
Charge do Mariosan (O Popular)
Andréia Sadi
G1
Autoridades e políticos de Brasília preocupados com os efeitos do caso Master só pensam naquilo — no acordão. Tentativas de construir uma saída política para o caso vêm sendo discutidas pelo menos desde dezembro. Até aqui, porém, foram atropeladas pelos fatos: o avanço das investigações, os vazamentos, novas descobertas e a exposição de manobras discutidas em paralelo e implodidas no meio do caminho.
Mas nunca se desistiu de buscar uma “acomodação”. Pelo contrário. Agora, quem acompanha o caso Master e tem caneta em Brasília — com mais ou menos tinta — fala em acordões, no plural. E os diferentes grupos se acusam, lado a lado, de buscar uma “acomodação”, eufemismo usado nos corredores do poder para o que adversários classificam como uma operação para abafar o caso. “Ah, mas tem muita investigação rolando. É impossível um acordão”, diz uma fonte.
CLIMA PRÉ-MENSALÃO – Outra rebate com uma comparação: Brasília vive hoje um clima pré-Mensalão, em que muitos se comportam como se pudessem tudo, sem cerimônia e longe do escrutínio público. Depois do pré-Mensalão vieram o Mensalão e a Lava Jato. E, na avaliação dessa fonte, o sistema sobreviveu, se reinventou e aprendeu a explorar brechas, nulidades e decisões judiciais.
A leitura é que isso alimentou novamente, em setores do poder, a sensação de que o custo da opinião pública pode ser administrado. Quando falam em “acordões”, no plural, essas fontes descrevem duas suspeitas opostas.
De um lado, acusam uma eventual acomodação do caso Master de atender aos interesses do grupo associado, nessas conversas, a Davi Alcolumbre, Paulo Gonet e Alexandre de Moraes. Do outro, há acusações de que Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo também apostariam numa saída que lhes fosse favorável, na expectativa de que decisões do ministro André Mendonça possam beneficiar politicamente esse campo. E expoentes do centrão seriam favorecidos em qualquer um dos acordões, pois mantêm relações com os dois grupos.
ARTICULAÇÕES – São acusações cruzadas — não a constatação de que exista um acordo fechado. Mas costuras em curso, em diferentes fases do caso. O ponto em comum entre fontes de diferentes lados é outro: ninguém hoje arrisca prever o desfecho do caso Master.
E há uma avaliação cada vez mais disseminada em Brasília de que, independentemente do resultado das investigações, a crise já ultrapassou personagens individuais. Para a imagem e a credibilidade do Supremo, dizem essas fontes, o caso chegou a um ponto de difícil retorno.
Decisão de Alexandre de Moraes pavimenta caminho para implodir investigações do Master
Ministro do STF abraça tese que vinha sendo estudada pela própria defesa de Vorcaro para tentar anular a apuração
A ofensiva de Alexandre de Moraes sobre o ministro André Mendonça apontando “fortes indícios da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade” na condução do caso Master não é apenas um revide contra o colega na tentativa de matar no peito a possibilidade de uma investigação contra si próprio.
Na prática, a iniciativa de Moraes abre caminho para implodir toda a apuração da maior fraude bancária da história do país.
Ao dizer que houve direcionamento das investigações e “quebra na cadeia de custódia”, Moraes abraça uma tese que vinha sendo estudada pela própria defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para tentar anular a apuração.
(…)
Fonte: O Globo, Política, Opinião, 03/09/2026 20h10 Por Rafael Moraes Moura — Brasília / Malu Gaspar
Daniel Vorcaro investe na crise institucional
Como os líderes do PCC e CV, Vorcaro mantém o poder mesmo preso e investe na crise institucional
Banqueiro age, de forma claramente calculada, para jogar os ministros do STF uns contra os outros
Assim como os líderes do PCC e do CV mantêm seu comando e dão as ordens nas facções, mesmo presos em penitenciárias de segurança máxima, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sustenta até hoje seu poder destrutivo contra as instituições, depois de meses na Papudinha, em Brasília.
Depois de cooptar figuras centrais de Legislativo, Judiciário e Executivo quando era biliardário, rei da cocada preta e estava solto e infiltrado nos três poderes, Vorcaro continua sendo personagem chave na guerra que sacode a capital da República como nunca antes visto.
Depois de tentar enganar tudo e todos com duas tentativas falsas de delação premiada, Vorcaro agora, de forma claramente calculada, age para jogar os ministros do STF uns contra os outros e empurrar a PF e a PGR para a fogueira, com um desgaste que atinge até agentes das duas instituições até a opinião pública.
De burro, Vorcaro não tem nada. Ele é um gênio do mal, estratégico e sem qualquer limite e é exatamente porque Flávio Bolsonaro foi flagrado lhe pedindo R$ 134 milhões que ele agora mira o outro lado da polarização, não em Lula diretamente, mas em seu governo. É do seu interesse embolar tudo e confundir a sociedade.
Um ambiente institucional corroído, poluído e repugnante é francamente favorável à sua estratégia de provocar um movimento de autopreservação e um “acordão” em que possa surfar e tentar salvar a própria pele. Por isso, investe na divisão do Supremo.
Alexandre de Moraes, reconhecido como aliado de Lula, está no fundo de um poço sem volta, e André Mendonça, admitido como aliado dos Bolsonaro, é quem dá as cartas no escândalo Master no Supremo, sob aplausos da sociedade. A divisão do STF em torno deles é um presente e tanto para Vorcaro.
O PGR Paulo Gonet entra na história não apenas como sendo da “turma do Gilmar Mendes” e aliado (ou advogado de defesa?) de Alexandre de Moraes, mas também na situação constrangedora de estar se auto-protegendo.
Afinal, Gonet é mais um dos “amigos” que gosta, e desfruta, dos charutos e do uísque do estoque luxuosíssimo de Vorcaro. Qualquer decisão que tome no caso será usada contra ele, como já foi quando atacou Mendonça e não deu uma palavra sobre as revelações escandalosas contra Moraes.
O novo peixe na rede de Vorcaro é o delegado Andrei Rodrigues, que comanda a instituição mais respeitada e de maior resultado nessa confusão toda, a Polícia Federal.
Não há provas de ilícitos contra ele e, até aqui, o delegado só está sendo citado pelo próprio Vorcaro, com quem participou de viagens e eventos e agora age para atraí-lo para a sua rede de envolvidos.
A nova suspeita é que Mendonça e a própria direção da Papudinha tenham dado um drible em Rodrigues e na PF para desviar Flávio Bolsonaro do alvo e mirar no governo Lula. No dia em que deveria depor à PF, Vorcaro foi escondido para o gabinete de Mendonça no STF.
O problema é que não foram só Gonet e Andrei Rodrigues que se encontraram com Vorcaro, mas o próprio André Mendonça, confirmando, mesmo que o encontro tenha sido absolutamente trivial, a triste e avassaladora percepção nacional de que “não sobra ninguém”.
Em nota, o Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) elogia a quebra de sigilo das investigações sobre Alexandre de Moraes, mas cobra que André Mendonça “quebre o sigilo igualmente dos casos INSS e Dark Horse”, sobre Lulinha e Flávio Bolsonaro, inclusive para evitar impacto nas eleições.
Assim como é importante dar transparência aos fatos que envolvem Morais, mas também Lulinha e Flávio Bolsonaro, seria conveniente que Paulo Gonet, Andrei Rodrigues e o próprio André Mendonça explicassem, sem tergiversar – e sem serem desmentidos depois, como Flávio foi – qual o grau de relação que têm, ou tiveram, com Vorcaro.
Ele, que é o único ser no País e no planeta a se beneficiar da tragédia institucional que estamos assistindo.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Política, Opinião, 03/09/2026 | 21h35 Por Eliane Cantanhêde