
Charge do Claudio (Folha)
Rafael Moraes Moura
O Globo
A perícia contratada pela produtora Go Up Entertainment, responsável por “Dark Horse”, revelou que 72% dos gastos com o polêmico filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro ocorreram nos Estados Unidos. Mas um outro detalhe da prestação de contas chamou a atenção de cinco produtores que trabalham no mercado audiovisual brasileiro: os gastos elevadíssimos com as etapas iniciais do projeto, bem acima do padrão em produções desse porte.
De acordo com a perícia encomendada pela Go Up, foram gastos na “soft produção” (uma fase embrionária de definição de questões conceituais do filme) US$ 2,68 milhões, ou 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões, o equivalente a R$ 75,18 milhões no cálculo do perito Anísio Costa Castelo Branco.
MÉDIA – Em média, um filme reserva entre 3% a 5% do seu orçamento para essa etapa. Além disso, as filmagens no Brasil custaram menos que o somatório da “soft” e da pré-produção (estágio anterior à gravação, com ensaios de elenco e viagens da equipe para as locações escolhidas).
O levantamento foi anexado aos autos de uma investigação sigilosa conduzida pela Polícia Civil de São Paulo e que vai ser compartilhada agora com a Polícia Federal por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. Comandada pela jornalista Karina Gama, a Go Up nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros.
GASTOS ESTRATOSFÉRICOS – Todos os cinco produtores foram taxativos ao apontar que os gastos com a chamada “soft produção” são estratosféricos para um projeto desse tamanho. Na “soft pré”, como é chamada no mercado, são realizadas reuniões preparatórias apenas com o núcleo duro da produção, nas quais começam a ser definidas as principais diretrizes criativas e técnicas do filme, como a escolha de atores e locações, definição sobre fotografia (como os tipos de câmeras que vão ser usadas para as filmagens), além de conceitos de figurinos, por exemplo.
“Em média, uma soft tem 10 pessoas, uma pré-produção tem entre 50 e 80 e uma filmagem vai ter entre 100 a 150 pessoas. Não faz o mínimo sentido esses gastos, a soft é apenas para definir conceito. Essa prestação de contas é uma peça de ficção”, disse um produtor com ampla atuação no mercado.
Para ele, considerando o orçamento oficial do longa de US$ 13,39 milhões, essa fase deveria ter custado entre US$ 400 mil e US$ 670 mil, ou seja, apenas 25% do que o efetivamente informado na perícia contratada pela Go Up (US$ 2,68 milhões).
PRÉ-PRODUÇÃO – Já a pré-produção de “Dark Horse” custou US$ 2,66 milhões, ligeiramente menos que a soft, de acordo com o documento elaborado pelo perito Castelo Branco. Isso também provocou estranhamento, já que essa segunda etapa envolve a mobilização das diversas equipes de cada área, com a elaboração de figurinos, viagens de preparação técnica para as filmagens e ensaios com o elenco escolhido.
A perícia encomendada pela Go Up diz que essas duas etapas preliminares de “Dark Horse” ocorreram nos Estados Unidos, entre julho e agosto de 2025, enquanto as filmagens foram feitas lá e no Brasil, em outubro. Mas outros números do documento também levantaram questionamentos de profissionais renomados do setor.
“Um custo de ‘soft pré’ e pré-produção mais alto que a produção no Brasil não faz nenhum sentido”, diz um segundo produtor que também analisou os números de “Dark Horse”.
MAIS DE 800 FIGURANTES – A produção no Brasil teria custado US$ 3,728 milhões, bem menos do que os US$ 5,347 milhões do somatório da soft e da pré-produção, duas fases que mobilizam bem menos gente. De acordo com a perícia privada contratada pela Go Up, o filme reuniu 11 atores americanos, mais de 800 figurantes e cerca de 350 profissionais, durante a filmagem em São Paulo.
Entre as despesas incluídas na rubrica da produção de “Dark Horse” no Brasil estão cachês do elenco internacional, salários e diárias da equipe, além do contrato de seguranças privados, emissão de passagens aéreas e custos com a alimentação dos profissionais envolvidos na filmagem.
“Todo mundo está achando estranho. O que parece é que tem muito dinheiro aí que não foi pro filme”, suspeita um terceiro produtor que já lançou grandes sucessos comerciais no mercado brasileiro.
LINHA DE INVESTIGAÇÃO – Em maio deste ano, “Dark Horse” abriu uma crise na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após o site Intercept Brasil revelar mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção.
Uma das linhas de investigação da Polícia Federal é saber se os milhões de reais despejados por Vorcaro foram usados para bancar as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante o autoexílio nos Estados Unidos, onde vive desde fevereiro de 2025.
Quando o caso veio à tona, o filho 01 de Jair Bolsonaro havia dito que estava “100% disposto” a apresentar o contrato do projeto, mas depois recuou – e vem tentando se desvencilhar das investigações.
PELA TANGENTE – “A prestação de contas foi feita dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, desconversou Flávio, após participar de uma reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Conforme informou O Globo, a perícia privada da Go Up não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem. O fundo tem ligação com o advogado Paulo Calixto, que atua na defesa e gerência de interesses de Eduardo Bolsonaro.
O perito contratado pela Go Up diz que teve acesso a notas fiscais, recibos e extratos bancários e ao detalhamento dessas despesas, mas esses documentos não foram anexados.
COMPETÊNCIA – Procurado para comentar os gastos elevados nas fases de “soft produção” e pré-produção nos Estados Unidos de “Dark Horse”, Castelo Branco disse que “esse tema não é de competência da perícia” e que os questionamentos deveriam ser respondidos pela própria produtora.
Já a jornalista Karina Gama, dona da Go Up, justificou que “das cinco etapas do filme, só uma foi realizada no Brasil”. “Nosso time jurídico está apurando todas as informações e vamos contribuir com todo o trabalho da PF”, afirmou.
Karina nunca lançou nenhum filme no Brasil. Além da Go Up, as outras duas empresas que constam no sistema da Agência Nacional de Cinema (Ancine) no nome de Karina – a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil – também nunca registraram nem lançaram nenhuma produção em território nacional, seja em cinema, TV aberta ou fechada.
Aviso aos navegantes (33%).
Além de manter a atenção total com a carteira e os dogs, pedimos também atenção com os filhotes do Narcola 9F, estão roubando tudo pela frente, até o PIX não escapa…
Será que vão roubar o PIX do dia 30 dos meliantes, ops,errei, militantes.??
Alerta em SP: novo vírus brasileiro que rouba dinheiro via Pix
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