Na guerra da escala 6×1: governo age para frear desoneração e evitar rombo fiscal

Planalto tenta investir em debate sobre regra de transição

Clarissa Oliveira
CNN

Depois de a Câmara dos Deputados aprovar, na última quinta-feira (22), o fim da escala 6×1 na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se mobiliza nos bastidores para frear o risco de um impacto fiscal da proposta. A ordem agora é tentar frear a articulação por uma desoneração de impostos para os setores mais impactados pela medida.

O assunto pautou as conversas entre líderes governistas envolvidos na tramitação do projeto. Segundo os relatos feitos à CNN, a ideia é investir prioritariamente no debate sobre uma regra de transição, como forma de aliviar os efeitos da redução da jornada para o empresariado.

COMPENSAÇÃO – Embora admitam que há forte pressão por uma compensação, aliados do presidente Lula dizem que o avanço de uma desoneração poderia tornar “inviável” a redução da jornada de trabalho nos moldes em discussão. Mesmo que o impacto seja adiado com uma regra de transição, afirmam, a mudança daria origem a uma bola de neve com efeitos expressivos sobre o Orçamento nos próximos anos.

A CCJ da Câmara aprovou a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6×1. O relatório do deputado Paulo Azi (União-BA) foi aprovado de maneira simbólica, limitando-se a analisar a admissibilidade da proposta, ou seja, sua adequação à regra constitucional. O debate sobre como viabilizar a redução da jornada ocorrerá agora na comissão especial que vai analisar o tema.

PROTAGONISMO – Embora olhe com preocupação para a discussão de uma compensação da redução da jornada, o governo se diz otimista quanto ao avanço da proposta, que é estratégica para o presidente Lula do ponto de vista eleitoral. A avaliação entre aliados do petista é de que a disputa por protagonismo no projeto é questão superada, uma vez que Planalto e Câmara concordaram na tentativa de fazer andar a PEC.

O projeto de lei do governo que trata do mesmo assunto seguirá na manga, caso haja dificuldade de articular os votos necessários para aprovar uma mudança constitucional. Mas o entendimento na base governista é que o cenário é propício a um acordo com a oposição, dado o efeito eleitoral da medida.

7 thoughts on “Na guerra da escala 6×1: governo age para frear desoneração e evitar rombo fiscal

  1. Ser ou não ser candidato à reeleição, o drama de Lula

    A especulação faz sentido diante do cenário eleitoral, por causa da grande rejeição de Lula e de comentários que rondam o Palácio do Planalto e já emergem nos bastidores do PT desde quando o jornalista e ex-assessor Ricardo Kotscho, em 12 de abril passado, analisou a possibilidade de Lula não disputar a reeleição em 2026.

    Kotscho destacou como algo atípico o fato de o presidente ter admitido, publicamente, dúvidas sobre sua candidatura.

    Na sua avaliação, Lula demonstrou insegurança sobre a candidatura, em razão de pesquisas desfavoráveis. “Lá pelas tantas, assim de passagem, como não quer nada, em meio a muitos outros assuntos, Lula deixou a dúvida no ar.

    Fonte: Correio Braziliense, Nas Entrelinhas, 24/04/2026 – 07:34 Por Luiz Carlos Azedo

  2. Candidatíssimo à reeleição desde o 1º ano do mandato, a dúvida que Lula expôs agora equivale a desistência da candidatura.

    Em seu lugar na chapa poderá entrar Fernando Haddad ou Camilo Santana. Ou sabe se lá quem.

    • O “Panorama”, perdoe-se o trocadilho, parece talhado sob medida para transformar a política em encenação, aproximando a realidade da farsa elegante do ótimo filme satírico “Luar sobre Parador”, quando os personagens mudam, mas o roteiro insiste em permanecer o mesmo.

      • Sr. Carlos, parece maior a chance de acertar na análise política quando se cota por baixo.

        Valeu também pela lembrança do filme, que penso em rever.

        • O filme é muito bom, mesmo. Vale rever. Preservadas as proporções geográficas, Brasil e a fictícia Parador têm muito em comum, mormente no que diz respeito ao caráter político.
          Abraço!

  3. A lembrança do filme (Luar sobre Parador) remete, de alguma maneira, a um dos episódios mais surreais da história política do século XX:

    António de Oliveira Salazar, o ditador que governou Portugal por mais de 30 anos (Estado Novo), morreu a 27 de julho de 1970, mas viveu os dois últimos anos de sua vida acreditando que ainda comandava o país, após ter sido removido do poder em 1968.

    Aqui está como essa farsa foi mantida:

    1. O Incidente: “Queda da Cadeira” (1968)

    • Agosto de 1968: Salazar, então com 79 anos, sofreu um acidente doméstico no Forte de Santo António da Barra (Estoril), caindo de uma cadeira de lona e batendo com a cabeça.

    • AVC e Incapacidade: Após o acidente, ele sofreu um hematoma subdural grave e, posteriormente, um AVC, que o deixou fisicamente e mentalmente incapacitado para governar.

    2. A Farsa: O “Governo” de Mentira (1968-1970)

    • Medo e Sucessão: O presidente Américo Tomás substituiu Salazar por Marcello Caetano em setembro de 1968. No entanto, a cúpula do regime temia que Salazar não suportasse a notícia de que tinha perdido o poder, dado o seu apego obsessivo ao cargo.

    • Encenação: Os médicos e assessores próximos criaram uma realidade paralela. Salazar continuava a “governar” na privacidade do seu quarto, assinando documentos que não tinham validade real e dando ordens que não eram seguidas.

    • O Jornal Falso: Para esconder que Marcello Caetano era o novo presidente do Conselho, a PIDE (polícia política) imprimia exemplares únicos do jornal Diário de Notícias para Salazar, substituindo as notícias sobre o novo governo por notícias antigas ou falsas.

    • Reuniões Simuladas: Ministros e assessores iam ao seu encontro, simulando reuniões de trabalho como se ele ainda fosse o ditador absoluto.

    3. A Morte Real (1970)

    • 27 de julho de 1970: Salazar morreu na sua casa na Penha de França, em Lisboa, sem nunca ter percebido que já não governava.

    • Morte em Duas Etapas: Historiadores costumam dizer que Salazar morreu duas vezes: primeiro politicamente em 1968, e depois fisicamente em 1970.

    Essa manutenção do segredo evidenciou a natureza opaca e o medo profundo que sustentavam o regime autoritário do Estado Novo, que acabaria por cair anos mais tarde, na Revolução dos Cravos em 1974.

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