Encontro foi precedido por horas de espera e apreensão
Luísa Marzullo
O Globo
O clima dentro do hotel The Willard, a menos de dois quilômetros da Casa Branca, era de apreensão desde o começo da manhã de terça-feira. Até poucas horas antes do encontro entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Donald Trump, ninguém no entorno do senador tratava a reunião como 100% garantida.
Flávio passou o dia recluso no hotel ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e do influenciador Paulo Figueiredo, um dos principais contatos do bolsonarismo junto ao trumpismo. Até o início da tarde, a agenda da Casa Branca não mencionava o senador brasileiro em nenhum compromisso oficial de Trump.
DESGASTE – O receio no grupo era de que qualquer mudança provocada pelas negociações internacionais envolvendo o Irã pudesse derrubar o encontro em cima da hora, apesar da pré-confirmação feita na véspera. Nas horas anteriores, aliados chegaram a discutir internamente o tamanho do desgaste político caso Flávio atravessasse o continente para tentar demonstrar força internacional e voltasse ao Brasil sem a foto ao lado do presidente americano.
A confirmação definitiva só veio após novos contatos feitos por interlocutores ligados ao secretário de Estado, Marco Rubio. A articulação da agenda passou justamente pelo entorno republicano próximo de Rubio, além da rede construída por Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos desde o governo Jair Bolsonaro.
Segundo relatos feitos ao O Globo, Eduardo e Paulo Figueiredo participaram apenas rapidamente do encontro. Entraram, cumprimentaram Trump e deixaram a sala logo depois. A avaliação dentro do grupo era que a reunião precisava ter “cara de encontro presidencial” e concentrar o protagonismo em Flávio.
CAMISA DA SELEÇÃO – O senador levou consigo uma camisa da seleção brasileira para presentear Trump. O plano, porém, não saiu exatamente como previsto. A peça acabou retida pela segurança da Casa Branca para procedimentos de inspeção e não pôde ser entregue diretamente ao presidente americano. Auxiliares afirmam que a camisa será liberada posteriormente.
Já sentado diante de Trump, Flávio ouviu seu pai, Jair Bolsonaro, virar assunto logo no começo da conversa. O presidente americano perguntou sobre a situação do ex-presidente brasileiro, quis saber detalhes da prisão domiciliar e questionou como a família estava lidando com o momento. Flávio então transmitiu um abraço do pai a Trump.
“CHALLENGE COIN” – Flávio ficou cerca de 1h40 na Casa Branca. Ao final, Trump entregou ao senador uma “challenge coin”, moeda simbólica tradicionalmente distribuída por presidentes americanos a aliados, militares e convidados considerados próximos. O senador mostrou o item a aliados ainda dentro da Casa Branca e tratou o gesto como um sinal político importante.
Durante a coletiva concedida após o encontro, Jason Miller, estrategista republicano ligado a Trump e um dos principais nomes da comunicação digital do trumpismo, apareceu rapidamente no local e cumprimentou Flávio. Miller mantém relação frequente com Eduardo Bolsonaro e já participou de agendas políticas ligadas ao bolsonarismo no Brasil.
GESTO POLÍTICO – Dentro da pré-campanha de Flávio, a avaliação é de que o encontro com Trump ajuda o senador a retornar ao Brasil com um gesto político de impacto após semanas dominadas pela crise envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Aliados do PL avaliam que a imagem ao lado do presidente americano reforça a associação internacional de Flávio ao trumpismo num momento em que setores da direita passaram a discutir alternativas presidenciais ao senador, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os ex-governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).
Flávio permanece em Washington até esta quarta-feira e deve retornar ao Brasil na quinta. Na sexta-feira, o senador tem agenda prevista em Curitiba.
Foto de araque com Trump não livra Flávio do Master
Flávio Rachadinha foi a Washington para tentar virar a página da crise desencadeada em sua pré-campanha pela descoberta das relações de “irmão” com Daniel Vorcaro.
Volta com uma foto ‘protocolar’ ao lado de Trump (sentado), mas longe de conseguir virar a página de um roteiro bem mais intrincado que o de “Dark Horse”, a produção alegadamente milionária sobre a vida de seu pai.
Para conseguir o encontro na Casa Branca, Flávio contou com a ajuda do time avançado do bolsonarismo nos States, integrado por Dudu Bananinha e Paulo Figueiredo.
A viagem também parece ter sido providencial para a turma alinhar as versões até aqui completamente desencontradas para o repasse de pelo menos R$ 61 milhões (ou US$ 10 milhões) de Vorcaro ao pré-candidato do PL.
Mas, como nem tudo na política se resume a uma operação para foto, como parece acreditar o comitê de gestão de crise bolsonarista, a realidade teima em impedir que a família mude de assunto na marra.
A fotografia mandrake com Trump acabou chegando no dia em que a Polícia Federal voltou a bater à porta do ex-governador do Rio Cláudio Castro, aliado do clã e responsável, segundo as investigações, por viabilizar politicamente uma operação que destinou pelo menos R$ 2 bilhões da Rioprevidência a papéis e fundos do Master.
— Tudo em contexto de crescente dificuldade do banco, diante de aparente crise de liquidez, tornando essencial a captação de aplicações junto a RPPSs e de substituição de instrumentos por novos produtos financeiros — conforme sustentou a PF.
O clique de araque com Trump fora da agenda oficial também ocorreu um dia depois de o dono do PL, Valdemar, dizer com a maior tranquilidade na GloboNews que Flávio visitou Vorcaro em São Paulo em 2025 “para ver se conseguia o restante do dinheiro” prometido pelo banqueiro para o filme, nada menos que outros R$ 73 milhões.
A operação Casa Branca não resolve o problema central: a quantidade de perguntas sem resposta aumenta a cada dia. E a lista agora ganha um apêndice nada trivial com os detalhes do capítulo Rioprevidência, cujos ingredientes Flávio tentou afastar numa de suas primeiras versões:
– O aporte de fartas quantias de dinheiro público — no caso dos beneficiários da instituição, no esquema de Vorcaro.
A conclusão de que o Q.G. bolsonarista se enrola em versões desencontradas está consolidada mesmo entre eleitores que ainda buscam alternativa a Barba.
Tanto é que os demais pré-candidatos que tentam pescar no aquário da direita têm tentado, de forma bem desajeitada, se beneficiar dessa sensação disseminada.
Além disso, por mais que se tente espremer o limão seco da entrada relâmpago na sala de Trump, para tirar uma foto, ainda existe uma realidade incômoda para a intrépida trupe:
– Os recentes encontros do republicano com Barba foram oficiais, mais produtivos e mostraram um recuo estratégico do governo dos Estados Unidos da defesa ideológica mais aguerrida do bolsonarismo.
Para um movimento político que se alimenta antes de tudo de comunicação direta e de alto impacto imagético, a montanha pode ter parido um rato. Mesmo porque a foto de araque rendeu memes nada edificantes para Flávio.
Assim como é ilusório imaginar que o caso está encerrado, continua prematuro decretar um dano irreversível para sua pré-candidatura.
A troca no comando de comunicação da campanha trouxe novos profissionais para cuidar do marketing do pré-candidato do PL.
Mas fica evidente que não bastará inventar um factoide, mesmo internacional, nem vetar perguntas sobre o assunto Vorcaro, como fizeram questão de impor na breve coletiva em Washington, para que o tema suma por mágica. Ele está mais latente e com maior capilaridade do que nunca.
Fonte: O Globo, Política, Opinião, 27/05/2026 01h15 Por Vera Magalhães
E também a fotografia do post não é a deste encontro; Eduardo não esteve presente nem foi fotografado junto com Trump, É uma fotografia anterior; a real mostra apenas o Flávio, de pé, atrás do Trump, que está sentado. O que, aliás, deixa sérias dúvidas sobre a pretensa duração do encontro, porque se tivesse demorado mais do que uns poucos minutos o Flávio teria ter se sentado também.
Mais um factoide de Flávio Rachadinha; desta vez em Washington.
Produzir factoide é uma especialidade da famiglia, agora reconhecida internacionalmente, inclusive.
“Mais um factoide de Flávio Rachadinha; desta vez em Washington.
Produzir factoide é uma especialidade da famiglia, ‘habilidade’ agora reconhecida internacionalmente, inclusive.”
O Ladrão™ fez a mesma coisa, mas as galinhas não se manifestaram.
òbvio..
È o silêncio ao revesso…
eh!eh!eh!eh
Que surpresa. Vindo do Globo, a matéria está muito boa. A Marzullo está de parabéns.