
PT poderá explorar os vídeos da ex-primeira-dama
Guilherme Caetano
O Globo
Integrantes da pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República avaliam que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro produziu “material de campanha” para o PT ao divulgar um vídeo criticando o enteado. Aliados de Flávio agora defendem que ele vai precisar dobrar os esforços para se conectar ao eleitorado feminino, o que já era visto como urgente, dada à resistência do público à imagem de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Na noite da última quarta-feira, 24, pouco antes do jogo da seleção brasileira contra a Escócia na Copa do Mundo da Fifa, Michelle publicou dois vídeos, que somam juntos quase 30 minutos e atingiam 12 milhões de visualizações nesta manhã, em que expôs um racha entre ela e Flávio, a partir de um episódio ocorrido em dezembro.
FORA DAS DECISÕES – “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, afirmou a ex-primeira-dama.
O motivo do telefonema teria sido uma divergência entre ambos a respeito da montagem de chapas no Ceará: enquanto uma ala do PL defendia subir no palanque de Ciro Gomes (PSDB) para ajudar a tirar o PT do poder, a ex-primeira-dama queria o apoio de seu partido à candidatura do senador Eduardo Girão (Novo). Michelle também criticou a tentativa de rivar sua aliada, a vereadora e vice-presidente nacional do PL Mulher, Priscila Costa, de uma das vagas ao Senado.
“Diante dessa humilhação, eu disse a ele que estava tudo bem. Entendi que ele não queria o meu apoio ou que este era insignificante. E então eu me recolhi. Fiquei na minha e assim permaneço”, disse em seguida.
BONS CORTES – O receio dentro da pré-campanha de Flávio é que o conteúdo feito por Michelle seja explorado por candidatos da esquerda até o fim das eleições. Uma das pessoas do núcleo da equipe diz que o estrago junto aos eleitorados feminino e evangélico “vai depender da esperteza do PT em aproveitar” o conteúdo eleitoralmente, e que “tem muitos cortes bons” para serem usados pelo PT contra Flávio.
Uma das preocupações é que recortes do vídeo sejam resgatados para rebater eventuais comportamentos machistas de candidatos do PL durante a campanha eleitoral. Aliados defendem que a crise seja transformada em oportunidade de comunicação. O senador, segundo eles, deveria dar uma guinada na pré-campanha em direção às mulheres da base socioeconômica.
DIANTEIRA – Na última pesquisa Datafolha, divulgada em junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia bem à frente de Flávio na disputa de um eventual segundo turno entre as mulheres: 52% a 37%. Trata-se do recorte com uma das mais amplas vantagens do petista sobre o rival.
Membros da pré-campanha de Flávio dizem ver com alívio que o monitoramento das redes sociais identificou um desgaste maior para Michelle do que para o presidenciável, e que o debate migrou do X (antigo Twitter), onde costumam ocorrer as discussões políticas, para o Instagram e outras mídias.
Eles dizem acreditar que o recuo de Michelle nesta quinta-feira, quando ela publicou uma mensagem temporária afirmando que “não tem raiva de ninguém” e que “vamos todos trabalhar juntos para derrotar o atual desgoverno”, veio da artilharia da militância de que ela passou a ser alvo desde a última noite.
TEOR FEMINISTA – Aliados de Flávio criticam o que consideram ser um “teor feminista” nos vídeos de Michelle, uma vez que ela questiona a razão de, na visão dela, as mulheres sempre serem as primeiras rifadas em articulações políticas em detrimento de outros homens candidatos. Para eles, a ex-primeira-dama acabou entrando na arena do combate à “misoginia”, bandeira considerada de esquerda e que incomoda muitos bolsonaristas.
Pouco depois da divulgação dos vídeos, Flávio comentou numa transmissão ao vivo que, em dia de jogo da seleção brasileira, “nada tiraria seu bom humor”. Horas depois, num longo texto, ele declarou ser casado há 16 anos, pai de duas meninas e que nunca havia desrespeitado, maltratado ou humilhado qualquer mulher na vida, ainda menos com a “esposa do próprio pai”.
“Em nenhum momento ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher, pelo cuidado com meu pai e por tudo o que representa para o Brasil”, escreveu.
MENSAGEM DA ESPOSA – Sua esposa, Fernanda Bolsonaro, que dificilmente participa das disputas políticas, também publicou uma mensagem sobre o episódio, em que chama Flávio de “um homem leve, respeitoso, carinhoso, restaurado e um pai dedicado às nossas duas filhas”.
“Tudo o que fazemos nasce do mesmo desejo: que elas cresçam em um Brasil onde possam viver com liberdade, segurança, valores e oportunidades para realizar seus sonhos. As pessoas podem discordar dos caminhos, mas eu nunca tive dúvidas sobre a sinceridade desse propósito”, escreveu Fernanda.
Sinceramente essa família cria situações difíceis para eles mesmo. O próprio Bolsonaro foi o responsável por muito do que aconteceu no seu governo pelo modo intempestivo de governar. Deu no que deu, agora essa turma vem dando munições para o molusco. Esses tipos de briga é para resolver dentro de casa.
Sabotagem, pra deixar eleitor totalmente desvairado!
Por que interessaria ao Boy de Mogi apoiar a Micheque, e não o Flávio, para presidente?
Porque teme que o Rachadinha, eleito, pode lhe tomar o partido. É isso.
Acorda, Brasil! Presta Atenção!
Além de ‘conhecê-la’ há mais tempo.
Foi só ‘mimimi’ da Michelle, ou ela quer mesmo assumir a vaga de Flávio?
Bolsonaristas e petistas se unem numa pergunta que não quer calar: Michelle está se insinuando na disputa presidencial, depois de avaliar o tamanho do estrago na campanha de Flávio, tanto pelo “Dark Horse” quanto pelas novas ameaças de Trump?
Ou seu vídeo contra Flávio foi só um “mimimi”, como diria o ex-mito?
O governo Barba comemora capacidade dos bolsonaristas de darem tiros nos próprios pés e os dois lados quebram a cabeça para saber de que lado o ex-mito está, se apoiou ou liberou o ataque de Michelle na internet e, afinal, quão grave está, neste momento, a velha crise familiar, que é também política e eleitoral.
Michelle conquistou um papel relevante na extrema direita e o que disse no vídeo, para quem quisesse ouvir, combina com a história e as posições do ex-mito e seus filhos nas questões de gênero – apesar do slogan “Deus, Pátria e Família”.
Ela disse que foi “apunhalada”, “maltratada”, “humilhada” e “desrespeitada” por Flávio e que seus irmãos “vieram juntos, de forma coordenada, com textos bem parecidos, o que pareceu combinado, premeditado”. E lamentou que “eles” a tratem como “idiota”, “que não entende nada de política”.
Como Lula teve uma vitória muito apertada em 2022, com 50,9% do total dos votos válidos, não é preciso ser um gênio em matemática, política ou qualquer coisa para reconhecer que o voto feminino fez diferença. As mulheres são em torno de 53% do eleitorado. Lula teve 54% e Bolsonaro, 46%, entre elas.
Além de ativa presidente do PL Mulher, Michelle tem influência entre os evangélicos, outro recorte poderoso nas eleições. O TSE não detalha votos por religião, mas, segundo institutos independentes, com base no cruzamento entre resultados e pesquisas de boca de urna, Bolsonaro chegou a 2/3 entre eles em 2022. Se dependesse só desse segmento, teria sido reeleito.
Flávio corre o risco de, sem Michelle, não apenas espantar novos votos femininos como, ainda, perder votos evangélicos. Ou seja: não ganhar o que não tem e ainda perder o que tem. Logo, ele precisa mais dela do que ela, dele e deveria refletir melhor antes de cutucar a onça com vara curta.
Chamado à razão pelos aliados, no meio do jogaço Brasil X Escócia, Flávio tentou se desculpar, mas não significa muito. Primeiro, porque não foi nada convincente. Segundo, porque ele já foi pego na mentira ao dizer que não tinha nada a ver com Vorcaro. Por fim, e principalmente, porque as acusações de Michele contra ele e seus irmãos fazem sentido.
Foi a mulher de Dudu Bananinha, Heloísa, que é psicóloga, quem disse num encontro de mulheres que “não há mulher insubmissa e livre” e defendeu “homem masculino, com testosterona”.
Faltou acrescentar: “e armado…” Ao depor na PF sobre manter a posse de uma pistola, apesar de condenado e preso, o ex-mito saiu-se com uma justificativa e tanto: “Eu tinha três mulheres em casa, não podia ficar desarmado.”???
Será que essa família admite o protagonismo de Michelle? E ela tem biografia, história e consistência para disputar a Presidência?
Cada um responda como quiser, mas o que realmente interessa é: quem i ex-mito considera melhor candidato e quem Lula teme mais como adversário.
O Estado de S. Paulo, Opinião, 25/06/2026 | 20h00 Por Eliane Cantanhêde