Mudança no comando da Segunda Turma do STF pode endurecer cenário para Vorcaro

6 thoughts on “Mudança no comando da Segunda Turma do STF pode endurecer cenário para Vorcaro

  1. Honestidade não é tratada como valor nem nas aparências

    É espantosa a forma como próceres da política vêm reagindo às investigações da Polícia Federal (PF) que os implicam no caso Master. Reina a absoluta falta de compunção.

    É como se em Brasília a honestidade tivesse deixado de ser um valor a ser cultivado até no campo das aparências.

    Para começar, o relatório da PF tornado público há poucos dias por decisão de Mendonça, relator do caso Master no STF, expôs com ainda mais riqueza de detalhes uma relação entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que (…) materializa a venda de um mandato parlamentar.

    Nada menos. Segundo os investigadores, Vorcaro bancou uma frenética vida de luxos ao redor do mundo para Ciro num “mutualismo ilícito” que misturou a defesa dos interesses privados do banqueiro e o exercício do múnus público. Ciro segue impassível diante desses achados.

    Por sua vez, Hugo Motta, declarou não ver problema algum, ora vejam, em ter sua hospedagem de luxo na capital portuguesa custeada por Vorcaro quando de sua participação no Fórum Jurídico de Lisboa, organizado por Gilmar Mendes.

    Em que lugar decente do mundo uma imoralidade dessas pode ser tratada como aceitável?

    Em troca de que o presidente de uma casa legislativa aceita favores de um empresário – principalmente de alguém como Vorcaro – e trata isso como se fosse prática trivial? É esse o grau de desorientação da bússola moral na Praça dos Três Poderes?

    Recorde-se, ainda, que Flávio, pré-candidato a presidente, foi outro que tratou como reles negociação privada, no fim do ano passado, a cobrança de milhões de dólares feita por ele a Vorcaro – à época já tido e havido como o responsável pelo maior crime financeiro da história do País – para, supostamente, financiar um filme sobre seu pai, o ex-mito.

    Nesse inventário de descalabros, não se pode deixar de mencionar o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, alcançado por nova fase da Operação Compliance Zero em razão de seu suposto envolvimento com o caso Master.

    Wagner é investigado por ter sido agraciado com um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador em troca de contrapartidas legislativas de interesse do banco. Sua explicação para o negócio é um insulto à inteligência alheia.

    Wagner afirmou que pediu a um amigo, o investidor Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, que comprasse o imóvel em seu lugar enquanto ele providenciava recursos para recomprá-lo, inclusive com a venda do apartamento de sua filha.

    É o caso de relembrar que a política republicana sustenta-se sobre um primado elementar: um mandatário tem o dever de impedir que interesses privados conspurquem sua independência. E isso não se limita ao cumprimento da lei, de resto uma obviedade.

    Há certas condutas que até podem escapar aos limites estritos dos textos legais, mas, ainda assim, são rigorosamente incompatíveis com a dignidade do mandato eletivo.

    Desde Cícero, o trato da res publica pressupõe que aqueles investidos de poder público o exerçam em benefício da coletividade. Mas nem é preciso voltar tanto.

    Montesquieu e os federalistas americanos conceberam robustos sistemas de freios e contrapesos, vigentes no mundo civilizado até hoje, porque compreenderam que o poder, quando dissociado da virtude, corrompe.

    Aqui, a Constituição de 1988 não fez diferente ao estabelecer como princípios da administração pública a probidade, a moralidade e a impessoalidade.

    Hospedar-se à custa de um investigado (…) é moralmente inaceitável para quem exerce cargo público. Receber emendas legislativas prontas das mãos de um banqueiro (…) desfigura a essência do mandato parlamentar.

    Vorcaro pode ser só um mecenas, fã da história pessoal de Bolsonaro. Ou, ainda, um generoso corretor imobiliário. Mas a distinção entre ilegal e imoral, aqui, não é sutil, é a base sobre a qual repousa a confiança nas instituições deste país.

    O que se vê, porém, é que essa distinção foi varrida da prática política cotidiana com uma orgulhosa sem-vergonhice.

    Fonte: O Estado de S. Paulo, Opinião, 21/06/2026 | 03h02 Por Editorial

  2. Nada mais espanta: a política entre o lucro e a impunidade

    Denúncias envolvendo Flávio, Ciro Nogueira, Motta e Jaques Wagner ilustram como a moralidade pública foi escanteada em troca de favores

    Deve ser um bom negócio concorrer a eleições, haja vista o número crescente de candidatos. Faz bem ao ego. Você se torna conhecido e pode acabar se elegendo. O principal: sem gastar dinheiro.

    Os outros que gastem — fundos partidários ou doadores espontâneos. Sabe o que mais? Em muitos casos, as sobras de campanha enriquecem, sem distinção, candidatos vencedores e perdedores.

    O avanço do Congresso sobre o controle do Orçamento da União dispensa deputados federais e senadores de se preocuparem com o financiamento de campanhas. O dinheiro das emendas parlamentares é suficiente para dar conta do recado.

    São eles, ao gosto de cada um, que determinam onde, quando e como o dinheiro deve ser aplicado em seus redutos. E ainda embolsam parte dele. Nada mais espanta. A corrupção naturalizou-se. Ninguém reclama.

    O Caso do Banco Master é o melhor exemplo disso no momento. Um senador (Flávio Bolsonaro) não vê nada demais em negociar um total de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai.

    Desse montante, pelo menos cerca de R$ 61 milhões foram repassados pelo banqueiro entre fevereiro e maio de 2025.

    Outro senador (Ciro Nogueira) também não vê nada demais em receber mesadas de Vorcaro no valor de R$ 350 mil mensais, além de ter pagas as viagens em jatinhos, compras de roupa para enfrentar o frio nos Alpes franceses e despesas com sua companheira.

    O presidente da Câmara (o minúsculo Huguinho Motta) não se constrange com o fato de ter viajado e se hospedado em Lisboa por conta de Vorcaro.

    Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, é investigado por ter pedido ao banqueiro Augusto Lima, seu amigo e ex-sócio de Vorcaro, que comprasse em Salvador um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões.

    Ele o recompraria quando tivesse dinheiro. Foi crime? Se não foi, foi imoral. Lula espera que ele não demore a se afastar da função para não ter que afastá-lo.

    Enquanto isso, nós, brasileiros, só prestamos atenção aos jogos da Copa, embora descrentes no hexa.

    Metrópoles, Opinião, 22/06/2026 05:30 Por Ricardo Noblat

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