
Valdemar descarta debates de Flávio com ‘nanicos’
Rafael Moraes Moura
O Globo
Enquanto tenta costurar alianças e definir quem vai assumir o posto de vice na sua chapa, o candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, já tomou uma decisão sobre outro tema estratégico da disputa eleitoral: a ida nos debates presidenciais. O primeiro será o da TV Bandeirantes, em 23 de agosto.
O núcleo duro da campanha de Flávio decidiu que ele só vai aos debates em que a participação de Lula for confirmada. Se o presidente for, ele vai. Do contrário, nada feito. Isso coloca em xeque sua participação já no debate da Band — que estava previsto para o dia 16, mas foi remarcado para não coincidir com o lançamento da candidatura do petista, mas ainda assim ainda não tem a presença de Lula garantida.
PRESENÇAS AGUARDADAS – Mesmo assim, a Band aguarda a presença tanto de Flávio quanto de Lula, já que as duas campanhas participaram de reuniões preparatórias do debate e concordaram com as regras.
A decisão dos bolsonaristas levou em conta o fato de haver múltiplas candidaturas de direita na disputa do primeiro turno, num contexto em que todas as pesquisas mostram que o mais provável é haver segundo turno entre o filho 01 de Jair Bolsonaro e o presidente Lula.
“Alguém tem dúvida nesse Brasil de que no segundo turno vão estar o Flávio e o Lula? Então por que que você vai debater, sem querer tirar o valor do [Ronaldo] Caiado e do [Romeu] Zema, mas por que você vai debater com candidatos que têm 4%, 5%? Isso não faz sentido. O debate dele tem que ser com Lula e acabou”, disse o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
DIANTEIRA – Na última pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira (24), Lula desponta com 40% das intenções de voto e Flávio com 32% na simulação de primeiro turno. Já Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) aparecem bem atrás, com 4%, 3% e 3%, respectivamente.
“Não tem sentido um debate só para fazer os outros crescerem. O camarada que tem 4%, 5%, só pode crescer, não vai diminuir. Então não tem sentido debater com essa gente, sem querer desqualificar ninguém. O Caiado e o Zema são homens de valor, os outros candidatos eu não conheço. Mas não tem sentido você se sujeitar a isso. Não temos tempo para isso”, acrescenta Valdemar.
Os debates costumam exigir pelo menos um longo dia de preparação, com o candidato passando por media training com o objetivo de se organizar e treinar respostas para os questionamentos de adversários e jornalistas, além de gerar cortes para viralizar nas redes sociais.
INDECISOS – O time de Flávio também avaliou que não há neste pleito um candidato de perfil mais moderado, como Simone Tebet e Henrique Meirelles nas eleições presidenciais de 2022 e 2018, e que com Zema, Renan e Caiado vai ser difícil criar um diálogo que ajude a atrair o eleitor indeciso para a candidatura do PL.
“Flávio vai ficar dialogando com quem não é adversário dele? Por que vai se expor para nanico? Está todo mundo querendo lambiscar voto dele”, afirma outro integrante do núcleo duro da campanha do PL, na mesma linha do raciocínio de Valdemar. “O adversário do Flávio é outro. Ele só iria [para o debate] se Lula fosse. O contraponto do Flávio é com o Lula”, acrescentou.
Um recorte da última pesquisa Genial/Quaest, feito a pedido da equipe da coluna, mostra que os indecisos são principalmente mulheres, moram na região Sudeste, professam a religião católica, têm renda entre dois e cinco salários mínimos e se definem como independentes, sem alinhamento automático nem à esquerda nem à direita. Desses, 66% são mulheres, ante 34% de homens — ou seja, de cada três eleitores indecisos no país, dois são mulheres e um é homem.
CONFRONTO AO VIVO – Embora ninguém admita publicamente, há também o temor de que o candidato do PL não tenha um bom desempenho no confronto direto, ao vivo, com os adversários.
Em 2016, durante um debate da Band com candidatos à prefeitura do Rio, Flávio passou mal durante o segundo bloco, ameaçou cair e acabou amparado pelos candidatos Jandira Feghali (PCdoB) e Carlos Roberto Osorio (PSDB). O pai de Flávio, Jair Bolsonaro, acompanhou a cena e impediu Jandira de socorrer o filho. “Tranquilo zero um. Paga umas flexões aí”, disse Jair Bolsonaro na ocasião.
Depois, ao participar de um debate na RedeTV!, Flávio disse que “só de não ter passado mal, é uma evolução”. Mesmo assim, no entorno do presidenciável do PL há quem discorde da decisão de campanha e defenda a exposição pública do filho de Bolsonaro. “Flávio tem que explicar muita coisa, tem que construir uma imagem”, afirmou um aliado do senador.
RACHADINHAS – É uma referência a temas que devem ser explorados pela campanha de Lula, como as investigações do caso Banco Master e de um esquema de rachadinha no gabinete de Flávio na época em que atuou como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Na campanha eleitoral de 2022, Flávio defendeu a ida do pai aos debates. “Ele é sabatinado todo dia, não sei. Quem decide é ele. Ele não definiu ainda. Mas sou favorável que ele vá ao debate. Uma coisa é o que eu acho. Quem vai avaliar se é positivo ou não é ele”, disse.
Dos dois, não se sabe qual é o pior salafrário.
Barba falou merda na hora errada mais uma vez
“Na sexta-feira, ao visitar a Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), empresa responsável por desenvolver sistemas de defesas espaciais, Lula disse que o Brasil precisa investir mais nas Forças Armadas e na defesa nacional como um todo, porque “há loucos pelo mundo querendo fazer guerra”.
Em seguida, tratou da Guerra do Paraguai, ocorrida entre 1864 a 1870:
— E a gente não pode se esquecer que, embora a gente só gosta de paz, a gente seja de paz, a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu Uruguai, ao mesmo tempo invadiu Argentina.
E aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos — afirmou.”
O tamanho do imbróglio que Barba causou com as asneiras que falou:
O Paraguai reagiu com forte repúdio institucional e convocação diplomática, destacando a rejeição do Congresso e exigências de reparação histórica por parte de autoridades do país.
O governo do Paraguai convocou o embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, para prestar esclarecimentos e entregar uma nota formal de protesto.
O Poder Legislativo paraguaio emitiu uma declaração oficial afirmando que a fala de Lula distorce e minimiza a dimensão histórica da Guerra da Tríplice Aliança.
O chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, declarou publicamente que a dignidade do país não é negociável e que o tema foi tratado ao mais alto nível diplomático.
O presidente da Câmara dos Deputados, Raúl Latorre, acusou o presidente brasileiro de tratar com leviandade a maior tragédia da história paraguaia.
O vice-presidente Pedro Alliana cobrou um gesto de fraternidade do Brasil, exigindo a devolução de relíquias de guerra, como o histórico canhão El Cristiano.
O que fazer agora diante do imbróglio com o Paraguai?
Pedir desculpas, alegando que Barba tomou uns gorós a mais e não sabia o que fazia?
E esperar que eles matem essa retratação no peito, assim como o zagueiro paraguaio Gustavo Gómez faz pelo Palmeiras.
Antes de falar besteiras que falou, Barba devia saber que:
O Paraguai tem exatamente 50% de direito e posse da energia e da administração da Itaipu Binacional, dividindo a propriedade de forma igualitária com o Brasil.
O Tratado de Itaipu estabelece que 50% da energia gerada pelas 20 turbinas pertence ao Paraguai e 50% pertence ao Brasil.
O Paraguai consome atualmente cerca de 30% da produção total da usina para abastecer seu território e vende o restante do excedente de sua cota para o Brasil.
A gestão da hidrelétrica é 100% binacional, com diretores e conselheiros dos dois países em igualdade de condições.
Lula pisou em terreno minado ao falar da Guerra do Paraguai
O Paraguai se enxerga como vítima de um massacre
A reação de Assunção às declarações lulistas era previsível. O presidente Santiago Peña telefonou a Lula, e o embaixador brasileiro, José Antônio Marcondes de Carvalho, foi convocado para receber uma nota oficial. Esse é um gesto formal de descontentamento.
O estresse diplomático ocorre durante as negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras e comerciais da energia produzida pela hidrelétrica.
A tarifa foi fixada em US$ 19,28 por quilowatt até 2026, mas continua pendente a definição das regras para a comercialização do excedente paraguaio.
Cada país tem direito a 50% da energia, e o Paraguai cede ao Brasil a parcela que não consome.
Assunção quer negociar essa energia no mercado e obter uma remuneração maior. Itaipu é estratégica para o sistema elétrico brasileiro.
A relação já havia sido agastada pela revelação de que a Agência Brasileira de Inteligência teria invadido sistemas do governo paraguaio para obter informações sobre a posição de Assunção nas negociações, no governo Jair Bolsonaro e no início da atual administração.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, defende que o excedente energético seja utilizado para alimentar centros de dados e projetos de inteligência artificial das big techs, que seriam instalados no Paraguai.
A alternativa fortalece o poder de barganha de Assunção.
Fonte: Correio Braziliense, Nas Entrelinhas, 31/07/2026 – 07:05 Por Luiz Carlos Azedo