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Senador buscava apoio da sigla
Victoria Azevedo
O Globo
O presidente nacional do PP, Ciro Nogueira (PI), já avisou Flávio Bolsonaro (PL-RJ) que o partido adotará posição de neutralidade na disputa pela Presidência nas eleições deste ano, frustrando as expectativas do senador, que buscava apoio da federação da sigla com o União Brasil. A informação foi confirmada à reportagem por dois aliados do dirigente partidário.
Com a decisão do PP, o União Brasil também deverá adotar neutralidade, já que as duas siglas formalizaram uma federação partidária. Na noite de terça-feira, dirigentes do PP se reuniram com Ciro em Brasília para discutir o cenário e ali ficou acertado que a sigla adotaria neutralidade na disputa nacional. Dessa forma, os diretórios estaduais ficam livres para escolher quais candidatos apoiarão nas eleições. Há estados em que o PP deve caminhar com Flávio, como São Paulo. E em outros, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), caso de Paraíba.
ÚLTIMA TENTATIVA – Três integrantes da cúpula do PP dizem que, agora, resta ao União Brasil comunicar também que estará neutro. O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, já havia indicado a interlocutores nas últimas semanas que esse deveria ser o cenário adotado. Como O Globo mostrou, a campanha de Flávio tratava a conversa com Ciro Nogueira como uma última tentativa para reverter a tendência de neutralidade da federação. Também foi oferecida a vice para a senadora Tereza Cristina (PP-MS), mas ela declinou afirmando que quer disputar a presidência do Senado em 2027.
Interlocutores de Ciro afirmam, sob reserva, que o senador, antes entusiasta da aliança com Flávio Bolsonaro, se irritou com a postura do pré-candidato de se afastar dele após o presidente do PP ser alvo de operação da Polícia Federal que investiga suposta atuação do parlamentar para beneficiar Daniel Vorcaro, do Banco Master. Ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, Ciro tem negado irregularidades e se queixou a aliados da forma como Flávio tratou o episódio da operação da PF, adotando distanciamento político.
COLIGAÇÃO – Com a decisão do PP em se manter neutro no plano nacional, o PL deve centrar esforços numa aproximação com o Republicanos para conseguir apoio do partido presidido por Marcos Pereira. A sigla indica adotar neutralidade, mas também avalia se entra ou não na coligação de Flávio. Aliados de Flávio defendem o nome de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, como sua vice.
As condições para um acordo nacional passariam pelo Republicanos indicar a vice na chapa do PL e pelo apoio do partido de Flávio a candidatos do Republicanos em alguns estados. Mesmo assim, Pereira tem indicado a interlocutores pessimismo com aliança e aponta dificuldades no apoio do PL a candidatos do Republicanos a governadores.
Flávio errou, caiu, acabou, mas continua na cola de Lula
Pesquisa eleitoral a essa altura vale menos ainda que promessa de candidato na campanha presidencial. Dito isso, não vai se falar aqui sobre pesquisas.
Algumas delas deram Lula finalmente com algum respiro, recuperando-se à frente de Flávio.
Esse é o ponto: não é sobre Flávio, nem sobre taxas, mas sobre Lula, um personagem histórico que pleiteia um inédito (dentre tantos ineditismos que já conquistou) 4º mandato pelo voto popular.
Os analistas, colunistas e comentaristas já vaticinaram os múltiplos fins de Flávio (Vorcaro/“Dark Horse”, Michelle/vídeo, Alexandre de Moraes/Carta de Jair, Trump/tarifas), mas esse funeral na prática não ocorreu. Ainda.
De um lado, só maus agouros, de outro todas as proteções possíveis. Ainda assim, nenhum abalo sísmico por ora.
E isso tem muito mais a ver com Lula do que com Flávio. Para todos os efeitos práticos, Flávio continua na cola de Lula. O que importa para efeito de análise é observar Lula e o que pode estar ocorrendo. Até agora.
As profecias midiáticas tenebrosas não vêm se confirmando sobre o candidato da oposição e tampouco os coelhos da cartola do governismo vêm produzindo mágicas imediatas para a plateia.
A saraivada de acusações, prisões, denúncias e o festival de criminalização da política com a coincidência notável de atingir mais um lado do que outro nesta quadra política, nem alteraram profundamente os sismógrafos do humor popular.
E aí resta a pergunta: e Lula, sim, ele, o cara? Lula tem a faixa nos ombros.
Lula é a lenda. Lula é uma era que se desafia mais do que é desafiado por Flávio, a rigor. Desafia-se a um tetramandato depois de realizar um governo que não precisa ser comparado a nenhum outro para ser julgado no máximo regular –basta comparar-se a si mesmo.
Flávio é o termômetro de Lula. Se Lula não consegue cristalizar uma dianteira folgada com tudo que se fala contra Flávio, não é sobre a força de Flávio. Mas sobre os limites de Lula.
Lula disputa com ele mesmo, antes de disputar com Flávio. Disputa com o que foi e com o que pode não vir a ser, baseado no que não foi no atual governo.
Apesar de todo o apedrejamento que sofre (Flávio) por ser “genocida, frouxo, covarde, mentiroso, maluco, aloprado, ignorante, imbecil, traidor da Pátria, golpista e fujão” – termos que o “pacifista” Lula usou contra o “belicoso” pai Jair ao longo dos últimos anos e que, por herança, a militância e uma parte da crítica lhe devota.
Flávio e sua eventual ou suposta resiliência significam mais do que o avanço do extremismo ou de satanismos ideológicos. São um sinal evidente da fadiga de material do fenômeno histórico e sociológico chamado “lulismo”. Flávio é o reflexo de um lulismo fadigado.
A eleição vai acabar. O Brasil não. Vai haver um dia seguinte. Para ser mais exato, 1.464 dias de mandato presidencial.
Os que menosprezam tanto Flávio deviam olhar a questão pelo avesso: se até Flávio representa um risco para Lula, isso engrandece Flávio ou apequena Lula? Não o Lula histórico, mas o atual Lula?
Na lógica da polarização, uma das duas hipóteses necessariamente teria de estar correta. Ou os 2 são grandes. Ou pequenos neste momento.
Lula joga com as brancas. É o incumbente. As engrenagens da reeleição sempre favoreceram o postulante que já ocupa o cargo. A reeleição é na verdade um plebiscito no meio de um mandato de 8 anos: o atual deve continuar?
É aí que a situação de Lula se complica e, ao mesmo tempo, reside sua chance. Complica-se porque pela lógica estrita da reeleição, seu Lula 3 não foi e não é arrebatador. O Brasil não está eufórico com o Lula de 2026.
Mas sua chance reside no fato de que acumulou, mais do que ninguém, justamente por ser o que lhe prejudica mais –ser o epítome da política– todos os atributos de um gigante lutando sua última batalha, capaz de utilizar todos os meios possíveis e de contar com uma retaguarda de apoio na mídia e no chamado sistema, como só ele seria capaz de se beneficiar.
A Presidência é pesada e se ao mesmo tempo imobiliza, tem a inércia de seu peso que desloca seu ocupante algumas centenas de metros a mais que o concorrente por pura força da função.
Numa dessas, Lula ganha numa disputa apertada, ainda mais com a mídia e muitos setores das instituições saindo da arquibancada e entrando em campo para “salvar” o Brasil da “extrema” direita, de “Trump”, de “Elon Musk”, dos “algoritmos” e agora também das “bets”.
E quanto ao roubo de celulares, a miséria, a fome, a educação e a saúde? Calma, um inimigo de cada vez…
Resumo: praguejam tanto contra Flávio e ele sobrevive. Sua sobrevivência é só a face de que há uma ferida profunda não no mito de Lula como personagem histórico, mas como gladiador político na arena eleitoral.
O Flávio que sobrevive a todos os oráculos tenebrosos é o espelho de um Lula que está no limite entre o possível e o impossível.
Fonte: Poder360, Política, Opinião, 23.jul.2026 – 5h58 Por Mario Rosa