Para a equipe de PF, “Dark Horse” não é filme: é caso de polícia

Charge do Cláudio (Folha)

Andréia Sadi
G1

Flávio Bolsonaro tenta tratar o caso “Dark Horse” como uma questão privada, um simples patrocínio a um filme. Mas essa versão é rechaçada por investigadores: “Dark Horse” é caso de polícia.

Na entrevista que concedeu a Renata Vasconcellos e César Tralli, na última sexta sexta-feira (28), o candidato do PL à Presidência afirmou que não há “absolutamente nada de errado” em ter buscado o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, do Banco Master, para bancar o filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.

PATROCÍNIO PRIVADO – Flávio Bolsonaro voltou a dizer que pediu a Vorcaro um patrocínio privado para o projeto “Dark Horse”. “Não tem absolutamente nada de irregular nesse filme”, disse o candidato. “Esse foi um patrocínio, não teve nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro.”

A Polícia Federal apura suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro nos negócios envolvendo Flávio Bolsonaro e o filme. O ponto central da investigação é saber se houve vantagem indevida envolvendo um agente público e um agente privado.

No caso da corrupção passiva, investigadores entendem que não é necessário apontar um ato de ofício específico como contrapartida direta. É preciso investigar se eventual vantagem indevida foi solicitada ou recebida em razão da função pública. O artigo 317 do Código Penal descreve o ato de “solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida”.

ENTREGA DE DINHEIRO – É justamente isso o que a PF tenta esclarecer. Os investigadores querem saber se houve entrega de dinheiro, qual era a origem dos recursos, quem participou, como o dinheiro circulou e qual foi o destino final.

Há ainda um elemento considerado relevante pela investigação: Daniel Vorcaro não queria aparecer como patrocinador do filme. E a declaração de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, de que Flávio Bolsonaro teria ido à casa de Vorcaro buscar “o restante do dinheiro”, também entrou no radar da PF e está sendo apurada.

Por isso, na avaliação dos investigadores, não basta apresentar o episódio como uma relação privada de patrocínio. Há perguntas sobre a origem, a entrega e o destino do dinheiro, e sobre a participação de um senador da República nessa relação. É por isso que o caso “Dark Horse” é um caso de polícia.

Crise dos três Poderes é uma degradação institucional, mas não ameaça democracia

Homem de terno preto, camisa branca e gravata escura, usando chapéu bege, está sentado em cadeira preta atrás de mesa cinza em estúdio com fundo azul. Ao fundo, palavra 'ELEIÇÕES' em letras grandes e logo da emissora.

Lula caiu na mesma armadilha que enfraqueceu Bolsonaro

Marcus André Melo
Folha

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: “Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão”. Arrematando: “Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento”.

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal, passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

GRANDE DEMOCRACIA – A revista “The Economist” acaba de publicar matéria intitulada: “A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo”. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement (a expansão unilateral do Executivo, em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo).

Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em “Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?” (Cia. da Letras), escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário.

O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

TODO-PODEROSO? – A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em “His Majesty the President of Brazil”, publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como “destituído de poderes vis-à-vis o Executivo” e os tribunais como “invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia”. O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em “Razões da Crise”, de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial:

“Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes”, escreveu.

MODO SOBREVIVÊNCIA – Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão.

No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; e o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

Flávio Bolsonaro imita o pai, ao fazer declarações mentirosas e sem nexo

Flávio segue pregando para convertidos

Por ser mais jovem, Flávio acha que é melhor do que Lula

Vicente Limongi Netto 

Flávio Bolsonaro, na sabatina da Globo, citou o nome do Lula e de seu governo, 23 vezes, mentiu descaradamente e fugiu das perguntas. Flávio Bolsonaro deve bater o recorde do pai, que se esmerava em proferir declarações falsas e mentir. Aprendeu com o pai, mente, depois se desmente e volta mentir.

Ninguém governa bem um país por ser apenas jovem e ter vigor físico. Governa-se bem a nação com conhecimento, experiência, humanismo, amor à pátria e defesa dos interesses nacionais. Qual político hoje no Brasil, tem a desenvoltura e capacidade de Lula de viajar por esse mundo afora, para abrir mercados para os produtos brasileiros, trazer investimentos, e se sair bem na defesa de nossa soberania diante do país mais poderoso do mundo?

Diante de um Congresso dominado pela direita, não é fácil aprovar medidas em defesa dos trabalhadores e os mais necessitados e fazer entregas importante para o futuro do Brasil? Hoje não há no Brasil um jovem político mais preparado do que o calejado Lula. 

ESPAÇO ABERTO – O Correio Braziliense estende o tapete e o espaço a partir de hoje, terça-feira, para que candidatos ao governo do Distrito Federal mostrem seus planos e ideias. A diretora de redação, Ana Dubeux (Correio – 30/08) recorda a vasta tradição do jornal em coberturas políticas, nacionais e locais.

O título do artigo de Ana Dubeux enfatiza, “Não terceirize sua confiança, informe-se com qualidade!”. Dubeux afirma que “verdade não tem viés”. A seu ver, o desafio é complexo, “porque há quem ouse mentir descaradamente em praça pública, fazendo da desinformação combustível e alimento”.

A oportuna iniciativa do Correio Braziliense não será em vão. Eleitores poderão tirar suas dúvidas e votar certo, com segurança e esperança nas urnas democráticas de outubro.    

INTOLERÂNCIA – Uma criança torcedora do Corinthians foi vítima da fúria e estupidez de canalhas e covardes torcedores do “time do povo”, porque pediu e ganhou uma camisa do craque Neymar. A intolerância estarrece e preocupa, cada vez mais. 

Menos debates, menos marqueteiros, mais Congresso: a ruptura eleitoral de 2026

“O tempo é um fio por entre os dedos; escapa o fio, perdeu-se o tempo…”

Henriqueta Lisboa - desbravadora de caminhos | Templo Cultural Delfos

Henriqueta Lisboa foi premiada pela Academia

Paulo Peres
Poemas & Canções

Henriqueta Lisboa (1901-1985), professora universitária de Literatura em lingua portuguesa e espanhola, foi uma das maiores poetas brasileiras do século passado. Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Poeta sensível, dedicou sua vida à poesia. Neste poema que selecionamos, Henriqueta Lisboa demonstra que “O Tempo é Um Fio”, e com bastante fragilidade.

O TEMPO É UM FIO
Henriqueta Lisboa

O tempo é um fio
bastante frágil
Um fio fino
que à toa escapa.

O tempo é um fio.
Tecei! Tecei!
Rendas de bilro
com gentileza.

Com mais empenho
franças espessas.
Malhas e redes
com mais astúcia.

O tempo é um fio
que vale muito.

Franças espessas
carregam frutos.
Malhas e redes
apanham peixes.

O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.

Lá vai o tempo
como um farrapo
jogado à toa.

Mas ainda é tempo!

Soltai os potros
aos quatro ventos,
mandai os servos
de um pólo a outro,
vencei escarpas,
voltai com o tempo
que já se foi!…

Flávio evita dizer se acaba com a escala 6×1 e aposta na “liberdade” para flexibilizar jornada

De cinco presidenciáveis, só Lula não precisou explicar seu compromisso com a democracia

Eleições de 2026 já são as mais judicializadas da história e a campanha mal começou

Judicialização eleitoral mais que dobra

Gabriela Echenique
Folha

Partidos acionaram o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mais que o dobro de vezes que em 2022 e tornaram a pré-campanha de 2026 a mais judicializada da história. Até o dia 15 de agosto, último dia antes do início formal da campanha, foram protocoladas 202 representações na Justiça Eleitoral. São mais de 6 ações por semana.

Na última eleição, em 2022, as campanhas já tinham acionado mais a corte eleitoral durante a pré-campanha, com 84 representações. O crescimento agora é de 140%. Na comparação com as eleições de 2018, quando as campanhas protocolaram 43 ações no mesmo período, o aumento foi ainda maior: 370%.

PROTAGONISTAS – Mais de 80% das ações foram protagonizadas pelas pré-campanhas de Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL). O Missão, de Renan Santos, acionou o TSE ao menos nove vezes. O restante foi proposto por Novo, Democracia Cristã, PSD e diretórios estaduais.

Ministros e advogados das campanhas atribuem o aumento não só à polarização política, mas também ao uso de Inteligência Artificial e à desinformação que tomou conta das redes sociais.

Como mostrou o Painel, neste ano, a equipe jurídica da campanha de Lula criou uma central de monitoramento das redes sociais para acompanhar episódios de fake news em tempo real. Tanto é que no primeiro semestre, o PT, de Lula, e o PL, de Flávio, já tinham acionado o TSE mais de 70 vezes.

O emprego continua importante. Mas estabilidade e autonomia passaram a definir o debate

Pautas, reeleições e poder, eis o acordo de conluio entre Lula, Motta e Alcolumbre

“Tem pouco preso no Brasil”: Flávio defende encarceramento em massa inspirado em El Salvador

A imprensa deveria defender sempre a eleição do candidato “menos ruim”

filosofiayreflexao A democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas sim para impedir que OS ruins fiquem para sempre. Margaret Thatcher

Margaret Thatcher, ex-premiê britânica, enteneia de política

Carlos Newton

O jornalismo é uma profissão atípica e cada vez mais necessária à Humanidade, devido ao avanço das comunicações, que agora são feitas preferencialmente por celular ou computador, levando ao desespero os jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão, que até recentemente conduziam com exclusividade as informações aos eleitores.

Sim, por mais que a tecnologia avance, haverá sempre informações e eleitores, que escolherão os candidatos mediante as notícias circulantes. Portanto, a imprensa continuará a existir, o que já está mudando é seu papel.

FAKE NEWS – Um dos efeitos da modernização das informações é a maior propagação das fake news, pois notícias mentirosas são divulgadas desde sempre, mas eram menos frequentes na chamada  imprensa analógica, que funcionava como filtro das informações circulantes.

Na modernidade, a imprensa continuará existindo à moda antiga, divulgando informações, mas tem agora o importantíssimo papel de denunciar as fake news, para que sejam expurgadas das redes sociais e de portais, sites e blogs de baixa qualidade. É evidente que haverá punições para quem divulgar fake news, é apenas uma questão de tempo e de adequação das leis.

Isso significa que a obrigação social da imprensa será cada vez mais importante, especialmente nas eleições, para que os cidadãos-contribuintes-eleitores, como dizia Helio Fernandes, possam escolher o melhor candidato – ou o menor ruim, como se diz atualmente.

ATRASO MENTAL – O que ainda acontece no Brasil e no mundo é que os jornalistas insistem em tentar a prorrogação de uma fase histórica que já se tornou totalmente arcaica, pois ainda se dividem em esquerdistas e direitistas.

Há muito o capitalismo e o comunismo entraram em agonia. O que existe hoje nos países mais desenvolvidos é um avanço da social-democracia, que procura reunir as qualidades desses regimes antípodas e excludentes.  Ou seja, a social democracia busca garantir o desenvolvimento que o capitalismo possibilita, mas acompanhada do crescente bem-estar social ansiado pelo comunismo.

Hoje, os países com maiores índices de desenvolvimento e bem-estar social são las nações nórdicas, com destaque para Finlândia, Dinamarca, Islândia, Suécia e Noruega, que conseguem oferecer serviços públicos de excelência em saúde, educação,  previdência e segurança, com baixos índices de corrupção. Dizer que os países nórdicos são capitalistas é desconhecer a realidade, porque há tempos já praticam regimes híbridos.

DEMOCRACIA-SOCIAL – Da mesma forma, nações que antes eram essencialmente comunistas, como China, Rússia e Vietnã, estão adotando cada vez mais as práticas capitalistas, indicando que a Humanidade caminha mesmo em direção à social-democracia, sem a menor dúvida.

O impressionante é que, no mundo inteiro, a imprensa despreze essa realidade e continue a defender a polarização entre direita e esquerda. É prática infantil e irracional. A principal função da imprensa, em anos eleitorais, seria divulgar informações que favoreçam a vitória do melhor candidato, seja ele de esquerda ou direita.

O que importa não é debate ideológica. Como ensinava Sidarta Gautama, o Buda, há 2.500 anos, o que interessa é ver governantes e governados fazendo sempre o que é correto. Ou seja: Compreensão Certa, entendendo a realidade como ela é; Pensamento Certo, agindo com desapego, sem cobiça ou raiva; Fala Certa, comunicando-se de forma honesta e acolhedora; Conduta Certa, com respeito à vida e aos bens alheios; Meio de Vida Certo; numa profissão honesta e digna; Esforço Certo, com energia mental positiva; Atenção Certa, sempre evitando maus pensamento; e Concentração Certa, com meditação profunda pelo bem.

###
P.S.
– Os conceitos de Buda são idênticos aos ensinamentos de Lao Tsé, Confúcio, Moisés, Zoroastro, Cristo e outros líderes religiosos, colhidos desde três milênios e meio atrás. Até hoje, porém, os homens ainda não adotaram esses ensinamentos, que seriam fundamentais em época de eleições, como ocorre hoje no Brasil, em que a maioria das pessoas aceita votar em candidatos comprovadamente corruptos e desprovidos de caráter, ao invés de fazer o certo e escolher o menos ruim. (C.N.)

“Abandonar o mundo” é um sentimento que se constata em diferentes povos

Ermitão

No Tarô, a figura do Ermitão ou Eremita

Luiz Felipe Pondé
Folha

Hoje vamos manter uma certa distância desse mundo chato em que vivemos, um mundo histérico, em que todos querem aparecer como a pessoa mais legal de todas, com mais seguidores engajados para fazer melhores negócios ou, simplesmente, picaretas — é impressionante como o século 21, a partir das suas redes sociais, catapultou a prática da picaretagem profissional em níveis antes inimagináveis. Os psicanalistas que o digam — hoje, tem um em cada esquina.

Vamos falar um pouco da santidade e repousar, por algum tempo, na sua perenidade como fenômeno. Refiro-me à santidade, tal como a Igreja Católica e a Ortodoxa entendem, além de outras igrejas cristãs da bacia oriental do Mediterrâneo.

DEIXAR O MUNDO – Muitas vezes, a vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos. Na maioria das vezes, como parte de uma experiência religiosa que vê no mundo algo a ser, de alguma forma, evitado.

Essa tradição, conhecida como monástica — termo ligado à origem da fuga do mundo por parte de cristãos nos primeiros séculos da era comum — não é exclusiva do cristianismo, apesar de as tradições espirituais guardarem diferenças no seu modo de viver a renúncia do mundo ou de justificá-la.

No caso especificamente cristão, essa forma de vida se confunde com a de um dos primeiros indivíduos canonizados como santos pelas igrejas cristãs nascentes — que eram então múltiplas — nos primeiros séculos da era comum, não necessariamente a católica, como entendemos hoje.

SANTO ANTÃO – Trata-se de Santo Antão, que viveu entre 251 e 356 da era comum — ou era cristã —, aproximadamente. Este egípcio copta é considerado, pela tradição cristã, o fundador da vida monástica.

Filho de uma família de lavradores com algumas posses, Antão, após a morte de seus pais, ao ouvir no culto da igreja cristã copta da sua cidade — fundamental na história do surgimento do cristianismo — a passagem em que Jesus diz que quem quiser segui-lo, deve distribuir suas posses entre os pobres e viver na pobreza e na humildade, decide fazer o que Jesus disse. Leva sua irmã à casa de donzelas cristãs e parte para o deserto do Egito.

Santo Antão não queria apenas viver como Jesus, ele queria encontrar Deus — ou Cristo, como consagrará o Concílio de Niceia em 325 da era comum.

DUAS TEORIAS – Aqui vale um pequeno reparo. Este Concílio de Niceia, instaurado pelo imperador Constantino, visava discutir duas teorias acerca da pessoa de Cristo. Ou ele seria da “mesma substância” do Pai (“homoousios”, em grego), portanto, incriado e, também, Deus, ou ele seria, como queriam os arianos, os derrotados, mas, não extintos em Niceia, criado por Deus, como todos nós.

Importante ter em mente que o arianismo existe até hoje entre cristãos, ainda que não confessem o seu verdadeiro nome.

Santo Antão defenderá a posição de Niceia, de que Jesus continua vivo e é da “mesma substância” do Pai — na linguagem dos cultos se dizia assim, porque Antão, analfabeto, dificilmente entraria em controvérsias ontológicas sofisticadas, conhecidas como fundadoras da cristologia.

“EU O VI” – Segundo a fonte mais antiga da vida de Santo Antão — Santo Atanásio de Alexandria, mais jovem, mas contemporâneo, em parte, do monge, e que foi, também, um forte defensor da posição de Niceia contra o arianismo —, ele, supostamente, quando questionado por arianos, teria respondido: “Eu O vi”, ou seja, viu Jesus, vivo no deserto.

Santo Antão passou para a história da santidade como alguém que enfrentou o mal exteriormente —não que isso não o afetasse interiormente.

O grande demônio e seus pequenos demônios, na figura de animais ferozes, mulheres sedutoras, pessoas deformadas, insetos devoradores, tentaram duramente Antão, para que ele desistisse de Deus e do Cristo.

INFLUENCIADO FLAUBERT – Sua experiência no deserto, inclusive, passará para a história da arte e da literatura como as famosas “tentações de Santo Antão”. Entre muitos grandes que voltaram a essas tentações de Santo Antão, figura o grande Gustave Flaubert, que escreveu de 1848 a 1874 a sua “Tentação de Santo Antão”, reescrita várias vezes neste período.

Segundo o historiador René Fulop-Miller, no seu “Os Santos que Abalaram o Mundo”, da José Olympio Editora, vale comparar as experiências exteriores de desespero de Antão com o longo desespero interior, ou psicológico, como diríamos nós hoje, de Santo Agostinho.

Assim, os dois santos antigos repetem o perfil, muitas vezes desesperador, dos heróis do Velho Testamento. Viver com a mão de Deus sobre sua cabeça nunca foi coisa fácil.

“Leviandade: ex-chefe da FAB rebate Flávio após ser acusado de fazer campanha para Lula

Baptista Júnior diz que Flávio tentou fugir dos questionamentos

Deu no G1

O ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), Carlos de Almeida Baptista Júnior, rebateu o candidato Flávio Bolsonaro (PL) de que ele estaria fazendo campanha para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração de Flávio foi feita durante a entrevista à Globo na última sexta-feira (28). Conduziram o programa os jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli.

Para Baptista Júnior, a fala foi uma forma de evitar a pergunta dos jornalistas sobre a tentativa de golpe de Estado, na qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ele chamou a atitude de “leviandade” por parte de um candidato à Presidência.

FUGA DA RESPONSABILIDADE – “A leviandade de dizer que faço campanha para a reeleição do presidente Lula, apresentada para não abordar a verdadeira pergunta colocada no debate de ontem, na Globo, é antes de tudo, uma ferramenta para fugir da responsabilidade de respondê-la — algo entendido na figura de filho, mas não de alguém que se proponha a nos presidir”, disse Baptista Júnior por meio de seu perfil no X.

Flávio foi questionado sobre depoimentos de generais que fizeram parte do governo Bolsonaro e que basearam o processo que condenou o ex-presidente e outros integrantes do gabinete.

RISCO IMINENTE – Segundo o candidato, depoimentos como os do brigadeiro Baptista Júnior e do general Freire Gomes, que mencionaram que houve um risco iminente de golpe de Estado e pressões para que militares aderissem a uma ruptura institucional, não eram graves.

“Não é grave porque está partindo de uma pessoa como esse comandante da Aeronáutica, que hoje está pedindo voto para Lula. Uma pessoa completamente parcial para falar sobre o presidente Bolsonaro”, disse.

Em resposta, Baptista Júnior disse ainda que seu livro, “Eu disse não! Uma trincheira antigolpista”, e seu testemunho no STF não tiveram relação com Flávio. “Talvez seja prudente aguardar, ler o livro e refletir, antes de outra entrevista”, disse o brigadeiro.

Master e INSS: Mendonça e Gonet dividem riscos e responsabilidades pelas investigações

Lula e Flávio: dois candidatos, uma mesma dificuldade em dar explicações

Candidatos embromam sobre os próprios casos

Dora Kramer
Folha

É direito de todo cidadão, eleitor ou não, cobrar franqueza e objetividade de governantes ou de qualquer um que postule o ofício da representação e, assim, pretenda ter poder de decisão sobre a vida da coletividade —em variados graus.

A escolha pela vida pública é livre; já seu exercício implica obrigações entre as quais está no topo da lista a permanente prestação de contas à sociedade dona dos votos e do dinheiro que sustenta a atividade.

CAMINHO DE RISCO – A opção pela mentira, a meia-verdade e a dissimulação é caminho de risco; expõe seus autores ao constrangimento de se verem despidos da virtude fabricada. O enunciado, de tão óbvio, soa a platitude. Anormal é a desfaçatez com que candidatos à Presidência da República fazem da transgressão ao princípio básico uma banalidade.

Não só escolhem ao que (não) responder como se dão ao desfrute de se indignar, mentir, enrolar, tratar perguntas como impertinência ou incompetência de entrevistadores.

Reações que tanto revelam o autoritarismo dos espíritos como podem evidenciar a ausência de explicações plausíveis ou conter a combinação das duas hipóteses: culpa aliada à prepotência. Invertem aí o preceito da submissão de suas conveniências ao direito da população ao conhecimento de tudo o que lhes diz respeito. Direta ou indiretamente.

ESCÂNDALOS – Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram explorar os escândalos que rondam o adversário e reivindicam atenção aos planos de governo. É do jogo, mas se refugiam em evasivas quando confrontados com as respectivas vergonhas, contradições, imprecisões e vazios de ideias.

O presidente recorre ao velho truque de se pôr no lugar daquele que nada vê e nada sabe sobre o que se passa no seu entorno. O senador insiste em dar por superada uma questão que ficará em aberto enquanto ele não explicar para onde foi o dinheiro recebido do “irmão” Daniel Vorcaro. Ambos embromam, não respondem honestamente ao interesse do público nem afastam os fantasmas que os rodeiam.

Vorcaro, rachadinha e rejeição: os obstáculos de Flávio na disputa pelo Planalto

Michelle entra em campanha para impulsionar aliados e a candidatura de Flávio

Indecisão domina eleição, mas Lula mantém força entre eleitores mais mobilizados

Fotos de Lula com lobista são anteriores à posse e foram tiradas em eventos públicos

Imagens eram respostadasem rede social de Roberta

Sarah Teófilo
O Globo

As fotos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao lado da lobista Roberta Luchsinger que passaram a circular nas redes sociais após a entrevista do presidente ao Jornal Nacional não são recentes e foram publicadas pela própria empresária em diferentes momentos.

Os registros que vieram à tona mostram encontros ocorridos antes da posse de Lula, em 1º de janeiro de 2023, e algumas das imagens foram republicadas por Roberta em seu perfil algumas vezes.

ANTERIOR À CAMPANHA – Entre os registros está uma fotografia em que Lula e Roberta aparecem usando máscaras de proteção contra a Covid-19. Segundo a própria empresária, a imagem foi feita em 19 de dezembro de 2021. A foto, portanto, é anterior à campanha eleitoral de 2022 e ao atual mandato de Lula.

Há também duas fotografias de um evento realizado em 1º de maio de 2022. As imagens foram originalmente feitas naquela data e posteriormente foram resgatadas por Roberta em suas redes sociais. Uma delas aparece em publicação feita em junho de 2022, enquanto outra foi republicada por ela em outubro de 2022.

Em 27 de outubro de 2022, Roberta publicou ainda uma fotografia em que aparece ao lado de Lula, os dois sorrindo. Na legenda, escreveu: “Feliz aniversário para o cara que fará o Brasil feliz de novo !!! Parabéns…”. A publicação ocorreu durante o período eleitoral.

ELOGIO – Em outra postagem, de 29 de agosto de 2023, Roberta voltou a publicar uma fotografia em que aparece com Lula e a advogada Daniela Teixeira. Na legenda, ela elogiou a escolha de Daniela para o STJ. Parte da imagem já havia sido publicada por ela em junho de 2022.

As imagens passaram a circular logo depois de Lula afirmar no Jornal Nacional que não conhecia Roberta nem havia estado com ela, na noite da última quinta-feira. Em seguida à entrevista, a oposição passou a explorar as fotografias do presidente ao lado da empresária, justamente registros que já haviam sido divulgados pela própria Roberta em suas redes sociais.

A repercussão levou a campanha petista a divulgar uma nota para explicar a situação. A equipe de Lula afirmou que “a existência desses registros não significa relação pessoal, profissional ou política”. “O presidente Lula é uma figura pública que, ao longo de sua trajetória e especialmente em campanhas e agendas públicas, é abordado por inúmeras pessoas para registros fotográficos”, pontuou.

CARECA DO INSS – Roberta Luchsinger veio à tona nas investigações sobre o escândalo do INSS por sua atuação junto a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, para tentar viabilizar um contrato de venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.

A investigação da Polícia Federal obteve mensagens do celular de Roberta e, a partir desse material, um dos filhos do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também passou a ser envolvido em uma nova frente de investigação. A PF apura suspeitas de tráfico de influência e investiga se ele pode ter usado a condição de filho do presidente para abrir portas do governo para a amiga e lobista.

Mensagens já mostraram a relação dela com outros integrantes do governo, como o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.