
O deboche de Flávio representa risco para a democracia
Míriam Leitão
O Globo
A frase de Flávio Bolsonaro parecia ter sido treinada na preparação do candidato e não um chiste que saiu no calor do debate. Era isso mesmo que ele queria dizer. Quando falou dos nove dedos do presidente Lula, a plateia que ele levou ao debate riu. O candidato queria humilhar Lula, mas, na verdade, revelou quem é e no que acredita.
É a exaltação da cultura que machuca quem tem alguma limitação física, que exalta apenas os fortes, os definidos como “normais”. A cultura que exclui e espalha cicatrizes em crianças tratadas com desprezo nas escolas, por qualquer diferença que tenha em relação ao padrão dominante. A perversidade que fere milhões e que precisou de uma palavra em inglês para ser definida. É o “bullying”.
MUTILAÇÕES – Os nove dedos não definem Lula. Lembram que, sem a proteção das leis e dos equipamentos adequados, o mundo do trabalho produz mutilações. O que define Lula é sua trajetória vitoriosa, da pobreza à presidência. Mas a fala de Flávio Bolsonaro esta, sim, o define.
Em novembro de 2015, durante campanha eleitoral, na Carolina do Sul, o presidente Donald Trump debochou do jornalista Serge Kovaleski, imitando seus movimentos afetados por uma condição congênita que atinge as articulações. Parecem fatos diferentes, mas têm a mesma matriz, o desprezo pelo outro e a arrogância dos que se sentem superiores por achar que não têm limitações. Isso não é aceitável. Isso não é cristão.
O candidato Flávio Bolsonaro está a um passo da presidência. Se ele vencer, com que valores governará? Em outro momento revelador, ele chamou Cristiane de Ana Clara. Ana Clara é a menina morta. Cristiane, a mãe que estava ali na plateia. As mortes de inocentes por policiais que entram atirando nas periferias são uma chaga nacional.
DESCASO – Flávio tem tido sucesso na defesa do policial acusado de ter atirado. “Ele conseguiu anular duas vezes o júri só este ano”, contou Cristiane. O que revela essa troca de nomes é que ele sequer leu com atenção a causa que defendeu, do contrário saberia o nome da vítima. O ex-presidente Jair Bolsonaro defendia o excludente de ilicitude. Os policiais que cometem crime nem responderiam pelos seus atos, se isso tivesse sido aprovado. Não é, portanto, uma falha, uma simples troca de nomes, é uma escolha já feita pelo grupo político ao qual Flávio pertence.
Se olharmos a economia, e se formos tomar como verdade o que os candidatos prometeram, nenhum dos dois está olhando com seriedade a necessidade de equilíbrio nas contas públicas. A cada promessa ou ato de Lula, o candidato Flávio Bolsonaro diz que fará o mesmo e vai até além. A confiança que os operadores do mercado financeiro depositam em Flávio está baseada no que ouviram dele e de seus assessores. É uma candidatura de duas falas na área econômica. Uma a portas fechadas, outra para os eleitores.
O equilíbrio das contas públicas não é um capricho do mercado, uma ortodoxia dos economistas. É a base de uma economia saudável, indispensável para uma política social de inclusão e de combate às desigualdades. Vimos a hiperinflação. Ela empobrecia os pobres e engordava a remuneração das aplicações financeiras. A estabilidade é o único ambiente saudável para qualquer economia. E foi conquista da democracia.
“SAGA BRASILEIRA” – Todo o projeto de inclusão que veio depois é tributário dessa escolha do país de trazer a inflação de 5.000% ao ano para 5%. Num livro que escrevi eu chamei de “saga brasileira” essa travessia atrás de uma moeda estável. E defini assim porque vi como foram intensas as batalhas que nos trouxeram a uma inflação controlada. Portanto, não é possível ser descuidado com esse legado.
Mas o que realmente rondou o país durante toda essa campanha eleitoral foi o risco da perda de um bem muito maior: a democracia. Seria preciso ignorar a história recentíssima do país para achar que esse perigo não existe. Seria preciso esquecer também a história mais antiga que marcou a minha geração. Num 25 de outubro, no II Exército, morreu sob tortura Vladimir Herzog.
Seria preciso não lembrar o alerta de Ulysses: “conhecemos o caminho maldito”. A democracia sempre foi e sempre será o mais vulnerável dos regimes porque está aberta a todos, até aos seus inimigos. Mas ela não se esgota no ato de votar. A democracia inclui e acolhe. Ela aponta numa única direção: o respeito a todas as pessoas, independentemente das muitas diferenças. Esse é o seu marco civilizatório.
PESQUISAS INDICAM VITÓRIA DE RACHADINHA, ‘PREPOSTO’ DO EX-MITO.