Brasileiros desejam mais estabilidade e autonomia
Pedro do Coutto
A pesquisa publicada pelo O Globo, ao examinar as prioridades dos trabalhadores e trabalhadoras diante das profundas mudanças no mercado de trabalho, traz um dado politicamente relevante para 2026: o debate sobre emprego já não pode ser reduzido à velha pergunta sobre quantas vagas foram criadas ou qual é a taxa de desemprego. Para uma parcela expressiva da população, a preocupação central está em algo mais concreto e, ao mesmo tempo, mais complexo: ter estabilidade sem abrir mão da autonomia.
É uma combinação que ajuda a explicar as transformações do mundo do trabalho brasileiro. O trabalhador quer segurança para planejar a própria vida, pagar as contas e sustentar a família. Mas não deseja, necessariamente, voltar a um modelo em que a única alternativa à precariedade seja a rigidez absoluta das relações profissionais.
PROTEÇÃO E LIBERDADE – Há uma demanda por proteção, mas também por liberdade sobre o próprio tempo. E é justamente nessa aparente contradição que está uma das questões políticas mais importantes da eleição.
Os dados mais recentes do mercado de trabalho ajudam a dimensionar o problema. O Brasil chegou a uma taxa de desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em julho, a menor para esse período desde o início da série histórica da PNAD Contínua. O número de pessoas ocupadas atingiu patamar recorde. Mas a renda real ficou praticamente estagnada, enquanto a informalidade respondeu por parcela significativa da expansão recente da ocupação. Em outras palavras, o país avançou na quantidade de pessoas trabalhando, mas isso não elimina a inquietação sobre a qualidade, a segurança e a perspectiva desses postos de trabalho.
É por isso que a estabilidade aparece com tanta força entre as preocupações do eleitor. Para quem vive da renda do trabalho, a insegurança não é uma abstração estatística. Ela está no receio de perder a única fonte de sustento, na impossibilidade de planejar os próximos meses e na fragilidade de uma renda que pode desaparecer diante de uma doença, de um acidente ou de uma simples mudança nas condições impostas pelo mercado.
AUTONOMIA – Ao mesmo tempo, há uma segunda exigência que os políticos precisarão compreender: segurança não significa submissão. A autonomia também ganhou valor. O trabalhador quer maior controle sobre a jornada, sobre a organização da vida e, em muitos casos, sobre a possibilidade de combinar diferentes fontes de renda. Essa mudança ajuda a explicar por que soluções políticas baseadas apenas na defesa nostálgica de modelos do passado podem não responder integralmente ao eleitorado atual.
O caso dos trabalhadores por aplicativos é talvez a expressão mais evidente dessa nova realidade. A discussão não se resume a escolher entre duas posições simplistas: tratar todos como empregados tradicionais ou aceitar que sejam inteiramente abandonados à lógica das plataformas. A demanda que emerge é mais sofisticada.
Há espaço para regras claras, remuneração digna, proteção previdenciária e contra acidentes, maior transparência sobre os algoritmos e critérios que determinam corridas, entregas e ganhos, sem que isso implique simplesmente eliminar a flexibilidade que muitos trabalhadores consideram uma das principais vantagens da atividade.
TENSÃO – O próprio debate institucional tem revelado essa tensão. Em audiência no Senado, trabalhadores, especialistas, representantes das empresas e órgãos públicos divergiram justamente sobre os limites da autonomia e sobre as responsabilidades das plataformas. A discussão envolve remuneração, proteção social, segurança e o grau de controle exercido pelos algoritmos sobre uma atividade formalmente apresentada como autônoma.
O Ministério do Trabalho estima em milhões o número de brasileiros envolvidos em alguma forma de trabalho mediado por plataformas e reconhece que esse modelo se expandiu tanto como alternativa ao desemprego quanto como complemento de renda. Ao mesmo tempo, propostas debatidas no âmbito das políticas públicas apontam para questões que vão muito além do vínculo jurídico: transparência algorítmica, critérios claros de remuneração, descanso, desconexão e mecanismos de proteção social passaram a integrar o centro da discussão.
Há, portanto, um desafio político que não cabe mais em slogans. A esquerda não pode ignorar que parte dos trabalhadores valoriza a flexibilidade e teme que uma regulamentação mal desenhada reduza oportunidades. A direita, por sua vez, terá dificuldade em responder apenas com o discurso da liberdade econômica quando essa liberdade, na prática, pode significar jornadas extensas, renda imprevisível e transferência integral dos riscos para quem trabalha.
PODER UNILATERAL – A questão decisiva é outra: quem deve arcar com o custo da insegurança? No atual modelo de plataformização, empresas podem controlar preços, acesso ao trabalho e avaliação de desempenho por meio de sistemas algorítmicos, enquanto sustentam que o trabalhador é plenamente independente. Essa contradição está no coração do debate. Não se trata de negar a autonomia, mas de perguntar se ela existe de fato quando uma plataforma tem poder para alterar unilateralmente as regras que definem a renda de milhões de pessoas.
A política brasileira terá de responder a essa realidade. E as respostas exigirão mais precisão do que os discursos tradicionais costumam oferecer. O eleitor não parece pedir a volta pura e simples ao passado, mas tampouco demonstra disposição para aceitar a precariedade como preço inevitável da inovação.
A estabilidade continua sendo uma necessidade fundamental. A autonomia, porém, passou a ser parte dessa mesma aspiração por uma vida melhor. O trabalhador quer poder escolher, organizar o próprio tempo e ampliar suas possibilidades, mas não quer que essa liberdade venha acompanhada da ausência de direitos e da insegurança permanente.
NOVA QUESTÃO SOCIAL – É uma mensagem que deveria ser ouvida com atenção pelos candidatos de 2026. Em um mercado de trabalho cada vez mais fragmentado, digitalizado e intermediado por plataformas, vencerá espaço político quem compreender que a nova questão social não está apenas em garantir trabalho. Está em garantir que trabalhar permita viver com alguma segurança, dignidade e controle sobre o próprio futuro.
No fim das contas, essa talvez seja a síntese mais poderosa da pesquisa: o trabalhador brasileiro não está escolhendo entre estabilidade ou autonomia. Ele quer as duas coisas. E qualquer projeto político que pretenda dialogar seriamente com o mundo do trabalho terá de encontrar uma forma de conciliá-las.
Esses números fake do baixo desemprego são um escândalo.
Já viu a multidão de pessoas e famílias, com formação, habitando as ruas, os viadutos, a miséria, sem a mínima dignidade?
A Constituição de 1988 é o cúmulo da ironia.
Vivemos uma situação gravíssima de desemprego.
Não apenas das pessoas, mas de todas as forças produtivas.
Só o capital está todo aplicado ou enforcado nos juros.
O resto está na lona.
Ao relento.
Crescente.
Distópico.
A meta é impedir e afastar sabotadores perdulários!