A poesia realista de Ledo Ivo denunciava as injustiças sociais que existem no país

Lêdo IvoPaulo Peres
Poemas & Canções

OS POBRES DA ESTAÇÃO RODOVIÁRIA
Lêdo Ivo

Os pobres viajam. Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela do fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.

Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus, eles temem perder a própria viagem, escondida na névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem o ouvido e o tédio dos psicanalistas, em consultórios assépticos como o algodão que tapa o nariz dos mortos.

Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores nos incomodam mesmo à distância.
E não têm a noção das conveniências, 
não sabem portar-se em público.

O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma, eles vão e vêm, saltam
e seguram malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidas nos guichês,
sussurram palavras misteriosas
e contemplam as capas das revistas
com o ar espantado de quem não sabe o
caminho do salão da vida.

Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê
que doem na vista delicada do viajante
obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?

Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante).
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

One thought on “A poesia realista de Ledo Ivo denunciava as injustiças sociais que existem no país

  1. Adeus Terra Amada
    ================

    Vou embora daqui agora
    Para onde ainda não sei
    A procura, sem demora
    De terra em que haja lei

    Onde todos tenham um leito
    Em que possam em paz dormir
    Onde se garanta o tal direito
    Sacrossanto de ir e vir

    Vou à procura de outros ares
    Onde esqueça de ter saudades
    Dessa terra em que nasci

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *