Negócio nada religioso entre padre e pastor expõe tentáculos do Master

Charge 24/01/2026

Charge de Marco Jacobsen (Arquivo Google)

Eliane Cantanhêde
Estadão

A confusa relação do padre José Carlos Toffoli, agora cônego, com o pastor Fabiano Zettel, empresário, não é exatamente ecumênica, após o padre e seu irmão venderem para o pastor metade da participação de ambos, que totalizava R$ 6,6 milhões, num resort de superluxo. É tudo estranho, intrigante, mas confirma o principal: o poder de alcance de Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Como num filme de ficção, Vorcaro, empresário e “banqueiro liquidado”, vai tomando a forma de um imenso polvo, com tentáculos por todas as instâncias de poder, seja público ou privado, ateu ou religioso, deixando um rastro de biografias arrasadas, tornozeleiras vergonhosas, instituições arranhadas e dúvidas sobre personagens que deveriam se comportar acima de qualquer suspeita.

FRASE SIMBÓLICA – O pastor Zettel é cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Já o “padre Carlão” é irmão do ministro do STF Dias Toffoli e do engenheiro Eugênio Toffoli, seu sócio, oficialmente, em resorts de superluxo que não condizem em nada com o desapego de padres e cônegos nem com a residência de classe média do engenheiro.

Talvez por isso, a frase mais simbólica da confusão e da estranheza venha da própria mulher e Eugênio, Cássia, para o Estadão: “Sócio de resort? Olha a minha casa!”. Uma casa com rachaduras no piso e mofo nas paredes logo na entrada, mas usada como endereço da empresa bilionária dos dois irmãos, que tiveram participação não apenas em um, mas em dois resorts espetaculares.

SINAIS DE POBREZA – Em geral, PF, Coaf e MP seguem “sinais exteriores de riqueza” para investigar alvos de alguma mutreta. Neste caso, dá-se o oposto: o irmão padre e o irmão engenheiro têm de explicar seus sinais exteriores de pobreza – pelo menos para quem teria grana suficiente para ser dono dos tais resorts.

Assim, fica parecendo, para nós, meros mortais, que o verdadeiro dono da empresa e dos hotéis é outro. E quem fica na linha de frente da investigação? O irmão poderoso, das altas rodas de Brasília, ministro Dias Toffoli, que, ora vejam, viaja para a mesma área e justamente quando policiais são enviados para fazer a segurança de “ministro do STF” por lá.

Além de Toffoli, que assumiu a relatoria justamente do caso Master, o maior escândalo financeiro do País, e saiu dificultando as investigações, o Supremo fica numa situação constrangedora também pelas relações familiares do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. Um contrato de advocacia de R$ 130 milhões não é pouca coisa…

NO CONGRESSO – Os tentáculos do polvo Vorcaro chegam ao Congresso, onde o deputado Hugo Motta, atual presidente da Câmara, apresentou uma emenda fantástica, obrigando que seguradoras e empresas de previdência privada invistam algo em torno de R$ 9 bilhões em créditos de carbono. O que uma coisa tem a ver com a outra, ninguém sabe. Mas… o empresário Henrique Vorcaro, pai do polvo, mergulhou nesse negócio. Algo a ver?

No TCU, causa estranheza a insistência como o ministro Jhonatan de Jesus, ex-deputado do Centrão, quis inverter o jogo – e as investigações. Seu alvo não era o Master, era o BC. Será que ele pretendia anular a liquidação do banco de Vorcaro? É o que dez entre dez investigadores imaginam.

Em outra dessas “coincidências” da vida, a campanha de “influencers” que receberam fortunas para proteger o Master e acusar o BC vai na mesma linha e no mesmo tom, foco e tempo dos movimentos do ministro Jesus, que também não parecem tão religiosos.

2 thoughts on “Negócio nada religioso entre padre e pastor expõe tentáculos do Master

  1. A quebra do Master e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias

    Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6 milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando Haddad, o Master pode vir a ser “a maior fraude bancária” da História do país.

    A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário.

    O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações. Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização.

    Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados.

    Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou “regular” sua atuação.

    Somaram-se episódios grotescos. A mulher do ministro Alexandre de Moraes tinha um contrato milionário para serviços advocatícios. Noutra ponta, Toffoli foi ao Peru ver uma partida de futebol no jatinho de um empresário amigo, em companhia de um advogado de Vorcaro.

    O juiz Paulo Fernando de Britto Feitoza, do Tribunal de Justiça do Amazonas, mandou retirar do ar reportagem publicada pela Folha sobre processo de análise do Incra a respeito de projeto de crédito de estoque de carbono que tem como investidores parentes de Vorcaro.

    O que era uma fraude bancária, tornou-se uma crua exposição das condutas impróprias e erráticas de magistrados. No olho desse furacão está a galeria de conexões do banqueiro Daniel Vorcaro. (…)

    Daniel Vorcaro (..) entrou para o mundo financeiro em 2018 e quebrou sete anos depois. Foi Vorcaro quem teceu a rede de conexões do Master.

    Audacioso, oferecia eventos, parcerias, negócios e empréstimos a poderosos deste século. Na queda, viu-se amparado, mas teve contra ele as investigações da Polícia Federal (…).

    Abafar a caso do banco Master tornou-se um empreendimento arriscado: brigar com polícia pode ser um mau negócio e brigar com a Federal é certamente uma péssima ideia.

    O caso do Master está ainda no meio do caminho. A primeira metade, a das fraudes, toca um disco velho. A do abafa toca um disco novo e ainda está na segunda faixa.

    Fonte: O Globo, Opinião, 25/01/2026 03h30 Por Elio Gaspari

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