Um mês em domiciliar: isolamento de Bolsonaro cresce e impacta articulação política

Bolsonaro se entretém com filmes e cachorros 

Augusto Tenório
Carolina Linhares
Folha

Jair Bolsonaro (PL) completou nesta segunda-feira (27) um mês em prisão domiciliar, com rotina mais amena que a enfrentada por ele na Papudinha. Na sua residência em Brasília, o ex-presidente tem se dividido entre a TV e interações comedidas com os cachorros, sob os cuidados da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que acabou se isolando da política.

Bolsonaro começou a cumprir pena de 27 anos e três meses de prisão em novembro, após ser condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe de Estado. Em março, o ministro Alexandre de Moraes autorizou a prisão domiciliar por três meses, devido ao estado de saúde do ex-presidente, que estava internado na ocasião com pneumonia causada pelas crises de soluço.

ISOLAMENTO – Aliados dizem preferir a prisão em casa, mas afirmam que as condições determinadas por Moraes agravaram o isolamento de Bolsonaro e impuseram a Michelle a escolha entre o marido e as atividades políticas.

Assim como na Papudinha, o livre acesso é concedido apenas a médicos e advogados, sendo que os filhos do ex-presidente podem visitá-lo às quartas e sábados por até duas horas. Visitas de amigos e políticos, antes autorizadas e agendadas previamente, foram proibidas quando Bolsonaro voltou para sua casa, em um condomínio fechado.

Quem acompanha o ex-presidente diz que esse último mês foi paradoxal, já que os cuidados e, consequentemente, sua saúde tiveram melhora evidente, mas a falta de outras companhias também teve efeito negativo.

LIMITAÇÃO – “Os cuidados melhoraram, e isso é real e importante. Mas o isolamento piorou, e isso também é real. […] É uma limitação que vai além do razoável e que o afeta profundamente, assim como afeta toda a família. O sentimento de injustiça não é retórica. É o que se vive na prática, semana a semana. E esse peso, infelizmente, não está sendo pequeno”, diz à Folha o advogado João Henrique de Freitas.

Aliados ouvidos pela reportagem reclamam que Michelle está presa tanto quanto Bolsonaro. Por causa da carga doméstica, a ex-primeira-dama se afastou do comando do PL Mulher e deixou de viajar para articular candidaturas femininas nos estados. Tampouco tem se dedicado à própria pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.

Antes influente e presente no partido, ela tem conseguido fazer visitas esporádicas e rápidas à sede nacional da sigla, restando o apoio, via redes sociais, às pré-candidatas que ela apadrinhou nos estados.

SOBRECARGA – É ela quem administra os remédios do ex-presidente em seis horários diferentes, com ajuda da filha, Letícia Firmo. Para aliviar a sobrecarga, a defesa pediu a Moraes que um irmão de Michelle, Eduardo Torres, também pudesse frequentar a casa.

Em outros momentos, Eduardo Torres participou da rotina de cuidados de Bolsonaro, inclusive entregando marmitas na Papudinha. O objetivo era também que Michelle pudesse se ausentar para atividades partidárias, mas o ministro negou o pedido.

Moraes argumenta que as visitas “foram restringidas por motivos de saúde” para recuperação da pneumonia. “As dificuldades de rotina familiar, embora compreensíveis, não constituem fundamento jurídico para ampliar o rol de pessoas autorizadas”, escreveu.

AGENDAS DO PARTIDO – Em entrevista ao podcast Capital Política, Torres chamou a decisão de infeliz. “Eu não sou enfermeiro ou cuidador de idosos, sou alguém de dentro de casa que já fazia essa relação com os médicos e cuidava da medicação. Seria importante para a ausência da Michelle quando ela tivesse agendas do partido”, disse.

Pré-candidatos do PL que antes faziam romaria até a Papudinha, agora afirmam que o porta-voz de Bolsonaro tem sido o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vai concorrer à Presidência. A falta de diálogo direto com o principal líder do bolsonarismo, porém, é vista como um prejuízo eleitoral.

Além de não poder encontrar aliados, o ex-mandatário também tem recebido poucas visitas dos filhos, dedicados às suas próprias campanhas. Flávio tem viajado o país e, segundo registros da Polícia Militar do DF, suas visitas costumam durar menos de uma hora. Já Carlos Bolsonaro (PL) tem se concentrado em Santa Catarina, onde pretende se eleger senador.

LIBERDADE DE VISITA – O filho mais velho tem mais liberdade de visita porque consta como advogado —ele esteve com o pai oito vezes até a última quarta (22). Carlos e Jair Renan, que não moram em Brasília, fizeram duas e uma visita, respectivamente. Até quarta-feira, Bolsonaro recebeu 44 visitas, sendo 19 de médicos, 11 vezes de filhos, 10 de advogados e 4 de fisioterapeutas.

Uma série de políticos, incluindo pré-candidatos ao governo e ao Senado, já tinha visitas agendadas na Papudinha em abril, o que foi cancelado com a transferência para a prisão domiciliar. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), já tinha até comprado as passagens. Ele diz que a proibição de visitas é uma interferência no processo eleitoral.

A ligação de Mello Araújo é com Bolsonaro, não com Flávio. Com o acesso ao líder barrado, ele deve ser preterido na escolha para o Senado —André do Prado (PL) deve ser o candidato, revelou o Painel. “Não existe regime domiciliar em que as pessoas não possam visitar. O que aconteceu comigo deve ter acontecido com vários, o que é ruim para a democracia”, diz à Folha.

FILMES E FUTEBOL – Em casa, Bolsonaro tem assistido a filmes de guerra, partidas de futebol e programas esportivos na TV. Ele não pode acessar a internet nem plataformas de streaming. Relatório da Polícia Militar mostra que o ex-presidente não fez leituras em nenhum dia, apesar de essa atividade contar para remição de pena.

O ex-presidente também ajuda a filha Laura, de 15 anos, em atividades escolares e dá atenção aos cachorros, o que tem contribuído na melhora do seu humor. Apesar disso, os cães são motivo de preocupação. Há receio de que a exposição a animais e ambientes não esterilizados possa colocá-lo em risco de novas infecções.

DIETA CONTROLADA – A limpeza da casa tem tomado boa parte da rotina de Michelle, segundo pessoas próximas. Ela conta com a ajuda de dois funcionários, sendo um para a área externa. Há também um ajudante que faz as compras. A ex-primeira-dama tem gerido a dieta de Bolsonaro, selecionando ingredientes e cozinhando as refeições, algo que costuma registrar nas suas redes.

Em relação à saúde, médicos afirmam que Bolsonaro teve melhora progressiva e tem sido disciplinado com os medicamentos e os exercícios de fisioterapia. Os episódios comuns de crises de soluço ficaram mais raros, mas aumentaram as queixas a respeito de dores no ombro direito. Na última quarta, a defesa de Bolsonaro pediu ao STF autorização para realização de uma cirurgia. Ainda não houve resposta.

8 thoughts on “Um mês em domiciliar: isolamento de Bolsonaro cresce e impacta articulação política

  1. Lula vai ter duas derrotas em uma semana?

    Presidente corre risco com Messias e PL da Dosimetria, feito sob encomenda para favorecer o ex-mito

    A sessão para analisar o veto total de Lula ao PL da Dosimetria será conjunta, do Senado e da Câmara, na quinta-feira (30), véspera do feriado de 1º de Maio, e o quórum para a derrubada é de metade mais um das duas Casas.

    Ou seja, é preciso que 257 dos 513 deputados e 41 dos 81 senadores fiquem em Brasília, atrasem viagens, praias e passeios para votar na véspera do feriado.

    Também tensa, a votação de Messias para o STF foi marcada para esta quarta-feira, 30, mas é só na CCJ e no plenário do Senado, exige muito menos políticos em Brasília e Messias aplainou o terreno no STF e no próprio Senado.

    A previsão é que seja aprovado, cinco meses depois de anunciado, mas não dá para apostar; se ele passar, será com placar apertado. O maior obstáculo é Alcolumbre.

    O PL da Dosimetria, aprovado pelo Congresso e vetado por Lula, altera o Código Penal e a Lei de Execução Penal, com efeito retroativo, para impedir, ou limitar, a soma de penas para crimes similares, especialmente contra o Estado Democrático de Direito.

    Um efeito seria a redução das penas, com troca do regime fechado para semiaberto ou aberto.

    O alvo formal são os condenados pela invasão de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no 8/1, mas o objetivo real é melhorar a vida do ex-mito, que foi condenado por tentativa de golpe, a 27 anos de prisão, e isso pode cair para 13 anos, apressando o fim efetivo do regime fechado.

    Lula vetou integralmente o projeto e as relações entre Executivo e Legislativo, já nada bem, seguiram a regra, nua e crua, de que “tudo que está ruim sempre pode piorar”. Uma regra que continua bastante válida no caso, ao menos, até a eleição.

    O ex-mito tem uma base sólida no Congresso e Lula vive às turras com a Câmara de Hugo Motta e numa gangorra com o Senado de Alcolumbre.

    A bola está de novo com o Congresso, que vai manter o veto de Lula ou derrubá-lo, para reavivar seu projeto original.

    Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 27/04/2026 | 20h18 Por Eliane Cantanhêde

    • 29, não 30:

      “Também tensa, a votação de Messias para o STF foi marcada para esta quarta-feira, 29, mas é só na CCJ e no plenário do Senado, exige muito menos políticos em Brasília e Messias aplainou o terreno no STF e no próprio Senado.”

      • “O alvo formal são os condenados pela invasão de Planalto, Supremo, Câmara e Senado no 8/1, mas o objetivo real é melhorar a vida do ex-mito, que foi condenado por tentativa de golpe, a 27 anos de prisão, e isso pode cair para 13 anos, apressando o fim efetivo do regime fechado.”

        Há quem afirme que pode cair para 2 anos, e não 13, como diz o texto.

  2. Risco de crescimento da candidatura Zema coloca bolsonarismo em alerta

    O bolsonarismo acendeu o sinal amarelo para o risco de Romeu Zema crescer nas pesquisas de intenção de voto e tirar votos de Flávio Rachadinha.

    Com a estratégia de enfrentar os ministros do STF por causa do caso Master, Zema ganhou engajamento nas redes sociais.

    E o perigo mais concreto vislumbrado por Carluxo é o mineiro crescer o suficiente para dividir a direita.

    Abatido e isolado em casa por ordem de Moraes, o ex-mito, que poderia fazer o pêndulo ir para o lado do bolsonarismo, não está conseguindo opinar.

    Até agora, Flávio ‘tem’ as rédeas da campanha e os irmãos Carluxo e Dudu Bananinha só conseguem reclamar.

    Em resumo, acham que Flávio está ficando sem identidade.

    Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 27/04/2026 | 18h30 Por Raquel Landim

  3. Para o bem ou para o mal, o que se vê é Bolsonaro pra cá e Bolsonaro pra lá.
    A esquerda o mantém como exemplo de punição de alegado golpe de estado.
    A realidade mostra um medo doentio de sua presença na política.
    Na minha observação o golpe que não houve foi, ele esperava que fosse provada a fraude nas urnas, como não conseguiram provar ele e os militares recuaram de virar a mesa. O resto é o que está aí.

  4. Vejam só: uma mulher de 44 anos não pode se encarregar dos remédios do marido e chama isso de SOBRECARGA! Imaginem ela como presidente responsável pela nação!

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