Deputado é alvo de representações do PT e do PSOL
Yago Godoy
O Globo
No centro da polêmica que envolve a produção do filme “Dark Horse”, o deputado federal Mário Frias (PL-SP) se tornou alvo de denúncias do PT e do PSOL na Procuradoria-Geral da República (PGR) por suposta prática de “rachadinha”. Na última sexta-feira, uma ex-funcionária afirmou ao G1 que devolveu parte de seu salário ao então chefe de gabinete do parlamentar, com ciência de Frias, entre fevereiro de 2023 e março de 2024.
Além disso, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), cobrou informações sobre emendas enviadas por Frias a uma ONG ligada ao filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), do qual o deputado é produtor-executivo. Além da PGR, a bancada do PT na Câmara dos Deputados também irá acionar o Conselho de Ética da Casa. Eles alegam haver “indícios de lavagem de dinheiro” nas transações do deputado ligadas ao filme, e pedem apurações sobre as denúncias da ex-funcionária.
NOTÍCIA-CRIME – Já o PSOL, conforme mostrou o colunista Bernardo Mello Franco, do O Globo, apresentou uma notícia-crime por meio do deputado Chico Alencar (RJ). Segundo o G1, a ex-funcionária identificada como Gardênia Morais quitou uma fatura de crédito da mulher do deputado e fez um Pix de R$ 1.000 para a mãe dele:
— O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o (Raphael) Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado — contou Gardênia.
RACHADINHA – Um dos comprovantes mostra que a ex-funcionária fez um Pix de R$ 1.000 em 29 de janeiro de 2024 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar. Outro comprovante indica que, em dezembro de 2023, a ex-funcionária pagou uma fatura do cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32.
Nomeada secretária parlamentar em fevereiro de 2023, a ex-funcionária de Frias tomou cinco empréstimos consignados no valor de R$ 174.886. Parte do montante foi transferido ao então chefe de gabinete, segundo o g1. Gardênia afirma que somente um dos empréstimos foi feito para uso pessoal.
— Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa — disse a ex-funcionária.
REPASSE – A ex-funcionária afirmou que houve mais repasses além do identificados pelo G1, que somam R$ 35.116. Gardênia diz ainda que “tinha mais pessoas devolvendo” o salário no gabinete, além dela. Em março de 2024, a ex-funcionária fez um saque de R$ 49.999,99 em dinheiro vivo. Ela não revelou a quem os valores foram entregues.
Em meio aos desgastes, Frias cumpre missão oficial no Bahrein. A viagem frustrou as tentativas de Dino de notificar o parlamentar para que ele preste informações sobre emendas enviadas para a empresa ligada à produtora do filme sobre Bolsonaro.
“SITUAÇÃO FUNICIONAL” – Por conta disso, o ministro oficiou o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para que preste informações, em até 48 horas, sobre a “situação funcional” do deputado. Dino quer saber, inclusive, sobre o período autorizado pela Câmara para que Frias participe da missão oficial. De acordo com a assessoria de imprensa da Casa, o deputado apresentou pedido de missão oficial no período de 12 a 18 deste mês.
Em resposta, Frias disse, em um post publicado no X na manhã de quinta-feira, que “soube pela imprensa” que Dino “gostaria de algumas informações” sobre ele. O deputado afirmou que chegará ao Brasil nesta segunda-feira (25) para um “encontro ao vivo, ocasião em que será uma ótima oportunidade para prestar todos os esclarecimentos que desejar”.
AGRADECIMENTO – Mensagens de áudio reveladas pelo site Intercept Brasil, na semana passada, mostram Frias agradecendo ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pelo apoio financeiro à produção do filme sobre Bolsonaro.
O filme ganhou destaque após a revelação de áudios em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, cobra dinheiro a Vorcaro por supostas “parcelas para trás” que estariam atrasadas para a produção da obra. O montante pago ultrapassou R$ 60 milhões dentre os mais de R$ 130 milhões previstos no contrato de patrocínio, conforme mostrou o GLOBO.
MENSAGEM – “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” , diz Frias na mensagem.
A divulgação marcou contradições de Frias sobre o caso. Logo após a publicação sobre Flávio, ele disse que o filme não havia recebido um “único centavo” do banqueiro. Depois, quando o senador reafirmou a negociação, Frias alegou que havia “interpretações diferentes” das manifestações sobre o financiamento do filme — já que Vorcaro teria utilizado a empresa “Entre Participações” para fazer o repasse, e não o próprio Master.

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Paulo Peres
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