/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/Q/J/QFZhb9Rw2Jtly3OAE6tw/111360048-interrogatorios-dos-reus-da-acao-penal-ap-2668-10-06-2025-jair-bolsonaro-foto.jpg)
Bolsonaro negou ter endossado minuta que previa golpe
Pedro do Coutto
O depoimento de Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal, proferido em tom contido e calculadamente sereno — postura adotada como evidente estratégia de defesa — revelou-se, na essência, uma confissão clara de que ele articulava um golpe de Estado destinado a impedir a posse de Lula da Silva, legitimamente eleito nas eleições democráticas e incontestáveis de 2022.
O ex-presidente reconheceu que buscava uma “alternativa” ao resultado eleitoral ao mesmo tempo em que negava, de forma ambígua, ter tramado uma ruptura institucional. Mas cabe aqui a pergunta inevitável: como é possível conceber uma alternativa ao veredicto das urnas sem incorrer, necessariamente, em um atentado à ordem democrática?
DESVIO – A resposta é simples e contundente: não é possível. Qualquer desvio desse resultado só poderia ocorrer mediante uma tentativa de subversão, com implicações gravíssimas, que incluiriam a prisão — ou, em delírios mais sombrios, até a eliminação física — de figuras centrais do novo governo, como Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Embora tenha mantido uma aparência afável e cooperativa, Bolsonaro não conseguirá sustentar essa imagem no julgamento que se avizinha. Sua fala foi uma confissão camuflada, articulada para conquistar o benefício de uma pena mais branda — como a prisão domiciliar — e, ao mesmo tempo, tentar preservar sua relevância política com vistas à eleição de 2026, onde pretende apoiar um candidato que funcione como ponte para um eventual retorno ao poder em 2030.
Bolsonaro reconheceu, ainda que indiretamente, a existência da minuta de um decreto de exceção, um instrumento que teria sido utilizado para institucionalizar o golpe contra as estruturas democráticas. Ele admitiu discutir medidas que, numa democracia consolidada, simplesmente não têm lugar. E, o mais revelador: em nenhum momento demonstrou aceitar a legitimidade da vitória de seu adversário.
CONSPIRAÇÃO – O que se desenhava, portanto, era uma conspiração para reverter o resultado do pleito, em consonância com os atos antidemocráticos que culminaram nas manifestações golpistas em Brasília, nas quais se clamava por intervenção militar e pelo fechamento do STF.
Em uma república democrática, o único desfecho admissível para uma eleição é a posse do vencedor e o respeito à vontade soberana do povo. A partir do momento em que Bolsonaro se recusou a reconhecer esse princípio elementar, deixou evidente que operava fora dos limites constitucionais. Ele apostou tudo numa estratégia de sobrevivência jurídica e política, mas sua confissão — ainda que envolta em palavras suaves — foi suficientemente reveladora.
SILÊNCIO – O silêncio sobre a posse de Lula pesa mais do que qualquer negativa formal. Foi esse silêncio que transformou seu depoimento em uma confissão inequívoca, transparente e, acima de tudo, definitiva.
Não se trata apenas de um episódio jurídico, mas de um momento histórico. A democracia brasileira foi testada — e, ao que tudo indica, resistirá. Mas as lições deixadas por esse depoimento não podem ser ignoradas. O que está em jogo vai além de uma biografia política. Trata-se da integridade do próprio pacto democrático.

/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/F/B/ryeZgSQQWoEVBHLCtiKg/bre13500.jpg)






/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/2/S/Eff0ILSGAF2VnUAALTOA/111228721-en-rio-de-janeiro-rj-04-04-2025-empresas-publicas-e-privadas-correios-localcidad.jpg)







/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/o/D/pbRsvCSx68QEeysx3LbQ/109713631-pa-brasilia-df-16-01-2025-presidente-lula-participa-da-sancao-do-projeto-de-lei-comp.jpg)
