Defesa de Vorcaro entrega proposta de delação e abre nova frente de risco político

Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)

Mariana Muniz
Eduardo Gonçalves
O Globo

A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, entregou na terça-feira à Procuradoria-Geral da República e à Polícia Federal uma proposta de delação premiada. O conteúdo agora será analisado pelos investigadores, que podem fechar um acordo com o executivo, pedir acréscimos ou rejeitar a colaboração.

A proposta consiste em uma sequência de capítulos do que Vorcaro pretende contar às autoridades em troca de benefícios, como a redução da pena ou mudança de regime prisional, em caso de condenação. Cada anexo se refere a um tema diferente em que os advogados apontam outros participantes dos supostos crimes e os meios para se confirmar os fatos narrados. Até o momento, não houve a entrega de nenhum documento ou depoimento para corroborar o pedido, o que deve ocorrer se a PGR e a PF concordarem em avançar com o acordo.

AVAL DE ANDRÉ MENDONÇA – A conclusão da proposta de delação foi revelada pela coluna do Lauro Jardim e ocorre após um mês e meio de encontros quase diários entre Vorcaro e seus advogados na Superintendência da PF no Distrito Federal, onde o ex-banqueiro está preso desde março. Antes, ele chegou a ficar encarcerado na penitenciária federal de segurança máxima de Brasília. Caso seja aceito pela PGR e pela PF, o acordo será submetido ao aval do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, relator do caso Master na Corte.

Investigadores esperam que Vorcaro detalhe o envolvimento de políticos e integrantes do Poder Judiciário no suposto esquema de fraudes do Master. As autoridades já avisaram que só aceitarão o acordo se o banqueiro entregar informações inéditas, que vão além do conteúdo dos seus celulares, que estão em posse da PGR e PF desde o fim do ano passado.

Um dos pontos de maior interesse dos investigadores é o mapeamento das movimentações financeiras de Vorcaro no exterior. Há uma percepção entre advogados que acompanham o caso de que a defesa de Vorcaro acelerou a entrega dos anexos em razão do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, preso na última fase da Operação Compliance Zero, também ter sinalizado a intenção de fechar uma delação.

PRÓXIMOS PASSOS –  A colaboração premiada consiste em um acordo no qual o investigado admite crimes e aponta suspeitos e meios de prova em troca de benefícios penais, que são negociados entre a defesa, a PGR e a PF. Esse instrumento pode prever redução de pena, regime diferenciado, eventual prisão domiciliar ou até perdão judicial, além de obrigações como a devolução de valores. Se as tratativas avançarem, Vorcaro passará à fase de depoimentos formais.

A lei exige que a colaboração produza resultados concretos, o que inclui a identificação de coautores e partícipes, a compreensão da divisão de tarefas dentro do grupo, o rastreamento de recursos e a eventual recuperação dos ativos desviados.

Cabe à Polícia Federal e ao Ministério Público verificar a veracidade das informações apresentadas. A palavra do colaborador, isoladamente, não basta para sustentar uma acusação — é necessário que ela seja confirmada por outras provas.

HISTÓRICO –  Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando tentava embarcar em um jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes. A PF entendeu que se tratava de uma tentativa de fuga. O mandado foi cumprido no âmbito da Operação Compliance Zero, que naquela época investigava um suposto esquema de fraudes do Master estimadas em R$ 12 bilhões.

Um dia depois da prisão do seu dono, o Banco Master foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em razão de uma crise de liquidez e insolvência financeira. Essa decisão deflagrou a maior operação de resgate da história do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) – mais de R$ 50 bilhões.

Vorcaro viria a ser liberado da prisão em novembro de 2025. No mês seguinte, o ministro do STF Dias Toffoli acatou a um pedido da defesa de Vorcaro e remeteu o processo ao Supremo sob a sua relatoria, além de decretar sigilo máximo sob os autos.

MENÇOES NO CELULAR – Em fevereiro de 2026, Toffoli deixou o caso após a PF encontrar menções a ele no celular de Vorcaro. Ele foi substituído pelo ministro André Mendonça, que em março decidiu prender novamente Vorcaro.

Para justificar a nova prisão do banqueiro, Mendonça atendeu a um pedido da Polícia Federal que o apontava como líder de uma organização criminosa voltada a vigiar e intimidar pessoas que contrariavam os interesses do Master. A defesa de Vorcaro sempre negou todas as irregularidades, mas começou a negociar uma delação premiada a partir daquele mês.

2 thoughts on “Defesa de Vorcaro entrega proposta de delação e abre nova frente de risco político

  1. Sr. Newton

    O Vira-latinha Don Narcoleone Nove Dita, está a caminho para o encontro com o Piratão da Matrix…

    Será que o Vira-Lata vai vestido com a roupinha da Nike e o IPHONE 17 bolso..??

    Ou, vai com a roupinha do Capitão América.?

    aquele abraço

  2. O temor da cúpula do BRB após reunião convocada às pressas pelo Banco Central

    Reunião secreta no feriado

    Numa reunião secreta realizada no feriado de 1º de maio, diretores e técnicos do Banco Central (BC) pressionaram dirigentes do BRB por uma alternativa rápida à crise de liquidez, e chegaram a sugerir que alguma medida poderia ser tomada ainda no final de semana caso a situação do banco estatal de Brasília se revelasse insolúvel.

    Durante o encontro, que não foi registrado na agenda oficial de nenhum dos participantes, falou-se em realizar uma intervenção, mas cogitou-se também fatiar algumas áreas do banco e repassar a concorrentes, no que foi interpretado pelos executivos do BRB como uma pressão pela privatização da instituição.

    Participaram das discussões pelo BC os diretores Ailton de Aquino (Fiscalização) e Gilneu Vivan (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução) e três técnicos do órgão regulador. Pelo BRB estavam o presidente, Nelson de Souza, os diretores Antônio José Barreto de Araújo Júnior (Finanças e Controladoria) e Ana Paula Teixeira (Controles e Riscos) e o secretário de Economia do Distrito Federal, Valdivino José de Oliveira.

    Na conversa que durou duas horas, os diretores do BC se disseram preocupados com a crise de liquidez e pediram aos dirigentes do BRB que fossem transparentes a respeito da situação do banco, mencionando a necessidade de encontrar uma “solução”.

    No final de março, quando o BRB deixou de publicar seu balanço em razão de um rombo que, se exposto, poderia levar à intervenção ou à liquidação imediata, o BC deu até o final de maio para a instituição encontrar uma saída para a crise. Desde então, o banco estatal de Brasília vem pagando uma multa diária de R$ 30 mil por dia, enquanto tenta captar recursos para pagar seus compromissos, resolvendo o problema de liquidez, e cobrir o rombo no patrimônio, avaliado em R$ 8,8 bilhões.
    (…)

    Caso nenhuma das alternativas em negociação pelos executivos do BRB vá adiante, a privatização é uma possibilidade real.

    O fato de o BC já estar sobrecarregado com a liquidação do Master também não ajuda.

    A governadora Celina Leão tem se colocado contra uma eventual privatização do BRB.

    O BRB beirou a insolvência nos últimos meses.

    Ao final da reunião com o BC, o BRB conseguiu segurar o prazo do fim de maio para entregar uma solução. Se vai conseguir, é um outro problema.

    Fonte: O Globo, Política, Opinião, 05/05/2026 05h00 Por Malu Gaspar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *