Ensino público não melhora porque é boicotado pela elite que domina o país

A QUALIDADE DO ENSINO PÚBLICO BRASILEIROFernando Schüler
Estadão

“Porque funciona”, me responde o professor, em um tom pausado e reflexivo. Ele trabalha no Liceu Sagrado Coração de Jesus, no centro de São Paulo, muito próximo do que um dia foi a cracolândia, de triste memória. A pergunta que lhe fiz era simples: se aquela escola funciona bem, entre as melhores da rede municipal de São Paulo, por que há tanta gente contra, com processos de partidos políticos, de um órgão de Estado, dos sindicatos?

“Esta escola mostra algo que ninguém quer enxergar”, completou o professor, “como um modelo simples de parceria do governo com uma escola confessional, católica, particular, pode funcionar muito bem. O que é inaceitável para muita gente”.

ESCOLA PÚBLICA – Participei deste diálogo em uma tarde quente de segunda-feira, no centro de São Paulo, numa visita ao Liceu. A escola ia fechar. O centro de São Paulo havia ficado pouco atrativo para uma grande escola privada.

A Prefeitura entrou em campo e fez o óbvio: um contrato para que pouco mais de 500 alunos da rede pública pudessem estudar ali. A partir daí, tudo mudou.

O Liceu, uma escola católica com 140 anos, que formou uma parte significativa da elite paulistana, no passado, agora se dedica a alunos da rede pública. É uma escola pública não estatal. Não há um funcionário público na escola. Mas ela é gratuita e 100% voltada aos alunos da rede, oriundos de famílias de menor renda.

GRANDE CHANCE – São famílias que não teriam como pagar uma escola privada. Mas agora têm esta chance. Muitos mais poderiam ter a mesma oportunidade. Só não têm por que uma elite algo bizarra joga contra. Com toda força. E é sobre isto que precisamos falar.

Qual é o segredo da escola? Nenhum. Apenas gestão. As aulas começam e terminam no horário, não há aulas faltantes, mas há disciplina, segurança e um sentido de ordem. Isso e a tradição salesiana. Basicamente o que existe em escolas confessionais, sejam católicas ou protestantes.

De tudo, o que mais me impressiona é a inexistência do “absenteísmo”. O TCE-SP mostrou que até 11% das aulas da rede estadual foram afetadas pelo absenteísmo, com mais de três aulas por semana prejudicadas.

MENOS FALTAS

– Outro estudo mostrou um padrão médio de 30 faltas a cada 200 dias letivos no ano. Não é um padrão muito diferente do que se observa Brasil afora, nas redes estatais de ensino. É uma ferida aberta que nenhum pai ou mãe tolerariam para seus filhos, em uma escola privada. Mas que fazemos que não existe, quando se trata dos filhos dos mais pobres, em sua maioria alunos negros, nas redes estatais.

Pois digo que é simplesmente impossível obter qualidade em um sistema com esta ferida aberta. No Liceu, os professores não faltam, ou faltam muito pouco, em função do sistema de incentivos. Todos são celetistas, demissíveis a qualquer momento, e alguma ausência eventual, por razões bem-justificadas, é automaticamente coberta por um professor substituto.

DIREITO DE TODOS – São coisas simples que acontecem em qualquer escola particular. E que deveriam funcionar como um direito para todos, independentemente de renda ou cor da pele, se o país de fato se levasse a sério.

Na prática, o que precisamos é fazer com que os incentivos trabalhem para todos, no Brasil, e não apenas para quem pode pagar, no mercado de educação.

O Liceu Coração de Jesus é um dos nossos poucos exemplos similares ao que os americanos chamam de “charter schools”. Na prática, gestão particular com foco público, atendendo aos alunos de menor renda. Dizendo de outra maneira: direitos similares, para quem tem mais ou menos renda.

APROXIMAÇÃO – Não é um acesso igual, pois há escolas de elite. Há muita variação na qualidade da oferta educacional, seja na rede pública ou privada. Mas é uma aproximação simples e objetiva, que está a nosso alcance fazer.

Nos Estados Unidos, o pesquisador David Griffith comparou as faltas de professores nas redes públicas tradicionais e nas charter schools e obteve a mesma lição: nas redes tradicionais, 28,3% dos professores faltam mais de dez dias letivos no ano; no modelo charter, 10,3%.

Em todas as 10 maiores cidades americanas e em 34 dos 35 estados pesquisados, professores das redes públicas faltam mais do que os professores das escolas charter. E as razões são as de sempre: os “direitos’ barganhados pelos sindicatos, a vulnerabilidade política dos governos, a estabilidade no emprego do funcionalismo, a desmotivação com a estrutura pública tradicional.

DESIGUALDADE – Por estes tempos, li mais uma dessas tantas matérias na imprensa dando conta que nossa educação pública produz “desigualdades em série”. A matéria, curiosamente, colocava a “culpa” por este estado de coisas nos próprios alunos. Afinal, eles seriam pobres, seus pais não incentivariam a leitura ou o estudo em casa e coisas assim.

Nenhuma palavra sobre o abismo brasileiro entre os 15% ou 20% de alunos de famílias que podem pagar uma escola privada de média ou boa qualidade, e os cerca de 80% que estão presos a um sistema estatal que, na média, entrega apenas 5% de aprendizado adequado em matemática, ao final do ensino médio.

Um abismo que de fato separa os que tem menos e mais renda e que é marcado pela cor da pele. Não porque os alunos não podem aprender, mas porque a escola não ensina. Nossa desgraça, lá no fundo, é que quem decide sobre os rumos de nossa educação pública sabe perfeitamente disso. Sabe, mas está protegido pelo mercado.

ELITE PROTEGIDA – A elite sabe que pode comprar a escola boa para os seus. E pode combinar isso com a retórica eterna de um sistema estatal que não funciona, mas cuja conta é paga pelos filhos dos outros.

Digo que nossa elite que comanda a educação pública deveria ter vergonha. Ela tem à disposição a chance de melhorar de verdade a vida dos alunos mais pobres, mas não se move. Insiste na mesma retórica de sempre, enquanto o Brasil segue patinando em matemática no PISA, da OCDE, com resultados baixos e praticamente estagnados.

 

É por isso que a lição que vem do velho centro de São Paulo tem um significado. Muita gente quer fazer com que aquela experiência simplesmente desapareça. Para que ninguém imagine que exista uma alternativa ao status quo da educação pública brasileira. Mas ela existe. Somos apenas nós, neste mundo desigual e estranhamente confortável, que não prestamos a devida atenção.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Excelente artigo de Fernando Schurer, enviado pelo comentarista Duarte Bertolini, sempre atento. O texto exibe a derrocada do ensino público. Neste ponto, o editor da Tribuna é radical. Educação e saúde precisam ser obrigações do Estado. Enquanto houver esse abismo entre os que podem pagar pela educação e pela saúde e os que são obrigados a recorrer aos serviços públicos, o Brasil jamais poderá ser considerado uma democracia. Simples assim. (C.N.)

15 thoughts on “Ensino público não melhora porque é boicotado pela elite que domina o país

  1. nossa educação tem sido, há vinte anos – no meu primeiro mestrado, há mais décadas que isto, dominavam a Academia o tucanato.

    Neste processo de hegemonia política do Aparato Petista a primeira dominação, para a tornar seu aparelho de dominação ideológica foi a academia, quem não servia pra delinquir na vida real o foi fazer na via metafísica.

    Desta forma a Pedagogia do Oprimido tornou-se a Pedagogia do Opressor.

    Resultado.

    No PISA 2022, o Brasil ficou em 64º lugar entre 81 países, permanecendo muito abaixo da média da OCDE.

    Está entre os 20 piores do mundo em matemática e ciências, sem avanços significativos desde 2009.

    • Nossa Educação tem sido, há vinte anos – no meu primeiro mestrado, há mais décadas que isto, dominavam a Academia o tucanato, – hegemonizada pelos gênios imbecilizados petistas, mulas em cabeça, no dizer de Darcy Ribeiro, a transformando numa seita apartada totalmente do pensamento científico e crítico.

  2. É impressionante o volume de trabalhos científicos em Educação e Pedagogia, que só teriam alguma funcionalidade se impressos em papel higiênico.

    E, ademais, a fundamentalidade da Educação só se expressa se respondermos a pergunta: Educação pra quê.

    Num país sem projeto de longo prazo, pode-se colocar todo mundo no ensino superior que não valerá pra nada.

    Ainda mais nestas linhas de produção fordistas de gênios imbecilizados que se tornou a Academia.

  3. Será que é culpa da elite. Acho que não, a primeira coisa que qualquer político faz quando quer fazer cortes em geral o faz em três areas: segurança, saúde e educação.

  4. A profunda desigualdade estrutural transforma a educação no Brasil em um mecanismo de exclusão, em vez de inclusão social

    Alunos da educação básica que têm condições financeiras de estudar em escolas particulares, são os que têm maiores chances de entrar em universidades públicas (gratuitas).

    E o contrário acontece com os alunos que cursam a educação básica em escolas públicas precarizadas, os quais acabam frequentando (quando frequentam) faculdades particulares (pagas).

    Quem não pode tem que pagar, e quem pode não precisa pagar. A educação no país é cruel Senhor CN.

    • A profunda desigualdade estrutural transforma a educação no Brasil em um mecanismo de exclusão, em vez de inclusão social
      Alunos da educação básica que têm condições financeiras de estudar em escolas particulares, são os que têm maiores chances de entrar em universidades públicas (superiores e gratuitas).
      E o contrário acontece com aqueles que cursam a educação básica em escolas públicas precarizadas, os quais acabam frequentando (quando frequentam) faculdades particulares (pagas e muitas com cursos à distância).
      Dessa forma, para cursar o Ensino Superior os pobres têm que pagar, e ricos não precisam pagar.

      A educação no país é cruel Senhor CN e Senhores comentaristas.

  5. Um sujeito como o Lula, que coloca o futuro do país no saco, pra censurar o pensamento crítico onde tem se expressado melhor, nas rede sociais e buscando impedir o avanço da forças produtivas eu impulsionam a Quarta Revolução Tecnológica, quer que tipo de Educação?

    Justamente a que tem oferecido, a que forma analfabetos funcionais.

    https://g1.globo.com/educacao/noticia/2025/05/05/3-a-cada-10-brasileiros-sao-analfabetos-funcionais-indica-pesquisa.ghtml

    Prum vagabundo, pilantra e verme como ele, isto é o perfeito paraíso eleitoral.

    • Apesar do processo de imbecilização promovido pelo aparelho de dominação ideológica educacional, são, justamente as redes sociais que têm desenvolvido o conhecer da realidade concreta e do pensamento crítico da juventude da Geração Z, que querem distância do jacu de gaiola reaça.

      https://forbes.com.br/geral/2026/06/por-que-alguns-jovens-eleitores-estao-abandonando-lula/

      A vagabundagem tem falhado tanto no “nós derrotamos o bolsonarismo”, quanto no processo de dominação ideológica da juventude pelo seu principal aparelho de dominação ideológica, a Educação.

      Os jovens podem, pela inteligência artificial e redes sociais, perceberem o quanto são meros ideólogos seus professores imbecilizados pelo culto da personalidade do jacu de gaiola neandertal.

  6. A profunda desigualdade estrutural transforma a educação no Brasil em um mecanismo de exclusão, em vez de inclusão social.

    Alunos da educação básica com melhores condições financeiras, que frequentam escolas particulares, têm maiores chances de ingressar nas universidades públicas, que são gratuitas e de excelência.

    O oposto ocorre com os estudantes da rede pública, que dispõem de infraestrutura precarizada e, quando conseguem chegar ao Ensino Superior, acabam recorrendo a instituições privadas, muitas vezes focadas em ensino a distância.

    Dessa forma, a lógica educacional do país é cruel: perpetua-se a distorção de que o ensino superior deve ser gratuito para a elite, enquanto as camadas de baixa renda são obrigadas a pagar por ele, Senhor CN e Senhores Comentaristas.

    • “Perpetua-se a distorção de que o ensino superior deve ser gratuito para a elite, enquanto as camadas de baixa renda são obrigadas a pagar por ele.”

  7. Não é apenas a educação que é sabotada, boicotada e inviabilizada pelas elites do país, ou pelo mercenarismo, ou pela loucura por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limite$, mas tb a saúde pública, infeliz e desgraçadamente, ela$ estão infiltradas em tudo, até no judiciário, direcionam tudo, inclusive o SUS. Daí a necessidade da meritocracia para superar a mediocridade nacional, principalmente na política.

  8. Estudei em escolas públicas no tempo que ingressar no ginasial, hoje ensino médio, era bem complicado, pois faltavam vagas. E a maioria dos alunos que ingressava era oriunda de classes com poder aquisitivo maior. Exatamente como acontece hoje nas universidades do Brasil.

    Com o tempo, as escolas públicas dos primeiros anos escolares até o ensino médio foram perdendo qualidade e se deteriorando. Os professores passando a receber cada vez menos. As famílias com mais grana passaram a enviar seus filhos para escolas particulares.

    E, infelizmente, a maioria das famílias com menos renda, diferentemente de culturas como as orientais, não vêem a educação como valor. Talvez seja isso o nosso maior problema, porque essa percepção deixa confortável quem deveria investir mais em educação.

    As faculdades públicas tem boa reputação, são bastante disputadas, mas sofrem críticas continuamente, quase sempre com argumentos simplistas e preconceituosos. Claro que os formandos por essas faculdades deveriam dar maiores contrapartidas à população elétrica do ensino gratuito que tiveram. Mas muitas vezes, formados, emigram para outros países, com saldo negativo em relação à educação recebida à custa dos impostos que todos pagamos.

  9. “E, infelizmente, a maioria das famílias com menos renda, diferentemente de culturas como as orientais, não vêem a educação como valor. Talvez seja isso o nosso maior problema, porque essa percepção deixa confortável quem deveria investir mais em educação.”

    Caro comentarista, a maioria das famílias com menor renda, são maciçamente incentivadas a glamorizar o funk, o samba e o futebol, como meios de ascensão social, diferentemente das culturas orientais, as quais priorizam o estudo seja o elementar ou de graduação.

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