Para ganhar a eleição, basta Flávio não
responder os ataques absurdos de Lula
No desespero, o presidente Lula da Silva decidiu investir todas as fichas na tentativa de convencer o eleitorado de que Flávio Bolsonaro representa um ameaça maior à democracia do que o próprio pai, que chegou a planejar com as Forças Armadas aquele golpe militar que não aconteceu, porque resolveram consultar o Estado-Maior do Exército, e os generais de quatro estrelas disseram não, criando uma conspiração tipo Viúva Porcina, “aquela que foi sem ter sido”, no dizer irônico do escritor Dias Gomes.
A imprensa amestrada atribui essa decisão à cúpula do PT e à coordenação de campanha, mas isso não existe na realidade. No PT, desde sua criação no colégio Sion, em São Paulo, jamais houve direção partidária ou articulação de campanha, nem mesmo quando Dilma Rousseff e Fernando Haddad foram escolhidos por ele para disputar a eleição.
LULA REINA – No PT, quem decide tudo é o próprio Lula, que após o primeiro turno afastou da campanha o presidente do partido, Edinho Silva, e outros dirigentes, e estamos conversados.
Talvez, no futuro próximo, pode ser que até passe a existir uma cúpula partidária atuante, com uma coordenação de campanha. Porém, enquanto Lula continuar na ativa, isso certamente não acontecerá. Assim, a sobrevivência do PT vem a ser altamente improvável
A maior base do PT hoje é a Bahia, onde o partido é controlado por dois políticos corruptíssimos – Jaques Wagner e Rui Costa, que conseguiram reeleger o governado Jerônimo Rodrigues. São 20 anos de reinado petista, com resultado constrangedor. É o estado mais violento do país, entrou em retrocesso socioeconômico e a população está crescendo em ritmo muito lento, enquanto muitos municípios específicos (e a capital, Salvador) perdem moradores.
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P.S. 1 – Lula é um fenômeno. Foi descoberto pelo delegado federal federal Romeu Tuma, que sugeriu ao general Golbery do Coutto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informações, a contratação dele como agente infiltrado no sindicalismo, para destruir a eleição de Leonel Brizola.
Por que o autoritarismo intrínseco do bolsonarismo não assusta os eleitores
À parte os que desprezam a democracia, há os brasileiros que dão de barato que sempre vai existir a possibilidade de alternância de poder
Em campanha, Flavio Bolsonaro defende redução da maioridade penal. Em ato de campanha no Rio de Janeiro, candidato à presidência disse que, se eleito, vai reduzir para 16 anos a idade mínima para tirar carteira de motorista.
Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, sempre passou a impressão de ser o mais ponderado dos políticos de sua família. A barra não é muito alta, considerando que a comparação é feita com figuras como seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e os irmãos Eduardo, ex-deputado federal que defendeu que, para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), bastava um soldado e um cabo, e Carlos, eleito este ano para o Senado por Santa Catarina, que já escreveu que o Brasil não conseguiria as transformações de que precisa por vias democráticas. Flávio é o que se pode definir como um bolsonarista que sabe comer de garfo e faca: apesar da postura aparentemente civilizada e da fala mais mansa, ele representa um movimento político radical e intrinsecamente autoritário.
Radical, pois se propõe a promover mudanças bruscas na sociedade e no sistema político, o que passa pela reversão de alguns direitos estabelecidos e por reformas institucionais aceleradas. Autoritário, pois – apesar de se valer da via eleitoral para chegar ao poder – despreza a democracia liberal, com seu pluralismo, ênfase na defesa de minorias e debate público como instrumento na busca por consensos.
O bolsonarismo pretende reformular o equilíbrio de forças entre os Poderes da República em prol do fortalecimento da figura do presidente, enfraquecendo freios e contrapesos; militarizar o Estado; aparelhar politicamente tribunais, polícias, órgãos de fiscalização, instituições científicas, estruturas de inteligência e a diplomacia; e manter uma mobilização popular permanente para legitimar o poder presidencial, de forma a ter respaldo para condicionar o respeito às eleições ao resultado esperado.
Tudo isso foi tentado no governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Os exemplos serão detalhados mais à frente, mas antes vale mencionar alguns sinais recentes emitidos por Flávio e por protagonistas do seu grupo político de que esse projeto autoritário será mantido caso ele vença a eleição. No dia 6 de outubro, o candidato afirmou que, com a maioria no Senado e na Câmara dos Deputados, poderá mudar a Constituição. A expressão assusta porque esse foi o mecanismo utilizado por líderes autoritários como Hugo Chávez, da Venezuela, Vladimir Putin, da Rússia, e Recep Erdogan, da Turquia, para se perpetuar no cargo e concentrar poder.
Posteriormente, Flávio Bolsonaro disse que se referia apenas a mudanças pontuais, por meio de emendas constitucionais, para coibir abusos do Judiciário, reduzir a maioridade penal, aperfeiçoar a reforma tributária e instituir o fim da reeleição. Mas a motivação autoritária transparece no seguinte argumento apresentado pelo candidato: “Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena? Não”.
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Política
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A frase de Flávio embute um falso dilema: ou se aceita que o Brasil não é plenamente democrático e se apoia as mudanças pretendidas por ele, ou se defende o sistema atual e seus abusos. Trata-se, portanto, de deslegitimar a ordem existente para reivindicar autorização para remodelá-la. É evidente que o Brasil não desfruta de uma democracia perfeita. No ranking da revista britânica The Economist, o País está na categoria de democracias falhas, ou seja, que possuem deficiências institucionais – da mesma forma que, vejam só, os Estados Unidos. É preciso aprimorar o funcionamento das instituições brasileiras, não usar seus defeitos como desculpa para corroer o Estado democrático de Direito.
Flávio disse também que vai receber a faixa presidencial de seu pai, que está em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Isso significaria excluir o atual presidente da cerimônia de posse, o que por si só já seria um ato autoritário (ainda que se possa supor que Lula nem queira estar presente, afinal Bolsonaro já lhe fez essa desfeita em 2023). Pressupõe, também, uma manobra apressadíssima para tirar Jair da prisão por meio da assinatura de um indulto presidencial. Mas o mais importante é saber o papel que ele desempenhará durante um eventual governo do filho. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que Jair terá um cargo. Flávio desmentiu, mas afirmou que ouvirá o pai, sempre. “Ele será eternamente meu professor.”
O que Jair Bolsonaro tem a ensinar? Os seus quatro anos no Palácio do Planalto não deixam dúvidas. Tentativas de interferência política na Polícia Federal, desrespeito à autonomia de governadores e prefeitos durante a pandemia, participação em protestos que pediam intervenção militar contra o Congresso Nacional e o STF, criação de uma máquina de desinformação atrelada ao Executivo, campanha de deslegitimação e intimidação da imprensa, revisionismo histórico sobre o golpe de 1964, ataques à autonomia universitária, “mordaça administrativa” para calar vozes dissidentes no serviço público, esvaziamento de órgãos de fiscalização ambiental, tentativa de manipulação de dados ambientais, politização das Forças Armadas, fake news sobre o processo eleitoral, enfraquecimento de leis anticorrupção (como a de Improbidade Administrativa), declarações homofóbicas, incentivo à violência política e incitação à desobediência a decisões de outras autoridades. Eis um pequeno apanhado das atitudes autoritárias do governo Bolsonaro.
Se ainda restam dúvidas de que esse projeto foi mantido, basta lembrar que o governo estrangeiro mais admirado pela família Bolsonaro é o do presidente americano Donald Trump, que transformou o combate à imigração ilegal em uma política de truculência institucionalizada e arbitrária. No episódio mais recente, um agente do ICE, a polícia anti-imigração, baleou um homem desarmado na frente do filho de 5 anos de idade. Trump também vem atuando para concentrar poder, enfraquecer a independência de agências estatais, cercear a imprensa e punir adversários políticos.
Por que, apesar de tudo isso, o autoritarismo intrínseco do bolsonarismo não assusta os eleitores, a ponto de Flávio Bolsonaro ser alçado à condição de favorito nessas eleições? Para uma parcela do núcleo “duro” de seus apoiadores, essa é uma característica desejada. Não é debatendo ideias que se vai alcançar o que eles pretendem, mas, sim, impondo-as. Uma entrevista de Lucas Pavanato (PL), o deputado federal mais votado da história de São Paulo, a uma rádio, na última semana, é reveladora sobre essa mentalidade. Primeiro, ele defendeu genericamente a “democracia”. Em seguida, ao ser perguntado se dialogaria com adversários do PT, ele afirmou que jamais faria isso. Ora, a política legítima é feita por meio do diálogo com quem pensa diferente. Sem isso, o que se tem é totalitarismo. Para o grupo de eleitores que se encanta com o discurso de Pavanato (ou que não o percebe como problemático), o autoritarismo é uma característica desejada ou um mal menor do que o perigo atribuído ao adversário. Nesse caso, a escolha não é entre democracia e autoritarismo, mas entre o PT e qualquer alternativa a ele.
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E quanto a quem não pertence ao núcleo mais fiel do bolsonarismo, por que o autoritarismo não assusta? Uma hipótese é que o eleitor está preocupado com os problemas do dia a dia. O presidente Lula, em seu terceiro mandato, não entregou as soluções que esse eleitor esperava na segurança pública, no preço dos alimentos, no endividamento e na perspectiva de progredir financeiramente. Nesse contexto, a democracia é um bem abstrato e menos urgente. Esse é o voto de punição a Lula.
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Outra hipótese é que os brasileiros dão de barato que sempre vai existir a possibilidade de alternância de poder. Aceita-se dar uma chance a Flávio – uma nova chance ao bolsonarismo – porque se confia que, caso ele não faça um bom governo, poderá ser retirado do cargo na próxima eleição. Como as instituições sobreviveram a Jair Bolsonaro, poderiam sobreviver ao filho supostamente mais moderado. Esse é o voto da complacência.
O êxito pregresso dos freios democráticos enfraquece a percepção de risco no futuro. A possibilidade de trocar de presidente a cada quatro anos, porém, não é uma lei da natureza. É preciso lutar constantemente pela manutenção desse direito.
Sr. Newton
o artigo está fora de enquadramento..
é a correria da escala 7×0….
aquele abraço