Paulo Peres
Poemas & Canções
A escritora, jornalista e poeta Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, expõe as consequências que “A Lucidez Perigosa” pode acarretar, contemplando o vazio.
A LUCIDEZ PERIGOSA
Clarice Lispector
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise,
estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto, eu consisto,
amém.
Belo poema da Clarice Lispector, obrigado pela republicação Paulo Peres.
Quem sou eu? (riddle)
Sou uma estrada sinuosa
Por mim passam todas as gentes:
Homens simples, mulheres vaidosas
Ricos, pobres, culpados, inocentes
Levo a vida a todos os nortes
Por vales e montes vagueio
Levo à fama, à miséria, à morte
Sou idealizado em devaneios
Mudo com o adverso e o querer
Mas à realidade me confino
Sou o que você é ou venha a ser
Melhor dizer: sou o destino!