Desafio é criar uma Inteligência Artificial capaz de desenvolver a consciência própria

Ilustrada 27 de julho de 2026
Título – O animal metafísico Ilustração de Ricardo Cammarota realizada em técnica mista. O fundo é produzido manualmente com pastel oleoso sobre papel, formando faixas verticais em tons de rosa, vermelho, azul-turquesa, verde-claro e bege, com textura visível e áreas de esfumaçamento. Sobre esse fundo, figuras em técnica vetorial, preenchidas em preto sólido, estilizam seres inspirados na linguagem visual da arte rupestre. As formas simplificadas e os contornos orgânicos remetem a representações humanas e animais, entrelaçadas em uma única composição compacta e abstrata. As figuras não apresentam detalhes internos, apenas silhuetas preenchidas em preto.

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)

Luiz Felipe Pondé
Folha

O que vem a ser a metafísica? Segundo José Antonio Antón, em seu “Elementos de Metafísica Tradicional”, seria “como se constitui a realidade, como se articula e determina, a quais princípios e razões obedece, tudo isso é objeto de consideração metafísica”. Portanto, a metafísica, como já dizia Aristóteles acerca da ontologia, é a ciência primeira, a observação e reflexão sistemática acerca do que constitui a realidade mais íntima, enfim, sua substância e dinâmica internas.

ALÉM DA FÍSICA – Como estamos acostumados a pensar, a metafísica é a ciência que estuda o imaterial, aquilo que está além —”meta”— da física ou do material. Tudo passa, a metafísica permanece no tempo histórico. Metafísica é puro luxo. Vamos então entender esse vínculo peculiar entre luxo e metafísica.

Existem dois tipos de produto que nunca se enquadram na categoria de luxo, mesmo que tentem nos enganar. Comida e tecnologia. Ambos são perecíveis e, portanto, não há como se encaixarem como luxo. Onde há luxo, afinal, há permanência.

Comida, mesmo que assinada por chefs famosos, com preços caríssimos e vendida em restaurantes com filas enormes por meses, nada tem a ver com luxo. Aliás, se você é granfino e fica numa fila de espera por meses para ir a um restaurante chique em Estocolmo, está sendo apenas brega e confirmando o atestado de que tem um coração de novo rico.

VIROU FETICHE – Quanto à tecnologia, a Apple conseguiu se transformar num fetiche —tenho Apple, logo existo—, mas luxo não é. Tecnologia, por definição, é escrava do seu tempo. Hoje a inteligência artificial é tudo, amanhã ninguém dará a mínima. Dar bola para a IA será como escrever poesias futuristas e fazer palestras sobre o Waze.

Por exemplo, basta ver filmes ou séries de anos atrás com tecnologia e ela será a coisa que mais envelheceu na obra, não? Pense em “Jornada nas Estrelas”, que, entre outras coisas, “previu” o celular. Na série, o que perdura são os temas metafísicos associados ao mistério deste universo.

O que é este universo? Alguém o criou ou é fruto —improvável, para alguns— da contingência? Se a contingência reina cega sobre as coisas, o que será de nós, humanos, que a enxergamos com os nossos próprios olhos? Para onde vamos, então? Quem somos nós nessa rede misteriosa de seres? O que importa mais, a razão representada por Mr. Spock ou a emoção, representada pelo médico Magro? Seria o ideal a mistura delas, na pele do capitão Kirk?

MONOLITO – Já no filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, para além da estética tecnológica radiante, o que permanece intocável é o monolito, misterioso desde a “alvorada do homem”, na pré-história. O objeto é descoberto por primatas e desperta o conhecimento de caçar para comer carne.

O filme aqui replica a ideia do filósofo Francis Bacon, que viveu na virada do século 16 para o 17, sobre o conhecimento ser, antes de tudo, o poder de controlar a natureza que nos cerca.

Para além dessa questão, o filme concebe uma IA, o famoso Hal 9000, que mata um humano para se defender do plano dos dois astronautas de desligá-lo —matá-lo— após identificarem um defeito nele. Aqui avançamos em questões metafísicas atravessadas pelo debate moral.

CONSCIÊNCIA PLENA – A IA poderá chegar à condição, pretensamente humana, ter consciência plena da sua integridade? Por que humanos teriam o direito de matar uma IA? Só porque são humanos? Por que seríamos nós tão especiais?

 

A tecnologia permanece quando propõe questões metafísicas e morais para o seu criador. Estaria a tecnologia a ponto de replicar nossa condição diante do nosso criador?

Esse tema está presente também no filme “Blade Runner”, de Ridley Scott, quando os replicantes, humanos artificias, se revoltam contra a escravidão, como nós fizemos em nossa história, e buscam o seu criador humano a fim de poderem viver eternamente. A finitude como defeito intrínseco à condição humana e consequente busca da sua cura.

CRIAÇÃO ARTIFICIAL – O que faz de nós humanos não poderá um dia ser criado artificialmente pela ciência? Essa fronteira metafísica pode ser ultrapassada sem destruir a nós mesmos? A dimensão prometeica da técnica se repete já há 2.500 anos.

As questões metafísicas permanecem. A técnica é grandiosa só quando nos propõe questões permanentes, porque seu avanço de hoje amanhã estará datado. Aqui reside a metáfora da metafísica como luxo.

O animal metafísico em nós é o que nos torna singulares, mesmo que não signifique nada diante do universo indiferente. Mesmo se a espécie Sapiens tiver desaparecido, a metafísica como problema permanecerá, ainda que em silêncio.

4 thoughts on “Desafio é criar uma Inteligência Artificial capaz de desenvolver a consciência própria

  1. Isaac Asimov na sua obra, Eu Robô, expõe a preocupação com a autoconsciência da IA ao colocar três leis para proteger a humanidade. Mas no final, um robô considera que a sua lógica é melhor e a usa para proteger a humanidade, com uma interpretação diferente das colocadas nas três leis, além de achar que os humanos seriam infeirores, incapazes de serem racionais. .

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