Charge do Spacca (Arquivo Google)
Catia Seabra e Caio Spechoto
Folha
A cúpula do PT enfrenta uma disputa interna motivada por insatisfações acumuladas ao longo da eleição e agora debate sobre o futuro do partido após a aposentadoria do presidente Lula. Diante de críticas à condução da campanha, petistas se articularam, na última semana, pela convocação de uma reunião presencial do Diretório Nacional, instância máxima do partido.
O objetivo é fazer uma avaliação da disputa e organizar a realização de um congresso no ano que vem sobre renovação partidária e outros temas.
COMEÇA A BRIGA – Na quinta-feira (29), uma ala do partido chegou a boicotar uma reunião da Executiva Nacional do PT, instância decisória mais restrita, sob o argumento de que aquele não era o fórum adequado para avaliação da campanha.
O presidente do partido, Edinho Silva, convocou então um encontro do diretório para o dia 13 de novembro. No PT, a expectativa é que ele ouça críticas à condução da campanha eleitoral, da qual foi coordenador.
Dirigentes do partido se queixam de concentração de decisões nas mãos de Edinho. Líderes estaduais cobram mais autonomia para decidir sobre o destino de recursos da legenda.
INSATISFAÇÃO – Aliados de Edinho, por sua vez, afirmam que a rebelião não tem relação com a condução da campanha de Lula. Eles atribuem a disputa interna à insatisfação de um grupo de petistas com um processo de esvaziamento de seu poder e uma proposta de intervenção no diretório do PT no Rio de Janeiro.
O assunto foi levado a Lula. Na quarta-feira (28), o presidente publicou uma mensagem no X em que faz um reconhecimento público do trabalho de Edinho na coordenação de sua campanha vitoriosa.
Durante a disputa, especialmente após o resultado do primeiro turno que mostrou Lula atrás de Flávio Bolsonaro (PL), o próprio Lula chegou a externar uma crítica em um discurso direcionado ao presidente do partido.
PIOR CAMPANHA – “Eu acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade. Acho que a gente poderia ter feito mais. Eu disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989. E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta”, declarou, em fala à militância divulgada acidentalmente em canal da sigla.
Edinho também contrariou aliados ao se lançar à Câmara dos Deputados, valendo-se do protagonismo à frente do partido para atrair eleitores em detrimento de candidatos de São Paulo.
Auxiliares do presidente do PT rechaçam a queixa e destacam que ele obteve a maioria de seus votos para deputado na região de Araraquara (SP), onde foi prefeito. Segundo esses petistas, essa seria uma evidência de que o papel de dirigente partidário teve pouco peso sobre seu desempenho nas urnas.
GASTOS ELEITORAIS – A discussão sobre o funcionamento da sigla poderá influenciar no médio prazo a ascensão de novos nomes. Um dos argumentos usados pelos dirigentes locais para cobrar mais poder sobre os recursos da sigla é que são eles que conhecem as conjunturas estaduais. Por isso, teriam mais condições para identificar candidatos com potencial que devem receber mais dinheiro para fazer campanha.
Um exemplo seria a campanha de Cadu de Lula ao governo do Rio Grande do Norte. Ele era um candidato forte e foi eleito, mas teve apenas R$ 1,5 milhão do Diretório Nacional do partido para fazer campanha nos dois turnos. Diversos candidatos a deputado federal receberam da direção nacional do PT mais recursos de campanha que Cadu.
Mesmo que haja uma alteração na forma como o partido planeja suas candidaturas para a maioria dos cargos, é consenso que Lula é quem conduzirá sua própria sucessão.
CAMILO E FONTELES – Aliados do presidente listam o senador Camilo Santana (PT-CE), o governador Rafael Fonteles (PT-PI) e o ex-ministro Fernando Haddad (PT-SP) como possíveis herdeiros do chefe do governo.
Camilo e Fonteles fizeram suas carreiras no Nordeste. Caso um dos dois seja escolhido, a região ganhará poder dentro do PT. Lula nasceu em Pernambuco, mas entrou na política em São Paulo.
O atual chefe de governo foi o candidato petista em 7 das 10 eleições presidenciais disputadas pelo partido e participou das articulações das outras 3. Ele terá 85 anos quando seu próximo mandato, que começa em 5 de janeiro, acabar. Não deverá mais disputar eleições.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Não se trata apenas da sucessão de Lula em 2030. O problema dos petistas e assegurar a sobrevivência do partido depois da inevitável aposentadoria de Lula. Não adianta tentar substitui-lo por Camilo, Fonteles e Haddad. É preciso escolher um político petista que tenha alguma coisa na cabeça, e está difícil encontrar. O prazo de validade do PT vai terminar na mesma data da aposentadoria de Lula. Apenas isso. (C.N.)
Se dependesse unicamente do PT nestas eleições, Lula jamais teria sido reeleito
Lula deve sua vitória expressiva aos 10 milhões de votos adicionais que recebeu no segundo turno — votos que vieram justamente de eleitores sem qualquer vinculação ao Partido dos Trabalhadores, à CUT, aos sindicatos, ao Movimento dos Sem Terra e assemelhados.
Sim, fantasmas materializados quando paridos pelas urnas.