Um desesperado poema de amor, com a sensibilidade de Adalgisa Nery

FCO-2940 - Retrato de Adalgisa Nery | Obras | Portinari

Adalgisa Nery era a grande musa de Portinari

Paulo Peres
Poemas& Canções

Nesse poema, a jornalista, deputada e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, devido a seu casamento com o grande pintor modernista Ismael Nery. Foi um das mulheres mais importantes de sua época, retratada por todos os grandes pintores, especialmente Cândido Portinary, que pintou vários quadros sobre ele.

Nesse desesperado poema, Adalgisa Nery proclama seu amor em todos os sentidos.

EU TE AMO
Adalgisa Nery

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Punição do ministro Marco Buzzi ainda depende do CNJ, da AGU e do Supremo

STJ decide afastar ministro Marco Buzzi após condenação em processo  disciplinar por importunação sexual – Jornal DR1

Marco Buzzi já está afastado e perdeu os penduricalhos

Vicente Limongi Netto

Esclareço a situação do canalha Marco Buzzi, para acabar com todas as dúvidas processuais ainda existentes. O verme foi colocado em disponibilidade com recomendação de perda do cargo de ministro do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade.

Em miúdos:  agora o Conselho Nacional de Justiça tem que referendar a decisão do STJ ou não. Caso positivo, manda para a Advocacia-Geral da União (AGU) processar o tarado no Supremo Tribunal Federal (STF).

SALÁRIO BÁSICO – Por ora, Buzzi fica recebendo o salário básico, sem penduricalhos, que é de aproximadamente R$ 44 mil mensais, correspondendo a 95% do valor pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal (que é de R$ 46.366,19).

Buzzi tem 68 anos de idade. Faltavam ainda 7 anos até a aposentadoria compulsória. Em síntese: Marco Buzzi está no sal. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deve ratificar a decisão e o STF certamente não vai aliviar o patife. Bom frisar que a decisão do STF é exemplar e histórica. Perda do cargo e dos salários.

PROJETO OPORTUNO – A deputada Roseana Sarney (MDB-MA) propôs, em projeto, o encaminhamento do paciente com câncer a estabelecimento privado credenciado, contratado ou conveniado ao SUS quando houver descumprimento dos prazos legais ou preventivamente, quando tiverem transcorridos dois terços do prazo sem agendamento compatível com seu cumprimento.

A iniciativa da deputada, ex-senadora e ex-governadora, deseja conferir maior efetividade aos prazos legais de diagnósticos e tratamento do câncer.

Seminário recente sobre tratamento oncológico, argumenta Roseana, demonstrou a persistência de gargalhos na rede pública, com denúncias de atraso no acesso ao tratamento e dificuldade de acompanhamento dos dados oferecidos. A deputada salienta que esse cenário mostra que a previsão legal dos prazos, embora relevante, precisa ser acompanhado de mecanismos capazes de assegurar sua efetiva observância.

Pressão de Trump fortalece narrativa de Lula, mas efeitos têm prazo de validade

Com ações recorrentes, Trump pode ser um tiro pela culatra

Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense

“O Brasil não é para principiantes.” Atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

CONFRONTO – Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os objetivos nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

REORGANIZAÇÃO DA DIREITA – A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia brasileira. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

RESILIÊNCIA – Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nessa quarta-feira, mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

IMPACTO ECONÔMICO – A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de determinados produtos de exportação. Isso repercute eleitoralmente nos setores e nos estados mais atingidos.

O vice de Flávio Bolsonaro não foi apenas uma escolha. Foi o que restou

A indicação de Gaspar coroou uma sucessão de recusas

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Quando o Partido Liberal confirmou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, a apresentação oficial insistiu na ideia de uma candidatura “puro-sangue”, fiel às origens do bolsonarismo e alheia à tradicional lógica de negociação do presidencialismo de coalizão brasileiro. A sequência de negociações, recusas e acomodações que antecedeu o anúncio, porém, revela uma realidade bastante distinta da narrativa apresentada pela campanha.

Horas antes do anúncio, uma sondagem BTG/Nexus registrava um cenário competitivo entre Flávio Bolsonaro e Lula. A notícia politicamente mais significativa daquele dia, porém, não estava nos números da pesquisa, e sim na forma como a chapa presidencial foi construída.

NEUTRALIDADE – Enquanto as pesquisas mantinham Flávio Bolsonaro competitivo na disputa, PP e Republicanos optavam por permanecer fora dela. Esse contraste entre desempenho eleitoral e isolamento político ajuda a explicar por que a vaga de vice terminou nas mãos de um deputado alagoano que, há poucos meses, dificilmente figurava entre os nomes mais cotados.

O centro dessa história não é Gaspar, mas quem recusou o convite antes dele. A campanha empenhou-se em atrair a senadora Tereza Cristina, do PP, a ponto de Flávio afirmar publicamente que ela já havia aceitado o convite. A federação PP-União Brasil, porém, decidiu manter neutralidade nacional na disputa, inviabilizando formalmente sua entrada na chapa.

A alternativa seguinte foi a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, apoiada pelo próprio governador Tarcísio de Freitas. Também ali, entretanto, a resposta foi negativa: após consultas internas, o Republicanos optou por permanecer neutro. Duas tentativas, dois vetos institucionais. Não faltou disposição individual de alguns dirigentes para negociar; prevaleceu a decisão das estruturas partidárias.

SEM OPÇÃO – Não houve, portanto, opção por uma chapa exclusivamente do PL — houve o esgotamento de todas as alternativas fora dele. O próprio presidente do partido, Valdemar Costa Neto, tentou se antecipar a essa leitura ao dizer que a escolha de Gaspar já estava decidida “há seis meses”, cronologia difícil de sustentar diante da sucessão pública de tentativas encerradas apenas dias antes da convenção.

Fica, contudo, uma pergunta em aberto quando se descreve apenas a recusa: por que disseram não o PP e o Republicanos? Não por hostilidade declarada. Não por ruptura. A resposta está em outro registro, mais estrutural do que pessoal.

O comportamento do Centrão raramente é guiado por afinidades ideológicas. Seus partidos costumam aproximar-se menos dos projetos com os quais possuem maior identificação do que daqueles que consideram mais capazes de produzir poder político. A neutralidade de PP e Republicanos diz menos sobre divergências programáticas do que sobre avaliação de risco.

MARGEM DE MANOBRA – Em vez de se comprometer antecipadamente com um projeto cujo potencial ainda desperta dúvidas entre dirigentes nacionais, preferiram preservar margem de manobra para a fase decisiva da campanha. Antecipar esse movimento reduz a flexibilidade para negociar diante de um cenário político em transformação. Para um Centrão acostumado a ver candidaturas competitivas em agosto perderem fôlego até outubro, esperar continua sendo a opção de menor risco.

Segundo relatos publicados pela imprensa, Arthur Lira participou da construção da solução que levou Gaspar à vice-presidência — um movimento que reorganizou também a disputa ao Senado em Alagoas, onde o próprio Lira concorre a uma vaga. Ainda que interesses locais tenham pesado, o episódio evidencia que a definição da chapa respondeu muito mais a acomodações regionais do que à construção de uma ampla coalizão nacional.

Durante boa parte da última década, aproximar-se de Jair Bolsonaro era quase um movimento automático para partidos interessados em disputar espaço dentro do campo conservador. A negociação girava em torno das condições da aliança, não da própria existência dela. Em 2026, a situação parece diferente da observada nos anos de maior expansão do bolsonarismo: a adesão deixou de ser pressuposto e voltou a ser objeto de cálculo.

ATRATIVIDADE – Os episódios que cercaram a escolha do vice sugerem que o bolsonarismo já não exerce a mesma capacidade de atração sobre parcelas relevantes das lideranças partidárias que demonstrava em eleições anteriores.

Desde a redemocratização, a escolha de um vice raramente foi apenas isso — foi ponte para partidos, regiões, setores econômicos, bancadas no Congresso. Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel, José Alencar, Michel Temer ampliaram, cada um à sua maneira, o espaço político de quem os escolheu antes mesmo da eleição.

No presidencialismo brasileiro, a escolha do vice raramente responde apenas à pergunta “quem governará em caso de ausência do presidente?”. Responde a outra, muito mais imediata: quem está disposto a dividir riscos antes mesmo da eleição? É por isso que as chapas costumam funcionar como radiografia das alianças efetivamente construídas por cada candidatura.

IMPASSE – Em vez de ampliar a base política presidencial, a escolha de Gaspar atendeu à necessidade de equacionar um impasse localizado e preservar equilíbrios regionais. É uma diferença significativa. Em campanhas competitivas, espera-se que a vice-presidência agregue novos apoios nacionais; aqui, ela funcionou sobretudo como instrumento de acomodação política. Seu alcance permaneceu regional, sem ampliar a projeção política da candidatura em âmbito nacional.

Competitividade eleitoral e capacidade de articulação política nem sempre caminham juntas. Um candidato pode reunir milhões de eleitores e, ainda assim, encontrar dificuldade para convencer partidos e lideranças de que vale a pena dividir os riscos de uma eventual vitória. Foi isso que a formação desta chapa tornou visível. PP e Republicanos não romperam com Flávio Bolsonaro. Apenas decidiram não aderir à sua candidatura.

Nenhum presidente eleito desde a Constituição de 1988 governou sustentado apenas pelo partido que o levou ao Planalto. Todos dependeram de maiorias parlamentares construídas por acordos amplos e, muitas vezes, heterogêneos. A capacidade de viabilizá-los antes da eleição não determina, por si só, o sucesso de um mandato. Mas costuma revelar quanto capital político uma candidatura consegue mobilizar antes mesmo de chegar ao poder.

ALIANÇAS – É por isso que a escolha do vice extrapola a composição de uma chapa. Ela funciona como um teste da capacidade de atração política de cada candidatura. Uma campanha pode vencer eleições com votos. No presidencialismo de coalizão brasileiro, porém, só governa com alianças.

O episódio talvez diga menos sobre Alfredo Gaspar do que sobre a própria reorganização da direita. Durante anos, o sobrenome Bolsonaro funcionou como ativo político suficiente para ordenar partidos, atrair aliados e disciplinar lideranças. A forma como a candidatura foi construída sugere que esse mecanismo já não opera com a mesma intensidade.

ARTICULAÇÃO LIMITADA – Mais do que definir um vice, esse processo revelou os limites da articulação política de Flávio Bolsonaro. O problema não está em Alfredo Gaspar. Está no significado político de sua indicação. Durante semanas, a campanha procurou ampliar sua base e terminou apenas administrando a ausência de novos aliados.

A vaga foi preenchida. O problema permaneceu.  Afinal, quando a escolha do vice só ocorre depois de esgotadas todas as alternativas, a notícia deixa de ser quem entrou na chapa. Passa a ser quem decidiu ficar de fora.

O fogo amigo cria um novo problema para Flávio Bolsonaro

Eduardo mostra a falta de coordenação bolsonarista

Pedro do Coutto

Campanhas presidenciais costumam enfrentar ataques dos adversários. O problema torna-se mais delicado quando as dificuldades passam a surgir dentro da própria família política. É o que começa a acontecer com a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Depois dos obstáculos para construir alianças e ampliar o arco de apoio da candidatura, um novo foco de desgaste ganhou força: as declarações de Eduardo Bolsonaro. O deputado, um dos principais expoentes da ala ideológica do bolsonarismo, tem feito críticas que acabam atingindo diretamente a estratégia eleitoral conduzida pela coordenação da campanha.

ATAQUES – Durante manifestação de apoio ao ex-assessor presidencial Filipe Martins, Eduardo voltou a atacar o Supremo Tribunal Federal e reforçou o discurso de confronto institucional que marca sua atuação política. Ao mesmo tempo, integrantes da campanha passaram a ser alvo do chamado “fogo amigo”. Entre eles está o coordenador Roberto Marinho, criticado por setores bolsonaristas que consideram excessivamente moderada a condução da candidatura.

O episódio expõe um conflito antigo dentro do bolsonarismo. De um lado, está o grupo que defende ampliar alianças e dialogar com o eleitorado de centro para reduzir a rejeição de Flávio. De outro, permanece a ala ideológica, representada por Eduardo, que vê qualquer movimento de moderação como uma concessão incompatível com os princípios do movimento.

Essa divergência produz um efeito político imediato. Enquanto Flávio tenta apresentar uma imagem de estabilidade e capacidade de governo, Eduardo recoloca no centro do debate o confronto com o STF e a mobilização da base mais radical. A estratégia fortalece o eleitorado já fidelizado, mas dificulta a conquista dos eleitores moderados, tradicionalmente decisivos em eleições presidenciais.

DESCOORDENAÇÃO – O momento torna a situação ainda mais sensível. A campanha já enfrenta dificuldades para ampliar sua coalizão política e aumentar sua competitividade nacional. Nesse contexto, divergências públicas transmitem a impressão de descoordenação e enfraquecem a autoridade do candidato.

Não se trata de uma ruptura entre os irmãos, mas de um choque de estratégias. Flávio busca ampliar sua base eleitoral; Eduardo prioriza preservar a identidade ideológica do bolsonarismo. As duas agendas nem sempre caminham na mesma direção.

O desafio de Flávio deixa de ser apenas enfrentar seus adversários na disputa presidencial. Também passa por demonstrar que consegue manter unidade dentro do próprio campo político. Em campanhas competitivas, controlar o fogo amigo costuma ser tão importante quanto enfrentar a oposição.

Lula chama Rubio de “latino-americano frustrado” em meio à escalada com Trump

Lula diz que secretário de estado dos EUA ‘odeia o Brasil’

Guilherme Queiroz
O Globo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar nesta sexta-feira o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, após o anúncio de novas tarifas a produtos brasileiros. Em visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), Lula disse que Rubio “odeia o Brasil” e que é um “latino-americano frustrado”.

“Agora ele (Trump) tem um cidadão que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é um bolsonarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta, eu disse para o Trump, ele não gosta do Brasil. Não gosta, ele é um homem latino-americano, ou um latino-americano frustrado. Ele é um descendente cubano de Miami, odeia Cuba, odeia Colômbia, odeia o Brasil”, afirmou.

TELEFONEMA – Lula relembrava a reunião que teve com Donald Trump na Casa Branca quando falou de Marco Rubio. O presidente afirmou que durante o encontro entregou documentos sobre a balança comercial brasileira e depois o governo brasileiro ligou para a Casa Branca “toda semana”. “E aí, fiquei esperando, não teve telefonema, mas veio pela imprensa um tarifaço, aumentou mais 2,5% a tarifa contra nós”, completou.

O secretário de Estado americano usou as redes sociais no mês passado para criticar o presidente Lula, afirmando que as políticas econômicas adotadas por ele “são prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros” e que ele “colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo”.

CANAL DIRETO – Lula sinalizou a aliados que buscará conversar com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, na próxima semana. A declaração foi feita num encontro do petista com parlamentares do PSOL e da Rede no Palácio da Alvorada nesta tarde. O encontro ocorreu para oficializar o apoio da federação à reeleição do presidente.

De acordo com relatos de dois participantes, o petista defendeu o fim da guerra na Ucrânia e criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU para conseguir encerrar o conflito. Nesse momento, Lula afirmou que conversou nos últimos dias com os presidentes da China, Xi JinPing, e da Rússia, Vladimir Putin, sobre o conflito e que, na próxima semana, buscaria falar com Trump também.

Segundo esses relatos, Lula não disse se também aproveitará a conversa para tratar de outros temas na relação do Brasil com Estados Unidos, que vive momento de tensão após nova imposição de taxas do governo Trump aos produtos brasileiros e sanções a autoridades, como a revogação do visto da atual embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti.

Corrupção de Marcola, assessor de Lula, não pode ser tratada como um assunto privado

Ex-assessor era pessoa de responsabilidade pública

Dora Kramer
Folha

Uma pessoa que tem a chave da agenda e do acesso ao gabinete do presidente da República não pode ter transações financeiras que requeiram explicação. Em circunstância alguma estaria autorizada a explicar seus atos como de natureza “estritamente privada”. Tal recurso fica com jeito de tentativa de blindagem a fim de evitar os indispensáveis detalhamentos.

Enquanto esteve na chefia do principal gabinete do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Ribeiro (Marcola) era uma pessoa de responsabilidade pública. Por definição funcional e exigência específica do cargo, tinha o redobrado dever de se distanciar de quaisquer situações que pudessem gerar questionamentos. Não foi o que fez Marco Aurélio ao receber dinheiro de Roberta Luchsinger.

LIMITE DE PRECAUÇÃO – Tenham sido os ditos R$ 249 mil fruto de empréstimo ou de repasses para outros fins, certamente haveria fontes de recursos às quais recorrer que não alguém cujos negócios evoluem mediante o bom acesso a relevantes escaninhos governamentais. Só aí já estaria estabelecido o limite da precaução.

Acrescentando-se o fato de a personagem ser amiga e parceira de um dos filhos do presidente (Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha), ter circulação livre no universo petista e atividades profissionais bastante conhecidas nesse ambiente, a passagem do sinal amarelo para o vermelho deveria ser automática.

“DETALHE” – Mas o então assessor palaciano de alta confiança não achou por bem informar ao chefe o que talvez tenha lhe parecido um detalhe. Ou terá informado e a versão de que o presidente só soube da transação há duas semanas é apenas mais uma justificativa da série “Lula não sabia de nada”?

Seja como for, não se trata, como fez circular o governo, de mero constrangimento nem de um negócio informal entre amigos, como tenta normalizar o próprio Lula. Trata-se de algo bem mais grave, que requer esclarecimento definitivo: a possibilidade de a traficância de influência ter dado expediente na antecâmara da Presidência da República.

Deputado envolvido na crise diplomática é confirmado embaixador dos EUA no Brasil

Peritos alertam para risco de apagão nas investigações com onda de aposentadorias

Inquéritos que tratam de corrupção podem ser impactados

Elijonas Maia
CNN

Atualmente, a PF tem cerca de 1.000 peritos em atividade e cerca de 120 cargos vagos, mas o problema é outro. De acordo com o levantamento da APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais), além do déficit atual, cerca de 30% do efetivo estará na faixa de aposentadoria voluntária até 2028, o que pode ampliar a redução do quadro caso não haja reposição na mesma proporção.

Os peritos são responsáveis por produzir provas científicas em investigações de alta complexidade, como casos de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes financeiros, cibernéticos, ambientais e de atuação de organizações criminosas.

PERÍCIA – Casos recentes de impacto que têm o trabalho de perícia, por exemplo, são os celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nas fraudes do Master. Outras apurações que dependem do trabalho de perícia são relacionadas a garimpos ilegais em terras indígenas e extração ilegal de minerais.

Os dados da APCF apontam, ainda, que apenas 1,6% dos peritos em atividade ingressaram na Polícia Federal nos últimos cinco anos, enquanto 77% do efetivo têm 45 anos ou mais. Além disso, quase metade dos atuais peritos ingressou na instituição em um mesmo intervalo de cinco anos, o que aumenta a possibilidade de uma saída concentrada de profissionais experientes ao longo da próxima década.

A associação de peritos cobra a Direção-Geral da PF pela convocação de todos os aprovados no último concurso da corporação para recompor o efetivo da carreira. Procurada pela CNN sobre o déficit e possível prejuízo às investigações, a PF não respondeu.

O Brasil troca a esperança pelo ressentimento na presente eleição presidencial

TSE fecha cerco à IA e proíbe clonagem de voz de candidatos nas eleições

Após fracassar na busca por uma vice, Flávio culpa Centrão por isolamento eleitoral

Dino aciona a PF e amplia pressão sobre emendas Pix com indícios de prejuízo de R$ 55 milhões

Flávio prepara ofensiva contra Lulinha para marcar estreia na propaganda eleitoral

Escolha de Alfredo Gaspar para vice reforça estratégia

Luísa Marzullo
O Globo

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) avalia usar já na estreia do horário eleitoral gratuito as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tema também vai seguir alimentando uma ofensiva nas redes sociais e nos discursos do candidato, numa estratégia para transformar as suspeitas sob apuração em um flanco permanente de desgaste do petista durante a corrida ao Planalto.

A ideia começou a ser desenhada antes mesmo da definição da chapa, mas ganhou força com a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para a vice. Relator da CPI do INSS, ele deverá assumir papel de destaque na exploração do escândalo dos descontos indevidos de aposentados e das relações de personagens investigados com pessoas próximas ao filho do presidente.

REFERÊNCIAS A LULINHA – Integrantes da campanha afirmam que ainda está em discussão o formato do primeiro programa, mas a possibilidade de estrear na televisão com referências a Lulinha está à mesa. A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começa em 28 de agosto, e Flávio deverá ter aproximadamente 4 minutos e 20 segundos em cada bloco, segundo projeção do O Globo feita com base nas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Até lá, a estratégia deverá ser testada principalmente nas redes. A campanha pretende produzir peças que associem as investigações envolvendo Lulinha ao governo do pai e explorar o contraste com a maneira como familiares de Jair Bolsonaro foram tratados durante os governos anteriores. Expressões como “pai do Lulinha” e questionamentos sobre “onde está” o filho do presidente já vinham sendo discutidos como parte desse repertório.

A ofensiva ganhou impulso após a abertura de investigações da Polícia Federal sobre Fábio Luís. Flávio passou a explorar publicamente o episódio e, em uma de suas lives, afirmou que “falta braço” à PF para investigar Lulinha e questionou qual seria a repercussão caso as suspeitas recaíssem sobre um filho de Bolsonaro.

LINHA DE FRENTE –  A chegada de Gaspar à chapa oferece à campanha um novo caminho para explorar o assunto. Sua atuação na CPI do INSS foi um dos fatores que pesaram na escolha para a vice e é vista pela cúpula do PL como uma credencial para colocá-lo na linha de frente dos ataques relacionados ao caso.

No próprio anúncio da chapa, Flávio deixou claro que pretende fazer do escândalo um dos eixos da campanha. O presidenciável citou as investigações sobre o INSS e buscou aproximá-las do entorno de Lula ao mencionar Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que deixou a campanha petista nesta semana.

ESTRATÉGIA – A estratégia deverá explorar as relações entre o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e pessoas próximas a Lulinha. A campanha pretende usar Gaspar para dar peso às acusações por sua experiência na CPI, enquanto Flávio fará a exploração política do tema contra o presidente.

O movimento faz parte de uma tentativa mais ampla de deslocar para Lula um de desgaste que marcou a pré-campanha de Flávio, com a divulgação das mensagens com o banqueiro Daniel Vorcaro pelo financiamento do filme “Dark Horse”.

DIFERENTES FRENTES –  A intenção é não restringir a exploração do assunto à propaganda eleitoral. A campanha discute uma atuação combinada entre redes sociais, discursos, entrevistas, lives e, posteriormente, rádio e televisão.

A entrada de Duda Lima no comando da comunicação também ocorre no momento em que a equipe começa a estruturar a produção para o período oficial da campanha. Uma das preocupações é transformar assuntos complexos das investigações em peças mais simples, capazes de estabelecer uma associação política direta entre as suspeitas envolvendo Lulinha e o presidente.

Na última quarta-feira, a campanha veiculou um vídeo de Gaspar afirmando que o filho do presidente se envolveu com o Careca do INSS. No dia anterior, chamou o caso das fraudes de “esquemão do Marcolão”. A ideia é seguir apostando em expressões de fácil compreensão e trazer o tema cada vez mais ao centro do debate eleitoral.

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Lula segue favorito, mas o cenário eleitoral já revela uma disputa mais competitiva

Polarização continua a marcar a corrida presidencial

Pedro do Coutto

As novas sondagens eleitorais do instituto Quaest confirmam uma tendência que vem se consolidando ao longo dos últimos meses: Lula da Silva permanece como o principal nome da disputa presidencial de outubro, mas a vantagem que parecia confortável começa a dar sinais de redução. O presidente continua liderando tanto no primeiro quanto no segundo turno, porém a recuperação de Flávio Bolsonaro nas intenções de voto indica que a oposição voltou a encontrar algum espaço político, ainda que insuficiente para alterar, neste momento, a condição de favoritismo do Palácio do Planalto.

Os números merecem uma leitura mais cuidadosa do que aquela sugerida pelas manchetes. A redução da diferença entre os dois candidatos não significa, necessariamente, uma mudança estrutural do eleitorado. Pesquisas de opinião captam o humor de um determinado momento e, em campanhas longas, oscilações dentro da margem de erro costumam ser frequentes. Ainda assim, quando um movimento se repete em levantamentos consecutivos, passa a merecer atenção dos estrategistas de ambos os lados.

OPOSIÇÃO FRAGMENTADA – Lula preserva uma vantagem construída sobre fatores relativamente sólidos. O peso da máquina pública, programas sociais amplamente conhecidos, uma economia que, apesar dos desafios fiscais, mantém indicadores de emprego relativamente favoráveis e uma imagem consolidada entre o eleitorado de menor renda continuam funcionando como importantes pilares de sustentação eleitoral. O presidente também segue sendo beneficiado pela fragmentação do campo oposicionista, que ainda não conseguiu ampliar significativamente sua capacidade de conquistar o eleitor moderado.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, demonstra capacidade de recuperar parte do terreno perdido. Depois de registrar queda na sondagem anterior, voltou a crescer e reduziu a distância para Lula tanto no primeiro quanto no segundo turno. O movimento sugere que parte do eleitorado conservador voltou a se mobilizar, especialmente após a intensificação do discurso crítico ao governo em temas sensíveis para a opinião pública.

FRAUDES DO INSS – Entre esses temas, o escândalo envolvendo fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) permanece como um dos principais instrumentos da oposição. Embora as investigações apontem irregularidades iniciadas antes do atual governo e envolvendo entidades de diferentes períodos administrativos, o episódio oferece à campanha adversária uma narrativa poderosa: a de que o governo falhou em proteger justamente um dos segmentos mais vulneráveis da população. Em política, a percepção pública frequentemente pesa tanto quanto a responsabilidade jurídica.

Outro foco de desgaste está nas controvérsias envolvendo gastos na área da saúde. As críticas dirigidas a compras públicas e decisões administrativas produziram repercussão suficiente para provocar mudanças internas na equipe política ligada ao presidente. O afastamento de integrantes da coordenação da campanha demonstra que o Palácio do Planalto procura reduzir danos antes que o tema adquira maior dimensão eleitoral. Em campanhas presidenciais, mudanças na coordenação raramente são apenas administrativas; costumam representar tentativas de reorganizar a comunicação diante de crises.

DESGASTE POLÍTICO – Há ainda um componente particularmente delicado para Lula: as investigações que envolvem seu filho, Luís Cláudio Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Independentemente do desfecho judicial, episódios que alcançam familiares de presidentes tendem a produzir desgaste político porque alimentam narrativas exploradas pelos adversários. A experiência internacional demonstra que denúncias dessa natureza dificilmente alteram, sozinhas, o resultado de uma eleição, mas podem influenciar a percepção sobre integridade e confiança, especialmente entre eleitores independentes.

Apesar disso, o governo ainda não enfrenta uma crise eleitoral comparável àquelas que, historicamente, alteraram o rumo de disputas presidenciais no Brasil. Lula continua apresentando níveis de intenção de voto que o colocam em posição privilegiada para chegar ao segundo turno como líder da corrida. Mais importante do que a oscilação recente é observar se ela representa o início de uma tendência consistente ou apenas uma acomodação estatística após meses de estabilidade.

Para Flávio Bolsonaro, o desafio permanece muito maior do que reduzir alguns pontos percentuais. Será necessário ultrapassar o núcleo tradicional do eleitorado bolsonarista e convencer parcelas do centro político, dos eleitores moderados e daqueles que votam prioritariamente com base em questões econômicas. Historicamente, candidatos identificados com polos ideológicos muito definidos encontram dificuldades justamente nessa etapa da campanha.

BRANCO, NULO OU INDECISO – Também merece atenção o comportamento do eleitor que ainda declara voto branco, nulo ou indeciso. Em eleições polarizadas, esse grupo costuma diminuir à medida que a campanha avança. Dependendo de como se distribua, pode ampliar ou reduzir diferenças aparentemente pequenas observadas nas pesquisas atuais. É justamente nesse segmento que campanhas investem recursos de comunicação nas últimas semanas antes da votação.

Outro aspecto relevante é que a campanha ainda será fortemente influenciada por acontecimentos externos. A evolução da economia, eventuais decisões judiciais envolvendo figuras políticas, crises internacionais capazes de afetar preços e inflação e até fatos inesperados podem modificar significativamente o ambiente eleitoral. Pesquisas retratam o presente, não antecipam necessariamente o futuro.

POLARIZAÇÃO – Por isso, embora a pesquisa Quaest confirme Lula na liderança, seria precipitado concluir que a eleição esteja definida. Da mesma forma, seria exagerado interpretar a recuperação de Flávio Bolsonaro como o início inevitável de uma virada. O cenário mais provável continua sendo o de uma disputa polarizada, em que o presidente larga em posição de vantagem, mas precisará administrar crises e preservar sua imagem para impedir que a redução da diferença observada nesta rodada se transforme em tendência.

A corrida presidencial entra, assim, numa nova fase. Lula continua sendo o favorito, sustentado por uma base eleitoral resiliente e pela força institucional do governo. Flávio Bolsonaro demonstra capacidade de reação, mas ainda precisa transformar recuperação estatística em expansão efetiva de seu eleitorado. As próximas semanas serão decisivas para mostrar se a vantagem do presidente representa uma liderança consolidada ou apenas um retrato momentâneo de uma eleição que ainda promete mudanças até o voto final.

Lula isola adversários e chega à disputa como único candidato com aliança partidária