Supremo criou a democracia do medo, impedindo que se faça crítica ao poder

Tribuna da Internet | Superpoderes do Supremo minam sua legitimidade, e está difícil controlá-los

Charge do Mariano (Charge Online)

Fernando Schüler
Estadão

“Não podemos deixar de nos furtar a cassar eleitoralmente aqueles que abusaram, atacando instituições”, diz o ministro Toffoli em seu discurso, no STF, contra o relatório do senador Alessandro Vieira. A frase funciona como uma síntese do transe político brasileiro, dos últimos anos.

O roteiro é conhecido: denunciar condutas dos ministros equivale a um ataque ao Tribunal, como “instituição”. E portanto, uma agressão à própria democracia. O ministro também afirma que “sabe” por que o senador fez aquele relatório: uma “aventura para obter votos”. E daí a ponte para o crime eleitoral. O desfecho semanal do caso todos conhecem. O senador passou ele mesmo à condição de investigado. E a partir daí seu futuro político é incerto.

DEBAIXO DO TAPETE – Observem que há um padrão, nisso tudo. O ministro Toffoli foi o mesmo que abriu o inquérito sobre fake news, no início de 2019. Alguém lembra do motivo? Não havia nada em especial. Eram os mesmíssimos “ataques” aos integrantes do Tribunal, cuja conduta – seja ela qual for – passa sem muitas sutilezas a se confundir com a “instituição”, e logo com a “democracia”.

O primeiro ato é a censura da Revista Crusoé. Se há realmente um risco às instituições, o que deveria impedir a censura a uma revista? Por vezes me pergunto se teríamos chegado ao ponto em que chegamos se, ao invés de censurar aquela investigação jornalística, tivéssemos feito o contrário. Levado a sério. Ido adiante. Investigado, de fato, o que havia para investigar. Em uma democracia, é assim que funciona.

O jornalismo produz pistas, mas não dispõe de poder. Se a máquina do Estado não se move, é provável que muita coisa vai se acumulando debaixo de um enorme tapete. E por vezes é a imagem que me surge, quando penso no Brasil de hoje.

PADRÃO SUPREMO – Depois daquele episódio, o padrão se fixou. Foram anos de censura e coisas piores a quem praticasse qualquer modalidade de “ataque” ao Tribunal ou a seus integrantes

Na maior parte das vezes, coisas bizarras. O ativista que aponta o dedo médio para o prédio do Supremo (não é piada), o PCO, pequeno partido comunista, com seu tuíte que (quase) ninguém leu, dizendo alguma coisa sobre o STF que ninguém se lembra; a família de turistas que diz algum impropério em um tom mais elevado, em um aeroporto europeu.

O padrão se seguiu com o caso Tagliaferro. Sua crítica não era feita de xingamentos ou palavrões. Era uma denúncia sobre um sistema de abuso de poder. Alvos pré-definidos (como aquela “revista conservadora”), produção de provas, perseguição de pessoas por suas opiniões políticas, quebra do devido processo legal.

SISTEMA DE PODER – Tagliaferro era um funcionário público e trabalhou no núcleo do poder. Suas denúncias têm fundamento? Não há como saber. Ao invés de investigar, é o denunciante que é convertido em réu. Novamente, o “padrão”.

O sistema de poder se fecha, rechaça – com uma nota – qualquer responsabilidade. Se volta contra o elemento “crítico”. E de novo me pergunto se não estaríamos melhor caso tivéssemos levado à sério, investigado com isenção aquelas denúncias, ao invés de empurrar para debaixo do tapete. E mais uma vez, não encontro uma boa resposta.

O padrão, por estes tempos, segue intacto. Um jornalista ou blogueiro, no Maranhão, arrisca investigar um carro usado pelo ministro e termina na Polícia Federal. Mesmo destino do presidente da Unafisco. Sua crítica de que há mais medo de se investigar certas autoridades do que o crime organizado deveria preocupar o País. Mas ela era um “ataque”, não é mesmo? E era crucial, para nossa democracia, que ele também terminasse de bico fechado.

APENAS MAIS UM – Tudo isso para dizer que não há grande novidade neste processo que agora se abre contra o senador Alessandro Vieira. Ele se converte, na prática, em nosso novo Tagliaferro. Ao sugerir uma investigação dos “de cima”, torna-se ele mesmo o “investigado”. E por aí seguimos.

Uma sociedade democrática vive da controvérsia e do risco. A imunidade parlamentar, em especial, é um tipo de licença que a Constituição garante inclusive para o “erro”. Pela razão simples de que sem a possibilidade do erro, não há tomada de risco.

O senador pode estar errado em seu relatório. Em uma democracia, haverá sempre uma divergência sobre temas como este. Mas é seu direito, sua função e sua prerrogativa dizer o que pensa, em um relatório. Sem isso, não há parlamento que possa funcionar.

CRIME DE OPINIÃO – Se um senador é punido por uma opinião, em um relatório, a pergunta correta a fazer: qual o efeito inibidor que isto tem sobre os demais parlamentares?

É o mesmo padrão que se viu na censura a Cleber Cabral, da Unafisco: qual o efeito sobre os demais líderes associativos? E sobre o “blogueiro” do Maranhão: que impacto sobre os demais jornalistas independentes, que pensam em arriscar alguma investigação?

O resultado disso é a criação de uma sociedade do medo. No fundo, é este o problema com o “padrão”. Ele irradia um efeito inibidor, na sociedade. E vai consolidando a ideia de que temos por aqui um tipo de poder imensamente personalista e imune a qualquer suspeita. A qualquer hipótese de investigação. De um modo mais amplo, imune ao sistema de freios e contrapesos, que define a alma da vida republicana.

9 thoughts on “Supremo criou a democracia do medo, impedindo que se faça crítica ao poder

  1. Operação na Maré. Poucos bandidos irão morrer, é só para mostrar que o novo “governador” é “menos violento” que o ex-titular e que todos os bandidos são bonzinhos e estão colaborando com a operação. Chamem o Ladino, já que se trata da Maré. Eles se entendem. Aliás, o atual já sabe: se matar os bandidos, o careca que lava dinheiro irá tonar satisfação com o “colega”.

  2. Derrota no Senado serve para tirar Lula da zona de conforto

    Alguns analistas disseram que o governo acabou e que ele perderá as eleições

    Nesse filme, é difícil achar o mocinho.

    Lula indicou um amigo fiel para o Supremo. Davi Alcolumbre o sabotou porque queria colocar um amigo fiel no Supremo.

    A direita ajudou a derrubar Jorge Messias porque sonha em conquistar o Senado e povoá-lo de amigos fiéis, derrubando alguns ministros de reputação duvidosa.

    Em todos os casos, o Supremo é um território a ser ocupado, e não um espaço que a sociedade preenche com os mais brilhantes e honestos juristas, na esperança de decisões sábias e imparciais.

    (…)

    Fonte: O Globo, Política, Opinião, 05/05/2026 00h05 Por Fernando Gabeira

  3. Ao menos, surge quem tem coragem para pontuar uma ditadura contemporânea. O poder judiciário libertou a democracia e conseguiu aprisionar a liberdade de expressão.
    Por falar em liberdade de expressão, alguém tem notícia do Mário Sabino?

  4. É muito bonito e romântico falar nessa tal famigerada e nojenta ” liberdade de expressão ” de mão única e sem consequências , visando á impunidade .

  5. É muito bonito e romântico falar nessa tal famigerada e nojenta ” liberdade de expressão ” de mão única e sem consequências visando á impunidade , ou seja , o modismo da tal ” liberdade de expressão ” de mão única saiu de moda.

  6. Alguém deveria estar gostando daquela ditadura do proletariado e como saudosistas vão batendo o bumbo para nossa cleptocracia.
    Um estado vigilante e poderoso é a garantia que os recalcitrantes serão punidos a bem do Estado Democrático do Esquerdo.
    Tenho que aceitar ser o homem inseto da Metamorfose ou responder um Processo daquele que o Kafka narrou?
    Afinal alguma coisa sempre sobra depois do naufrágio da ilusões.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *