
Lula dispõe da caneta e da estrutura institucional
Pedro do Coutto
A aproximação das eleições costuma alterar o ritmo da política em Brasília. À medida que as urnas se aproximam, o tempo do governo passa a ser cada vez mais influenciado pelo calendário eleitoral. É nesse contexto que deve ser lida a ofensiva articulada pelo presidente Lula da Silva com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta.
O movimento para acelerar uma agenda de grande impacto popular — tendo como principal símbolo o fim da escala 6×1 — revela uma tentativa de transformar poder de governo em resultado político antes que a campanha eleitoral domine definitivamente o debate nacional.
REIVINDICAÇÃO ANTIGA – A escolha das pautas não é casual. A redução da jornada de trabalho é uma reivindicação antiga, que voltou a ganhar força no debate público. Ao lado dela, entram temas como segurança pública, impostos e consumo. São assuntos diferentes, mas unidos por uma mesma lógica: produzir resultados que possam ser percebidos diretamente pelo eleitor.
Lula volta, assim, a explorar uma vantagem que nenhum candidato de oposição possui. A Presidência da República não é apenas uma tribuna eleitoral. É uma estrutura de poder capaz de propor leis, sancionar medidas, coordenar políticas e produzir fatos. Em uma eleição, existe uma diferença importante entre prometer e entregar. Quem está no governo pode começar a fazer hoje aquilo que o adversário promete realizar amanhã.
A escala 6×1 sintetiza essa disputa. O governo percebeu que uma pauta historicamente ligada aos trabalhadores ganhou novo impulso social e político. Naturalmente, a proposta enfrenta resistências, sobretudo de setores empresariais preocupados com custos e impactos sobre a organização das empresas. Mas, do ponto de vista eleitoral, poucas bandeiras reúnem características tão favoráveis: são concretas, facilmente compreendidas e têm forte potencial de identificação com milhões de trabalhadores.
CÁLCULO ELEITORAL – Seria ingenuidade imaginar que não existe cálculo eleitoral na aceleração dessas matérias. Existe. Mas também seria simplificador reduzir tudo a uma manobra de campanha. Governos são eleitos para governar e, inevitavelmente, eleições são momentos em que apresentam ao eleitorado o que fizeram — ou o que ainda conseguem fazer. A questão decisiva é se essa articulação produzirá políticas efetivas ou ficará apenas no terreno das intenções.
Depois de transformar a ampliação da isenção do Imposto de Renda em uma das vitrines de sua agenda social, Lula tenta organizar uma sequência de iniciativas capazes de dialogar com o cotidiano. O fim da 6×1 fala com quem trabalha seis dias para descansar um. Medidas tributárias alcançam o bolso do consumidor. A segurança pública responde a uma das maiores preocupações da população. A estratégia é clara: tirar o debate eleitoral do plano abstrato e levá-lo para problemas e expectativas concretas.
A articulação com Alcolumbre e Motta é parte essencial dessa engrenagem. Não se trata de uma relação de subordinação do Congresso ao Planalto, mas de uma convergência de interesses. Lula ganha condições de avançar em bandeiras de governo; os presidentes da Câmara e do Senado reforçam seu próprio poder de influência e demonstram capacidade de conduzir uma agenda nacional. Em Brasília, acordos raramente são construídos por afinidades. Eles sobrevivem enquanto os interesses convergem.
PODER DA CANETA – Para Lula, a vantagem é evidente. Enquanto seus adversários constroem discursos sobre o que fariam se chegassem ao poder, ele dispõe da caneta e da estrutura institucional para transformar propostas em iniciativas concretas. Isso não garante vitória e tampouco elimina os problemas econômicos e políticos que pesarão na campanha. Mas permite ao governo disputar a agenda, em vez de apenas responder às críticas.
O objetivo da ofensiva no Congresso parece ser justamente esse: impedir que a eleição seja pautada exclusivamente pelos problemas do governo e criar uma agenda positiva capaz de obrigar os adversários a se posicionarem. A estratégia, contudo, terá um teste decisivo. Anunciar não basta. Reunir-se com os presidentes da Câmara e do Senado também não basta. A vantagem da caneta só se consolida quando a articulação se transforma em aprovação e a aprovação produz efeitos reconhecíveis na vida das pessoas.
NEGOCIAÇÃO – É nesse terreno que Lula pretende chegar à campanha. Aos partidos aliados, tem espaço político e poder para oferecer. Ao Congresso, capacidade de negociação. Aos eleitores, tenta apresentar resultados antes mesmo de pedir um novo voto.
Na eleição, a caneta não substitui a política. Mas, quando governo e Congresso encontram interesses comuns em torno de pautas populares, ela pode escrever uma parte importante da campanha. A aposta de Lula está lançada: usar a força do governo e a articulação parlamentar para chegar às urnas não apenas com promessas, mas com a demonstração de que ainda tem poder para agir.
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