
Charge do Zappa (humortadela.com)
Luiz Felipe Pondé
Folha
Hoje, veremos se ainda temos fôlego para um breve exercício de ironia. Tentemos estabelecer uma pequena tipologia antropológica. O primeiro tipo já é um clássico, tratado por literatura especializada desde os anos 1990, mas, hoje, ramificou-se e ganhou musculatura acadêmica e tornou-se viral. Ponha a culpa de tudo nos outros.
Esses “outros” têm múltiplas faces. Os homens (brancos especialmente), o patriarcado, o neoliberalismo, a sociedade, as gerações mais velhas, o cristianismo. A lista tende ao infinito se você quiser eliminar qualquer responsabilidade sua nos seus problemas e do mundo à sua volta.
HÁ CINCO TIPOS – Nos tipos descritos em seguida, não há nenhuma tentativa de negar suas existências empíricas. No caso dos homens, há cinco tipos para o século 21, três negativos e dois positivos —qualquer tentativa de negar esse fato será vista como prova de que você se encaixa num dos três tipos negativos.
Esses tipos estão dentro do profundo debate que tem sido levado por “especialistas em homens” acerca das novas masculinidades e da necessidade de se discutir a masculinidade.
O tóxico, abusivo, que tortura a mulher psicologicamente. O violento que pratica violência física real contra a mulher. O machista estrutural, ou seja, aquele que nasce machista já desde o útero da mãe. Esses são negativos. Já os tipos positivos são: o feministo, mais feminista do que a própria feminista e o efeminado, o homem que parece e se comporta como uma mulher, que alguns, aliás, dizem estar na moda.
E AS MULHERES? – Quanto às mulheres, há as clássicas feministas, tipo positivo, e o negativo, as mulheres conservadoras, que são completamente opacas para as feministas. Se você não se encaixa num deles, procure ajuda profissional. Aliás, chama a atenção o empobrecimento da tipologia feminina nesse caso.
Quanto a preconceitos, há alguns que podem tornar você uma pessoa em dia com o nosso tempo. Considere os evangélicos como gente reacionária, bolsonarista e ignorante. O pior que aconteceu no Brasil nos últimos tempos. Outro preconceito para fazer de alguém um espécime bem contemporâneo é ser antissemita por razões decoloniais e anti-imperialistas.
Em matéria de geopolítica, louve o regime dos aiatolás. Releve a violência, a corrupção, os feminicídios por lá. Torça pelo Irã contra os Estados Unidos. Curta a China como o futuro político e econômico do mundo. Tenha um pôster do Xi Jinping no seu quarto ao lado do pôster do Lula.
OUTROS TIPOS – Um tipo essencial para nossa época é a pessoa que considera sua narrativa sexual, ou de gênero, o centro do universo. Esse tipo, se pudesse, colocaria em dúvida a teoria do heliocentrismo em favor da sua “gendercentrism theory”, e, assim, poderia narrar suas desventuras privadas como revoluções francesas pessoais.
Há o tipo que “evoluiu” do politicamente correto do final do século 20 para a prática de marketing da pluralidade no mundo corporativo. Esse tipo supõe que misturando “paradigmas de mundo”, por exemplo, ancestralidade indígena e inteligência artificial, chegará a um equilíbrio criativo.
No Brasil há alguns tipos peculiares —essa pequena tipologia se quer cosmopolita, mas os próximos tipos têm sabor nacional. Um primeiro é aquele que considera comunista todo mundo que não pensa como ele.
ROTA DE COLISÃO – Esse tipo, suspeito, poderá estar em rota de colisão com os manuais de como ser atual, porque sua matriz, Bolsonaro, parece condenada ao esquecimento. Ainda que, possivelmente, um resto poderá permanecer nas franjas do baixo clero.
Nesse movimento da revolução dos astros, a matriz desse tipo, Bolsonaro, correrá o risco de voltar à sua condição primeva de baixo clero irrelevante.
Há também o patriota de esquerda, que sonha com uma camisa da seleção brasileira vermelha. Esse tipo usa a palavra “soberania” com frequência para assuntos que, normalmente, não se usam, como, por exemplo, o risco de perda de soberania nacional para uma invasão de mosquitos. Outra prática desse tipo é dizer que vamos fazer isso ou aquilo com a Amazônia, quando nem temos soberania sobre ela.
TERRA SEM LEI – Especialmente interessante é o tipo que afirma que o Brasil não é terra sem lei. Claro, lei há muitas, mas só para os inimigos. A tradicional vocação burocrática do Brasil, no espaço de poder desse tipo, torna-se mais uma arma contra o cidadão.
Aqui, estamos à mercê de vários tipos de abusos. Além do crime organizado em si, o Estado e os governos, comumente, abusam dos cidadãos, ainda que alguns distribuam mesadas a troco de votos.
Há, claro, o tipo artista, que acha que salvará o Brasil com seus filmes, novelas e documentários.
Política deixou de ser instrumento racional de mediação coletiva e virou entretenimento de massa
O maior truque dos políticos atuais é convencer a sociedade de que ainda existe algum debate público sério, quando o que há, em grande medida, é apenas distração organizada. Um palco onde os palhaços são os eleitores.
Não se discute mais para compreender. Discute-se para ocupar emocionalmente as pessoas. A política deixou de ser instrumento racional de mediação coletiva e virou entretenimento de massa.
Uma espécie de reality show moral, tribal, histérico. O objetivo não é resolver problemas, mas manter a plateia excitada, indignada, mobilizada e dependente do próximo escândalo. Se possível, com muito ódio.
O entretenimento atual é mais eficiente porque invade tudo ao mesmo tempo: esporte, cultura, religião, militância política, redes sociais. Até causas humanitárias legítimas acabaram absorvidas pela lógica do engajamento. O importante deixou de ser a verdade e passou a ser audiência e o número de likes.
Hoje, governos, partidos, lideranças e militâncias produzem conflitos em escala industrial porque geram audiência – e audiência produz poder! Não importa se o tema é relevante ou ridículo. Importa que as pessoas permaneçam emocionalmente entorpecidas.
Um país discutindo frases de Nikolas, bonés de Lula e tweets de Janja é um país que não discute produtividade, educação, dívida pública, segurança, reforma administrativa.
Vivemos em um eterno estado de distração com aparência de democracia. Enquanto torcidas ideológicas brigam como organizadas de futebol, o Estado cresce, a máquina avança, corporações se blindam e grupos econômicos seguem capturando privilégios.
A gritaria pública, a partir dos próprios beneficiados, acaba funcionando como fumaça, sempre útil para esconder os movimentos reais de quem investe em manipulação.
O homem precisa desesperadamente distrair-se de si mesmo. Por isso, inventa de tudo para fugir dessa dor: guerras, religiões, ideologias, Olimpíadas, novelas, redes sociais, patriotismos, revoluções, Copa do Mundo, influencers, celebridades, messianismos baratos.
A política moderna apenas profissionalizou essa necessidade humana de distração e a distribuiu massivamente pela internet.
Por isso, líderes populistas sobrevivem por décadas, mesmo fracassando vergonhosamente em suas promessas. Eles não precisam mais entregar soluções, apenas fornecer algum sentido emocional e o combustível para se detestar quem pensa diferente.
Precisam manter viva a tal sensação de pertencimento, luta, missão e ódio pelo inimigo comum. O eleitor contemporâneo não quer eficiência. Ele só busca identidade e alguma anestesia.
O eleitor comum busca apenas uma narrativa que lhe permita atravessar a dureza da existência sem encarar de frente o vazio existencial dilacerante.
Fonte: O Antagonista, Opinião, 24.05.2026 12:46 Por Ricardo Kertzmann
Leitura relevante.
O mundo moderno está acabando com os valores que dignificam uma pessoa. Hoje a grande maioria só vê os seus interesses e o que pode ganhar com sua atividade. Admirável Mundo Novo
Na charge do Zappa omitiu-se a bandeirinha vermelha, com imagem da foice e do martelo, espetada no “sanduba de mortandela”, para também exaltar as esquerdas, nos moldes de uma rede fast-food famosa que atualmente homenageia seleções futebolísticas.
E o Pondé, onde se encaixa?
Procurei me enquadrar em algum tipo mas passei raspando em alguns.
Poderia me enquadrar como um tipo conservador e anticomunista heterodoxo.
Não sou um ortodoxo por não desejar fazer o que eles fizeram eliminando gente como eliminaram na China e União Soviética, O máximo de malvadeza que ousaria praticar seria obrigá-los a viver na Coreia do Norte por 27 anos.
Gostei desse artigo do Pondé.
Apocalipse, desfaz qualquer extemporâneo intrometido!
“Bolsonaro, parece condenada ao esquecimento”
Não é o que os números dizem.
O sonho desses isentões – serviçais dos petralhas – é destruir o legado do Bolsonaro. Pra isso, não se envergonham de apoiar censura e perseguição política.