECISÃO UNÂNIME –  Primeira informação útil: a liquidação foi decidida com a aprovação unânime da diretoria colegiada do BC, incluindo o voto sim do presidente, Gabriel Galipolo, que em princípio não precisava se manifestar, já que os outros oito diretores eram a favor. A responsabilidade, portanto, é de toda a cúpula da autarquia.

E ainda: de todos, quem mais resistiu à ideia da liquidação foi o próprio Ailton Aquino, da fiscalização. Internamente no BC e no sistema financeiro, Aquino era visto como um aliado do Master.

Registros do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), sustentado por recursos dos próprios bancos, mostram que houve 38 comunicados oficiais sobre os riscos de liquidez, furos no balanço do Master e outras questões que deveriam levar a uma ação mais contundente do órgão regulatório.

ALERTAS – Quase todos os alertas eram dirigidos à área de Aquino, e muitos foram feitos em reuniões presenciais. Duas pessoas que participaram desses encontros me relataram que a atitude do diretor era sempre a de minimizar os problemas – que foram só se agravando ao longo do tempo.

A discussão em torno de uma atitude mais drástica em relação ao Master, como intervir ou liquidar, só começou a ganhar corpo a partir de março de 2025, quando o BRB anunciou que compraria 58% do banco de Daniel Vorcaro mas o deixaria comandando a instituição. Era na prática um mero salvamento, já que a venda não garantiria o controle para o BRB.

Foi no processo de análise dessa operação que outra diretoria, a de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, encontrou as fraudes nos contratos de crédito consignado que avalizaram o repasse de R$ 12, 2 bilhões do BRB para o Master pela venda da carteira, antes mesmo da fusão dos dois bancos.

RACHA – A partir daí deu-se um racha interno, com a área de Renato Gomes propondo intervir no Master e a de Aquino tentando encontrar uma solução que permitisse ao banco seguir operando. Portanto, o integrante do BC que mais conhece as fraudes e seu mecanismo não é Aquino, e sim Gomes, que até já terminou o mandato.

Os depoimentos ainda não foram marcados, mas há uma tensão entre os técnicos do BC sobre a possibilidade de serem chamados a depor, por temerem sofrer algum tipo de intimidação.

Esses mesmos técnicos informaram aos investigadores do Ministério Público e da Polícia Federal que nunca tinham sofrido tanta pressão política em favor de um único banco como no caso do Master.

REUNIÃO  – Enquanto esse embate interno se dava, em julho de 2025, ocorreu uma reunião em que o ministro do STF Alexandre de Moraes pediu a Galipolo pelo Master. Moraes, cuja mulher tem um contrato de prestação de serviços jurídicos de R$ 130 milhões com o banco, disse gostar de Vorcaro e recorreu a um argumento muito usado à época – o de que o banqueiro vinha sendo perseguido pelos grandes que não queriam concorrência. Ao ser informado por Galípolo de que o BC havia descoberto as fraudes, Moraes recuou e disse que tudo precisava ser investigado.

Desde então, o Master também parou de fazer os depósitos compulsórios para o caixa do BC determinados por lei, além de pedir ao FGC a abertura de linhas de créditos – dois indícios flagrantes de problemas de liquidez.

Dois dias antes de a liquidação ser decretada e Vorcaro ser preso, o dono do Master pediu para antecipar uma reunião com Aquino para dizer que tinha encontrado compradores para seu banco, um consórcio entre a financeira Fictor e um fundo árabe que ele nunca soube qual era.

OFÍCIO – Depois da prisão na área de embarque do aeroporto de Guarulhos, o registro da reunião foi usado pela defesa de Vorcaro para argumentar que ele tinha avisado ao BC que viajaria para Dubai e que portanto não poderia estar fugindo. O ofício com o registro, assinado por Aquino, foi fundamental para que Vorcaro fosse tirado da cadeia e enviado à prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.

Se queria mesmo entender como foi feito o trabalho dos técnicos da autarquia, Toffoli deveria ter convocado ao menos os dois diretores – e não apenas o mais próximo de Vorcaro. Diante desse quadro, os representantes legais do BC acusaram o risco de “armadilhas processuais” e pediram o cancelamento da acareação.

A quem pergunta, nos bastidores, o ministro tem tentado convencer de que que não vai aliviar a situação do Master. Até agora, porém, o que se viu foi o contrário. Parece que Toffoli está mais interessado nessa acareação do que na vitória do Palmeiras em Lima. Seu time, aliás, perdeu o título para o Flamengo. Mas o de Vorcaro só tem tido vitórias.

Moraes ainda sonha escapar, mas as perspectivas são desesperadoras

Após decisão do STF, Toffoli e Moraes são citados 653 mil vezes no Twitter

Toffoli faz o possível e o impossível para salvar Moraes

Carlos Newton

A chegada de Natal e Ano Novo foi oportuna para Alexandre de Moraes, porque reduziu um pouco o impacto negativo de sua ligação com o banqueiro fraudador Daniel Vorcaro, que o ministro do Supremo tentou livrar da falência fazendo o Estado assumir os prejuízos da inevitável falência do Banco Master.

Moraes se empenhou pessoalmente para que o Master, com as finanças destroçadas por gestões temerárias, fosse comprado pelo Banco Regional de Brasília (BRB), que é estatal, gerido pelo governo do Distrito Federal.

BAÚ DA FELICIDADE – Na verdade, nada de novo na frente ocidental. O mesmo golpe foi aplicado em 2010 por Silvio Santos, quando seu Banco PanAmericano estava à beira da falência por má gestão e desvio de recursos.

O dono do SBT conseguiu convencer Lula a receber um baú da felicidade, digamos assim, caso autorizasse a Caixa Econômica a comprar parte do PanAmericano. Lula aceitou, a Caixa ficou com 35% do controle, pagando cerca de R$ 750 milhões, e Silvio Santos comemorou no programa “Tudo por Dinheiro”.

Como banco estatal não pode falir, o PanAmericano escapou da intervenção extrajudicial preparada pelo Banco Central. Ninguém foi preso e ficou tudo por isso mesmo, como se dizia antigamente.

GOLPE FRACASSADO – Desta vez, porém, a armação ainda não deu certo, porque o prejuízo do Master era estratosférico e havia provas abundantes de fraudes e gestão temerária.

Aqui na Tribuna da Internet, montamos um grande dossiê e enviamos oficialmente os documentos para o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários e o Tribuna de Contas da União.

Dois meses depois, a negociata foi desfeita, o Banco Central fez intervenção no Master, seu controlador Daniel Vorcaro foi preso com dois cúmplices e a Justiça Federal decretou o afastamento temporário do presidente do Banco BRB, Paulo Henrique Costa, e do diretor de Finanças e Controladoria da instituição, Dario Oswaldo Garcia Júnior.

SOS MASTER – Apesar de tudo isso, ainda há quem tente salvar não só o banco, como também, consequentemente, o ministro Alexandre de Moraes, cuja mulher firmou um contrato de R$ 129,6 milhões para assessorar a diretoria do Master da forma mais ampla possível.

É o caso do ministro Dias Toffoli, que parece não ter medo do ridículo nem da espada de Dâmocles, aquela que ameaça detentores de grande poder que podem perdê-lo de repente.

Nesta terça-feira, dia 30, haverá uma acareação tipo comédia em Brasília, determinada por Toffoli e reunindo o banqueiro falido Daniel Vorcaro;  o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa; e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Eles serão ouvidos por videoconferência.

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P.S. –
A acareação é tipo Piada do Ano ou Baú da Felicidade, porque os três são favoráveis à venda do Master para o BRB. Como se vê, Toffoli esqueceu de convidar Alexandre de Moraes para participar. Seria importante, porque ele tem 129 milhões de razões para apoiar a negociata, como diz o jornalista Mario Sabino, do Metrópoles. (C.N.)

Brasil já se livrou de Bolsonaro e não precisa eleger o filho dele

Flávio exibe a carta que Bolsonaro escreveu na prisão

Vicente Limongi Netto

Bolsonaro, aquele que debochou da pandemia e das vacinas contra Covid, colhe preso o que plantou. Bolsonaro, o ex-presidente que insultava e xingava repórteres, rabiscou carta clamando por justiça.

Bolsonaro, o mesmo que não admitiu a derrota, acusando as urnas de fraudulentas, afirma no meloso texto que oferece o filho, Flávio, para resgatar o Brasil.

CHEGA! – A nação se livrou de Jair Bolsonaro. Não precisa de outro Bolsonaro para presidir o Brasil. Seria oceânico castigo.

Este papelucho de Bolsonaro ao país lembra, com as devidas proporções, a carta-testamento de Getúlio Vargas, que a seguir acabou com a vida, com um tiro no coração, adiando o golpe militar que então já se tramava.

Não se tem confirmação se o ex-presidente Bolsonaro pensa em pedir ao ministro Alexandre de Moraes a posse de um revólver, para imitar Vargas. Cartas para a Policia Federal.

CAPITAL DO ATRASO – Brasília é literalmente mal tratada pela atual corja de governantes incompetentes e demagogos.  Gastança pública é colossal. Ruas vivem cheias de mendigos e crianças com fome. A população exige e precisa de transporte urbano de qualidade, de bom atendimento nos hospitais e prontos-socorros.

Necessita de ruas limpas. Iluminação pública decente. Segurança nos bairros e nas vias. Jovens são assassinados por causa de celular. Mendigos e ladrões tomaram conta da Asa Norte.

Policiamento é ruim. Crescem os covardes feminicídios.  Faltam escolas que orgulhem alunos, pais e professores. 

GOVERNO INEPTO – Brasilia oferece maus exemplos para brasileiros em geral. Nos hospitais públicos falta comida para os acompanhantes.  É comum também faltarem remédios e até produtos básicos, como seringas, gases e esparadrapo.

A fome e a miséria tomaram conta dos espaços públicos. As pessoas se revoltam com a falta de médicos. O matagal tornou-se paraíso para ratos e marginais. O trânsito é dominado por irresponsáveis e assassinos.

A péssima gestão acabou com o sossego da população.  Nas ruas, avenidas, calçadas  e quadras têm mais buracos do que asfalto. O desgoverno atual vai embora sem deixar saudades. Apenas indignação e desapontamento.

STM fatiará julgamentos de Bolsonaro e ex-comandantes sobre perda de patente

Julgamentos podem ter placares apertados

Mariana Muniz
O Globo

O Superior Tribunal Militar (STM) vai distribuir os processos sobre a possível perda de patente de militares condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na trama golpista para ministros diferentes, sem um relator único para todos os casos. A presidente da Corte, Maria Elizabeth Rocha, afirmou que a expectativa é que os julgamentos comecem em 2026, após o envio das representações pelo Ministério Público Militar, previsto para fevereiro.

Segundo Maria Elizabeth, os processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-ministro do GSI general Augusto Heleno, o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, o ex-chefe da Marinha almirante Almir Garnier e o ex-ministro da Casa Civil general Braga Netto serão distribuídos livremente entre os integrantes do tribunal, exceto ela, por ocupar a presidência.

“DIGNOS OU NÃO” – “Ninguém vai avaliar o crime que já foi julgado pelo STF. Vamos analisar se os militares são dignos ou não para continuar no oficialato”, explicou Elizabeth em um café com jornalistas nesta semana.

A ministra destacou que o momento da distribuição será acompanhado pela imprensa e reconheceu que os julgamentos podem ter placares apertados, com possibilidade de alguns condenados não perderem a patente. “Sendo representação individualizada por parte do Ministério Público, cada caso pode ir para um ministro diferente”, disse.

Ainda segundo Elizabeth, a função do STM é analisar, depois do trânsito em julgado pelo Supremo, se o militar, da ativa ou reformado, tem “condições de continuar pertencendo à força que ele escolheu, ou não”.

INDICADOS – Dos 15 ministros que deverão participar do julgamento, cinco foram indicados por Bolsonaro. Além disso, alguns deles foram contemporâneos e trabalharam com alguns dos oficiais que agora deverão julgar. O ministro general Lourival Silva, por exemplo, foi colega no Alto Comando do Exército de Paulo Sérgio e Braga Netto. Já os ministros almirantes Leonardo Puntel, Celso Nazareth e Cláudio Viveiros compuseram o Almirantado — cúpula da Marinha — na mesma época de Garnier.

A presidente do STM também defendeu a criação de um código de conduta para os ministros de tribunais superiores e disse que a medida não é um “moralismo barato”, mas sim um “dever cívico”. A proposta está sendo estudada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, e gerou repercussões nos bastidores do Judiciário na semana passada — em meio à polêmica envolvendo uma viagem do ministro Dias Toffoli.

INSPIRAÇÃO –  Maria Elizabeth foi uma das presidentes de tribunal superior consultadas por Fachin sobre a ideia, que tem inspiração no tribunal constitucional da Alemanha, o equivalente do Supremo do país europeu. Segundo a presidente do STM, a iniciativa tem o respaldo de todos os outros presidentes das demais Cortes e não tem como objetivo punir os integrantes da magistratura.

“É importante que tenha um código ético, que deixe bem claro qual é a conduta que se deve adotar para o exercício da profissão. Honramos a toga que a gente veste, não é um moralismo barato, mas um dever cívico”, disse.

CLAREZA – A ministra afirma que é preciso que “haja clareza” sobre o funcionamento do Judiciário e sobre a conduta de seus integrantes que, segundo ela, “não podem falhar”. Maria Elizabeth afirma ainda que essas regras devem atingir, por exemplo, a participação de ministros em eventos privados, palestras e a análise de causas em que há a atuação de parentes.

“O código é fundamental para que a magistratura saiba se portar inclusive em casos dúbios. O juiz não poderia julgar processos em que seus aparentados e afins advogam. Se trata de regramentos republicanos”, afirmou.

Deputado questiona pagamento de R$ 2 bilhões por Tarcísio a concessionárias de rodovias

No caso Master, o STF é suspeito, investigador, promotor e até juiz

Blindagem do Supremo. Charge de Marcelo Martinez para a newsletter desta  sexta-feira (5). #meio #charge #stf #blindagem

Charge do Marcelo Martinez (Arquivo Google)

Fabiano Lana
Estadão

Uma crítica recorrente direcionada ao Supremo Tribunal Federal (STF) desde a instauração dos chamados inquéritos das fake news, em 2019, é que a instituição havia se tornado vítima, investigadora, promotora e julgadora de uma mesma causa. As controvérsias seguem até hoje.

Mas, no caso, era possível defender a utilidade do processo, por desbaratar uma tentativa de golpe de Estado comandada por Jair Bolsonaro, agora preso.

ACIMA DAS LEIS – Houve reparação, entretanto, no sentido de o STF não poder se dar ao direito de passar por cima das leis para “salvar a democracia”, com direito a censuras, sigilos injustificados e outras medidas controversas.

Logo, se a democracia de fato foi salva, teríamos chegado ao que se chama na filosofia de “aporia” – um conflito de ideias intransponíveis.

Ou seja, para fazer sobreviver o império das leis, foi necessário quebrar as leis. De qualquer maneira, mesmo com os suspeitos já condenados, o tal inquérito polêmico e controverso, presidido pelo ministro Alexandre de Moraes, segue aberto como uma espada de Dâmocles.

FRAUDE BILIONÁRIA – No caso Master, banco liquidado pelo Banco Central, por fraude bilionária, o Supremo escala mais um degrau de heterodoxia. É investigador, promotor, julgador e, infelizmente, até mesmo suspeito.

O caso está com o ministro Dias Toffoli, em segredo de Justiça, por decisão do próprio – após uma estranha viagem de jatinho com um advogado de diretor do banco para uma partida de futebol do exterior.

Mas, a não ser que os ministros tivessem investimentos milionários no banco, acima de R$ 250 mil, não se pode dizer que sejam vítimas – o que é uma diferença para o caso das fake news.

SUPERCONTRATO – A situação, na verdade, é mais desafiadora. Não se sabe em que nível, mas o que temos agora é a revelação de que Alexandre de Moraes se beneficiava diretamente de um contrato do escritório de advocacia da esposa, Viviane Barci de Moraes, de R$ 3,6 milhões por mês, com o banco quebrado, sem que ainda saibamos qual seria o serviço prestado.

Ainda pesa contra o ministro Moraes a suspeita de ter pressionado autoridades públicas, entre elas o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para que o banco fosse salvo, em uma operação que envolveria o banco BRB, do governo de Brasília.

A situação já estava em um constrangimento em grau máximo quando Dias Toffoli determinou a acareação entre o dono do banco Master, o ex-presidente do BRB e o diretor de fiscalização do Banco Central, em plena véspera de feriado do ano-novo! Seria demais achar que tudo isso, no final das contas, soa como coação? Ou é ir longe demais?

META DE TOFFOLI – Álvaro Gribel, colunista do Estadão, revela que um dos objetivos de Toffoli é anular a liquidação do Master. Como temos uma militância cega e ideologicamente e capaz de tudo, esperem para ver uma turma a defender com ardor e agressividade um banqueiro acusado de crimes contra seus clientes.

Os militantes de esquerda, inclusive, têm achado tudo isso bastante normal e passaram a agredir qualquer um que divulgue esses fatos. Exigem provas, documentos, o fim do anonimato das fontes.

Comparam com os excessos da Lava-Jato (que, ironicamente, se desmoralizou pelos abusos dos juízes e promotores e não com a divulgação dos crimes).

WATERGATE – Uma questão histórica: o ex-presidente norte-americano Richard Nixon deve se lamentar no túmulo por renunciar à presidência após um escândalo divulgado por anônimos como fontes – o caso Watergate, como lembrou o jornalista Glenn Greenwald.

É considerado o maior caso do jornalismo mundial e as acusações se revelaram verdadeiras somente anos depois.

PL aposta na diversidade para conquistar eleitores e tirar a hegemonia da esquerda

PL mira em ‘gays de direita’ e periferia

Anna Virginia Balloussier
Folha

Rafael Satiê, 38, divulgou no mês passado um vídeo para contar sua história de vida. Diz que “desmonta toda a narrativa da esquerda no Brasil”. Na gravação, conta que é filho de ex-traficante criado numa comunidade carioca por mãe solo, “minha princesa e minha rainha”. Tem um irmão preso e o outro “perdido para o tráfico de drogas”. Então aceitou Jesus, e tudo mudou. O evangélico também se converteu ao empreendedorismo. Espelhou-se na mãe, que vendeu de Yakult a pizza em busca da prosperidade.

Eleito vereador pelo PL-RJ em 2024, Satiê entrou na política tendo como norte o homem que, em setembro, foi condenado a pagar indenização de R$ 1 milhão por declarações racistas dadas em 2021, como ter comparado o cabelo crespo de um homem negro a um “criatório de baratas”.

DEFESA DA FAMÍLIA – O ex-presidente Jair Bolsonaro é referência para esse jovem que se diz simpatizante do conservadorismo antes de virar modinha. “Minha formação cristã sempre me guiou pela defesa da família, da vida desde a sua concepção, da liberdade, da ordem e da responsabilidade individual”, ele diz à Folha. “Esses princípios são naturalmente ligados à direita. Com o tempo, apenas passei a expressar isso de forma mais clara e firme.”

O vereador foi um dos exemplos dados pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, como possível candidato a um cargo em 2026 —deputado estadual ou federal. A hipótese tem voltagem simbólica. Na disputa por novos públicos, o partido passou a tratar a diversidade não como inimiga ideológica, mas como ativo eleitoral. A estratégia, segundo Sóstenes, é apoiar candidaturas que articulam representatividade e conservadorismo, e assim rivalizar com a esquerda nesse debate.

MERITOCRACIA – O discurso de Satiê sintetiza bem o espírito da coisa. “Quando alguém vem da favela, como eu vim, e é negro, a esquerda costuma tentar enquadrar essa pessoa em uma narrativa pronta. Tentaram fazer isso comigo. Queriam que eu me apresentasse como vítima. Mas construí minha vida com temor a Deus, trabalho, empreendedorismo e acreditando na meritocracia, exatamente o oposto do que defendem.”

Tem mais de onde veio. Antes da operação da PF da qual foi alvo de buscas na sexta (19) em investigação sobre desvio de cota parlamentar, Sóstenes citava outros acréscimos desejados para esse projeto. O primeiro nome que lhe vem à cabeça é o de Jojo Todynho. A ex-funkeira chegou a ser convidada para concorrer à Câmara pelo PL na próxima eleição. Por ora declinou, embora a afeição pela legenda permaneça.

“Eu acho a Jojo um quadro super interessante, porque existem algumas cartas identitárias que preveem que uma mulher negra da periferia e gorda deveria ser necessariamente uma candidata alinhada à esquerda”, afirma o líder do PL.

HOMOSSEXUAIS – “E sabe o que nós vamos trabalhar agora também? Homossexuais de direita”, Sóstenes adiciona. Menciona Firmino Cortada como um nome com potencial. O influenciador do Mato Grosso do Sul, abertamente gay e de direita, já argumentou em podcast que “não existe gay de esquerda”.

Sua trilha argumentativa é esta: tão defenestrado pelo outro campo, o sistema capitalista seria essencial para que os homossexuais adquiram direitos, “porque o gay é um público que consome mercado de luxo, é uma fatia importante do capitalismo”.

DIVERSIDADE – O martelo para novas filiações e candidaturas ainda não foi batido, mas o PL enxergar a diversidade como um mapa do tesouro eleitoral não surpreende a antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, estudiosa ligada ao Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e ao Iser (Instituto de Estudos da Religião).

Ela pesquisa o PL Mulheres desde 2023, quando a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro assumiu a presidência do movimento. É por essa época que “fica muito evidente uma aliança entre mulheres que passam a se autodeclarar de forma mais direta como de direita, a partir de uma aliança específica entre evangélicas e católicas”.

As incursões pela discussão de gênero, agora pelo prisma conservador, englobam outros partidos, como o Republicanos da senadora Damares Alves e o PP de Celina Leão, a vice-governadora que almeja substituir Ibaneis Rocha (MDB), hoje titular no Executivo do Distrito Federal. Ambas evangélicas.

TEMAS –  “Venho percebendo a produção de uma gramática específica voltada para disputar o conceito de diversidade”, afirma Teixeira. Ela leva ao debate público um mix de temas, que vão de violência de gênero a pessoas com deficiência —área pela qual também passeia Michelle, fluente na língua de Libras.

A antropóloga repara que o PL Mulheres impulsionou de forma extraordinária filiações femininas. Quase 1.000% nos últimos dois anos, feito “muito vinculado à figura da Michelle e à sua capacidade de capilaridade”.

São políticas que não prescindem de velhos ranços do conservadorismo. Caso das que se declaram antifeministas, pois “acreditam que as mulheres feministas lutariam apenas por direitos seletivos a mulheres que também são feministas e que, na verdade, as mulheres de direita estariam lutando por todas e por todos”, diz Teixeira.

MISSÃO – Percepção similar à do vereador Rafael Satiê quando fala da própria trajetória. O litígio ideológico, aqui, é o mesmo: a direita precisa avançar sobre o eleitor historicamente associado à esquerda. Mulheres, negros, LGBTQIA+. Minorias, em geral. “Fui defendendo minhas ideias mesmo quando diziam que o negro não podia pensar da maneira que eu pensava”, diz Satiê. Para 2026, ele se diz preparado para a missão que Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, presidente do PL, confiarem a ele. “Se for a vontade de Deus e deles.”

A depender da pauta, a recepção de eleitores fiéis a esse espectro nem sempre acompanha essa abertura. O anúncio da influenciadora Sophia Barclay como pré-candidata a deputada pelo Novo ilustra essa tensão.

Ela, que se define como “trans de direita, foi alvo de ataques transfóbicos, como um que dizia não a reconhecer como mulher. Barclay diz que recebeu “reações positivas e negativas, o que é absolutamente normal na política”.

ATAQUES – “O que mais chama atenção é como muitas pessoas tentam deslegitimar ideias atacando a identidade pessoal. Isso diz mais sobre quem ataca do que sobre mim”, ela afirma. Também não vê incompatibilidade entre ser trans e conservadora. “Isso só é paradoxal para quem acredita que pessoas trans precisam pensar de uma única forma. Sou uma mulher trans, mas antes disso sou cidadã, trabalhadora, esposa e brasileira.”

Sobre Nikolas Ferreira (PL-SP), que já foi ao Congresso de peruca no Dia da Mulher para debochar da ideia de que uma trans exista: “Considero um jovem com visão exemplar e acredito que o debate deve existir de forma madura. Inclusive, em breve terei a oportunidade de conversar mais com ele, porque acredito no diálogo como ferramenta para avançar, mesmo quando existem divergências”.

‘Que se dane a OAB’: diz juíza que expulsou advogados de sessão do Tribunal do Júri

A poética lembrança de um jardim onde a dama da noite reinava, soberana

DAMA DA NOITE PERFUMADA

A beleza e o perfume que jamais são esquecidos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, administrador de empresas e poeta carioca Evanir José Ribeiro da Fonseca (1955-2017), no poema “Jardim do Éden”, recorda a sua infância no jardim existente em frente à casa que morava.

JARDIM DO ÉDEN
Evanir Fonseca

Na frente de minha casa tinha um jardim,
as flores nele cultivadas eram tão variadas
que pareciam travar uma grande batalha,
entre cores e perfumes que extasiavam as borboletas
que voavam, numa ida e volta frenéticas,
como se escolhessem as mais saborosas ou sedosas.

Na frente de minha casa tinha um jardim,
que eu, um garoto desbravador, perdia-me
por entre os galhos espinhosos das roseiras
e folhas imensas de tinhorão e murtas
que floriam lilases, brancas e mescladas
como se fossem várias em uma só enxertadas.

No jardim da minha casa tinha caminhos feitos de cimento,
que nos garantiam acesso a todas as plantas,
inclusive a uma “dama da noite”, peculiar no florir
pois abria no anoitecer e fechava-se no amanhecer,
seu perfume, imperativo, exalava tomando toda atmosfera
que, ao entorno dela, pareciam inexistir rosas
que como envergonhadas, encantadas e inanimadas,
descansavam, ou dormiam, talvez enfeitiçadas diante da sobrevida que passava a imperar
no encantado “jardim da minha casa”!

Flávio, Michelle e Tarcísio: a direita se devora antes da largada

BC desconfia da acareação de Toffoli e pede revogação, mas ele nega

Tribuna da Internet | Decisão de Toffoli ficou ainda pior com o documento de cooperação da Suíça

Charge do Kacio (Metrópoles)

Andreia Sadi
g1 Política

O ministro do Supremo Dias Toffoli negou um pedido do Banco Central e decidiu manter a data da acareação no caso Master: será na próxima terça-feira (30). Neste sábado (27), entidades do setor financeiro saíram em defesa do Banco Central; exaltaram o papel independente e técnico da instituição.

O Banco Central (BC) tinha enviado nesta última sexta-feira (dia 26) ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), embargos de declaração solicitando esclarecimentos sobre o pedido de acareação feito pelo magistrado no caso da liquidação do Banco Master.

A instituição alegou que não estava se recusando a cumprir a decisão, mas pedia que fosse esclarecida exatamente qual é a exigência, para evitar o que chamou de “armadilhas processuais”.

SEM EXPLICAÇÃO – O argumento é que a determinação do Supremo não explicava qual é a divergência concreta de versões que justificaria uma acareação entre o diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, e o dono do Master, Daniel Vorcaro. Também foi convocado o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa.

O BC também queria saber se o diretor Ailton Santos vai participar na condição de testemunha, investigado ou pessoa ofendida e se ele irá representando a instituição ou apenas a si próprio.

O BC pedia que, caso não fossem esclarecidos esses pontos, o STF então revogasse ou ajustasse a decisão.

O QUE HOUVE – No dia 24, Dias Toffoli, relator no STF do caso do Banco Master, agendou para a terça-feira (30) uma acareação entre os diretores do banco e o diretor de Fiscalização do BC.

O ministro tomou a decisão por meio de ofício, ou seja, não houve um pedido prévio, como de praxe, enviado à Polícia Federal (PF) ou Procuradoria-Geral da União.

Ao fazer essa determinação e comunicá-la aos três indicados, o ministro Dias Toffoli não deu qualquer explicação ou justificativa. Neste sábado, ao rejeitar o recurso do Banco Central, também não deu explicação sobre seu objetivo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– O único ponto em comum entre os três acareados é que todos eles apoiaram e ainda apoiam a criminosa venda do Banco Master para o BRB. Assim, ao que parece, o ministro Dias Toffoli ainda não entendeu direito o que significa a palavra acareação, ou então se trata de mais uma Piada do Ano, com tiro no pé. (C.N.)

O custo social de uma política monetária restritiva no Brasil

Charge do Cazio (Blog do AFR)

Pedro do Coutto

O mais recente levantamento do Banco Central, divulgado em reportagem de Bruna Alessa, Vinícius Néder e Letícia Rafaela, em O Globo, expõe um retrato preocupante da economia doméstica brasileira. O endividamento das famílias voltou a crescer, enquanto a concessão de novos empréstimos recuou de forma significativa. No centro desse desequilíbrio está uma variável bem conhecida, mas ainda subestimada em seus efeitos sociais e políticos: a taxa de juros.

Com a taxa básica da economia mantida em 15% ao ano, em um contexto de inflação estimada em 4,1%, o Brasil opera hoje com juros reais em torno de 11%. Trata-se de um patamar extremamente elevado quando comparado a padrões internacionais, inclusive entre países emergentes. Essa escolha de política monetária, embora justificada pelo discurso do controle inflacionário e da credibilidade fiscal, cobra um preço alto da sociedade — especialmente das famílias de renda média e baixa.

ENDIVIDAMENTO – Os dados são eloquentes. Em outubro, o endividamento das famílias alcançou 49,3% da renda anual, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou a 29,4%. Em outras palavras, quase um terço do rendimento médio das famílias brasileiras está sendo consumido pelo serviço da dívida. Não se trata apenas de números frios: é menos comida na mesa, menos investimento em educação, menos capacidade de planejamento e mais insegurança cotidiana.

O quadro se agrava quando se observa a dinâmica do crédito. A concessão de novos empréstimos caiu cerca de 6,6%, sinalizando retração da atividade econômica e maior cautela — tanto de bancos quanto de tomadores. O crédito às empresas, fundamental para sustentar investimentos, emprego e crescimento, sofreu quedas ainda mais expressivas, superiores a 30% em termos proporcionais à renda anual média. Esse estrangulamento do crédito produtivo compromete a recuperação econômica e reforça um ciclo de baixo crescimento.

CUSTO DO CRÉDITO – Mas talvez o aspecto mais chocante — e politicamente sensível — seja o custo do crédito ao consumidor. Os juros do cartão de crédito rotativo, quando financiados, chegam a absurdos 440% ao ano. Não há racionalidade econômica, tampouco justificativa moral ou social, para taxas dessa magnitude. Elas estão fora de qualquer padrão aceitável de normalidade e revelam falhas estruturais graves no sistema financeiro, na regulação do crédito e na proteção ao consumidor.

É importante destacar que os salários não têm acompanhado a inflação de forma consistente. Mesmo com índices inflacionários relativamente controlados, a renda real das famílias permanece pressionada. O resultado é previsível: para manter o padrão mínimo de consumo, muitas famílias recorrem ao crédito caro, aprofundando um processo de endividamento que se retroalimenta.

DILEMAS – Do ponto de vista político, esse cenário impõe dilemas claros. Uma política monetária excessivamente restritiva pode até conter pressões inflacionárias no curto prazo, mas produz efeitos colaterais relevantes: desaceleração econômica, aumento da inadimplência, concentração de renda no sistema financeiro e desgaste social. O debate sobre juros, portanto, não é apenas técnico — é profundamente político.

Fontes de alta credibilidade como o Banco Central do Brasil, o IBGE e o próprio O Globo ajudam a iluminar esse diagnóstico, mas a decisão sobre os rumos da política econômica exige algo além dos modelos: sensibilidade social e visão estratégica de desenvolvimento. Persistir em juros reais tão elevados significa aceitar, como custo colateral, o empobrecimento relativo das famílias e a asfixia do setor produtivo.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: a quem serve uma economia que remunera tão bem o capital financeiro, mas empurra milhões de famílias para o limite do endividamento permanente? Enquanto essa questão não for enfrentada com coragem e equilíbrio, os números continuarão piorando — e a fatura social, inevitavelmente, chegará às urnas.

Defesa e aliados dizem que Zambelli sofreu agressões na prisão da Itália

Preso ao próprio reflexo, o bolsonarismo se aprisiona na sucessão familiar

Movimento sequer consegue unificar a própria direita

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A decisão de Jair Bolsonaro de avalizar a pré-candidatura presidencial do filho, o senador Flávio Bolsonaro, não se limita a um gesto de continuidade política. Ela revela um erro estratégico profundo: a crença de que o bolsonarismo se confunde com o país — e de que seus votos são automaticamente transferíveis para além do próprio núcleo ideológico. Não são.

O movimento ocorre em um contexto de retração evidente. Bolsonaro está juridicamente impedido, politicamente fragilizado e institucionalmente isolado. Diante disso, sua reação não é ampliar alianças ou reconstruir pontes, mas fechar o jogo e concentrar poder. Ao optar pela sucessão familiar, transforma capital político em patrimônio privado, como se liderança fosse bem transmissível. A política, no entanto, não opera segundo a lógica do testamento — sobretudo quando identidade é confundida com maioria eleitoral.

CIRCUSTANCIAL – Desde 2018, o bolsonarismo consolidou uma base fiel, ruidosa e altamente mobilizada. Mas essa base nunca correspondeu à totalidade da direita brasileira, tampouco funcionou como bloco homogêneo. Parte relevante dos votos que levaram Bolsonaro ao Planalto resultou de circunstâncias específicas: rejeição ao sistema, antipetismo conjuntural e ausência de alternativas viáveis naquele momento. Eram votos voláteis — e a volatilidade não se transfere por sobrenome.

Ao ungir Flávio Bolsonaro como sucessor, Bolsonaro parece acreditar que o nome da família basta para manter unido um campo que sempre foi plural, competitivo e atravessado por disputas internas. A decisão ignora um dado central do tabuleiro político: o bolsonarismo possui votos próprios, mas a direita brasileira abriga projetos distintos, ambições concorrentes e lideranças que aguardavam a abertura da corrida presidencial. Ao fechar essa possibilidade, Bolsonaro não agrega — fragmenta.

A imposição de um herdeiro não organiza a direita; tensiona-a. Ao substituir o debate por lealdade e a competição por obediência, o bolsonarismo converte aliados potenciais em dissidências silenciosas. O resultado tende a ser menos convergência e mais dispersão: candidaturas paralelas, projetos regionais autônomos e um campo conservador dividido entre fidelidade pessoal e viabilidade eleitoral.

CONTROLE – A escolha do filho tampouco se ancora em densidade programática ou trajetória nacional consolidada. Fundamenta-se na confiança absoluta e no controle. Em um movimento moldado pela desconfiança permanente das instituições, da imprensa e da política profissional, a família surge como último espaço de previsibilidade. O problema é que previsibilidade interna não gera, por si só, competitividade externa — especialmente em um país complexo, desigual e exausto de confrontos permanentes.

O gesto também evidencia o esgotamento de um projeto de expansão. Em vez de disputar hegemonia dentro da própria direita, o bolsonarismo prefere preservar-se como identidade fechada. Em vez de dialogar com correntes conservadoras não radicalizadas, opta por submetê-las ou descartá-las. Em vez de formular respostas para desafios estruturais do país, reafirma a fidelidade como critério central de pertencimento político. O efeito não é fortalecimento, mas redução do campo.

Do ponto de vista eleitoral, trata-se de uma escolha defensiva. Bolsonaro sabe que carrega rejeições profundas, acumuladas por uma gestão marcada pelo conflito institucional, pelo desprezo às políticas públicas e pela retórica autoritária. Transferir o protagonismo ao filho é uma tentativa de manter mobilizado o núcleo mais fiel, ainda que isso implique perder capacidade de articulação com outros setores da direita.

ESPÓLIO –  Flávio Bolsonaro recebe o espólio do bolsonarismo, mas não o conjunto do campo conservador. Parte com uma base leal, porém limitada. Ganha visibilidade, mas também carrega passivos políticos e simbólicos: investigações, controvérsias e a associação direta a um projeto que fracassou em produzir consensos mínimos e respostas duradouras às crises do país. O peso do legado acompanha o nome.

Ao antecipar a sucessão, Bolsonaro tenta ainda interditar o debate sobre o esgotamento do bolsonarismo como projeto nacional. Em vez de refletir sobre as perdas de apoio, o isolamento internacional e a incapacidade de converter retórica em políticas públicas estruturantes, o movimento escolhe reafirmar a obediência como valor político supremo.

MEDO DA DISPERSÃO – O gesto não expressa força, mas receio. Medo da dispersão, do esquecimento e da irrelevância. Medo, sobretudo, de que o bolsonarismo seja lembrado não como um projeto político consistente, mas como um surto de mobilização sustentado por uma figura mítica — mais ruidosa do que dirigente, incapaz de organizar maiorias duradouras.

Quando um movimento político passa a confundir sua base com o país — e sua família com o futuro — deixa de disputar consensos e passa apenas a administrar limites. Projetos que abdicam de convencer para se dedicar a controlar não constroem legado: sobrevivem por inércia, até que o mito se desgaste, a base se reduza e reste apenas o registro de um poder que falou alto, mas nunca soube governar o tempo.

 

Galípolo está acovardado e quer recuar das acusações que fez contra Moraes

charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio. #bancomaster #master #moraes #stf #banco #brasil #Natal #papainoel #chargejornaldocommercio #chargethiagojc #chargethiagolucas #chargethiagolucasjc *digital

Charge do Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Carlos Newton

O Brasil não pode aguardar o término do recesso parlamentar e do Supremo Tribunal Federal, ou de uma CPI a se iniciar somente a partir de fevereiro, para que providências de toda ordem sejam implementadas no caso do Banco Master.

Essa desmoralização envolvendo integrante da mais alta cúpula do Poder Judiciário não pode prosseguir por mais tempo sem conclusão.

ACOBERTAMENTO – Se o presidente do BC, Gabriel Galípolo, recebeu telefonemas nada republicanos, pedidos de informações sobre decisões a serem proferidas pela autarquia pública, que não devem ser compartilhadas com outros poderes, por que continua acobertando improbidade administrativa e reprovável advocacia administrativa por parte de quem tem por missão entregar Justiça em nome do Estado?

Alexandre de Moraes não vai produzir prova contra si mesmo, sua esposa e filhos. É o que está disposto na Constituição, mas Galípolo comete grave ilícito profissional se continuar se desobrigando de relatar o que Moraes conversou com ele por telefone ou presencialmente, além das alegadas consequências da aplicação da Lei Magnitsky.

Isso, sem esquecer que o próprio presidente da República, como divulgado, teria sido informado sobre essas ocorrências.

VOLTANDO ATRÁS – Quem fez a denúncia foi o próprio Galípolo. Na festa que reuniu os jornalistas que cobrem o Banco Central, no dia 18, ele próprio tomou a iniciativa de dizer que havia sofrido pressões intensas para facilitar a venda do Banco Master. E revelou, orgulhoso, que sua equipe no BC tinha documentado tudo.

A jornalista Malu Gaspar, que não passa paninho em corrupção, confirmou no Banco Central, com seis fontes diferentes, que tinha havido as pressões. Ao mesmo tempo, o jornalista Lauro Jardim apurou que a mulher de Alexandre de Moraes tinha um contrato de R$ 129,6 bilhões com o Banco Master, para defendê-lo e assessorá-lo em praticamente todo tipo de situação.

Seis fontes diferentes revelaram a Malu Gaspar que houve as pressões e que um dos assediadores era justamente Alexandre de Moraes. Ela publicou em O Globo e a notícia ganhou asas, reproduzida nacional e internacionalmente.

GALÍPOLO RECUA – O que ninguém esperava é que o presidente do Banco Central se acovardasse e agora venha com a conversa fiada de que os insistentes telefonemas de Moraes (houve seis, num dia só) foram motivados pela Lei Magnitsky, uma Piada do Ano.

Isso é muito perigoso. Vivemos hoje sob “ditadura do Judiciário”, conforme constatado por observadores internacionais da OEA. E ninguém duvide que o ministro Alexandre de Moraes e sua família venham a reivindicar vultosa indenização moral e material a ser paga pelos divulgadores originais de seus ilícitos, se provas cabais das denúncias não vierem à tona.

O mesmo de se dizer do silêncio comprometedor do presidente do Banco Central, ao ficar em cima de um muro que já desabou.

ESCOLA BASE – Lembrem as criminosas reportagens produzidas sobre a “Escola Base” de São Paulo, causadas pela irresponsabilidade de um delegado de polícia que afirmou ter provas de abusos a crianças. Era tudo mentira. Uma família de educadores foi destruída.

Naquela época nem havia internet. Hoje, os efeitos são milhares de vezes mais nefastos. A Organização Globo, que teve seu furo repercutido por toda a mídia, não pode obrigar Mau Gaspar a revelar suas seis fontes. Ela está protegida pelo inciso XIV, do artigo 5º. da Constituição Federal: “É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.

Quem deve cumprir o dever de revelar o escândalo que ele próprio descortinou é o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. O povo quer saber se há gravação de mensagens telefônicas, documentos escritos ou outras provas robustas além de indícios?

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P.S. –
Para os juristas do Supremo, contrato de prestação de assessoria jurídica celebrada por parente de ministro não gera condenação. Mas os jornalistas Lauro Jardim e Malu Gaspar estão tranquilos e apoiados pela Redação de O Globo e por funcionários da cúpula do Banco Central, que a qualquer momento podem vazar alguma prova. Assim, tudo indica que essa novela pode se prolongar muito. Comprem pipocas. (C.N.)

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