
Charge do Jônatas (Política Dinâmica)
Pedro do Coutto
Gilberto Kassab voltou a se movimentar com a habilidade que o caracteriza nos bastidores da política brasileira. Diante de um cenário eleitoral cada vez mais marcado pela polarização entre o presidente Lula da Silva e o bolsonarismo, hoje personificado por Flávio Bolsonaro, o presidente do PSD tenta desenhar uma saída que vá além desse confronto binário que domina o debate público.
A ideia, revelada e analisada em reportagem de O Globo, parte do diagnóstico de que há um cansaço difuso no eleitorado com a lógica do “nós contra eles”, embora esse sentimento ainda não tenha se traduzido, até aqui, em uma alternativa eleitoral consistente.
A polarização, vale ressaltar, não é fruto de uma invenção retórica nem de uma distorção artificial do debate político. Ela é consequência direta de processos sociais, econômicos e culturais que reorganizaram o eleitorado brasileiro ao longo dos últimos anos. Hoje, dois blocos estão claramente constituídos, com identidades, lideranças e narrativas próprias.
VIGOR ELEITORAL – De um lado, Lula representa não apenas um governo em exercício, mas um campo político com forte enraizamento social, histórico eleitoral e capacidade de mobilização. De outro, o bolsonarismo, mesmo sem Jair Bolsonaro na linha de frente, mantém vigor eleitoral e encontra em Flávio Bolsonaro um nome com potencial real de chegar ao segundo turno, segundo as pesquisas mais recentes.
É nesse ambiente que Kassab tenta “furar a bolha”. Sua aposta passa pela construção de um campo mais amplo, capaz de atrair eleitores que rejeitam tanto o lulismo quanto o bolsonarismo, mas que, paradoxalmente, acabam votando em um dos dois polos quando chega a hora decisiva. O PSD, partido que Kassab transformou em uma das legendas mais capilarizadas do país, surge como instrumento dessa estratégia. Com governadores, prefeitos, forte presença no Congresso e trânsito em diferentes espectros ideológicos, o partido tenta se apresentar como uma força de equilíbrio em meio ao conflito permanente.
O problema é que a história recente da política brasileira não tem sido generosa com a chamada terceira via. Desde 2018, diversas tentativas de construir uma candidatura fora dos polos fracassaram, seja por falta de densidade eleitoral, seja pela incapacidade de se diferenciar de forma clara num ambiente dominado por paixões políticas.
ESPAÇO POLÍTICO – Kassab sabe disso. Tanto que seu movimento é menos de enfrentamento direto à polarização e mais de criação paciente de um espaço político que possa, em algum momento, se tornar competitivo. Trata-se menos de um projeto imediato e mais de uma construção gradual, que depende de condições externas difíceis de controlar.
Outro fator que pesa contra esse plano é o desempenho de Flávio Bolsonaro. Ao herdar parte significativa do capital político do bolsonarismo, ele reduz ainda mais o espaço para candidaturas intermediárias. Se a disputa se encaminhar, como indicam os números atuais, para um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, qualquer alternativa fora desse eixo tende a ser engolida pela lógica do voto útil. Essa dinâmica, recorrente nas eleições presidenciais, transforma o primeiro turno em uma espécie de triagem, na qual apenas os dois campos mais fortes sobrevivem.
CÁLCULO POLÍTICO – Ainda assim, Kassab insiste. Não por ingenuidade, mas por cálculo político. Ele aposta que a fadiga da polarização pode crescer ao longo do tempo e que crises, desgastes de governo ou mudanças no humor do eleitorado podem abrir brechas inesperadas. Ao tentar organizar esse espaço desde já, o PSD se posiciona para aproveitar qualquer fissura que surja no confronto entre Lula e o bolsonarismo. É uma estratégia de longo prazo, que exige paciência, disciplina e, sobretudo, leitura precisa do momento político.
No fim das contas, o plano de Kassab revela mais sobre os limites da política brasileira atual do que sobre suas possibilidades imediatas. A polarização segue sendo a força dominante, estruturando discursos, alianças e escolhas eleitorais. Rompê-la não é simples nem rápido. Mas, em política, sobreviver também é saber esperar. E Kassab, veterano como poucos, parece disposto a jogar esse jogo longo, mesmo sabendo que o tabuleiro, por enquanto, continua claramente dividido em dois lados.




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Pedro do Coutto

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